No livro “Nomes da Terra”, Câmara Cascudo estuda, exaustivamente, a toponímia norte-rio-grandense. Trabalho criterioso, não deixa, contudo, de apresentar alguns pontos controvertidos. Por exemplo: o topônimo Mossoró, de origem indígena (“cariris do grupo MONXORÓ ou MOUXORÓ, habitantes da região”), escreve-se com dois “s”, em nome da tradição; mas, o topônimo Assu, também de origem indígena, deve ser grafado com “ç”, segundo o mestre. Quanto a este nome: “A origem exata será “çôo-açu”, a caça grande, referindo-se aos animais de vulto.”Uaçu , açu”. O uso popular, comum e velho, é dizer-se o Açu, numa reminiscência inegável ao UAÇU da língua geral” (Ed. 1968, pág. 66).

Celso da Silveira, assuense, estudioso da cultura regional, diverge de Cascudo. Numa plaquete intitulada “Assu ou Açu?”, ele prova por A mais B que a grafia certa é Assu, e não Açu. Afirma, com base em vasta pesquisa: os nomes próprios, sejam de pessoas, sejam de lugares, mantêm-se inalteráveis em sua grafia original, imunes às reformas ortográficas. E Assu, com dois “s”, é como se escreve o topônimo em antiquíssimos documentos. Logo…

Açu ou Assu? Com quem estará a razão? Os argumentos expostos pelo escritor assuense impressionam bem. Parece-me que o seu entendimento “firmou jurisprudência”. Hoje em dia, todo mundo só escreve Assu.

Outras controvérsias – inúmeras – verificam-se na toponímia do Rio Grande do Norte. E a mais gritante gira em torno do nome de uma das praias mais badaladas da grande Natal. GENIPABU – com G – é como se escreve, de modo generalizado. Mas, estará certo?

Câmara Cascudo e Veríssimo de Melo acham que não. O topônimo é de origem tupi-guarani. “De jenipab-u – comer jenipapo, onde se come jenipapo” (Cascudo, obra cit., pág. 97). Ora, se Jenipabu vem de jenipapo (nome que, indubitavelmente, escreve-se com “j”) não pode nem deve ser grafado com “G”.

Jorge Fernandes, nosso grande poeta modernista, usou a grafia certa para denominar um dos seus mais famosos poemas: JENIPABU.

Infelizmente, este e outros exemplos pouco valeram. Teima-se ainda – ver matérias de jornal, placas indicativas, etc.- em se escrever GENIPABU.

Outro erro, ainda mais generalizado: Extremoz com”x”.

O nome do município e da cidade norte-rio­ grandenses é homenagem a Estremoz, cidade portuguesa, situada na região do Alentejo. Nossa Estremoz – antiga missão jesuítica de São Miguel de Guajiru – tornou-se vila em 1755.

A grafia portuguesa é Estremoz com “s”.

Está visto que Extremoz com “x” é uma incongruência, um contra-senso, de que poucas pessoas se dão conta.

E que dizer do topônimo Jardim de Piranhas? Outro disparate! A cidade, assim denominada, sede do município homônimo, situa-se às margens do rio Piranhas. Portanto, deveria chamar-se Jardim do Piranhas.

Em Natal há um lugar denominado Passo da Pátria, em homenagem a uma vitória brasileira na Guerra do Paraguai. Pois bem, todo mundo só escreve Paço da Pátria. Coisa mais insólita, só mesmo Jardim de Piranhas.

De nomes de municípios potiguares

Em artigo no semanário “Dois Pontos”, Pery Lamartine relacionou “os 35 municípios do Rio Grande do Norte que tiveram seus nomes originais trocados por nomes de pessoas nem sempre da terra”. Afirma Pery: “Proporcionalmente ao seu tamanho, é o Estado campeão de lisonjas. A coisa chegou a tal ponto que já caiu na área da bajulação.”

Falou e disse.

É mesmo uma estupidez o que se tem feito contra as tradições, por desejo de incensar.

Convenhamos que, dos nomes relacionados, apenas dois deveriam permanecer: João Dias e Luís Gomes. Vieram do povo, desde os começos. Outros dois, não incluídos na referida lista, também têm tradição: Martins (Francisco Martins Roriz, agricultor e criador, que deu nome à serra, onde se estabeleceu – chão da atual cidade) e Lucrécia (velha senhora, dona de propriedade, embrião da cidadezinha).

Todos os outros vultos, sejam os de expressão local (Francisco Dantas, Severiano Melo, Frutuoso Gomes, Cel. João Pessoa, Fernando Pedrosa, Bento Fernandes, Ielmo Marinho, Dr. Severiano, Pedro Avelino, Rafael Godeiro, Major Sales, Tenente Ananias, Tenente Laurentino Cruz, Rodolfo Fernandes, Messias Targino, Cel. Ezequiel, Marcelino Vieira), sejam os de projeção regional (Felipe Guerra, José da Penha, Antônio Martins, Pedro Velho, Rafael Fernandes, Gov. Dix-Sept Rosado, Afonso Bezerra, João Câmara, Almino Afonso,  Georgino Avelino, Eloy de Souza) ou nacional (Rui Barbosa, Nísia Floresta) são dignos de homenagem, mas não dessa forma, feitos topônimos, por lei, em prejuízo das tradições populares

Vejam a seguir a beleza e a poesia de alguns nomes antigos:

BOM LUGAR (Severiano Melo), MUNDO NOVO (Dr. Severiano). PEDRA DE ABELHA (Felipe Guerra), PANATIS (Marcelino Vieira), BOA ESPERANÇA (Antônio Martins), CAIEIRA (Almino Afonso), CUITEZEIRAS (Pedro Velho), BAIXA VERDE (João Câmara), BAIXIO DE NAZARÉ (Cel. João Pessoa),  MUMBAÇA  (Frutuoso Gomes), SURUBAJÁ (Georgino Avelino), MELÃO (Cel. Ezequiel).

Parece que feios, mesmo, só dois: Barriguda (Alexandria) e Papari (Nísia Floresta). Serviram até para anedotas, como aquela do telegrama: “SIGO BARRIGUDA PAPARI”.

Por fim, uma nota curiosa. No segundo ano do Estado Novo deu-se o nome de Getúlio Vargas a um distrito da Zona Oeste, mas, em 1943, ainda sob a ditadura de Vargas, mudou-se tal nome para Janduís (município em 1963). Prevaleceu a tradição. Não é de admirar?

Letrados natalenses têm polemizado sobre a origem da Coluna Capitolina – um pedaço da Roma antiga exposto numa praça de Natal. Afirma-se que seria proveniente do Templo Augusto de Júpiter, no Capitólio, daí o nome. Certo é que foi um presente do governo italiano à cidade, para assinalar o feito dos aviadores Arturo Ferrarin e Carlo Del Prete, pioneiros do ar, que, em 1928, fizeram a travessia do Atlântico a bordo de um pequeno avião, o Savóia 64, no raid Roma-Natal.

Vale salientar que essa façanha teve repercussão mundial. Era a terceira travessia aérea do Atlântico, segundo Paulo Viveiros, em seu livro “História da Aviação no Rio Grande do Norte” (Natal: Editora Universitária, 1974). Foram 7 158 quilômetros de distância, em 58 horas e 30 minutos de voo direto, a uma velocidade média de 175km/h.

