Graça está na sala

PIX: 007.486.114-04

Colabore com o jornalismo independente

Quando a sirene tocava anunciando mais um horário de aula e era ela quem entrava na sala o colégio ficava maior, mais nobre, mais denso. Lá pelas tantas a gente sabia que ela faria o gesto que mais me ficou na memória, a pedagogia da unha.

Graça Macedo, minha pra sempre professora de português da sétima e oitava série que por estes dias a bruxa da Covid levou, era uma bruxa ao contrário: mais que bonita, bem cuidada; para além de séria, elegante; um passo depois do respeito, sabia instalar no ar um tipo raro de empatia.

E a unha, onde fica – alguém me pergunta. Era só um gesto, mas como dói lembrar.

Antes, algumas considerações. Mulheres como Graça operam este tipo de bruxaria que as fogueiras são incapazes de queimar, por falta de um oxigênio que só elas manipulam com tal majestade.

Graça Macedo se beneficiava, claro, do fato de ser professora numa época em que a profissão, para o bem ou para o mal, inspirava um tipo de reverência anterior a qualquer informalidade.

Gosto dos professores informais, mas não é disso que se trata. Graça, como diria um piadista dos dias de hoje, estava um patamar acima. Naturalmente. Sem esforço algum. Ela entrava no ambiente e este é que se deixava intimidar por ela – feliz e agradecido.

Com Graça vinham as complicadíssimas normas da mais elaborada – e sofrida, e desprezada, e maltratada – das línguas. Ela tinha o controle de todas as regras e a nós, enfileirados em carteiras adolescentes, cabia receber este manual, decifrá-lo ao ponto de torná-lo menos emaranhado, e gerenciar textos, provas, leituras, ciladas. O português que nos alimentou a mente como leite raro.

Graça era inflexível na administração dessa bebida sagrada, mas sabia dosá-la com as sobremesas da literatura em prosa ou verso. Aqui também era sábia – o tipo de inteligência que conhece a limitação do seu gado.

Não nos fez ler o clássico paulistano da senhora Leandro Dupré, Éramos Seis – o que seria até fácil dada à memória afetiva da novela que a tevê exibira há não muito tempo.

Teve a clareza de nos impingir o infantilizado A Ilha Perdida, da mesma autora, numa atitude entre paciente e lógica. Poucos leram. Eu fui um deles. Era fã, dos livros, mas sobretudo de Graça. Não dava pra decepcioná-la. O livro, pra sempre, virou um amuleto. Sempre que encontro uma edição, agarro-me a ela e não solto mais. Dei pra meus filhos. Instalei no meu altar imaginário.

Mas Graça também nos dava doses de Carlos Drummond de Andrade, trechos de livros, seletas paradidáticas que os volumes da editora Ática – outro fetiche – nos ofereciam.

Hoje em dia é difícil imaginar que houvesse estudantes espinhentos que não soubessem quem era Drummond, Bandeira ou… Milton Nascimento, cuja letra de Morro Velho (“No sertão da minha terra, fazenda é o camarada que ao chão se deu…”) também fazia parte do programas das aulas.

Graça era nosso google, nosso YouTube em carne, osso e encanto didático. E foi por meio dela que esse pessoal chegou aos que estavam interessados, porque Graça nunca forçava nada. O que Graça sempre fazia era frisar muito bem o que estava ensinando, claro, à maneira tradicional de um 1979, 1980, em Parelha, interior do RN, escola pública, poucos recursos e muito futuro disponível pra quem soubesse se aproximar com jeito da mesa do jantar das possibilidades.

E como frisava um ponto ou outro? Tocando com a unha pintada e bem cuidada a superfície do quadro verde, à guisa de régua ou qualquer outro instrumento. A unha elegante, rigorosa, impávida e superior (como poucas coisas sabem ser superior na medida justa e certa) extinguia dúvidas, apontava caminhos, abria veredas onde antes pululava a complexidade de orações sindéticas ou assindéticas, limpando a algaravia do conteúdo como se fora um tipo de laser que só Graça sabia produzir e gerenciar. O gesto me ficou e quase consigo ouvir o barulho da unha daquele indicador triscando na lousa.

Foi nossa “madeleine” escolar – e se duvidarem de mim perguntem pra Gisele, Leonoardo, Moisés, Aldir, Cida, Gilton, Antonio, qualquer um que tenha assistido àquelas aulas, presenciado aqueles rituais, comungado daquela quase religião onde Graça sabia como ninguém exercer o papel de sacerdotisa do magistério.

Tião Vicente

Tião Vicente

Jornalista e servidor público (às vezes essas duas atribuições se confundem). Nasceu por acaso em Caicó, cresceu em Parelhas, estudou em Recife e Natal, aprendeu jornalismo e juventude nesta última, cansou um pouco e mudou para Brasília, trabalhou em edição em jornal e TV até fazer um concurso público para entregar esse brilhante currículo à emissora de tevê da Câmara dos Deputados. Tem funcionado até hoje. Por fora, pratica essas infidelidades paraliterárias. Tem uma central de blogs, quase todos esquecidos (para referência, arrisque novosopaodotiao.blogspot.com).

WhatsApp
Telegram
Facebook
Twitter
LinkedIn

1 Comment

  • Sebastião Gilton

    Eterna Graça Macedo, sempre presente na memória dos seus alunos em que beleza, ternura e altivez se misturavam. Uma profissional que se apropriava das ferramentas do magistério e da mágica para nos encantar , semeando sonhos e conhecimento em cada um de nós, seus alunos. Lindas palavras do amigo Santos, que expressa bem a pessoa da nossa eterna professora de português.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *