Jamais abandonei o caminho que me leva ao
encantamento do passado.

Câmara Cascudo

Meu primeiro contato com a obra de Manoel Onofre Jr., mesmo que indiretamente, foi em 1997, quando cursava o ensino médio no Cefet. Dentre as diversas atividades culturais promovidas pela escola, a ida ao teatro era uma delas, e foi justamente aí que conheci um pouco do universo ficcional do escritor e crítico literário nascido no sertão potiguar e radicado em Natal.

Seu livro “Chão dos simples” foi adaptado para o teatro por Lenício Queiroga, que escreveu, dirigiu e atuou na peça homônima, cuja estreia aconteceu nos palcos do Teatro Alberto Maranhão, espaço do qual não desfrutamos há algum tempo porque está interditado desde 2015, e sem data para ser reaberto.

Voltemos ao livro. Há tempos, ele estava naquela lista de obras imprescindíveis e somente agora, durante o isolamento social, tive a oportunidade de desfrutá-lo com o tempo e a tranquilidade necessária que a leitura exige. Puro deleite a leitura dessa obra, um alento para esses dias incertos que vivemos.

O exemplar que tenho em mãos é um primor e tem um valor afetivo especial porque foi adquirido no Sebo Natal, cujo proprietário é meu irmão Paulo Luís, poeta, leitor voraz e apaixonado por livros como eu. Impossível ir visitá-lo no centro da cidade e não sair de lá com alguns livros (sem contar os que ficam pra depois), e quando se trata de literatura do RN, então.

Aliás, quando tudo isso passar, essa é uma das coisas que preciso fazer com mais frequência, tanto pelos motivos citados, como também, e principalmente, pela alegria do reencontro e da partilha com esse irmão querido que é também um amigo com quem gosto de dialogar e aprender.

Chão dos Simples

Chancelada pela Sarau das Letras, revista e ampliada, esta é a terceira edição de “Chão dos Simples”, e traz, ao longo dos capítulos, ilustrações de Carlos José e Iaperi Araújo. Os desenhos são um primor e retratam de forma singela algumas das narrativas ambientadas em Serra Nova, “a pequena Macondo do escritor norte-rio-grandense”, como escreveu Hildeberto Barbosa Filho, numa alusão ao escritor colombiano Gabriel García Marquez e seu clássico “Cem anos de solidão”.

O prefácio é assinado pelo escritor Thiago Gonzaga. O leitor terá uma grata surpresa ao final da obra: a fortuna crítica do livro assinada por Anchieta Fernandes, Hildeberto Barbosa Filho, Nelson Patriota, Nilo Pereira e Veríssimo de Melo. Um presente para leitores como eu, que devoram prefácios, orelhas, posfácios…

Esse é um dos daqueles livros que a gente lê de um fôlego só. Mas eu não queria que acabasse logo e criei uma estratégia de leitura, lia apenas quatro contos a cada manhã. Tal qual a personagem do conto “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector, para mim aquele “era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o”.

E foi assim minha viagem pelo sertão encantado de Manoel Onofre Jr., degustando lenta e prazerosamente cada história. Por vezes, tive a impressão de estar sentada na calçada de uma daquelas casas de Serra Nova, enquanto o narrador me contava aquelas histórias e eu, cada vez mais inebriada com aquele universo mágico, queria mais e mais.

Hildeberto Barbosa Filho compara o narrador de Chão dos Simples” ao narrador de Walter Benjamin, quando este se refere ao contista russo Leskov, e diz que se trata de uma narrativa calcada na riqueza da tradição oral. Assim, na perspectiva do escritor paraibano, temos um narrador que conta suas estórias à beira da fogueira, “sob a prata do luar e no silêncio das noites mal-assombradas”.

São narrativas curtas, quase cinematográficas, marcadas por uma linguagem simples, enxuta, direta, retratando com originalidade diversos aspectos da cultura sertaneja, crendices, costumes. Histórias de beatas, donzelas, solteirões, cangaceiro, cigano, matador, e tantas outras figuras que compõem o cenário de uma cidade do interior nordestino. Como escreveu Nilo Pereira, a vida que o autor recorda “é o retrato de uma gente simples, crédula, profundamente telúrica”.

Gostei de todos os contos, mas, por questão de espaço, e para manter a curiosidade do leitor, destaco alguns: “A primeira feira de José”, “Joca”, “O destino e seu Tintim”, “Na boca da noite”, “A verdadeira história de Joãozinho e Maria”, “Duelo de titãs”.