Ferrarin e Del Prete sobrevoaram Natal, mas, devido à cerração, não divisaram o campo de pouso de Parnamirim, e foram aterrissar numa praia de Touros. Em nossa capital foram recepcionados festivamente. Banquete na Assembleia Legislativa, oferecido pelo Presidente do Estado (Governador), Juvenal Lamartine, discursos, brindes… A revista “Cigarra” apresenta um bom registro dos memoráveis fatos, inclusive com fotografias. Sob o título “A Águia Latina” começa nota nos seguintes termos:

“O avião que em uma tarde brumosa de julho passado singrou, numa expressiva trajetória de aço e alumínio, o céu potiguar, trazendo em suas asas gloriosas a afirmação mais robusta da vitória da latinidade, foi bem uma demonstração segura de que a Itália, a pátria mater dos guerrilheiros de Albalonga, ansiava por beijar os ares patrícios em uma caricia longínqua de fraternidade”. (!!) (“Cigarra”, nº 1, Natal, novembro de 1928).

Câmara Cascudo em seu livro “No Caminho do Avião… – Notas de Reportagem Aérea (1922-1933)”, ressalta a boa acolhida que Ferrarin e Del Prete mereceram:

“Os únicos a quem Natal concedeu oficialmente as honras de filhos, os dois italianos são inesquecíveis pela cordialidade fidalga, a palavra pronta, aproximação fácil e generosa.

“Os dias de Natal foram muitos e puseram os aviadores na vida pacata da província” (…) (“No Caminho do Avião…” Natal: EDUFRN- Editora da UFRN, 2007).

Dois anos depois, Benito Mussolini, chefe do Governo Italiano, mandou de presente aos natalenses a coluna comemorativa. Entregou-ao General Italo Balbo, Ministro da Aviação italiano, que aqui chegou em novo raid, desta feita espetacular: nada menos de quatro esquadrilhas de hidroaviões sob o seu comando.

Em cerimônia na esplanada do Cais do Porto, após missa campal, em ação de graças, às 7:30 horas do dia 8 de janeiro de 1931, procedeu-se à inauguração da coluna, tornada monumento, em cujo pedestal afixou-se epígrafe, em italiano, da lavra de Nello Quilici:

PORTATA IN VN BALZO

SOPRA ALI VELOCI

OLTRE OGNI TENTATA DISTANZA

DA

CARLO DEL PRETE

E ARTURO FERRARIN

ITALIA QVI GIVNSE

IL V LVGLIO MCMXXVIII.

L´OCEANO

NON PIV DIVIDE MA VNISCE

LE GENTI LATINE

D´ ITALIA E BRASILE*

(De fotografia publicada na revista “O Cruzeiro”, Rio de Janeiro,  17-01-1931)

Tradução de Paulo Viveiros, ob. cit.:

“Trazida de um só lance sobre asas velozes, além de toda a distância tentada, por Carlo Del Prete e Arturo Ferrarin, a Itália aqui chegou a 5 de julho de 1928. O oceano não mais divide e sim une as gentes latinas do Velho e Novo Mundo”

Noutra face do pedestal, uma placa referia-se ao feito das esquadrilhas italianas.

O bispo diocesano, D. Marcolino Dantas, deu a benção à coluna, seguindo-se os discursos de Italo Balbo e do Prefeito de Natal, em agradecimento.

Note-se que as referidas inscrições, constantes no pedestal do monumento, foram destruídas por uns vândalos, durante a Revolta Comunista de 1935.

Nenhum outro monumento natalense “perambulou” tanto como esta coluna. Da Esplanada do Cais do Porto foi removida para a Praça João Tibúrcio, na Cidade Alta, e de lá, após alguns anos, para a Praça Carlos Gomes, no Baldo, local inadequado, até que, finalmente, foi colocada na área ajardinada em frente ao Instituto Histórico e Geográfico, pouso definitivo, ao que parece.

*Na versão divulgada por Paulo Viveiros consta il figli de Roma del Vecchio e del Nuovo Mondo ao invés de le gente latine d´Itália e Brasile.

O professor e escritor Roberto da Silva tem se afirmado, nos últimos anos, como um dos mais abalizados pesquisadores norte-rio-grandenses nas áreas da Biografia e dos Estudos Literários. Sua curiosidade intelectual é algo, realmente, impressionante.

Em plena maturidade, já publicou vários livros, todos bem recebidos pela crítica e pelo público. Escritor criterioso, por vezes detalhista, jamais se contenta com uma visão geral do objeto de estudo; desce às minúcias no afã de conseguir o seu objetivo. Perfeccionista.

Jean Mermoz

Dentre as suas inclinações intelectuais nota-se, de modo especial, o apego a tudo que é da França. Roberto da Silva ama, como poucos, a pátria de Montaigne, de Saint-Exupéry e tantos outros ícones.

E disto acaba de nos dar provas, mais uma vez, com o livro “Jean Mermoz”, biografia do célebre aviador francês, cujo nome está ligado por diversos laços à história da cidade do Natal. A edição, muito bem cuidada, leva o selo do Sebo Vermelho, com apoio da Embaixada da França no Brasil.

Jean Mermoz (1901- 1936) tem o seu lugar no panteão imaginário dos heróis pioneiros da aviação. Entre outros feitos notáveis, realizou a  travessia do Atlântico Sul, sem escalas, de Saint-Louis do Senegal a Natal. Na flor da idade, desapareceu no mar, à altura de Dakar, a bordo do hidroavião Croix-de-Sud.

O escritor Edgar Barbosa, em seu livro “Imagens do Tempo” (1966), definiu-o com palavras lapidares:

“Mermoz e seus camaradas fizeram exatamente o milagre de convencer a todos que a aviação transatlântica era praticável com absoluta regularidade de linhas e horários. E o fizeram com desprendimento, ânimo viril, grandeza de espírito. Não é só a França que lhes deve a glória dessa arrancada que foi, no plano do espaço, igual ao ciclo dos navegadores quatrocentistas, à viagem de Magalhães ou ao mergulho de Colombo no desconhecido.”

Roberto da Silva escavaca a vida e os feitos do aeronauta, não se detendo apenas em suas façanhas aéreas, mas, também, enfocando aspectos pouco conhecidos, como por exemplo, o Mermoz político.

Em suma, um retrato em corpo inteiro – a que não faltam, é claro, revelações sobre a personalidade e a vida íntima – , retrato este traçado ao longo de nada menos de 724 páginas.

Vale ressaltar que, entre outras fontes, o autor baseou-se em biografias francesas sobre o herói, notadamente a de Joseph Kessel, e nas cartas do próprio Mermoz a sua mãe e aos avós.

Enriquece o livro prefácio de autoria do jornalista e escritor Vicente Serejo.

OS VEADOS FANTASMAS

Era no tempo da dominação holandesa.

Trinta de maio, dia de Santo Humberto, o tenente Pieter Van Broeck, do castelo de Keulen, resolveu ir caçar. De nada lhe valeram as advertências de que não se devia matar caça naquele dia, sob pena de castigo divino.

Pieter embrenhou-se nas matas que circundavam a aldeia de Nova Amsterdam (Natal). Conta-se que, lá para as tantas, meteu fogo em um jacu, matou outros bichos. Quando estava mais dentro do mato – já era noite, a lua saíra – viu parados numa clareira três veados soberbos sob o luar. Sentiu medo. O silêncio pesava. Quis atirar, as mãos não se moveram. Afinal avançou com o terçado desembainhado, mas – viu logo – nada podia contra os animais, que eram como que feitos de luz.

