Quando Cazuza se foi, em julho de 1990, aos 32 anos, ficou no ar por semanas uma canção escrita por Paulo Coelho e gravada pelo cantor vitimado pela aids que vaticinava: “Alguém quando parte é porque outro alguém vai chegar”.

Foi o que vimos, de forma inescapável, praticamente ao mesmo tempo, na noite de terça-feira desta primeira semana de maio no Brasil. Alguém muito querido desse corte geral e difícil de definir sob o rótulo de povo brasileiro se foi para sempre: o ator e multi-instrumentista do espetáculo solo ou coletivo Paulo Gustavo.

Mas alguém igualmente amado dessa maneira inclassificável com que devotamos sentimentos a pessoas públicas chegou: a mais autêntica nordestino-paraibana de todas as telas, vencedora da edição de número 21 do Big Brother Brasil, Juliette Freire.

Em dois míseros parágrafos, este texto diante da sua pessoa tocou no nome de três das pessoas mais famosas do Brasil-povão em todos os tempos: Paulo Coelho, Paulo Gustavo e Juliette. Não é recomendável, de bom tom ou inteligente em colunas do tipo cultural fazer elogios ou mesmo reconhecimento a nenhuma das três. Não em geral.

Certo, com a partida abrupta Paulo Gustavo deixou na terra cá embaixo um halo ligeiramente diverso do que normalmente projetava quando entre nós. Era extremamente popular, o novo queridão da ex-classe C a esta altura já saudosa do lugar que ocupou ainda recentemente na história política, econômica e social do país.

Mas não digam que era matéria de relevo para a crônica cultural mais letrada porque definitivamente não era. Eu mesmo nunca apreciei sua forma de cinema, recordista em bilheteria ao ressoar expectativas de outro tipo de brasileiro. Como muitos que podem estar lendo este texto agora, eu preferia algo menos direto e estridente. Mas assisti a filmes e programas dele, sim, embora sem dar a importância que reservo para produtos mais significativos pra mim.

Também é certo que assistir – e muito menos comentar – um programa como o BBB não acrescenta credibilidade alguma a quem se aventura a fazer qualquer digressão sobre a paleta de opções culturais à disposição do leitor, do espectador, do ouvinte. Nem mesmo quando o programa em questão magnetiza um país inteiro – ou sobretudo neste caso.

Isso está mudando. Vai mudar. Certo segmento da inteligência oficial do país, ainda fora da academia, como estrelas do telejornalismo político, vem declarando sem pudor que assiste, torce, captura emoção diante do que nunca foi considerado como mais que uma lastimável experiência de exibicionismo gratuito e condenável.

No meu caso, tenho uma necessidade que não sei explicar de conexão com tudo ou grande parte do que faz a média do país se interligar. O livro do momento eu tenho curiosidade de ler, a música que faz todo mundo cantar quase sempre chega aos meus ouvidos e à minha boca, um programa de televisão aberta que faz as maiorias pararem diante dele naquele horário regular tem grande chance de ter a minha adesão impressionada e cheia de interrogações. A própria TV aberta em si eu não consigo ignorar, ainda que nos piores momentos.

Igualmente certo é lembrar o quanto o segmento literário jogou pedras em Paulo Coelho durante aqueles anos em que ele fazia sucesso em vendas e leitores interessados no que seus livros diziam. A academia – essa pobre academia que hoje luta de forma injustamente desigual contra um governo anticonhecimento que rejeita a ciência – cansou de passear pelas livrarias sem olhar nem de raspão para os títulos de Coelho nas vitrines principais. Pois eu li quase todos os livros do tal mago, apreciei cada um deles e tanto gostei que sou incapaz até de avaliar: quando leio um deles, e faz tempo que não o faço, mas nem por isso esqueci a sensação, experimento um tipo de fruição muito diverso do que sinto diante de qualquer outro tipo de texto. Algo sensorial que não tenho como descrever, mas do qual sei o bastante para afirmar que é como se abrisse um tipo de porta para um espaço especial onde a avaliação convencional de uma literatura não faz nenhum sentido. É outro papo, pra definir da forma menos elaborada possível – e que seja talvez a melhor forma de me aproximar ao máximo do que quero dizer.

Dois Paulos, uma Juliette e o Brasil no que parece ser o seu pior momento. Um mal estar que no entanto não impede que um país descubra uma nova paixão coletiva inesperada ou perceba a extensão de uma perda igualmente não prevista ou imaginada.

Trata-se aqui de uma morte e um nascimento, ambos extremamente simbólicos para além de literais, que parece nos dizer para não fazer pouco do que atinge tanta gente, para o bem ou para o mal. Seja a doença que com sua foice final devasta famílias e deixa incrédulo um povo diante do dirigente que ele em hora incerta elegeu ou a empatia da fama que emerge de um programa de televisão.

Que a canção de Paulo Coelho, Cartão Postal (já para o spotfy) gravada por Cazuza, um ícone dos seguidores – permitam usar a palavra agora tão “resignificada” – da audiência superior e requintada, na qual eu mesmo me incluo com ironia e tudo, funcione como trilha sonora involuntária dessa constatação sem pai nem mãe: os fenômenos de massa precisam ser reconhecidos, lidos e interpretados sem o ranço (olha o BBB empobrecendo de vez meu vocabulário) da restrição intelectual.

E por falar nisso, já me adianto: nada mais irritante do que usar essa palavra – intelectual – para desqualificar aquilo que não se conhece e que por isso se teme. Não é disso que se trata.

De Incidente em Antares ao Bem Amado, de Quincas Berro Dágua a Brás Cubas, a morte ronda. Gozando da vida, atirada como um espírito baiano inconformado. Ou com a frieza de uma metáfora gauchesca. Hisurta como num filme de Igmar Bergman, ou recoberta por camadas de pop-significados numa cena dirigida e montada por Jean-Luc Godard.

Neste primeiro quarto de século XXI, quando todas as profecias espalhavam no céu astral as promessas de um mundo alternativo jamais visto, quem veio nos fazer companhia foi ela, com todas as variadas vestimentas que sabe tão bem usar.

A morte que está em cartaz aí fora e não cede a primazia da cena pra ninguém é assim: um féretro político que parece impossível deter, como um ex-ministro passeando sem máscara num shopping center de uma cidade em luto; uma missa de corpo presente pra uma economia anêmica ao ponto de sucumbir; uma última cena cultural em que a gente nem consegue conceber como sobrevive tanta gente que enchia salas e ginásios, teatros e espaços, galerias e exposições; uma arena esportiva ocupada por jogadores que passam o vírus de um para o outro como quem realiza um toque de bola genial.

A neomorte planetária que faz uma festinha a mais em lugares onde é recebida com honra por chefes de estado chegados a uma necrofilia vai assim sepultando tudo, abaixando cortinas, separando almas, extinguindo possibilidades, inviabilizando vidas.

E se o amigo leitor acha que estou sendo vago demais, tenho um caso bem concreto à guisa de ilustração. Um conto triste que nem precisa do agente coronavírus para soar mais dramático, ou de qualquer promoção tipo “CPF cancelado” para render uma derradeira promessa de voto a um candidato chancelado pela palavra “fim”.

Meu conto de morte ocorre numa cidade do Seridó, numa rua que é quase uma vila, semibeco sem saída, protegido da zoada do mundo por um conjunto de pedras que o casario bem que tentou, mas nunca conseguiu dinamitar. As casas foram sendo feitas de um jeito ou de outro, coladas, subindo a pedra como dava e o que restou foi essa quase vila que nos serve de cenário desvalido.

Lá mora minha personagem, uma senhora já de idade, mas não tão velha assim. A morte lhe levou o velho pai, esse sim digno do adjetivo. Um pai seridoense como tantos brasileiros que tinha uma rendinha muito significativa da morte e vida severina que, apesar de tudo segue caracterizando, este país chamado Brasil.

O pai se foi, não de Covid, embora pudesse ter sido. Mas se foi, cumprindo a sina imortalizada num quase verso de Ariano Suassuna, quem sabe apenas de velhice mesmo, talvez, para encontrar a Compadecida que espera defuntos como ele. Acontece que com este pai velho foi-se também a pequena aposentadoria que sustentava essa filha. Tinha sim, essa filha, uma fonte de renda mínima, umas vendas que fazia, não sei se de confeitos, paninhos, broas ou bolachas – essas mercadorias inacreditáveis com que muita gente pobre consegue o básico em moeda para se manter um dia de cada vez.