Assim como Nilo Pereira, “cada vez mais me convenço mais da necessidade que tem o escritor […] de um retorno lírico à infância, às paisagens familiares, à evocação de algumas cenas onde tem sempre uma boa velhinha que conta uma estória […]”.

Aliás, na dedicatória do livro, escreve o autor: “A meu pai, que me contou muitas histórias do sertão”, comprovando o que diz Nilo Pereira sobre tal evocação à infância, com seus “alumbramentos e perplexidades”, para lembrar o título de uma obra de Edson Nery da Fonseca sobre a poética de Manuel Bandeira. Afinal, como sintetizou Nilo Pereira, “O menino de Martins e o poeta de Serra Nova se dão aos mãos no tempo proustiano, e ei-los no escritor das coisas simples, míticas, ingênuas, alma de um tempo imortal”.

E a coisa mais divina que há no mundo é viver
cada segundo como nunca mais.

Vinicius de Moraes

“Por que as pessoas se vão”? Essa pergunta foi feita por um menino ao seu pai adotivo, referindo-se ao fato de ter sido abandonado pelos pais biológicos. O diálogo faz parte do filme “Ensinando a viver”, e a resposta do homem foi, no mínimo, inusitada: “Não sei”.

Assisti apenas a última parte do filme e essa conversa me veio à mente quando recebi a notícia da morte do poeta cearense Arievaldo Vianna, no último sábado, 30 de maio, e, desde então, a pergunta daquele garoto não me sai da cabeça.

Talvez o poeta Vinicius de Moraes tenha um consolo para os que ficam, cheios de lembranças e saudade: “A morte vem de longe […] / Chega impressentida / Nunca inesperada”. E foi Rubem Alves quem disse que “é a saudade torna encantadas as pessoas”.

Vi a notícia no grupo de WhatsApp da UBE/RN (União Brasileira de Escritores), entidade literária à qual sou filiada e tem como presidente Tereza Custódio, cearense radicada em terras potiguares, romancista premiada, contista, cronista e cordelista, tal qual o seu conterrâneo Arievaldo, que deixa órfãos uma infinitude de poetas, amantes e estudiosos da arte de fazer versos.

E não só isso. Artista múltiplo, o poeta nascido em Quixeramobim, Sertão Central do Ceará, também era ilustrador, radialista, xilogravador e cronista. Hipnotizava plateias com seus causos e versos recitados com maestria e enchia os nossos olhos com seu traço marcante, eternizado em charges e na capa de inúmeros trabalhos publicitários e livros espalhados por esse Brasil que ele tanto amava.

A partida de Arievaldo já me encontrou sentida com o desaparecimento de outro grande escritor, o jornalista Gilberto Dimenstein, que despediu-se da vida um dia antes do poeta cearense, deixando uma lacuna no jornalismo brasileiro e na luta pelos direitos humanos.

Gilberto enfrentava um câncer de pâncreas, com metástase no fígado, descoberto no ano passado, e nos deixou grandes lições não apenas por sua brilhante trajetória como jornalista e escritor, mas também no enfrentamento da doença que tão rapidamente ceifou-lhe a vida. “A clareza maior da morte é uma dádiva. Não é um fim, mas um começo”, disse, em entrevista a “Folha de S. Paulo”, no final do ano passado.

Voltando à notícia da morte do poeta cearense. Uma sensação de angústia, misturada à incerteza e, sobretudo, à impotência perante a “indesejada das gentes”, como a denominou Manuel Bandeira em seu poema “Consoada”. Ainda não consigo acreditar que aquele homem tão jovial, cheio de entusiasmo e alegria partiu tão cedo.

A primeira imagem que me veio à mente foi a XIII Bienal Internacional do Livro de Fortaleza (2019), quando o vi pela primeira e única vez. Ele estava conversando alegremente com um outro poeta na Praça do Cordel. Sorridente, despediu-se do amigo e saiu apressado. Jamais pude imaginar que aquela seria a única vez que teria a oportunidade de vê-lo de perto. Se soubesse disso, talvez tivesse me aproximado e puxado conversa, mesmo que fosse só pra dizer da importância do seu trabalho para a cultura brasileira. Tempus fugit…

Cordelista imortal

Membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel e idealizador do Projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, adotado pela Secretaria de Educação do Estado do CE, que utiliza a poesia popular na alfabetização de Jovens e Adultos, ajudou a difundir a literatura de cordel na educação básica.