Pieter Van Broeck então fugiu na carreira mais desabalada. Foi parar bem longe dali. Mas a visão o perseguia. Lá estavam, de novo, em sua frente, imóveis, os três veados de luz. Nova corrida, pelo matos fechados. Pieter já delirava, exangue, debaixo de um juazeiro, rodeado por todos os animais da mata, que o fitavam.

Dias depois o corpo foi achado “ao pé de um cômoro, coberto de areia, enlaçado de ervas rastejantes, com a face crispada numa agonia, os olhos parados, a boca entreaberta” (Câmara Cascudo, “Histórias que o tempo leva”, 1924).

Ainda hoje, quem passa à meia noite pelo local, no Morro Branco, lado oeste, “sendo mau homem e mau cristão”, verá em noite de luar os três veados fantasmas.

A SANTA CRUZ DO INHARÉ

Nos “tempos heróicos” do Rio Grande do Norte, indo já avançada a colonização, vastas terras permaneciam despovoadas. Eram aquelas compreendidas na região do Trairi e cabeceiras do Potengi. Ninguém podia morar ali, porque, ao quebrar os ramos do inharé, a árvore sagrada, as fontes secavam e os animais tornavam-se ferozes.

Uma vez um missionário, de passagem por lá, tomou os ramos do inharé e com eles fez a cruz, que plantou na solidão do descampado.

Desde então as fontes e os pássaros não deixaram de cantar na terra de Santa Cruz do Inharé, assim batizada.

Terá esta lenda o sentido da vitória do Cristianismo, simbolizado pela cruz e pelo missionário, sobre o fetichismo indígena, que se revela no inharé, a árvore sagrada.

SANTA CRUZ – Município em 1876. Cidade em 1914. Situa-se no Agreste do Estado.

 A ANTA ESFOLADA

Esta lenda explica porque o antigo povoado de Anta Esfolada passou a chamar-se Nova Cruz.

Há muitos anos, existia ali uma anta possuída pelo demônio, terror das redondezas.

Pois, certa vez – era sexta feira – um caçador pegou-a na armadilha e resolveu esfolá-la viva, para tirar-lhe o “feitiço”. Mas, o que é fato é que a anta, nos primeiros talhos, deu um pulo enorme e, deixando o couro nas mãos do caçador, ganhou os matos. Assim esfolada, levou fama de mal-assombro, semeou medo nas noites do Agreste. Deu nome, até, ao povoado: Anta Esfolada.

Certa vez um missionário mandou vir de Santa Cruz uns ramos de inharé, a árvore sagrada e com eles fez uma cruz, que fincou na vereda por onde a anta costumava passar.

Nunca mais o bicho apareceu, e o lugar ficou chamado, daí em diante, Nova Cruz.

Sucede, porém, que o caçador, que prendera a anta – receoso demais – enterrou o couro nas areias do rio Curimataú, cujas águas tornaram-se salobras.

Diz-se que somente ficarão boas no dia em que se desenterrar o couro, com todos os seus pelos…

Manoel Dantas conta esta lenda em “Homens de Outrora” (Ed. Fac-similar, 2001). Diogenes da Cunha Lima valoriza-a na prosa poética.

NOVA CRUZ – Vila em 1968, transferindo-se para ela a sede municipal de São Bento. Cidade em 1919.

A SERRA DA NEGRA

Nas fazendas de gado do limite sudoeste do Seridó, no século XVIII, o braço escravo era empregado nos diversos trabalhos do campo.

Num desses lugares havia uma mucama que se apaixonou pelo filho do seu senhor, perdendo-se em um amor impossível.

Para fugir àquela sina, a negra enforcou-se num galho de árvore, no pé da serra, perto da fazenda.

Pois, desde então o lugar foi mal assombrado.

Caminhantes cortavam caminho por longe, para não ouvir os gritos terríveis que enchiam as noites de pavor. Alguns indivíduos temerários, que ousaram aproximar-se da árvore do suicídio, afirmaram haver visto, pousado ali, um grande pássaro, de asas brancas, a cabeça humana brilhando com um brilho esquisito, de arrepiar.

A assombração era motivo de conversas num raio de muitas léguas. Nas feiras das redondezas só se falava na serra da negra.

Perto da serra, assim batizada, brotou a povoação, hoje cidade de Serra Negra do Norte.

O detalhe das “asas brancas”, do pássaro é revelado por Manoel Dantas (Homens de Outrora”. Ed. Fac-similar, 2001) que, certamente, o recolheu da tradição oral.

SERRA NEGRA DO NORTE. Município em 1874. Cidade em 1938. Situa-se na zona do Seridó.

CANTOFA E JANDI

Em 1825 os índios de Portalegre revoltaram-se contra os moradores brancos da vila. Muito sangue correu.

Alguns índios foram presos, outros fugiram para lugares distantes. Só ficaram em Portalegre, escondidas nos sítios da serra, a índia velha Cantofa, cabeça do motim, e sua neta, a menina Jandi.

Certa vez, um morador descobriu-lhes o esconderijo, seguindo, ocultamente, Jandi, quando esta apanhava cajus no mato.

Espalhada a notícia, o povo partiu à procura das duas índias. Foram encontradas debaixo de um grande cajueiro. Cantofa, logo que avistou os seus perseguidores, ajoelhou-se diante de um pequeno oratório e começou a rezar o oficio de Nossa Senhora. Jandi implorava perdão para a sua avó. Nisto, um dos mais exaltados do grupo avançou sobre a velha e, no momento em que esta rezava…

“Deus vos salve! Relógio

Que andando atrasado

Serviu de sinal…”

…cravou-lhe um punhal, mortalmente, no peito.

No outro dia, o corpo de Cantofa foi enterrado ali mesmo.

De Jandi, que ficara desmaiada na cena anterior, nunca mais se teve notícia.

Dizem que, durante muitos anos, o lugar foi mal-assombrado. Quem passasse por ali ouvia estranha voz a rezar o ofício de Nossa Senhora.

Nonato Mota, conta esta lenda na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, vols. XVIII/ XIX.

Antônio Soares transformou-a em poema (V. “Lira de Poti”, 2ª. ed., 1971).

PORTALEGRE – Vila em 1761. Município em 1833. Cidade em 1938. Situa-se na zona serrana do Estado (Oeste).


LEIA TAMBÉM: Lendas de Estremoz

Antiga missão jesuítica, Estremoz tornou-se município em 1760. Foi um dos primeiros núcleos do povoamento no Rio Grande do Norte. O nome – Estremoz, com s – foi dado em homenagem à cidade portuguesa situada na região do Alentejo.

Em 1855, Estremoz perdeu a categoria de sede municipal para Ceará-Mirim, vindo a ser restaurado onze anos depois. Foi extinto em 1858 e restaurado, de novo, em 1963.

É um lugar mágico, de muitas lendas, todas estas remanescentes da era colonial.

O historiador Nestor Lima revelou esse manancial de histórias fantásticas (Conferência publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do RN, Vol. L). Câmara Cascudo também explorou, com engenho e arte, o mesmo veio.