Com a pandemia, o negócio teve o mesmo destino do pai. Com duas morte assim, mudou a vida dessa filha já idosa, mas ainda disposta ao trabalho que também ficou escasso e difícil, ainda mais numa cidade pequena. A vida se subtraiu, não em termos de possibilidades, planos, disposição. Em termos de comida mesmo.

Quem conhece o interior do Brasil, especialmente do Nordeste, sabe medir o impacto que o mínimo serviço de distribuição de renda via recursos previdenciários tem numa comunidade. O quanto aquele dinheiro move outros dinheiros, gerando uma cadeia que, se devidamente acionada e mantida, resulta numa economia à parte.

Essa é mais uma morte que se sobrepõe e se completa com todas as outras que neste momento ocorrem simultaneamente neste Brasil que não consegue fazer nem uma pausa pra respirar – se respirar for possível.

As estatísticas mostram que de 2019 para cá aumentou de 11 para 16 por cento o percentual de pessoas que estavam na antes esperançosa classe C e agora retornaram para os escaninhos D e E da pirâmide de renda e condições de vida. Eram 24 milhões de pessoas na pobreza extrema, vivendo com menos de R$ 246 por mês. Agora, são 35 milhões. Os dados são dos estatísticos da Fundação Getúlio Vargas.

Na realidade de uma cidade no sertão potiguar, uma aposentadoria suprimida por um “CPF cancelado” – essa expressão que entre tantas outras igualmente infelizes diz muito sobre o tempo que vivemos – é o passaporte certo para transferir a contragosto quem viaja em um vagão estofado para outro com bancos de madeira crua.

Ao ver o pai morrer e sua renda principal ir embora quando ela própria não se encontra mais nem um pouco na infância da vida, nossa personagem desse conto triste como que comprou essa passagem para o trem da fome. Ela tem se mantido com a ajuda dos amigos que numa cidade pequena do interior sempre serão minimamente solidários.

Como a história não pára – e nunca deixa, ao contrário do que escapa a tanta gente, de interferir tão diretamente assim na vida de cada um longe dos palácios governamentais – ela há de ver outros dias, se não melhores, ao menos diferentes, com alguma estação à frente onde possa descer do trem da miséria inesperada.

Mas o antiespetáculo de um trem que anda para trás, como se fôssemos antes mesmo da pandemia um país que pudesse se dar ao luxo de tal feito, já está em dolorosa exibição em todos os auditórios devidamente fechados para não piorar o quadro ainda mais. Nossa promessa de futuro nunca soou tão amarga. Nosso niilismo juvenil dos anos 80 jamais seria capaz de prever tal desastre. Nossa pesada cortina de desigualdade, colonialismo e exclusão já parecia bastar para a sina de um lugar errático desde a primeira hora.

E no entanto, não. A fome primordial, aquela contra a qual lutou Betinho com o que parecia ser um projeto tão ingênuo quanto inexequível, está aí de volta. Esquálida, completa, incômoda com um barraco de lona num canteiro central de capital. Não há ficção capaz de conter tal país. Nem o engajamento de Jorge Amado, nem as ironias de Machado de Assis, nem as alegorias de Érico Veríssimo conseguem dizer ao certo, ao todo, quem somos e no que nos transformamos.

O trem da fome segue despejando passageiros em estações cada vez mais ermas e sem recursos a dezesseis por hora, velocidade altíssima quando se trata de medir a quilometragem de nossa tragédia social.


CRÉDITO DA FOTO: Tiago Henrique

Giancaldo fica bem distante de Império. Milhas e milhas e milhas. Não só no espaço, mas também no tempo. Estive nessas duas cidades e é bem possível que vocês que me leem também tenham passado por suas ruas – desertas e abandonadas num caso, pobres mas vibrantes no outro.

Giancaldo é uma cidade siciliana e quando lá estive, ou quando lá retorno, o que acontece sempre, posso estar nos anos 50 sob os efeitos da guerra encerrada em 45 ou no final dos anos 80. Império é um lugar que já foi rico, produtivo, abastado, modelo capitalista em algum ponto dos Estados Unidos. Mas quando lá estive, nesse fim de semana, encontrava-se largada por tudo e por todos desde que seu principal motivo de existir, uma fábrica de alguma coisa essencial, alguma matéria industrial vital para o país, perdeu a importância e foi fechada.

Não pego avião, navio, nave espacial, teletransporte ou qualquer outro meio de deslocamento desse tipo para estar nessas duas cidades. Minha passagem para ambas é uma sala de cinema ou um aparelho de blue-ray. A tela se ilumina e eis Giancaldo mais uma vez à minha frente. As luzes da sala de exibição se apagam e surgem a penumbra gelada do que restou de Império.

Na primeira, descer desse trem imaginário significa viver mais uma vez as aventuras de Totó e Alfredo, num dos melodramas mais completos que você poderia esperar de um cinema melodramático por natureza, o italiano. Na segunda cidade, parece que quase não há chão a pisar, como se a própria base física do lugar tivesse se exterminado ao mesmo tempo em que linhas de produção e sobretudo empregos desapareceram quando um sistema inteiro deu aquele piscar de olhos que delimita o fim de uma era de prosperidade e o início de tempos de absoluta decadência.

Vou para Giancaldo sempre que revejo Cinema Paradiso, filme de Giuseppe Tornatore, de 1988. Estive em Império a partir do momento em que entrei numa sala de exibição para assistir a Nomadland, concorrente ao Oscar 2021 dirigido por Chloé Zao com a sempre produtiva Frances McDormand.

Nomadland
Cena de Nomadland

Entre ambas, distantes no tempo e no espaço, descubro um outro paralelo que, contrariando a natureza dos paralelos, resulta em uma improvável união. Explico: se Cinema Paradiso é pra mim – e para muitos – um caso perfeito a evocar a natureza de deslumbramento que a sétima arte representa, Nomadland é o seu oposto. E no entanto, ambos são cinema: forte, expressivo, marcante.

Não importa se um é puro encantamento banhado com lágrimas e pra comprovar isso eu só preciso lembrar a cena final de Paradiso com aquela sequência de beijos vetados. Com também não importa se o outro é pura realidade sem disfarce ou camada de atenuante que o faça parecer menos incômodo, e para comprovar basta lembrar as cenas só aparentemente gratuitas em que McDormand exercita o mais primário dos atos humanos sem o qual é impossível permanecer vivo. Aqui temos McDormand defecando em cena de um filme que documenta o nomandismo econômico de populações empurradas do tabuleiro do mercado de trabalho convencional. Atores e não-atores da realidade social que mais parecem estampas desbotadas a ilustrar as fissuras de um capitalismo cruel.

Ali temos um cineasta consagrado retornando à cidade natal onde não pusera os pés por décadas apenas para renovar em si mesmo a qualidade mágica do cinema mais elementar, aquele que necessariamente trabalha com o encantamento de quem quer ir além do próprio povoado e para isso só conta com uma tela branca numa sala escura.

Paradiso é a mais bela e tocante ilustração do poder do cinema quando entra pelos olhos e causa aquele deslocamento definitivo na alma. Nomadland é o mais triste retrato a mostrar como este mesmo cinema, múltiplo, também se presta com poucas outras obras de arte a abrir os olhos e instalar no âmago de cada um a consciência de um mundo em desagregação. Uma nação dada por rica, primeiro mundo, mas onde se pode trabalhar uma vida inteira pra acabar com uma aposentadoria irrisória que não cobre nem mesmo o custo de um teto, um prato e um remédio no mesmo orçamento pessoal.

Há pobreza em ambos, sim, mas o grande cinema nunca é farisaico, insensível. Num caso, em Cinema Paradiso, nos imiscuímos numa comunidade sem recursos materiais e mesmo assim chegamos às raias do delírio – o paraíso perdido do clichê mais gasto. No outro, em Nomadland, apesar do poder comunitário que coliga e à sua maneira até renova os ejetados do sistema, contemplamos o incômodo mais perturbador – como se fora um filme de terror sem necessidade de monstros.

Um pêndulo invisível joga plateias atentas para lá e para cá ao ritmo do balanço de filmes como esses. E é possível rever Cinema Paradiso num dia e entrar numa sala que exibe Nomadland no outro. Sua cinemateca particular encontra lugar para todos – e sua humanidade se desdobra, seja na expansividade maravilhosa de um ou na concisão silenciosa e restritiva do outro.