Arievaldo também ministrava palestras e oficinas de cordel Brasil afora. Pesquisador apaixonado pela cultura popular, assinou as biografias de Leandro Gomes de Barros – “Leandro Gomes de Barros: o mestre da literatura de cordel” (Queima-Bucha, 2014), e de Santaninha – “Santaninha, poeta popular na capital do império” (IMEPH, 2017), este último em parceria com Stélio Torquato Lima, além de diversos livros sobre a poesia e o sertão.

Escreveu outras obras em parceria com Marco Haurélio, Rouxinol do Rinaré, Zé Maria de Fortaleza. Seu irmão, Klévisson Viana, proprietário da Tupynanquim Editora, também cordelista, cartunista e ilustrador, foi outro grande parceiro de trabalho. A propósito, os dois aparecem juntos no documentário “Heranças Preciosas” (TV Assembleia do Ceará, 2015), que conta a história da família e a paixão pela arte de fazer/declamar versos, herança do avô paterno.

Tenho lido bastante sobre Arievaldo nesses últimos dias e percebi o quanto era um homem querido, alegre, talentoso. Nem posso imaginar o que significa a partida de um irmão e parceiro de trabalho/arte, quando lembro de Klévisson Viana, cujo trabalho com literatura de cordel e História em Quadrinhos tem destaque no cenário nacional e já lhe rendeu alguns prêmios.

Dentre seus inúmeros trabalhos, Klévisson adaptou para o cordel dois clássicos da literatura universal: “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, e “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. Teve um folheto adaptado para a série Brava Gente da Rede Globo, “O romance da quenga que matou o delegado”.

Legado e lembranças

Penso nos seus pais, irmãos, esposa, filhos, amigos… Por outro lado, também penso no legado sentimental que Arievaldo construiu, e isso acalenta um pouco o nosso coração.

“Lembro com saudades da FLIP em Paraty do ano passado, quando toda noite, ao fechar a Casa do Cordel, íamos para a ‘Paraty Nova’ tomar cerveja num boteco, cantar músicas de Luiz Gonzaga e Tim Maia”, escreve o amigo Bráulio Tavares, escritor e dramaturgo, em depoimento emocionado numa rede social.

O pesquisador e escritor Marco Haurélio também prestou sua homenagem a Arievaldo e lembrou a militância política, o senso de justiça e a luta por uma sociedade mais justa e solidária: “Sua voz corajosa não vai se calar. Seguirá viva em seus poemas, em suas crônicas, nos espaços que criou na Internet para divulgar seu pensamento e a sua obra. Imagino-o agora encontrando-se com Leandro Gomes de Barros, seu maior ídolo, numa fantástica roda de glosas”.

Que fiquem as boas lembranças, o sorriso, a alegria, os versos, e, principalmente, o legado cultural que ele deixou não só para o Ceará e o Nordeste, mas para o Brasil como um todo. Afinal, “A memória é um milagre”, disse Manuel Bandeira.

Talvez o amigo e parceiro de trabalho Bruno Paulino possa demonstrar um pouco da grandeza do poeta de Quixeramobim que ganhou o mundo com sua arte e seu verso cortante:

“[…] foi meu Patativa do Assaré e meu Monteiro Lobato. Foi o companheiro de boêmia mais engraçado que conheci, o maior contador de causos do mundo. Não é possível mensurar o legado de uma obra tão grande e de qualidade como a do Arievaldo”.

O que faço é tentar pintar com palavras as
minhas fantasias diante do assombro que é a vida.
Rubem Alves

Rosycleide é dessas mulheres que exalam sensualidade. E seu trabalho exige que ela seja assim, que exiba seu corpo e desperte o desejo dos que pagam caro para desfrutar de algumas horas de prazer.

É bem verdade que alguns pagam, também, somente para vê-la se exibindo e receber alguns carinhos, digamos assim. Foi o caso de um homem com disfunção erétil, mas que não resistiu aos apelos da rapariga mais cortejada do cabaré de Beth Cuscuz.

Outros, mais exigentes e endinheirados, pagam por um final de semana com a moça em outra cidade, longe dos olhares curiosos que poderiam, por exemplo, abominar um ménage à trois.