Das inúmeras lendas, destacam-se três mais sugestivas, que bem atestam a presença dos missionários jesuítas, in ilo tempore.

O CARRO CAÍDO

Noite alta, ia um carro de boi pelo caminho de Natal a São Miguel de Guajiru, carregando o sino destinado à igreja da aldeia. Era noite de lua, e o carreiro, a certa altura, adormeceu.

Nas imediações da lagoa, estando o carro sem governo, os bois sentiram sede e encaminharam-se para a beira d’água. Mas, de repente, escorregaram e foram parar nas águas profundas. Aí ficaram sepultados carreiro, bois, carro e sino.

O lugar tornou-se conhecido como “Carro Caído”.

Pois conta-se que, desde então, quando é noite de lua, ouve-se pairando sobre a calma da lagoa, um dobrar de sino, o ranger longínquo do carro e a voz do carreiro, que abóia.(*)

OS MONSTROS DA LAGOA

Em remotas eras, duas imensas cobras, que moravam no fundo da lagoa, vinham pondo em alvoroço a aldeia. Estavam pegando, a cada dia, mais curumins e até gente grande.

Para acabar com o flagelo, um missionário, cujo nome a História não guardou, foi, um dia, benzer as águas da lagoa. Logo no dia seguinte, uma das cobras foi encontrada morta na beira d’água.

O outro monstro veio vindo da lagoa até a igreja, e tal era o seu tamanho que, colocando a cauda na porta principal, deu a volta ao templo, e veio botar a cabeça sobre a ponta da cauda. Ali mesmo morreu.

Esta lenda propagou-se entre os índios da missão, como exemplo do poder do Deus católico e do seu sacerdote.

O TESOURO

Ainda hoje, muita gente crê no “tesouro de Estremoz”, o qual teria sido deixado, ali, pelos jesuítas. Segundo a lenda, constituía-se das imagens dos doze apóstolos em ouro maciço, e está enterrado nas proximidades da antiga igreja, em uma galeria subterrânea.

Há muitos anos, Joaquim Honório, cidadão de Estremoz, sonhou com um frade que lhe indicou o local do tesouro. Honório e familiares cavaram no ponto indicado e deram com alguns sinais revelados no sonho, mas nada de ouro.

Outras pessoas fizeram escavações, em vão. Como o resultado disto, apenas a destruição do que restava do velho templo.

Das lendas e suas versões

(*) Sobre a lenda do “Carro Caído”, há um soneto de Antônio Soares. Clementino Câmara, em História e Geografia do Rio Grande do Norte (1952), que apresenta uma versão, conferindo ao carreiro a condição de preto velho feiticeiro, morador de Estremoz, que, por castigo, teve aquele fim. Henrique Castriciano aproveitou a lenda em um pequeno conto, divulgado por Câmara Cascudo em Folclore do Brasil.

Há também uma versão revelada por Eloy de Souza (transcrita em Leituras Potiguares, de Antônio Fagundes (1933) e Lendas do Brasil, de Gumercindo Saraiva (1984) e três outras, pelo jornalista Elias Souto, constantes do referido Lendas do Brasil.

A de Eloy de Souza encerra-se da seguinte maneira: “De repente, a junta dianteira já não toma pé na profundidade que a surpreende, e arrasta ao abismo igualmente o carro e a sua carga, perdendo-se no vazio da solidão o grito do velho carreiro, despertado daquela madorra para dormir o sono eterno.

“Conta-se que, no mesmo instante, algumas pessoas ouviram no povoado adormecido, as badaladas de um sino cuja sonoridade, vinda de muito alto, a imaginação popular guardou, numa interessante ilusão auditiva. E todos os anos, àquela hora, se repetiram os dobres num convite de prece pela alma do velho carreiro, afogado no pecado mortal.”


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Conheci o escritor Nelson Patriota há longos anos, e com ele sempre mantive laços de amizade e afinidades intelectuais. Éramos companheiros de geração, com os olhos voltados, teimosamente, para a literatura da nossa terra. Sua morte precoce, em janeiro deste ano, causou grande impacto emocional, deixou todo mundo triste e pesaroso.

Terceiro filho de Luís Patriota e Maria Waldemira Patriota, Nelson Ferreira Patriota Neto nasceu em Natal a 4 de novembro de 1949. Seu pai, homem de letras, cognominado “Poeta das Jangadas”, pertencia a uma tradicional família de Touros, praia da região norte do Estado, de onde também veio o escritor Nilson Patriota, a quem Nelson sucedeu na cadeira nº 8 na Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Como todo menino, Nelson tomou parte em brincadeiras com as crianças de sua rua, jogou bola e leu muitos gibis. Estudos no Ginásio São Luís, educandário católico, onde concluiu os cursos primário e secundário.

Certo dia, seu pai o presenteou com a coleção Monteiro Lobato para crianças, e ele mais que depressa leu as aventuras de Pedrinho, Narizinho, Emília, o Visconde de Sabugosa, Tia Anastáscia, Dona Benta, além de livros sobre história, como “Os Doze Trabalhos de Hércules”.

Em entrevista concedida ao escritor Thiago Gonzaga, constante do livro “Impressões Digitais”, vol. 1, Nelson diz a respeito desses livros: “Impressionou-me, especialmente, “A Chave do Tamanho”, em que o Visconde de Sabugosa reduz as pessoas a seres minúsculos, causando um grande tumulto no mundo. O livro me deu a primeira prova da força da literatura”

Por volta dos 23 anos, ainda engatinhando como aprendiz de poeta, Nelson deu uma guinada em seu itinerário intelectual, voltando-se inteiramente para a prosa, especialmente a ensaística. Foi quando ingressou no jornal “A República”, de Natal, repórter da área cultural e articulista. Desde então tornou-se um atento e criterioso observador da cena literária.

Em 1983 graduou-se em Comunicação Social, mas antes já obtivera o diploma de Bacharel em Ciências Sociais, ambos os cursos pela UFRN.

Havendo trabalhado em vários órgãos da imprensa natalense, na qualidade de redator e colunista, teve também atuação marcante à frente da editoria do jornal “O Galo”, órgão cultural da Fundação José Augusto.

No serviço público ascendeu às funções de sociólogo.

Eis, portanto, em síntese, um registro de sua trajetória existencial.

Crítico literário

A princípio, durante alguns anos, Nelson norteou suas atividades literárias pelo exercício da crítica. Como tal, desempenhou papel importantíssimo, contribuindo para a formação de milhares de leitores, ao mesmo tempo em que julgava, com absoluta isenção, autores e obras.

E nunca se sujeitou à camisa de força de certa linguagem especializada tão cara a determinados setores da nova crítica. Como humanista e artista da palavra, mostrava-se avesso ao que o grande Mário de Andrade denominou “limitação causada pelo conhecimento técnico”.

Além de crítico, Nelson era jornalista, poeta e ficcionista, daí o maior poder de comunicação de sua prosa.

Vale ressaltar que estas suas qualidades serviram-lhe, no exercício da crítica, quase sempre, para valorizar a literatura norte-rio-grandense. Poderia ter se voltado para obras e escritores consagrados a nível nacional e internacional. Mas, não; preferiu a prata da casa.