Não há beleza em Nomadland: mesmo as paisagens que podem evocar algum enlevo a direção teve o cuidado de borrifar com uma camada de cor a menos, um borrão que descaracteriza. Não há um still de Cinema Paradiso, mesmo quando você já cansou de ver e rever o filme, ou sobretudo nessa situação, que não evoque na saturação de cor, na pigmentação viva das emoções, uma elevação audiovisual que deixa o espírito em festa. E mesmo tão diferentes, esses dois filmes podem estar tão próximos.

Amarguras diversas se comunicam, realidades sociológicas se deixam expressar, parábolas vagam na atmosfera que ambos projetam em torno do seu público.

Por isso a Giancaldo mediterrânea e sua girândola de fatos e pessoas pode estar tão perto, evocar por exemplo um Seridó arcaico a ponto de facilitar seu choro inevitável ao final da sessão. Assim como a dureza fria da Império norte-americana pode ser um vizinho incômodo prestes a se manifestar na desordem econômica que a própria pandemia aí fora veio colocar em questão de uma maneira jamais imaginada.

Em que planeta você vive? Que cidades passaram pela sua vida com o poder desses lugares que o cinema criou ou recriou à sua maneira? Sempre poderemos fugir para uma delas – ou tantas outras, como a Rimimi de Federico Fellini, ou a Porto Alegre remota de um velho episódio de Teixeirinha, permita – e lá identificar os encantos e as falências que nos cercam, nos aguardam, nos refestelam ou nos fazem chorar.

O cinema é esta cidade imaginária que nos serve de refúgio mas não nos deixa esquecer de todo o mal que por ventura tenha ficado além da bilheteria e das lindas salas de espera que nem existem mais.

Descobri que Guerra e Paz, o livro de Tolstói, virou moda neste período em que as pessoas conscientes reduziram a circulação social para ajudar a conter a Covid-19. Teve matéria na Folha de S. Paulo, com Fernanda Torres, com quem não simpatizo nem um bocadinho, contando sua experiência de ter lido o clássico.

O curioso é que, assim como ela, comecei a ler Guerra e Paz em um contexto completamente solto do atual. Peguei pra ler em dezembro do 2019, ao encontrar uma edição barata – quase de graça – no kindle. 1 real. Guerra e Paz a 1 real. Por que não? Lá me fui. Até eu descobrir que aquilo era uma edição condensada e em tradução para o português de Portugal levou um tempo.

Mas eu não queria encarar a tradução célebre no Brasil, publicada primeiro pela Coscac Naif, que fechou, e comprada e relançada depois pela Cia das Letras. Isso porque cheguei a pegar um exemplar numa biblioteca pública, levei pra casa e quem acabou lendo (isso acontece frequentemente) foi Rejane Medeiros, minha companheira de vida, antes de mim. E reclamou do excesso de trechos em francês. Mais tarde, nossa querida Ana Luiza Câmara, companheira de redações passadas, contaria que passou pelo mesmo problema. Ambas largaram o livro.*

Lembrei então de uma outra tradução, baratinha também, pela L&PM em livros que eles chamam “de bolso”. Vá lá. 4 volumes. Só que meio difíceis de achar todos na mesma livraria. Comprei o volume 2, que correspondia ao trecho em que me achava no falso-português do kindle. Foi como uma revelação. Num instante consegui distinguir as famílias, os agrupamentos, os conflitos e principalmente as ideias – porque Guerra e Paz é como um filme feito em vários formatos. É como Oliver Stone naquele filme sobre uma dupla de malfeitores pop-modernosos cujo nome me escapa. Ou como no JFK pra ficar no mesmo cineasta. De uma cena pra outra ele muda a fotografia, o enquadramento, a granulação, o uso ou não de cor.

Assim é Guerra e Paz: às vezes um romanção descarado (daí Fernanda Torres dizer que parece uma novela das oito, e em grande parte está certa), outras um ensaio sobre questões militares, daqui a pouco passa a ser um texto absolutamente questionador sobre a teoria da História, logo adiante pega um caminho algo místico elaborando toda uma filosofia sobre transcendência e moralidade e por aí vai. Isso às vezes assim de um capítulo para o outro (o formato geral é bem fragmentado, de capítulos curtos num livro longo), sem preparar o leitor com transição alguma.

E tem essa coragem a que a atriz também se refere de fazer de figuras histórias como Napoleão – talvez o principal personagem do livro – em figuras ficcionáveis com base no que Tolstói achava não só dele, mas do que pensavam sobre ele, erroneamente ainda segundo o autor.

Lá estava eu no emaranhado de famílias russas, festões em São Petersburgo, acampamentos militares mil e cercos infalíveis quando veio a pandemia. Foi como se sentir um inseto no falso conforto de uma fina teia de aranha que, quase invisível vista de perto, tornava-se um emaranhado do qual é impossível se desvencilhar quando se alcança um distanciamento mínimo para ter uma noção completa.

Isso aí que escrevi na frase anterior é Guerra e Paz – ou pelo menos foi Guerra e Paz pra mim. Rendi-me ao livro em quatro volumes como um quase desertor depois da última trincheira, misturando o fanatismo por Napoleão com nossa mais que primitiva atração brazuca por Bolsonero, o abandono de Moscou com o avanço da pandemia, as dúvidas adolescentes de Natasha com a lembrança também remota do drama da Anna Karenina, cujo primeiro volume eu havia lido décadas atrás (e a quem preciso, agora, reencontrar).

Só depois de não apenas ler Guerra e Paz, mas sobretudo o comentário final que a edição da L&PM traz entendi melhor todo aquele ensaio desesperado que Dostoievski compõe em Memórias do Subsolo, e que me deixou boquiaberto de perplexidade encantada anos atrás. Neste posfácio, Tolstói comenta que a literatura russa jamais vai se ater aos formatos consagrados do romance europeu, diz que aquilo que escreveu não é só uma narrativa, também não é só uma dissertação e por aí vai.

Eles já eram assim, eu é que não notava. E numa hora inesperada Rejane veio me dizer que o livro se tornara um dos mais procurados nas livrarias que entregam volumes em casa, segundo uma reportagem que ela leu no segundo caderno do Globo.

Foguetões soem na noite das letras. Em meio a tanta escuridão, há uma velha forma de luz sendo renovada. É pra comemorar em meio às trevas.


CRÉDITO DA FOTO: blog roendolivros.com.br

“Há pessoas tão vivas na vida que não parecem desaparecer quando morrem.” Quem escreveu esta frase foi Arthur Miller, o dramaturgo, autor de ‘A morte de um caixeiro viajante’, ‘As bruxas de Salem’ e outros clássicos do teatro ocidental.

A sentença está na sua autobiografia, ‘Uma vida’, publicada no Brasil em 1989 pela Editora Guanabara. O livro é um tijolaço com mancha de texto de saturar qualquer leitor inveterado em suas 557 páginas de densas memórias, profundas impressões sobre eventos que vão desde a Grande Depressão dos anos 30 até as barbas da Guerra do Vietnã e da contracultura.

Por esse mar de palavras escrito com a seriedade de quem se julgava uma plena testemunha do seu tempo – e muitas vezes protagonista de vários dos episódios que ficariam gravados na mente da humanidade – passa um cardume de celebridades, da era em que esta palavra gigantesca só era realmente aplicada a quem estava à altura dela.

Você esbarra em gente como Elia Kazan, o cineasta que veio do teatro, e Julius Robert Oppenheimer, o físico que liderou o projeto Manhattan, laboratório da bomba atômica que instalou uma cortina de pavor na sala onde habita o gênero humano.

E nem precisaria mencionar a principal personalidade que o livro obrigatoriamente acolhe, tenta decifrar, procura ajudar mas falha, como não poderia deixar de ser: Marilyn Monroe, com quem Miller manteve um casamento nem tão tumultuado quando se pode imaginar antes de começar a ler o primeiro parágrafo desta autobiografia.

Obviamente que já está claro pelo que digo aqui sobre este livro que aquela frase inicial – permitam relembrar: “há pessoas tão vivas na vida que parecem não desaparecer quando morrem” – é um pensamento de Arthur Miller após a morte de Marilyn.