É o caso de um certo governador que vai a Teresina conferir de perto os dotes dessa mulher sedutora que tem enlouquecido os homens das redondezas e propõe à dona do cabaré um final de semana com Rosycleide por uma nota alta (detalhe: a esposa dele vai junto). A cafetina faz um certo charme no começo porque sabe que o negócio será lucrativo. O trajeto é feito de helicóptero, na calada da noite, para evitar mexericos.

A história de Rosycleide, cujo nome de batismo é Geralda, começa em Acari, no interior do Rio Grande do Norte. De origem pobre, filha única de uma viúva, ainda menina começa a exibir seu corpo para os moleques da cidade. As exibições geralmente acontecem nas paredes do açude Itans. Em troca, pede feijão, arroz, farinha… Não queria ver a mãe passando necessidade e essa foi a única maneira que encontrou de poder ajudá-la.

Já adolescente, difamada entre os moleques do lugar, foi defendida por Dagoberto, o rapaz mais rico da cidade, filho do dono da farmácia e do armazém e estudante de odontologia na capital. O episódio me fez lembrar Geni, personagem da canção-crônica “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque.

Essa é uma das muitas histórias do romance A vingança (Z Editora, 2018), de Antônio Melo, que estreou na literatura de forma auspiciosa, no dizer do seu amigo e também jornalista Osair Vasconcelos, que assina as orelhas e é responsável pelo selo de publicação da obra.

As histórias são ambientadas no sertão da Paraíba, no Ceará, no Piauí, no Maranhão e no Rio Grande do Norte, lá pelos idos da década de 1970. Tempos de seca, coronelismo, ditadura, pistolagem, machismo… Impossível ficar indiferente às histórias de Chico, Dudé, Rosycleide, Valentão e tantos outros personagens que compõem a narrativa ágil e assombrosa de “A vingança”.

São mais de 300 páginas de aventuras e desventuras pelos rincões de um Nordeste castigado pela seca e vítima dos mandos e desmandos de políticos corruptos que pregam um progresso enganoso, em nome de muitos privilégios e da manutenção dos seus currais eleitorais, sustentados, sobretudo, pela miséria e ignorância do povo.

Gente que é enganada de diversas maneiras. Gente que muitas vezes enxerga seus patrões como “homens bons”, e até como “homens santos”, porque estes lhes “concedem” terra para plantar, um pouco da farinha que produzem ali, alguns litros de leite, tudo à custa de muita exploração. Gente que é devota de Padre Cícero, São José, Santa Rita de Cássia, Santa Luzia, devoção que os mantém esperançosos de que dias melhores virão, mesmo que nunca cheguem.

Objetividade jornalística

Jornalista experiente e observador arguto, Antônio Melo assina um texto enxuto, objetivo, privilegiando os diálogos e abrindo mão de longas descrições de cenários, ambientes e personagens. “Poupei-me de descrever a região: acho que Euclides da Cunha e Graciliano Ramos roubaram-me a ideia que eu já tinha, antes mesmo de ter nascido”, diz o autor, na contracapa do livro, dando mais uma prova de sua originalidade e ousadia.

Aliás, acho que alguns personagens são muito bem caracterizados tanto pelas descrições certeiras do autor como pelos diálogos sem meias-palavras, tão característicos do povo nordestino, uma gente espontânea, acolhedora, resiliente…

Talvez uma máxima de Rousseau possa sintetizar a essência desses personagens, tão calejados pelo sofrimento da seca e pelas injustiças sociais: “o homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe”. Ou, quem sabe, estivesse com a razão o filósofo francês Jean-Paul Sartre quando afirmou que “o homem não é nada mais do que ele faz de si mesmo”.

A ideia inicial era escrever um livro de contos, que acabou se transformando nesse romance baseado “em verdades que viraram ficção”, como ele mesmo define a obra na dedicatória do exemplar com que me presenteou durante o trabalho de revisão do seu segundo romance, que está no prelo. A personagem central ganhou tamanha força que ele não teve outra opção a não ser não escrever um romance. Mistérios do mundo da ficção…

E por falar em protagonista, algo que me chamou atenção nos personagens é que eles não se encaixam em certos padrões e não podem ser descritos/compreendidos sob um único ponto de vista. A ausência de uma visão maniqueísta, como tantas vezes observamos na literatura, nos aproxima mais dos personagens (e de suas idiossincrasias) e nos faz compreender melhor os caminhos que decidem(?) percorrer ao longo da narrativa. Afinal, como diz Drummond, “todo ser humano é um estranho ímpar”.