Há muito, ele nos devia um feixe de seus ensaios críticos dispersos em jornais e revistas do Estado. Felizmente, essa dívida foi resgatada, ou melhor começou a ser paga com o livro intitulado “Uns Potiguares” (Mossoró: Sarau das Letras, 2012).

Revitalizando a velha e boa crítica de rodapé, o autor enfoca nos artigos e pequenos ensaios reunidos nesse volume, vários escritores e livros norte-rio-grandenses, além de outros em menor quantidade, os quais identificam-se de certa forma com as nossas letras.

Aparentemente circunstanciais, por serem fruto da militância jornalística, esses escritos, na verdade, revestem-se de interesse permanente. Urgia, pois, salvá-los das coleções de jornais e revistas para a perenidade do livro.

Ficção e poesia

Escritor multifacetado, como está visto, Nelson Patriota cultuou diversos gêneros literários, porém estreou em ficção e poesia, com livros, já na casa dos sessenta.

Numa bela edição limitada, em formato de pocket book, lançou “Livro das Odes” (Natal: Sol Negro Edições, 2012). Poesia reflexiva, de prospecção sobre a problemática existencial, não raro em tons elegíacos, com um viés acentuadamente discursivo, porém sem derramamentos, semelhando, por vezes, poesia em prosa.

Ainda no campo da poesia, em parceria com Diógenes da Cunha Lima e Leita T. Cunha Lima Almeida, “Flores que Encantam o Brasil/ Charming Flowers of Brazil”, livro encantador (Natal: SESC/FECOMÉRCIO/EDUFRN,2013).

Nelson contista

Em outra vertente – o conto – três livros atestam a operosidade do autor, frutos tardios de um longo namoro com a ficção.

“Colóquio com um Leitor Kafkiano” (Natal: Jovens Escribas, 2009) reúne doze contos, alguns inéditos e outros já publicados em periódicos culturais. A partir do título, percebe-se alusões a Franz Kafka, escritor a quem o autor muito admirava.

Não só este, mas também outros ícones fazem-se presentes, de certa forma, num interessante diálogo da ficção com o ensaio literário. “Colóquio…” obteve boa receptividade por parte da crítica e do público, o que, com certeza, animou o autor a publicar novas coletâneas – “Um Equívoco de Gênero e Outros Contos” (Mossoró: Sarau das Letras, 2014), e “Prelúdio para um Cavaleiro da Mancha”(Recife: Bagaço, 2018), nas quais reafirma-se um erudito e arguto observador do comportamento humano.

Nelson Patriota pertence à linhagem de um Tchecov. Seus contos não são histórias com começo, meio e fim, não têm desfecho impactante, nenhum artifício para impressionar o leitor. Longe dele o anedótico, o causo. Preocupa-o, antes de tudo, a análise psicológica dos personagens, num contexto atual, urbano, de pequena classe média. Linguagem em consonância com a temática, e estilo não tão leve, mas vigoroso, tornam a leitura absorvente.

Romance

Tal como no conto e na poesia, a estreia de Nelson no romance também foi tardia. Lançou em 2015, “Tribulações de um Homem Chamado Silêncio” (Mossoró: Sarau das Letras) quando já completara 65 anos de idade.

Neste particular, assemelha-se a Polycarpo Feitosa, um dos maiores romancistas potiguares, cuja estreia se deu quando contava 61 anos.

“Tribulações de um Homem Chamado Silêncio” tem a sua ação romanesca centrada em Natal por volta dos anos 80 do século passado. Roman à clef, isto é, calcado em fatos e personagens reais sob disfarce ficcional, a exemplo de tantas outras obras congêneres, como “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto.

Um homem chamado silêncio é o jornalista Armando Lira, personagem-mor, em torno do qual desenrola-se a narrativa, tendo como pano de fundo, quase sempre, a redação do jornal “A Voz Pública” (seria o finado “A República?). Figura fora de série, Armando desperta atenção pelo seu inusitado modo de ser: introspectivo, arredio, um tanto misterioso.

Fatos aparentemente banais, no dia a dia de uma redação de jornal, são valorizados pelo narrador, também jornalista (alter ego do autor?), que sabe extrair deles a surpreendente notação psicológica.

Em última análise – devo ressaltar – a narrativa constitui um corte vertical na vida: não tem propriamente enredo nem trama; não pretende distrair o leitor com descrição de episódios hiperdramáticos, tampouco com anedotas, mas, acima de tudo, propõe-se a desvendar segredos do comportamento humano e debater ideias.

No final, o narrador (já agora parece ser o próprio autor) faz uma longa digressão sobre a trajetória existencial de alguns dos seus familiares, digamos, icônicos, numa tentativa de estabelecer um paralelo com a história de vida dos personagens Armando e sua mulher, Adélia.

Mas, convenhamos, tal artifício não fica bem “costurado”. Apesar deste pequeno senão, “Tribulações…” é um romance digno de ser lindo com todo o interesse.

Por último, Nelson Patriota lançou “Caderno de Espantos Seguido de Vaticínios na Língua do Não” (Natal: 8 Editora, 2019).

Reflexão, poesia, ficção, humor, tudo isto de forma fragmentária, expresso numa linguagem sutil, plena de metáforas – eis, em suma, o conteúdo desse “caderno”, misto de diário íntimo e jornal literário. Um livro para se ler e reler.

Tradutor e memorialista

Resta dizer sobre a obra de Nelson Patriota que ele, a par com a sua criatividade artística, muito contribuiu de outro modo para o desenvolvimento cultural do seu Estado: traduziu vários livros, organizou outros tantos, participou de obras coletivas e atuou como uma espécie de ghost writer na elaboração de dois livros significativos da memorialística norte-rio-grandense: “A Estrela Conta”, de Glorinha Oliveira, e “No Outono da Memória”, de Ubirajara Macedo.

Ecce homo… Considero-o, dentre os escritores potiguares, a mais perfeita encarnação do intelectual, do scholar, do bibliófilo, tomada esta palavra não no sentido de colecionador, mas, sim, de amigo dos livros.


(Texto adaptado do discurso de saudação a Nelson Patriota quando de sua posse na cadeira nº 8 da ANRL)


FOTO: Magnus Nascimento

Livro novo na praça: “Sobre Livrarias & Bibliotecas”, de Marcelo Alves Dias de Souza, numa primorosa edição, fartamente ilustrada (Natal: Livros de Papel; Sebo Vermelho). Informa o autor que não haverá lançamento formal, por causa da pandemia.

Coube-me a honra de escrever o texto para a orelha desse notável trabalho.

Escritor e Procurador Regional da República, integrante do Ministério Público Federal, Marcelo Alves Dias de Souza divide-se entre a Literatura e o Direito. Aliás, talvez seja melhor dizer que, ao invés de dividir-se, ele se multiplica nessas duas vertentes – arte e ciência.

Em seu novo livro, o jovem e já experiente autor, enfeixa crônicas de sua autoria, publicadas no jornal “Tribuna do Norte”, de Natal, no período compreendido entre 2009 e 2019.

Apesar do seu caráter um tanto circunstancial, esses escritos constituem-se em matérias de interesse permanente, merecendo, portanto, a perenidade que lhe confere a publicação em livro.

Ao contrário do que se possa pensar, não se trata de mero catálogo ou simples enumeração de livrarias e bibliotecas célebres, mas, sim de um relato vivo e apaixonante das experiências do autor em seus contatos com o mundo dos livros.