Vou cometer uma heresia em favor da ideia que tento construir aqui, com a cumplicidade do leitor amigo; vou retirar a frase do contexto original, embora até o leitor não muito amigo seja capaz de concordar que ela certamente não se aplica somente a Marilyn Monroe. Vou aplicar a mesma frase a uma pessoa da atualidade, completamente distinta de alguém como a estrela de cinema, absolutamente estranha a uma mísera frase da autobiografia inteira de Arthur Miller. Mas o fato é que a conexão se fez, ao menos pra mim. E gostaria de dividir com vocês.

O que quero dizer é que a frase de Arthur Miller se aplica, neste momento, perfeitamente bem à figura do senador Major Olímpio. Ele mesmo. Calma. Não desista ainda. Eu chego lá. Há poucas semanas, estava eu trabalhando na redação da TV Câmara, em Brasília, quando chegou em todas as telas uma notícia infelizmente não de todo inesperada: o parlamentar, que vinha enfrentando a Covid-19 com dificuldades, num quadro clínico delicado, acabara de ter morte cerebral. Para aquela tarde estava prevista a vinda do presidente que o Brasil em má hora elegeu (elegeu mesmo, ainda que num processo viciado em várias frentes, mas este não é o assunto principal aqui) para entregar ao Congresso mais uma de suas tristes propostas. Até as cadeiras da redação adivinharam na hora que seria tudo cancelado. Os relatos que chegavam era de senadores em prantos.

Agora vamos ligar os pontos, enquanto o leitor, amigo ou não, ainda tem paciência comigo. O Major Olímpio, que antes de ser senador fora deputado e portanto uma pessoa do conhecimento de qualquer jornalista que trabalha no Legislativo em Brasília, era em si, sozinho, um representante de tudo aquilo de que quero distância em matéria de política, comportamento, posturas, opiniões. Mas era um autofalante poderoso, do tipo que grita sua posição mais alto pra prevalecer. Mesmo assim, naquele momento eu senti a morte do Major Olímpio como nunca esperava.

A minha geração viu a morte de Cazuza, chorou o desaparecimento de Renato Russo, lamentou o adeus de Cassia Eller, passou pelo drama quase absurdo de Tancredo Neves acreditando nele ou não, passou por todas essas despedidas com a dor evidente, natural, um sentimento decorrente da mais legítima das empatias – e me perdoem se cito mais figura da arena pop do que da política, mas é que aquela nos toca mais do que esta. Então por quê, eu me questionava, estava naquela tarde sentindo tanto o fato de o Major Olímpio ter sucumbido à força do vírus – sendo ele uma figura da bancada da bala, um apóstolo consolidado da direita populista, um ex-bolsonarista que mal havia cortado o cordão umbilical com a deformação política maior ao qual estivera associado ontem mesmo?

A comoção natural entre a parte da população que entende a dimensão da crise do vírus estava presente, claro. Mas não apenas isso. E é aqui que entra a frase de Arthur Miller: a vivacidade de uma pessoa não tem cor política, escaninho ideológico, procedência cultural. Dei-me conta de que, de fato, o Major Olímpio fora uma personalidade marcante, com seus brados com os quais estávamos acostumados (dizem colegas que, desligada a câmera, era uma ovelha mansa e cordial, não sei), sua fúria espetacular, seu bestial exagero que furava a frágil bolha da etiqueta política.

Continuo sem gostar do Major Olímpio como figura pública. A morte dele não modifica isso, tampouco legitima os semelhantes, não poucos, que ele deixou bem vivos aqui embaixo. Mas a morte dele tem ainda uma segunda camada de significados – poderá ter, o futuro dirá, permitam-me um adiantamento. O fato de alguém que esteve muito à beira do negacionismo ter caído pela Covid-19 não pode deixar de ser algo marcante.

Brigado com o presidente, Major Olímpio fez vídeo em favor da vacina e falou em defesa da ciência nos seus últimos dias. Mas também participou de atos contra o fechamento do comércio que rezam pela cartilha da negação ao distanciamento. Não poderia jamais dizer que mereceu – ninguém merece essa morte súbita, que lhe traga em poucos dias, às vezes horas, para uma asfixia num oceano seco de pavor e solidão final. Ninguém merece. A palavra merecimento aqui não faz sentido algum. O caso é outro.

Minha última aposta neste texto arriscado é dizer que a morte do Major Olímpio, por tudo o que ele representava, pode ser a consolidação deste meio estágio em que estamos politicamente, socialmente, culturalmente. Depois do tsunami extremista que varreu o país após a derrubada de Dilma e se instalou em todos os lugares onde o infeliz e impensado voto da população permitiu, estamos agora em outra maré. Quisera fôssemos pescadores tarimbados para saber medir com mais precisão. Estamos mais pra peixes que seguem a correnteza que passa com mais força. Mas é fato que há outras correntes na piscina cheia de ratos de onde tentamos desesperadamente sair. Essa água suja vai ser substituída e o processo já começou. A porção virulenta terá que ser despejada em algum momento – e águas novas virão. No meio da limpeza, agora, fica difícil ver com clareza. A morte do Major Olímpio, que fora um dos mais vociferantes comandantes desse barco, tem que significar algo mais. A deserção dele pode ser um espelho d’água de outra mudança de rumos muito maior, primeiro em uma baía, depois em um golfo, logo mais de um oceano inteiro.

Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que não nos faltam exemplos de mortes que, para além de reais, são absolutamente simbólicas. Agora mesmo tem alguém aí fora, peixe graúdo, que foi dado como morto. Ledo engano: está de volta ao convés, recoberto por uma nova camada de… significados, essa palavra abstrata que move o mundo da política e faz a humanidade oscilar para um lado ou outro conforme os ventos em volta. Estou me referindo a alguém a quem se pode tranquilamente associar aquela mesma frase de Arthur Miller: “há pessoas tão vivas na vida que não parecem desaparecer quando morrem”. Preciso citar nomes – ou nome?

Quase todo mundo que conheço tem uma marca de cerveja preferida. Ou pode ser de carro. Ou de roupa. Ou modelo de calçado. Tem gente que tem, mais que preferência, paixão por esses fetiches da vida cotidiana. Tem quem tenha quase adoração, semidependência.

Eu tenho uma história assim. Por algo que tanto pode ser simbólico quanto absolutamente tangível. Tenho uma queda irresistível por editoras. Que bonito é uma marca editorial, um jeito especial, cuidadoso e único de fazer livros. Que beleza é aquilo que já se chamou de “casa editoral”.

Se eu fosse rico e tivesse dinheiro pra queimar ao luar, fundaria – e manteria, com todo o prejuízo do mundo – umas cinco casas editoras, cada uma dedicada a um tipo de livro, uma preferência editorial, uma necessidade do público leitor, uma faixa de mercado. Seria doce ser capitalista desse jeito, bem diferente daqueles outros empresários da morte que aumentam os preços dos remédios para entubar pessoas no momento em que esses produtos mais são necessários.

Mas voltemos às casas editoras. Não as tenho, nunca as terei. A ilusão de selecionar autores, recolher e dar projeção a textos inéditos, a vaidade de republicar clássicos esquecidos, o prazer de gerar novas capas, modelos de paginação, séries originais é pura fantasia de leitor inveterado.

Nem por isso estou totalmente desvalido neste terreno. A meu favor, tenho um rico patrimônio acumulado. Você também tem, levando em conta que se dá ao trabalho de ler este tipo de texto. Com toda certeza tem. É podre de rico que nem eu. Vamos nos exibir, meu caro ou minha cara? A gente pode. Porque temos na memória uma fileira de casas editoras para jogar na cara dos caretas, ignorantes e outros pelotões da triste atualidade.

Minha primeira aquisição foram as editoras de livros didáticos. Ali pelos 11 anos entrei no ginásio e me vi dono de uma marca cobiçada – todos sabem que editoras de livros didáticos têm venda garantida, demanda certa, preços invejáveis. Tornei-me dono da editora Ática. Não sei se gostava mais do nome ou do tratamento editorial que ela davamaos livros, sobretudo os de português. Era um prazer estudar português naqueles livros. Os de geografia me faziam viajar pelo mundo – eu já era ricaço, lembre-se. Bastava olhar os mapas e as fotografias coloridas e a viagem estava garantida.