Para Chico Mendonça, escritor e jornalista, que assina o prefácio da obra, Antônio Melo apresenta “[…] não uma visão romântica, mas um olhar afetuoso sobre as pessoas e, portanto, revelador de suas essências. Seus personagens, pelo mesmo viés, ganham vida, vida real”.

Coincidentemente, também observei isso no seu “Diário das folhas mortas”, que traz personagens cheios de conflitos/dilemas, mas certos de que precisam lutar pelos seus ideais, independentemente do julgamento alheio.

“Antônio Melo gosta de gente porque olha para elas e as aceita como são, não exige aperfeiçoamentos para caberem no seu afeto, no seu olhar”, arremata Chico.

Talvez o segredo seja o que ensina o poeta Manoel de Barros: dá “respeito às coisas desimportantes / e aos seres desimportantes”. Afinal, como diz o poeta mato-grossense, no seu “Tratado geral das grandezas do ínfimo”, poderoso não é aquele que descobre ouro, mas aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).

Desde que foi anunciado o período de quarentena, para evitar o aumento de casos da Covid-19 (causada pelo novo coronavírus), voltei a me exercitar, algo que, aliás, deveria ter feito há mais tempo. É sempre assim, aquela velha culpa por ter uma vida sedentária quando se pode fazer algum exercício físico diariamente e, de quebra, ter mais disposição e qualidade de vida. Bem, vou tentar não parar dessa vez. Prometo. Tenho realizado minhas caminhadas no final da tarde, mas estou pensando em alternar os horários e sair alguns dias pela manhã. Geralmente acordo cedo e gosto de sentir a brisa matutina, especialmente antes de o sol ficar muito quente, como se diz por aqui.

Hoje fui caminhar pela manhã, aqui mesmo onde moro, no bairro de Neópolis, mas confesso que desejei estar em outros lugares mais adequados (e inspiradores) para se exercitar, digamos assim: o Parque das Dunas, a praia de Ponta Negra… Bem, mas esse é um outro assunto sobre o qual é melhor não pensar agora, pois não sabemos quanto tempo durará nosso isolamento social. O mais importante (e urgente) agora é preservar a saúde da população e evitar que mais pessoas se contaminem pelo coronavírus, especialmente os que fazem parte do grupo de risco – idosos, hipertensos, diabéticos, asmáticos, pessoas em tratamento contra o câncer, transplantados etc.

A doença já vitimou mais de 24.000 pessoas no mundo e 92 no Brasil, que soma mais de 3.000 infectados (detalhe: esses dados, que sofrem atualização diária, estão disponibilizados na edição de hoje, 28 de março, do jornal “El País”). Lembrando que o isolamento social é uma medida importante, mas a constante higiene das mãos e dos objetos/superfícies usados com frequência é outro aliado poderoso para evitar a contaminação. Água e sabão e álcool em gel são recomendados.

Voltando à caminhada matinal. Ao mesmo tempo que idealizava as caminhadas no parque e na praia, fiquei imaginando como seria bom se tivéssemos mais ciclovias na cidade e as pessoas pudessem se locomover mais a pé ou de bicicleta, com a necessária segurança, claro.

Ciclovia-sustentavel-Curitibs-LagunaEu mesma tenho esse sonho de comprar uma bicicleta e poder me locomover para locais próximos de casa, por exemplo, pedalar nos finais de semana… Confesso que o reduzido número de veículos nas ruas nesse período me faz pensar nisso como uma possibilidade real, como uma forma de melhorar significativamente minha qualidade de vida. E o que isso significa? Um ambiente menos poluído e menos estressante com o barulho ensurdecedor dos veículos. Agora mesmo, enquanto escrevo esta crônica, desfruto de um raro momento em casa, não estou escutando barulho de carro e de ônibus a todo momento (quatro linhas de ônibus circulam no meu bairro diariamente e o número de veículos que passam por aqui é incontável).