Numa prosa fluente e clara, em tom de conversa entre amigos, não se limita a historiar e descrever livrarias e bibliotecas pelo mundo afora, mas aprofunda-se em reflexões e comentários sobre livros, especialmente os de Literatura e Direito – autores, instituições culturais, etc., revelando conhecimento de autêntico bibliófilo (não colecionador de raridades – entenda-se – mas simples amigo dos livros), e o faz sem ostentar a erudição de que é possuidor.

Atenção especial desperta a linguagem descontraída aliada à leveza de estilo com que se constrói a narrativa. Sirva de exemplo o trecho que transcrevo a seguir, no qual se refere à livraria “Ecume des Pages”, situada em Saint-Germain-des-Prés, Paris, vizinha do famoso Café de Flore e a dois passos do não menos famoso Café Les Deux Magots:

“Com ou sem um livro na mão, pare por ali, escolha um dos três estabelecimentos e sente. Peça um café e veja a rua passar.”

Acho que ninguém mais do que Marcelo Alves Dias de Souza reuniria tantas qualidades para escrever sobre livros, livrarias e bibliotecas do mundo inteiro, porque, além de escritor e leitor contumaz, Marcelo costuma viajar por “Oropa, França e Bahia” sempre que lhe sobra tempo das suas atividades profissionais.

De espírito cosmopolita, mas ligado a sua terra (nasceu e se criou em Natal; tem raízes familiares em Angicos e Umarizal) realiza, com muita inteligência e sensibilidade, o que se convenciona rotular de turismo cultural.

Sem dúvidas, “Sobre Livrarias & Bibliotecas”, vem preencher uma lacuna (com perdões pela expressão lugar-comum), na bibliografia específica, não sendo exagero considera-lo digno de figurar ao lado de um clássico como “Os Livros, Nossos Amigos”, de Eduardo Frieiro. Leia-o, caro leitor, e tire prova do que digo.

História de Mossoró

“Notas e Documentos para a História de Mossoró”, de Câmara Cascudo, é um livro que não deve faltar na estante de todo bom mossoroense.

Publicado em 1955 (Natal: Departamento Estadual de Imprensa”) já se encontra na 5ª edição (Mossoró: Fundação Vingt-un Rosado, 2010).

Segundo Cascudo, a fazenda Santa Luzia, de propriedade do português Antônio de Souza Machado, foi o embrião do povoado do mesmo nome, atual cidade de Mossoró.

“A fixação derredor do arraial avolumar-se-á depois de 1760 e um índice desse adensamento é a construção da capelinha de Santa Luzia em 1772” (págs. 31 e 32 da  1ª ed.). Mas a história não começa aí, “mas em 1701 com a residência dos frades carmelitas na serra do Carmo”. Essa serra, prolongamento da chapada do Apodi, fica a “cerca de 30 quilômetros a leste da cidade de Mossoró”.

Em 1842 cria-se a Freguesia, desmembrada da Freguesia do Apodi. Primeiro vigário colado, o padre Antônio Joaquim, “pastor durante 51 anos”.

A Resolução nº 246, de 15 de março de 1852, elevou a povoação de Santa Luzia de Mossoró à categoria de vila, sede municipal. E esta vai progredindo… Tanto que, em 1870, torna-se a Cidade de Mossoró.

Sucedem-se as administrações municipais, minuciosamente relatadas. A propósito diz o autor: “Creio que é raro encontrar-se presentemente quem tenha lido todas as atas da Câmara Municipal de Mossoró no Império, Conselho da Intendência na República e Câmara de Vereadores, uma por uma, sem saltar. Tenho este título. Conheço-as todas…”

Além desta fonte, refere outras, igualmente valiosas: Coleção do Boletim Bibliográfico (publicação mossoroense), jornais, relatórios de Presidentes da Província e do governo municipal, o “Mossoró” de Vingt- un Rosado e o “Mossoró” de Nestor Lima. E, especialmente, as informações de Francisco Fausto, historiador regional, de quem, aliás, transcreve artigo inédito sobre “a abolição da escravatura em Mossoró”. “Sem Francisco Fausto não é possível avançar-se na história de Mossoró até certo ponto perdida e confusa. Foi um benemérito”. (pág. 214).

Ficcionista, poeta e ensaísta, José Bezerra Gomes (1911-1982) alcança os seus melhores momentos nesse que é o menos conhecido dos seus romances – “Por que não se casa, doutor?” (1). Sem dúvidas, trata-se de uma pequena obra-prima.

O enredo, muito simples, tchecoviano, não tem lances dramáticos, não tem suspense, nada de artifícios para impressionar o leitor; limita-se apenas a narrar, como num diário íntimo, fatos cotidianos, corriqueiros.

A ação romanesca transcorre em Belo Horizonte, por volta da terceira década do século XX. Flávio, principal protagonista e narrador, jovem recém-formado em Direito, não se anima a seguir a carreira jurídica, conforma-se com o emprego de amanuense em uma repartição pública.

Tímido, sem espírito de iniciativa, anseia por um amor, que lhe dê sentido à vida, mas vive a perambular pelos prostíbulos da cidade, gastando o seu parco salário em rodadas de chope, quando não está na pensão barata, onde mora, obrigado a conviver com uns tipos vulgares, pequeno-burgueses sem horizontes, que ele descreve com muito senso crítico.

“-Por que não se casa, doutor?” – costuma perguntar-lhe a dona da pensão, na esperança de lhe dar, em casamento, sua filha já um tanto “passada”. E por aí vai a narrativa, numa prosa fluente e clara, a linguagem calcada no linguajar nordestino, com a marca de um autêntico estilista.

Obra digna de situar-se entre os bons romances brasileiros da modernidade, “Porque não se casa, doutor?” ficou esquecido na modorrenta província literária, longe dos grandes polos culturais. Uma pena.

Os Brutos

Afora o livro referido, José Bezerra Gomes tentou construir uma trilogia ficcional, cujo primeiro volume – “Os Brutos” – saiu em 1938, com o selo Irmãos Pongetti Editores, do Rio de Janeiro (2).

os-brutosRomance ambientado no interior do Rio Grande do Norte, “Os Brutos” insere-se no Regionalismo Nordestino de 30, embora não seja sequer mencionado pelos críticos e pesquisadores que estudam esse movimento literário a nível nacional.

Com a pequena saga de “Os Brutos”, Bezerra Gomes pretendia iniciar o “Ciclo do Algodão”, a exemplo do que José Lins do Rego fizera em relação ao mundo dos engenhos de açúcar.

Lamentavelmente, seu projeto literário não se concretizou. A doença cortou a carreira de um promissor ficcionista, que ainda nos legou, além de vários contos, a novela “A Porta e o Vento” (3), obra fragmentária, que deixa a desejar, parecendo inacabada.

José Bezerra Gomes contista

Vale dizer, ainda sobre o ficcionista, que o seu conto “João Arruma as Malas”, publicado, inicialmente, no Jornal do Commércio, do Recife, 1941, foi escolhido por Nei Leandro de Castro para a antologia “Contistas Norte-rio-grandenses” (1966).