Pela mesma época, farejei um negócio infalível – dois, acabo de lembrar. Um chamava-se Edições de Ouro e nos dava um vasto cardápio de clássicos brasileiros ou de adaptações de verdadeiros pilares da literatura universal. Preciso dizer que entre os adaptadores estava, por exemplo, um Carlos Heitor Cony. Por aí o amigo ou amiga vê o quanto meu tino empresarial era imbatível.

As Edições de Ouro marcaram época e me abriram as portas do mercado de livros serializados. Para pré-adolescentes era tiro e queda, venda certa, ainda que difícil – pelo Correio, que a cidade não tinha livrarias. Pra citar um título, lembro da série “Os Seis”, sobre um grupo de meninos e meninas que investigava mistérios nas praias de Sepetiba, estado do Rio.

O outro negócio infalível a que me referi no parágrafo acima não tardou e se chamava Círculo do Livro. Era uma autêntica mina de dinheiro pros meus bolsos a republicação, em formato padronizado, de livros que já haviam sido testados nas editoras originais. Era um “plus” pros direitos autorais e pra ambas as editoras – mas, sobretudo, para o leitor do interior, aquele em condições similares à da canção “Livro”, de Caetano Veloso.

Vi-me jovem – e já nadando em dinheiro com o patrimônio memorialístico das editoras em franca formação. Os livros da moda – muitos, “o livro que deu origem ao filme tal” – vinham com o selo da Record que, claro, não explorava somente esses. Era a mais estabelecida editora brasileira do período e eu só preciso citar um autor do seu catálogo pra não me estender muito: Jorge Amado.

Consumi o máximo que pude, emprestado dos amigos ou de bibliotecas públicas ou escolares, o que fosse possível. Nunca esquecerei do dia em que meu pai chegou de Campina Grande trazendo meu muito esperado exemplar de “Tocaia Grande”, num dia qualquer do ano de 1983. Ou seria 84? Não importa, o que vale é o espírito daquele tempo e o fato de eu, numa cidade sem livrarias, ficar cada dia mais rico em patrimônio editoral.

Estudante universitário em Natal, investi tudo o que tinha numa novidade única, absolutamente renovadora, diria quase revolucionária. Na verdade, era bem antiga, mas a repaginada que um sócio meu chamado Caio Graco Prado lhe deu fez com que virasse a coqueluche do momento (perdão pelo “coqueluche do momento”, mas a expressão bem vem a calhar; e perdão por esta última também): editora Brasiliense.

Nunca mais eu tive o mesmo prazer em ser dono de um patrimônio editoral como tive com a Brasiliense. Com ela, acrescentei ao patrimônio séries de livros que até hoje soam pra-frente quando a gente lembra: Cantadas Literárias (publicou Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, o livro de uma geração); Encanto Radical (publicou a minibiografia Lennon, de Lúcia Villaes entre outros volumes de bolso); Primeiros Passos (O que é socialismo, capitalismo, arquitetura, poesia, cinema, comunicação e por aí vai); Circo de Letras (publicou “Mulheres”, de Charles Bukowski).

Depois da Brasiliense, tudo poderia se tornar um grande anticlímax. Mas veio não a superação – que aquele modelo de livros ninguém de fato nunca mais fez, aquela geração de leitores caiu nos braços das respeitáveis responsabilidades da vida adulta e é assim que a roda da vida gira. O que veio foi algo também muito marcante em termos de qualidade, profissionalismo mesmo. Veio a Companhia das Letras, que está aí, até parecendo algo rotineiro ao publicar sempre excelentes livros, autores, edições. Mas não podia ser vista dessa forma comum quando surgiu: era um sopro novo também, nos trazendo tijolos de história como “Rumo à Estação Finlândia”, de Edmund Wilson, ou o marco “Chega de Saudade”, de Ruy Castro.

No caso da Companhia das Letras é perda de tempo ficar citando livros e escritores – ela é tão presente, soube de inscrever de tal maneira no mercado de livros e se mantém tão atual que a lista não acabaria nunca. Pra mim segue sendo vital, espero que não feche nunca. Meu bolso bilionário agradece.

Mas é preciso – e aqui se explica a razão dessa confissão quase contábil, não fosse eu alguém que de fato ama os livros e não vive sem eles, sobretudo os da ficção mais livre – é preciso dizer que novas editoras seguem surgindo, sem deixar meu patrimônio parado. E foi uma delas, recentemente, durante as férias de janeiro-fevereiro deste 20-21 de transição tão complicada que me surpreendeu: Aleph.

A editora Aleph foi fundada, ora vejam, em 1984 – tempo em que a Brasiliense ainda soprava a poeira de mercado envelhecido. Mas parece nova. Pra mim, de fato, é. Comprei agora, não é? Vi muitas vezes por aí mas foi só ao surfar na onda dos booktubers que resolvi experimentar.

alephNunca fui muito atraído pela ficção científica. Sempre me cheirou a algo muito frio, quase metálico, sem humanidade. E eu fugia desse tipo de livro – como das editoras que os publicavam. Eu já era rico, tinha meu patrimônio certo, ia arriscar por quê? Concorda? Mas a garotada que fala de livros no YouTube me deixou curioso e eu finalmente comprei e li “Flores pra Algernon” (sublime, poético, fofo como diria a atual geração, a partir de uma premissa que faz você querer dormir com o livro sob o travesseiro; foi um dos livros que tive o prazer de ler quase ao mesmo tempo que meu filho de 13 anos).

Depois, peguei um autor que eu já conhecia, mas que nas edições da Aleph parece que foi descoberto ontem: Michael Crichton e seu “O Enigma de Andrômeda”. Thriller literário com uma pegada paracientífica extremamente bem formatada (você não precisa entender, e não entende, partes do livros que são compostas por documentos “oficiais” em linguagem cifrada, mas sem esses trechos destacados a atmosfera da leitura jamais seria a mesma).

Precisava de um terceiro pra consolidar minha nova paixão e arrematar a Aleph, colocando mais uma editora no meu nababesco patrimônio memorialístico. Futuquei prateleiras na livraria do Natal Shopping e muito indeciso acabei adquirindo “Sonhos Elétricos”, coletânea de contos de Philip K. Dick que eu, por sinal, nunca havia lido. Não preciso falar nada sobre “Blade Runner”, imagino. Vou pular essa parte por desnecessária. O fato retumbante, e que não posso nem devo pular, é que meu patrimônio se renovou e se enriqueceu e agora eu vou seguir adiante, com ficção científica ou não, com os rendimentos da Editora Aleph na minha conta bancária.

E veja que eu nem falei de outra que está nos meus planos (li apenas um livro deles) pra não causar muito furor nas bolsas de apostas futuras – ok, não resisto, é a Todavia, de quem li abobalhado “Sobre os ossos dos mortos”, de Olga Tokarczuk. “Torto Arado” já tenho aqui, sim, senhor, aguardando na fila.

Minha aposta empresarial é de que essas novas editoras e suas edições caprichadas – embora caras, admito, mas como bom empresário brasileiro tenho dificuldade de reduzir minha margem de lucro – estão salvando o mercado editoral da extinção pura e simples. Por mais que livrarias fechem, por menos que a grande maioria leia (com uma minoria gigantesca que lê por dois ou três e mantém as editoras abertas), por mais que o livro digital seja sempre um apelo, considero que essas edições de folhas de rosto, sobrecapas e manchas de textos, entre outros elementos, pensados e repensados para atrair e regalar o leitor, estão fazendo a diferença.

Voltei a ter vontade de colecionar livros, fisicamente, e penso que muita gente pode estar com esse sentimento. Então, o arremate dessa contabilidade livreira e literária é que, meu caro, minha cara, tenha olhos pra enxergar sua vasta riqueza. O cenário lá fora é de morte, a situação aqui dentro pede contenção e serenidade, a cena política exige qualquer coisa de explosivo, a arena da humanidade implora por uma virada de página que recoloque as bases nos seus lugares e avance o mínimo que seja e, com tudo isso, você tem toda razão em se sentir doente, abandonado, triste, angustiado e sobretudo pobre.

Pois é só mudar a perspectiva – e se você chegou até o final desse texto é do tipo que insiste e não se prende – e constatar a riqueza patrimonial que tem somente com base nos livros que ao longo da vida lhe deram deleite, encantamento, verdade e amplidão, assim como suas respectivas editoras sem os quais eles poderiam nem ter sido publicados. Dito isso, pode começar a mudar sua declaração anual ao imposto de renda.