Ao mesmo tempo que pensei nas ciclovias, também imaginei um bairro, uma cidade, na verdade, com mais espaço para nos exercitarmos, com mais praças, quadras de esporte ao ar livre. (Isso me fez lembrar a cidade de Sorocaba/SP, onde estive há dois anos, toda rodeada de ciclovias. Uma beleza). Locais onde a população possa conviver de forma mais saudável, crianças e idosos especialmente. Locais onde a prefeitura pode realizar, por exemplo, eventos voltados para promover a qualidade de vida da comunidade e incentivá-la a praticar exercício físico, se alimentar de forma mais saudável, privilegiando o consumo de frutas e verduras e evitando o consumo de alimentos industrializados, campanhas educativas sobre temas diversos – descarte correto do lixo, doação de sangue, educação sexual, consumo de água, preservação do meio ambiente, normas de trânsito etc.

Tudo isso implicaria numa população mais saudável e menos confinada em suas casas e seus empregos, como se a vida se resumisse ao trabalho/obrigações e a natureza não fosse algo que devêssemos usufruir para o nosso próprio bem-estar. Lembrando que usufruir também significa preservar. Essas campanhas educativas poderiam ser realizadas, por exemplo, por bibliotecas escolares/públicas. Afinal, essa é uma das inúmeras atividades realizadas por esse profissional multitarefa chamado bibliotecário.

Espero que depois dessa crise que o país e o mundo atravessam nossos governantes pensem um pouco mais na qualidade de vida da população e nós, cidadãos, possamos continuar lutando por uma cidade melhor, menos poluída, com mais verde e mais espaço para convivência ao ar livre, e, principalmente, que cuidemos mais do meio ambiente, tendo a consciência de que nossa qualidade de vida disso também depende.

Uma cidade com mais ciclovias e menos poluição. Uma cidade mais segura para os seus cidadãos, onde se possa andar a pé sem medo de ser assaltado a todo momento. Uma cidade mais humana, colorida, limpa, sem tanta poluição ambiental/visual. Aliás, a Lei da Cidade Limpa (2006), de São Paulo, bem que poderia ser copiada por aqui e as propagandas em outdoors serem proibidas de uma vez por todas. É muita poluição visual.

Também desejo ser mais atuante nessa luta e não ficar de braços cruzados, só reclamando, sem nada fazer para mudar a realidade. Aliás, se tem uma coisa que os momentos de crise nos ensinam é que sempre é possível fazer algo para modificar a realidade em que estamos inseridos.

Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.

(Manoel de Barros)

Uma das descobertas literárias mais agradáveis dos últimos tempos foi o livro de crônicas de Osair Vasconcelos “Retratos fora da parede”. A obra, publicada pela Z Editora, foi vencedora do Troféu Cultura 2018 na categoria Literatura. Evento idealizado pelo jornalista Toinho Silveira, o Troféu Cultura celebra diversas categorias envolvidas com arte no Estado do Rio Grande do Norte: artes cênicas, literatura, música, artes visuais, dança, produção cultural e fotografia.

Voltando ao livro de Osair Vasconcelos. Do projeto gráfico à temática das crônicas, tudo foi motivo de encantamento. O texto é impecável. A linguagem é ágil, contemporânea, telegráfica, poética. “Retratos fora da parede” é um daqueles livros que a gente lê de um fôlego só. E o dia escolhido para a leitura não poderia ter sido mais apropriado: um domingo chuvoso. Um daqueles dias preguiçosos em que a vontade de sair de cama é quase inexistente.

Eis um dos motivos do meu encantamento: o autor consegue falar com maestria de temas aparentemente banais – uma conversa com um engraxate, o beijo de um casal apaixonado no meio da rua, a chuva que chega de repente, transeuntes atravessando a rua em sua pressa cotidiana. Assim como Manuel Bandeira, talvez o narrador saiba que “a vida é uma agitação feroz e sem finalidade”.

Cenas que fazem lembrar, também, João do Rio, Rachel de Queiroz, Rubem Alves, Vinicius de Moraes, Rubem Braga e tantos outros cronistas cuja forma de falar das coisas mais simples os torna singulares. Flores, gatos, lagartixas e passarinhos também são alguns dos personagens das crônicas de Osair Vasconcelos.

Outro ponto interessante nesses “Retratos fora da parede”: o autor aborda algumas situações cotidianas de forma poética e filosófica, promovendo uma reflexão necessária sobre dilemas existenciais. É o que podemos observar, por exemplo, nos seguintes textos: “Cuidado com a alegria”, “Como ficou”, “Como iludir relógios e chegar ao espelho” e “A escolha”.