José Bezerra Gomes escreveu contos, publicados nos jornais de Natal, Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, “que dariam um volume” – afirma Nei Leandro de Castro, em nota bibliográfica. Infelizmente, tais contos ainda estão dispersos,

José Bezerra Gomes ensaísta

jose_bezerra_gomes-escritrorNo campo do ensaio, José Bezerra Gomes é autor de dois livros: um elogiado estudo sobre a vida e a obra do maior poeta romântico norte-rio-grandense – “Retrato de Ferreira Itajubá” – (4) e uma monografia de interesse histórico e geográfico, trabalho de menor importância em sua obra, começado em 1951 e só terminado em 1975 – “Sinopse do Município de Currais Novos” – (5), e um livreto -“Teatro de João Redondo” (6) ,extrato, pelo autor, de sua tese “O Brinquedo de João Redondo”, aprovada pelo I Congresso Brasileiro de Folclore (Rio de daneiro,1951).

O primeiro destes trabalhos, lançado em 1944, deveria ser reeditado, pois, embora sucinto, constitui-se em um dos melhores estudos, senão o melhor, sobre a vida e a obra de Itajubá.

José Bezerra Gomes poeta

Poeta, redescoberto na década de 1970, José Bezerra Gomes vem despertando crescente interesse, especialmente depois que as vanguardas mostraram afinidades com ele.

Parece-me que a simpatia que lhe dedicam esses movimentos antiliterários provém do que Luís Carlos Guimarães denominou de “anti-verso”, na introdução à “Antologia Poética” (7) do bardo currais-novense, seu conterrâneo, por sinal.

Bezerra Gomes desbasta de tal maneira o verso que, em sua obsessiva concisão, vai além do haicai. Tem poemas de uma só palavra: Quem assim prescinde das opulências do Verbo, não poderia deixar de agradar aos que renegam a palavra fluente, em especial os concretistas e o pessoal do poema-processo. Daí a reabilitação, que se fez, desse modernista não histórico.

Mas, à parte esses aspectos formais, o que importa, sobretudo, é a essência poética, valor intemporal – o apelo telúrico de poemas como “Mealheiro” e “O Cântico da Terra”; a indagação existencial presente em quase tudo; o senso profundo de humanidade.

Biografia

José Bezerra Gomes nasceu no sítio Brejuí, município de Currais Novos (RN), a 9 de março de 1911. Pertencente à tradicional família, seu pai, Napoleão Bezerra de Araújo Galvão, era filho do Coronel José Bezerra de Araújo Galvão e cunhado do Desembargador Tomaz Salustino; sua mãe, D. Veneranda Bezerra de Melo, filha do Coronel Luiz Gomes de Melo Lula e D. Maria Idalina da Rocha.

Gomes, como era chamado em família, viveu a sua infância no sertão do Seridó, sua terra-berço, “cenário e drama de toda sua criação literária” (8).

Fez o curso primário no Grupo Escolar Capitão-mor Galvão, em Currais Novos, e o ginasial de madureza no Atheneu Norte-rio-grandense, Natal.

Bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, tendo colado grau no dia 7 de Setembro de 1936. Não sei por que motivo foi estudar em Minas, quando, naquela época, era a Faculdade de Direito do Recife a grande atração para os jovens nordestinos com aspirações ao bacharelato.

Dr. Gomes não quis seguir a carreira jurídica. Embora inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, quase não exerceu a advocacia. Há notícia de que viajou, por duas vezes, a Portugal, na defesa de uma causa.

Voltando a morar em Currais Novos (1941), fez uma incursão pela política partidária. Tinha, diga-se de passagem, ideias socialistas. Eleito vereador à Câmara Municipal de Currais Novos, apresentou projeto de lei, instituindo a Diretoria de Documentação e Cultura da Prefeitura de Currais Novos, “com a função de órgão destinado a zelar pelo patrimônio histórico e cultural do Município”. (9). Foi o primeiro diretor e organizador do referido órgão.

Ainda em Currais Novos, Dr. Gomes participou da elaboração do estatuto do Centro Esportivo Currais-Novense (Aero-clube de Currais Novos) e foi seu diretor cultural durante dez anos (1941/51).

Não consegui apurar em que ano veio para Natal. Viveu em companhia da mãe, numa casa modesta da rua dos Pajeús, no bairro do Alecrim.

Era frequentador habitual do Café São Luiz, no centro da cidade. Vi-o, muitas vezes, ali. Bati ligeiros papos com ele. Achava-o excêntrico. Parece que estou vendo: estatura mediana, troncudo, cabeça arredondada, imensa careca, vestia sempre um paletó surrado. Tinha nos lábios finos, permanentemente, um meio sorriso irônico. Os olhos, muito pequenos, soltavam chispas. O modo de andar chamava atenção. Andar de pato…

Ofereceu-me, certa vez, um exemplar do seu “Retrato de Ferreira Itajubá”, verdadeira raridade bibliográfica. Pela data da dedicatória verifico que ele tinha, então, 57 anos de idade. Aparentava mais.

Morreu em Natal, no dia 26 de maio de 1982.

Em homenagem ao poeta e escritor, instituiu-se, em Currais Novos, pela Lei Municipal nº 1191, de 1990, a Fundação Cultural José Bezerra Gomes, com sede naquela cidade, instalada a 17 de março de 1993.

Grande escritor, ainda sem o devido reconhecimento, dele se poderia dizer o que disse Andrade Muricy sobre Auta de Souza: “Eminente e humilde.”


NOTAS

  1. Natal: Edição Surto,1944. 2a. ed. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores,1945. 3ª. ed. (in “Obras Completas-Romances”), Natal: Editora da. UFRN,1998.
  2. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores,1938, 2a. ed. Natal: Editora da UFRN, 1981. 3ª. ed. (in “Obras Completas-Romances”), Natal: Editora da UFRN,1998.
  3. Natal: Fundação José Augusto, 1974. 2ª. ed. (in “Obras Completas-Romances”), Natal: Editora da UFRN, 1998.
  4. Natal: Edição Surto,1944.
  5. Natal: sem indicação de editora,1975.
  6. Natal: Fundação Jose Augusto, 1975.
  7. Natal: Fundação José Augusto, 1974.
  8. Nota biográfica in “Teatro de João Redondo”.
  9. José Bezerra Gomes. “Teatro de João Redondo. Natal: Fundação José Augusto, 1975, p. 21.

No próximo mês de dezembro será reinaugurado – em data a confirmar – o Museu Histórico de Martins, importante melhoramento cultural para aquela cidade serrana, de interesse não apenas histórico, mas também turístico.

Fundado em 1955, por iniciativa particular, o museu sobreviveu precariamente ao longo das décadas, graças aos esforços de alguns abnegados martinenses.

Seu acervo composto de imagens e objetos de arte sacra, louças, móveis antigos, galeria de vultos ilustres, etc. – sempre deixou a desejar, tanto assim que a maior atração, para quem o visitava, era a própria sede, uma belíssima construção de 1871, verdadeiro monumento arquitetônico.

Agora, o velho sobrado, primorosamente restaurado, passa a abrigar um bom museu histórico, digno de figurar entre os melhores do Estado.

Projeto museográfico

Conforme consta no projeto curadorial e museográfico, elaborado pelo professor Jairo José Campos da Costa, “após o restauro que durou, aproximadamente, 4 anos, através de emenda do ex-senador José Agripino Maia, a partir de uma articulação da prefeita Olga Chaves Fernandes de Queiroz Figueiredo, começou-se o planejamento e a execução da curadoria e da museografia.