CRÉDITO DA FOTO: Yu Lan

Não era a leveza do radinho FM, nem a rebeldia tipo zona sul, tampouco o colorido da tv pré-MTV ou o último refrão da banda mais recente a subir ao pódio do hit parade brazuca. A partir de mais ou menos 1983 uma energia diferente, renovada, consumista sim, mas não só isso, irresponsável, mas tomada por um sentimento de entrega que justifica todas as tomadas de posição, entrava em cena no meu, no seu rádio, aparelho de tevê, escada de prédio popular, elevador de burguês, calçada ou o que fosse. Entrava em cena o que você pode chamar de Geração 80, Brock, juvenília de butique, o que quiser, desde que reconheça uma contribuição que aquela gente, hoje um bando de cinquentões como eu e como você, estimulou ou recebeu, consagrou ou propagou, acendeu ou turbinou com certa liberdade que esse tempo sombrio de Covid, arma oficial no cinturão e ignorância bossal na cachola solapou: a coragem.

Falta coragem, e como falta, de uns tempos pra cá. O que fizemos com a nossa ousadia, nosso peito à prova de velhas ameaças, nossa até falta de senso de perigo? Penso nisso após assistir a meros 15 minutos do documentário no acervo do Netflix – será que nossa coragem foi chupada sem a gente perceber pela tela do Netflix? Mistério! – sobre o Barão Vermelho. Dé, Maurício, Frejat, Guto e Cazuza se jogando na vida. Cinco burgueses e um país precisando de uma chacoalhada. E eles foram apenas um dos agentes a fabricar as bases daquele novo país de então. Era como se houvesse uma faixa de sintonia fina pairando no ar, do Leblon a Neópolis, de Caicó a Pelotas. Um fio desencapado à espera da ignição feita por grupos com o Barão para conectar os novos habitantes pensantes de um país com tanto pra deixar para trás. Eu sei, havia uma colonização cultural sul maravilha, eram rapazes de vida fácil e dinheiro à mão, mas de algum lugar sempre tem de vir o sopro.

Décadas depois, o vento vinha de lugares menos privilegiados no arrastão do Rappa e assemelhados. Não é isso – era, de novo, a coragem. Eles levavam vantagem, meninos bem postos e mimados com espaço para gritar no microfone platinado? Sim, mas podiam ter se acomodado. Hoje, parece que é tudo acomodação – ok, não é, mas sem alguma generalidade não se faz uma leitura de nada, absolutamente nada. E o que se louva aqui é a falta que faz aquela visão, aquele grito, aquela luz que mesmo encharcada de álcool e drogas na embriaguês da liberdade há pouco admitida, despejava sobre tudo e todos o tamanho das nossas incertezas e da hipocrisia daquela gente sentada nas suas salas.

A engrenagem do tempo, aquele que nunca para, fez das suas e nos jogou hoje nesta realidade infelizmente muito mais forte da acomodação geral, no mínimo, ou da recusa da paixão e da humanidade pura e simples – e tudo isso vai além da política, meu irmão, que como eu chora as doces lágrimas de um tempo melhor, só isso, melhor.

Cadê a coragem que se instalou nas salas até então cheias de naftalina dos anos 80? Você vai me dizer que parte daqueles bravos guerreiros virou coveiro daquela mesma coragem ao se revelar ainda mais ultrajantes do que os antiprofetas do país fardado do pré-85. Verdade, mas não vendo pra eles meu desencanto – insisto na memória dos que ficaram pelo caminho esmagados pelos efeitos do vigor daquela mesma coragem. Teriam capitulado também os hoje mortos aos capitães do momento? Pra mim, jamais. Se esse pessoal aí fora já arruinou o país da esperança da minha geração não venha me pedir pra pichar a memória de quem me alimentou dessa fé profana, lírica, pop, juvenil e sem limites.

Eduardo pode ter virado um bolsonarista inspirado nos tempos em que jogava futebol de botão com seu avô, mas exclua Mônica dessa história. A adesão foi dominante, mas não completa. E esse jogo, reflito aqui enquanto entrego os pontos diante do documentário sobre o Barão, ainda não terminou. Nunca termina. Recomeça. Recua, fode-se onde parecia que iria triunfar, mas também sabe preparar seu momento. É nesta parte que entra a coragem.

A vida é bela, embora muitas vezes seja uma merda. Vem tudo junto. Só não precisavam exagerar tanto. Nem vacina tem mais. Ainda assim, Brasil, mostra tua coragem. Que a cara já conhecemos há tempos.

Quando a sirene tocava anunciando mais um horário de aula e era ela quem entrava na sala o colégio ficava maior, mais nobre, mais denso. Lá pelas tantas a gente sabia que ela faria o gesto que mais me ficou na memória, a pedagogia da unha.

Graça Macedo, minha pra sempre professora de português da sétima e oitava série que por estes dias a bruxa da Covid levou, era uma bruxa ao contrário: mais que bonita, bem cuidada; para além de séria, elegante; um passo depois do respeito, sabia instalar no ar um tipo raro de empatia.

E a unha, onde fica – alguém me pergunta. Era só um gesto, mas como dói lembrar.

Antes, algumas considerações. Mulheres como Graça operam este tipo de bruxaria que as fogueiras são incapazes de queimar, por falta de um oxigênio que só elas manipulam com tal majestade.

Graça Macedo se beneficiava, claro, do fato de ser professora numa época em que a profissão, para o bem ou para o mal, inspirava um tipo de reverência anterior a qualquer informalidade.

Gosto dos professores informais, mas não é disso que se trata. Graça, como diria um piadista dos dias de hoje, estava um patamar acima. Naturalmente. Sem esforço algum. Ela entrava no ambiente e este é que se deixava intimidar por ela – feliz e agradecido.

Com Graça vinham as complicadíssimas normas da mais elaborada – e sofrida, e desprezada, e maltratada – das línguas. Ela tinha o controle de todas as regras e a nós, enfileirados em carteiras adolescentes, cabia receber este manual, decifrá-lo ao ponto de torná-lo menos emaranhado, e gerenciar textos, provas, leituras, ciladas. O português que nos alimentou a mente como leite raro.

Graça era inflexível na administração dessa bebida sagrada, mas sabia dosá-la com as sobremesas da literatura em prosa ou verso. Aqui também era sábia – o tipo de inteligência que conhece a limitação do seu gado.

Não nos fez ler o clássico paulistano da senhora Leandro Dupré, Éramos Seis – o que seria até fácil dada à memória afetiva da novela que a tevê exibira há não muito tempo.

Teve a clareza de nos impingir o infantilizado A Ilha Perdida, da mesma autora, numa atitude entre paciente e lógica. Poucos leram. Eu fui um deles. Era fã, dos livros, mas sobretudo de Graça. Não dava pra decepcioná-la. O livro, pra sempre, virou um amuleto. Sempre que encontro uma edição, agarro-me a ela e não solto mais. Dei pra meus filhos. Instalei no meu altar imaginário.

Mas Graça também nos dava doses de Carlos Drummond de Andrade, trechos de livros, seletas paradidáticas que os volumes da editora Ática – outro fetiche – nos ofereciam.

Hoje em dia é difícil imaginar que houvesse estudantes espinhentos que não soubessem quem era Drummond, Bandeira ou… Milton Nascimento, cuja letra de Morro Velho (“No sertão da minha terra, fazenda é o camarada que ao chão se deu…”) também fazia parte do programas das aulas.

Graça era nosso google, nosso YouTube em carne, osso e encanto didático. E foi por meio dela que esse pessoal chegou aos que estavam interessados, porque Graça nunca forçava nada. O que Graça sempre fazia era frisar muito bem o que estava ensinando, claro, à maneira tradicional de um 1979, 1980, em Parelha, interior do RN, escola pública, poucos recursos e muito futuro disponível pra quem soubesse se aproximar com jeito da mesa do jantar das possibilidades.

E como frisava um ponto ou outro? Tocando com a unha pintada e bem cuidada a superfície do quadro verde, à guisa de régua ou qualquer outro instrumento. A unha elegante, rigorosa, impávida e superior (como poucas coisas sabem ser superior na medida justa e certa) extinguia dúvidas, apontava caminhos, abria veredas onde antes pululava a complexidade de orações sindéticas ou assindéticas, limpando a algaravia do conteúdo como se fora um tipo de laser que só Graça sabia produzir e gerenciar. O gesto me ficou e quase consigo ouvir o barulho da unha daquele indicador triscando na lousa.