Em contraposição ao mundo barulhento/inquieto em que vivemos, tantas vezes de maneira frenética e automatizada pela pressa/pressão do cotidiano, lembrando a importância da quietude, diz o autor em “A escolha”: “O silêncio tudo permite, se abre a todas as interpretações, como que nos dá o que desejamos. Guarda, abastece de sonhos, envolve nossos ossos e nos frutifica. Nos dá as mãos, abraça-nos o dorso e conosco dança. O silêncio, embora não nos explique, nos compreende”.

O lirismo, marca maior de cronistas como Newton Navarro, Berilo Wanderley, Luís Carlos Guimarães, Sanderson Negreiros e Marcius Cortez, para citar alguns mestres da crônica potiguar, é uma das características marcantes do texto de Osair Vasconcelos, uma prosa suave e deliciosamente irresistível.

Temas contemporâneos, como a superexposição nas redes sociais, por exemplo, também estão presentes na obra. A crônica “Um abraço” retrata perfeitamente a efemeridade/obsolescência das coisas nesses tempos líquidos. É o que podemos observar neste trecho: “Ai! Que namorados lindos, disseram todos da lista dos dois enquanto viam aqueles posts. Disseram apenas pelo exato segundo enquanto viam, porque em seguida à exclamação outras fotos já chegavam e era preciso conferi-las”.

A inovação da linguagem foi um outro aspecto que me chamou atenção na escrita de Osair. Ausência de pontuação e frases curtas são alguns dos aspectos que conferem ao texto uma agilidade que por vezes faz lembrar a linguagem cinematográfica. Imaginei alguns textos filmados como curtas-metragens, por exemplo. Outros, os vi encenados no palco de um teatro. Falando sobre o gênero crônica, Marcius Cortez disse que [as crônicas são] “Curtas, sem complicação, elas nos aquecem em dias de frio e nos abraçam quando ficamos quietos, só cismando”. Foi exatamente essa a sensação que tive ao ler Osair Vasconcelos naquele domingo cinzento e preguiçoso. O texto de Marcius consta do livro de crônicas intitulado “Presente de Natal” (2016).

A alusão a Ariano Suassuna, Câmara Cascudo, Manoel de Barros e Pablo Neruda mostra, além de algumas influências do autor, a importância da leitura na construção do escritor. Afinal, um bom escritor é, antes de tudo, um bom leitor. Osair demonstra grande afinidade com os autores citados. Tais referências fizeram aumentar ainda mais a minha admiração pelo autor e o desejo de conhecer outros livros seus.

Os temas inusitados também merecem atenção. Na crônica intitulada “As voantes”, por exemplo, o narrador presencia um encontro de quatro palavras, as quais “chegaram de repente e pousaram no peitoril da janela […] Chegaram assim, de repente, vindas não sei de onde e, paft! se instalaram”. O texto me fez lembrar o trabalho do próprio escritor e sua constante luta com a palavra. Talvez o narrador saiba, como o poeta de Itabira, que, “Lutar com palavras / é a luta mais vã”. Elas, por vezes, “Deixam-se enlaçar / tontas à carícia / e súbito fogem” (Carlos Drummond de Andrade).

Em “Canto de muro”, texto sensível e arrojado, a criação de um condomínio de lagartixas faz uma singela homenagem ao mestre Cascudo e ao “apanhador de desperdícios” Manoel de Barros. “Canto de muro” também intitula um romance de Câmara Cascudo que, segundo Eulício Farias de Lacerda, “[…] é uma obra sui generis, história natural romanceada, onde o cientista se confunde com o poeta numa simbiose encantadora”.

Ao final daquele domingo preguiçoso, além de uma sensação de leveza proporcionada pela leitura, uma certeza: Osair Vasconcelos agora figura entre os meus cronistas prediletos e já aguardo ansiosa seu próximo livro. Como disse Marcius Cortez, no prefácio da obra, “recebo, meu caro, esse seu novo livro como uma festa. […] Alumiosa é a sua mensagem: entendendo as pequenas coisas, nós afinamos o nosso sentimento de mundo”. Segundo Marcius, o autor “[…] confessa que seus retratos foram feitos a partir da janela ilusória do mundo”. Quem sabe “um mundo que traga de volta a doçura da manga que caiu hoje no meu quintal”, como descreve Osair na crônica “Pascae”.