Foi nossa “madeleine” escolar – e se duvidarem de mim perguntem pra Gisele, Leonoardo, Moisés, Aldir, Cida, Gilton, Antonio, qualquer um que tenha assistido àquelas aulas, presenciado aqueles rituais, comungado daquela quase religião onde Graça sabia como ninguém exercer o papel de sacerdotisa do magistério.

Cultura para todos pode ser um lema vazio. Se duvida, corra para a avenida Rio Branco, centro de Natal, e experimente entrar num dos vários sebos que se enfileiram naquela subida que vai dar nas antigas Pernambucanas, Banca Tio Patinhas, aquelas referências do que foi aquele mesmo centro décadas atrás.

Um após o outro, os sebos ali abertos parecem a mais irretocável representação da palavra decadência. Quando nada, porque atingem uma preciosidade que deveria livrar a todos nós deste mesmo fenômeno: a cultura.

Pense naquela cena do filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, rodado ali no Seridó. Um político boçal, pilantra e subletrado chega ao lugarejo e despeja, a propósito de se mostrar defensor da cultura, um caminhão de livros velhos, indistintos, literalmente desclassificados, como se fora um refugo de fim de feira, um lixo a ser reaproveitado, um leirão de ervas daninhas que, em lugar menos abandonado, só poderia causar mal às plantas decorativas em seus caros vasos.

No centro de Natal, avenida Rio Branco, subida rumo ao antigo Hotel Ducal, uma série de sebos improvisados – e esqueça o fato de o improviso ser um elemento natural dos sebos; não é disso que se fala – trata livros como batatas, restos, subprodutos, basculho pra usar uma palavra que fez furor no país da diversidade mal digerida. Apostilhas de concursos misturados com dicionários de sinônimos e antônimos, levas de Jorge Amados, best sellers internacionais esquecidos, manuais de tecnicalidades vencidas do Direito, Limas Barretos em profusão em edições baratas, tudo misturado em pilhas tortas, a um ponto da queda.

Estantes mal dispostas e arrumadas – ah, mas é um sebo, queria o quê? –, pobres donos ou funcionários incapazes de perceber um milésimo da importância de algo que por mero acaso esteja solto entre as mesas – como o Longa Jornada Noite Adentro, de Eugene O´Neill que eu divisei num golpe de vista e rapidamente agarrei com medo de que o livrinho fugisse de mim e se perdesse para sempre em meio à bagunça geral –, fora as cordinheiras de CDs, DVDs e LPs empoeirados.

Sim, os sebos enfileirados na avenida Rio Branco são só sebos, com obviedade e tudo. Naturalmente caóticos, sujos e malvados, ok. Mas tanto quanto não consigo vir a Natal e deixar de dar uma passadinha lá. Também pra mim é inevitável estar ali e deixar de chegar a lamentáveis construções mentais: perdida no tempo e abandonada pela classe média, a região central da cidade – como ocorre no geral das cidades grandes e médias; novamente não é disso que se trata – reserva um tratamento especial para os livros. São eles que me doem, é deles que me vem essa piedade. Largados de qualquer maneira, sem um mínimo de classificação por uma gente que, tristemente, tenta deles tirar a sobrevivência possível.

Tais livros, em tais sebos – aos quais sempre volto, pois sempre posso encontrar, como desta vez encontrei, uma biografia interessante como Uma Vida, do dramaturgo norte-americano Arthur Miller – a mim lembram uma forma de cemitério. Não o cemitério de livros clássico de A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, autor espanhol cultuado mundo afora. Cemitério mesmo, porque o que eu resgato ali são livros que de outra forma poderiam ser vistos como cadáveres dos indivíduos de lombada, capa, folha de rosto e páginas cheias de manchas de textos do que um dia foram.

Muitos ali perderam a validade, é fato; mas tantos outros, caso você tenha paciência de garimpar, são como pessoas inteligentes, articuladas, sensíveis e poeticamente soberbas que estão sendo enterradas vivas.

Não tenho o direito de falar mal dos coveiros – tão miseráveis economicamente e culturalmente quanto o ambiente todo, de salas semidestruídas, certamente de aluguel barato, os espaços que a cidade, no seu caminhar financeiro dos tempos, foi tornando obsoletos.

O moço que me tratou com gratuita simpatia num desses depósitos informou cheio de animação que tem outro sebo em Fortaleza e que breve estará trazendo muito mais livros para seu ponto em Natal. E como que adivinhando meu pensamento, disse quase se desculpando que não tem condições de arrumar corretamente, não sabe separar os volumes. Eu quase me ofereci pra fazer este serviço para ele. Por certa empatia que surgiu naquele momento entre ele, eu e os livros ao redor.

De alguma maneira ele está dando uma contribuição aos livros, é preciso admitir. Ainda que isso torne ainda mais lamentável o quadro todo.

O centro de Natal ficou para trás e sobrevive como pode. Tem sapatarias baratas, uma profusão de lojas de trecos eletrônicos, restos do que foram amplas lojas de roupas ou departamentos, toda sorte de comércio paralelo. Tudo isso faz parte da realidade das cidades brasileiras, dos centrões do país – com tudo o que esta palavra, centrão, no país, representa pra quem vive na antiga Terra de Santa Cruz.

Mas quando esse aplicado trabalho de decadência – ela é caprichosa, age nos detalhes, já dizia João Moreira Salles, o criador da revista Piauí, no texto escrito para a série documental América, que a TV passou nos anos 80 – chega nos livros, dói.

Preciso só dizer que, claro, há sebos em Natal com mais tradição, mais cuidado e muito mais respeito pelos livros, porque geridos por gente que não ignora o valor da mercadoria de onde extrai, para além de conhecimento e prazer, o dinheiro também necessário para viver.

De uma maneira ou de outra, gosto tanto de livros que sempre capitulo ante esses depósitos aspirantes a se tornarem sebos de verdade. Você sempre poderá me encontrar meio perdido na subida da Rio Branco, zanzando por um deles. Chamando mentalmente por um autor abandonado, um ensaio esquecido, um romance descartado. Como ocorreu desta vez com Eugene O´Neill e Arthur Miller, de vez em quanto eles acordam em meio às pilhas e escutam meu chamado. E pulam cá fora pra viver mais um tiquinho.

Para combater o complexo de grandeza, assista à primeira temporada de Terra de Gigantes. Para prevenir a depressão, Os Três Patetas ajudam muito. Para ter certeza da época em que está vivendo e não dormir com medo de comunistas embaixo da cama, não perca O Túnel do Tempo. Para evitar comportamento hiperativo, experimente a calma dos bichos nas savanas de O Mundo Animal. Para colocar os pés no chão, A Noviça Voadora contribui um bocado. Para dar um basta a tudo e saltar sem paraquedas, veja A Ilha da Fantasia. Para dar cabo da pressão alta, desligue-se dos perigos lá fora revendo Daniel Boone. Para problemas de natureza comunicativa – dificuldades para ouvir, por exemplo – reveja aventuras de Flipper – vai ser uma aula e tanto de audição inteligente. Para antever os males do câncer que brinca de esconde-esconde e pode aparecer em qualquer parte do corpo, vá de E.R, mas tente se impressionar menos com os detalhes médicos do que com injunções humanas que podem causar enfermidades. Para afastar as baixas vibrações dos espíritos de porco, Arquivo X. Certos comportamentos sombrios só podem ter origem extraterrestre. Para ficar em dia com o nível de humanismo vigente aqui e agora, rebobine a fita e veja uns três episódios de O Homem de Seis Milhões de Dólares ou de A Mulher Biônica. Para inocular-se de empatia com a primeira pessoa com quem cruzar na rua ao sair do distanciamento, não deixe de assistir a um compacto da cenas finais dos episódios de O Incrível Hulk, com David Banner pedindo carona numa rodovia qualquer, ao som daquele piano triste. Para não confundir gripe com alergia respiratória, ou seja, não achar que precisa viver como se fosse um homem da lei americano-branco-antitudo que estão lhe tirando, ok, veja Xerife Lobo, se achar. Vai ser do tipo vai-ou-racha, ou você se salva como ser humano ou se dana de vez. A escolha é sua.

Tem tratamento, terapia, alternativa, mezinha, reza e sobretudo vacina pra tudo – as últimas que faltavam estão aí, saindo dos laboratórios. No caso dessas últimas, só não tem pra todos. Mas é como voltar a ser criança e entregar a alma a um seriado de tevê: precisa de um mínimo de crença, saber distinguir realidade de ficção, somar dois mais dois e admitir a lei da gravidade.

A criança que você e eu fomos sabia fazer tudo isso com a seringa ainda pendurada no braço, sem choro. O problema foi o adulto em que muitas dessas ex-crianças se transformaram. Porque não tem vacina contra o ressentimento. A origem de tanto mal estar espalhado por aí. Nesse caso, nem as trinta mil versões de Jornadas nas Estrelas vão resolver. Será preciso criar o próprio seriado fazendo autoexame diante do espelho.

Assisti a “Simplesmente Alice”, o filme mais agridoce de Woody Allen numa sessão vespertina do mais agridoce cinema que Natal já teve – o Rio Verde, com suas duas salinhas coladas no tão mastodôntico quando datado Rio Grande, nas cercanias da nova catedral, todos sabem, mas preciso compor aqui uma locação imaginária que corresponda ao que pretendo dizer, caso consiga.

“Simplesmente Alice” tem uma luz suave, uns banhos de vermelho que longe de soar agressivo consegue justamente o efeito oposto, um certo conforto visual que você dificilmente vai encontrar na cinematografia do nerd pós-80 anos que o sr. Allen segue sendo. Quase contrasta com o restante dos filmes dele, a menos que você lembre que ali ele cutuca a autenticidade de certa filantropia ou piedade social, sobrando farpas bem-humoradas para os exageros dos seguidores da cultura oriental.

Farrow e Allen

Digo isso sem ter revisto o filme, que o amigo(a) encontra nas plataformas de streaming. Esqueci de dizer que Alice é Mia Farrow, claro. E pensar que o filme foi feito a poucos passos na linha do tempo da denúncia que viria a separar definitivamente o casal – que nunca morou junto de fato – e gerar um escândalo monumental, com acusações recíprocas de um suposto abuso sexual de um lado com linchamento moral puro e simples de outro…

Por isso aí vocês vêm o quanto ficou difícil falar sobre “A Autobiografia”, em que Woody Allen relembra sua trajetória. É fato que quando o caso aparece lá por mais da metade do livro meio que gera um turbilhão narrativo que ofusca tudo o mais, atropela as histórias e o estado de coisas que ele vinha estabelecendo antes, exatamente como ocorreu na vida – o escândalo foi instalado e num instante parece que “Manhattan”, “Neblina e Sombras”, “Anne Hall” (entre nós “Noivo neurótico, noiva nervosa”), “Match Point” (obra-prima casual), “Crimes e Pecado” (obra-prima não casual) e até “O Dorminhoco” (a primeira vez que topei com esse cinema ligeiro, ácido e inteligente ao mesmo tempo) viraram fumaça.

Nada vira fumaça e nem tudo que é sólido se desmancha no ar. “A Autobiografia”, embora (pra mim) algo aborrecida na primeira metade, quando Allen explica com desdém exagerado sua origem no Brooklyn e seu ingresso no mundo dos shows de piadas que o levaria muito naturalmente ao cinema (sem ser um iniciado no ramo os nomes que ele apresenta não farão mesmo muito sentido pro leitor brasileiro), soa como um filme de… Woody Allen quando ele fala de… filmes.

Para quem, como eu, cultua “livros de bastidores” da música ou do cinema, é um sorvetão de chocolate com cobertura de caramelo. Pena que, lá pras tantas, ele tenha que parar tudo pra (re)construir sua história com Mia Farrow e (re)colocar no lugar as peças dessa complicada relação.

Mas os detalhes sobre os filmes são, como sempre neste tipo de livro, um acepipe para quem não consegue passar uma semana longe de uma história contada em qualquer tela. E mesmo diante de certa ranzinice de que o sr. Allen não abre mão a gente, como se diz hoje, passa o pano.

Leia “A autobiografia” antes de, também como se diz hoje, fazer o cancelamento de Woody Allen. Se você não se convencer dos argumentos do cineasta e escritor contra a estridência das denúncias de Mia Farrow, pelo menos vai querer ver ou rever cada um dos filmes com que ele, aqui pernóstico ali sensível ou mais à frente visionário, soube ler muito bem nosso não menos conturbado mundo. Leveza na tragédia humana, a combinação que não foi ele quem inventou mas que tão bem sabe praticar.

Pena que não temos mais o Cine Rio Verde pra você sair da sessão do mais recente filme dele, frouxo ou frouxa de rir, num cair de tarde sob o viaduto vestido de templo que permanece sendo a nova catedral de Natal.

Quem conheceu, como Marize Castro, registra a notabilidade do homem. Tarcísio, da Livro 7, Recife. Meu amigo Renato Ferraz deve ter lhe roubado um naco e tanto de mais valia literária lendo livros sem pagar naqueles bancos, salvo engano, no meio das estantes.

Não conheci Tarcísio – posso tê-lo visto – mas em tempos de falta absoluta de reverência a quem se dedica a enlevos como livros, inteligência, sensibilidade, racionalidade e quejandos, esses luxos da era pós-pabulagem, presto minha singela homenagem.

Porque sem ter conhecido o cara, frequentei-lhe o quanto pude o estabelecimento comercial-literário. E me ocorreu, foi lá que adquiri o que pode ter sido o terceiro livro marcante de minha incipiente coleção de livros – esse fetiche do qual kindle algum conseguirá me apartar. Era “O Cinema dos Meus Olhos”, uma bela coletânea de textos do crítico cinematográfico… Vinícius de Moraes, o próprio. Textos quase adolescentes, com o futuro poeta consagrado, admirado, banido, hoje certamente deplorado pelos seguidores da ignorância em rede, tecendo loas ao cinema mudo e jogando pedras no pano branco do então inovador cinema falado.

Pra vocês verem que os poetas, não sendo brutos, também podem ser reacionários – ao menos em arte, perdoemos. Nada que chegue às raias do pano encardido dessa atualidade de agora.

Mas voltemos ao Tarcísio que não conheci, à livraria que frequentei (como Renato, quase sempre sem comprar, que o $ era curto e simbólico) e a este livro que lá adquiri como que para justificar, pagar com atraso, as tardes alugadas ao convívio das prateleiras.

“O Cinema dos Meus Olhos” esvaía-se em contemplações das estrelas do cinema sem fala e com muito rosto. O livro em si era um mimo, edição da Companhia das Letras, uma capa moderna, grafismo triangular. O prazer de percorrer a mancha de texto, a finura que só os leitores mais fanáticos conhecem de dobrar e desdobrar a aba da orelha, explorar os silêncios retumbantes das folhas de rosto. A consciência de que aquele era o terceiro de uma série de livros que explicariam uma vida – toda ela à frente (e não atrapalha em nada o fato de este ser um dos livros que perdi ao longo da vida, como tantos).

Livro 7 era isso, uma aura a mais do que a concorrente da Rua da Imperatriz onde adquiri o livro mais lido que já passou pelas minhas mãos, “Feliz Ano Velho”, o testemunho-pop-superação escrito pelo jovem Marcelo Rubens Paiva que em 1984 soava como música de hit parede e que talvez por isso mesmo foi lido, só o meu exemplar, por mais uns 11 amigos da época. Neste ponto parei de contar, mas os empréstimos continuaram.

Na Livro 7 de aura à parte também comprei meu manual de sociologia, o clássico universitário de Sebastião Vila Nova, o livro que marcou meu ingresso na vida universitária. Não era um livro, era uma porta se abrindo e oferecendo outras rotas. E mais: não comprei e não li por falta de verba, mas lembrar o Tarcísio que não conheci por meio da lembrança da Livro 7 que frequentei é como espalhar livros numa trilha imaginária suspensa no ar. Como se estivesse a arremessar cartas em forma de pedras literárias no vácuo do crescimento pessoal e somente sobre elas caminhar – cada passo, uma pequena história, uma etapa, um momento formador de uma vida.

Essa é minha trilha da Livro 7, vereda para um futuro que faça cair por terra as boçalidades desse presente ilegível. Vai pra você que não conheci, Tarcísio; como para Renato, que mora aqui ao lado no coração do amigo; assim como para Vinícius, querido ou esquecido; e até para o Paiva comprado no concorrente. Tarcísio e sua livraria estarão sempre abertos, 24h, nas vielas comerciais do afeto que nunca cerram as portas.