“O projeto curadorial e museográfico foi elaborado a partir do acervo de mobiliários tradicionais, peças de arte, antiguidades, fotografias preto e branco, livros antigos existentes no acervo permanente, como também algumas doações e empréstimos feitos pelas famílias martinenses, e ainda, algumas aquisições feitas pela prefeitura em galerias e antiquários de Natal”.

Após descrever a disposição das peças em cada um dos três pavimentos do prédio do museu, informa o projeto que, nestes ambientes, bem como nos corredores serão afixados textos curatoriais, em técnicas plotagem de recorte em adesivo “contendo explicações de cada espaço, como também destacando fatos importantes da História do Município de Martins. Ainda serão afixadas nos ambientes e nos corredores telas de renomados artistas potiguares, dentro da proposta de cada espaço, doadas /emprestadas pelo filhos martineneses Onofre Neto e Zé Augusto”.

E acrescenta:

“O material mais importante e antigo ficará sobre bases de vidro e cobertos com redoma protetora para impedir toques e avarias”

No final, destacam-se aspectos técnicos relativos ao restauro do prédio-sede, funcionamento do museu, etc.

O autor do projeto e curador professor Jairo José Campos da Costa é mestre e doutor em Letras. Atualmente, faz Mestrado em Museologia na Universidade Federal da Bahia. Natural de Francisco Dantas (RN), mantém naquela cidade oestana o Museu de Cultura Popular.

Breve História do Sobrado

O artista plástico Carlos José Marques retratou o sobrado em um belo álbum de serigrafias – “Roteiro Histórico e Cultural do Rio Grande do Norte”, vol II (Natal, Secretaria de Educação e Cultura, sem data) – texto de minha autoria.

Consta do referido álbum a seguinte nota, com base nas informações de que eu, então, dispunha.

“O Sobrado de Martins foi construído em 1871, para ser residência de um ricaço local.

Boa parte do material de construção veio de fora. As pedras para a sacada da varanda, vieram de Souza (PB), em lombo de burro, por ser, então, impossível acesso à serra por carro-de-boi.

Pertenceu o Sobrado ao Senador Almino Afonso – informa-nos Manuel Onofre de Andrade em seu livro “A Abolição Antes da Lei Áurea”, biografia do abolicionista e republicano histórico:

“E assim, no auge de sua fortuna, adquirira o mais imponente edifício da então, próspera cidade do Martins, cidade climática, ao tempo citada na Alemanha para cura da tuberculose, antes do pneumotórax (em 1923 ainda vi cariocas, atacados do mal, irem fazer, ali, estação de cura).”

Adianta-nos o historiador:

“Tivera o amplo prédio o destino de sede do Colégio 7 de Setembro, transferindo-se de Mossoró para a cidade serrana, em agosto de 1904. Ainda depois de doado, nele funcionara o Orfanato Abigail Afonso, nome de sua consorte, e foi sendo, sucessivamente, museu, escola de comércio, jardim de infância, banda de música e Cosern (Cia. de Serviços Elétricos do Rio Grande do Norte) ” ( pág.99).

Ao correr dos anos abrigou o anexo do Ginásio, Secretaria Municipal de Educação e Cultura e Biblioteca Pública Municipal.

Muito alto e majestoso, o sobrado impressiona. É o maior do Estado. Inspirado em sua fachada Dorian Gray fez o desenho de capa do livro “Martins – Sua Terra, sua Gente”, de minha autoria, (1966).

Sobrado de Almino Afonso (?)

Diz-se que o Sobrado pertenceu unicamente, ao Senador Almino Afonso. Será verdade?

Compulsando os autos do inventário dos bens deixados por falecimento do Tenente-Coronel José de Souza Martins Pereira e sua mulher, Emília Cândida de Souza, constatei que o Sobrado, de propriedade do casal, transmitiu-se por herança, em parte, à sua filha Abigail Cândida Alvares Affonso, mulher do deputado federal Almino Afonso, depois Senador.

Abigail e seu irmão João Emiliano tiveram partes maiores, no Sobrado, mas, vários outros herdeiros também foram aquinhoados.

É provável que o Dr. Almino Afonso, homem de posses, tenha comprado as partes dos cunhados, tornando-se único proprietário.

Em 1940, dentro dos festejos comemorativos do centenário da Paróquia de Martins, instalou-se no prédio um Orfanato, que recebeu o nome de Abigail Affonso.

Mas, ao que tudo indica, o ilustre parlamentar não residiu no Sobrado. Talvez ocupasse em períodos de férias.

Não tenho dúvidas em dizer que o verdadeiro Senhor do Sobrado não foi Almino Afonso, como se propala, mas sim, José de Souza Martins Pereira, que o construiu e nele residiu por muitos anos, com sua família.

Museu Coronel Demétrio Lemos

A cidade de Martins, antiga Imperatriz, de muitas tradições culturais, conta com outro museu, este, pequeno porém muito interessante – Museu “Coronel Demétrio Lemos”, instalado em dependências do antigo Grupo Escolar “Almino Afonso” (atualmente Escola Estadual).

Compõe o acervo, além de alguns móveis e objetos antigos, uma coleção de estatuetas neoclássicas e art-nouveau, em bronze e gesso, doações do Coronel Demétrio, um benemérito da terra.

São dezenas de peças, a maior parte de indiscutível valor histórico e artístico. Pelo menos, umas cinco – figuras de Miguel Ângelo, Guttemberg, Galileu, Júlio Cesar e Milton – em maiores proporções, cerca de meio metro de altura, causam especial impressão. Sem dúvidas, um raro conjunto.

Na biblioteca do antigo Grupo Escolar, algumas raridades bibliográficas, também doadas pelo Coronel Demétrio, entre as quais edições de luxo, em formato gigante, de “Os Lusíadas”, “O Inferno”, de Dante, e “Orlando Furioso”, de Ariosto, com ilustrações de Gustave Doré.

Pouca gente, hoje em dia, comunica-se através de cartas. Dá-se preferência ao telefone, à internet.  É o avanço tecnológico. Já se fala, mesmo, no advento de uma civilização ágrafa, e que não apenas a carta, mas, de modo geral, a palavra escrita tornar-se-á obsoleta.

Eu me confesso, desde logo, nostálgico da velha e boa carta. Considero-me um dos sujeitos menos ágrafos sobre a face da terra…. Sempre atendo ao chamado das letras, embora na certeza de que, para expressar-me terei de entrar em luta com elas.

Claro, mantenho correspondência, de natureza literária, com escritores cujas cartas guardo cuidadosamente.

Há tempos, remexendo em meu arquivo pessoal, veio-me a ideia de publicar uma seleção dessas cartas. Refleti: por que deixá-las na gaveta se algumas constituem-se em pequenas obras de arte?

A ideia concretizou-se num volume, que saiu em edição limitada, fora de comércio sob o título O Chamado das Letras.

Trinta e três cartas compõem o livro, devidamente anotadas, sendo que algumas de autores vivos e atuantes (Assis Brasil, Hildeberto Barbosa Filho, Iran Gama, Jarbas Martins, Nei Leandro de Castro) e outras de escritores já falecidos (Ariano Suassuna, Cosme Lemos, Fagundes de Menezes, Homero Homem, Manuel Onofre de Andrade, Nilo Pereira, Nilson Patriota, Paulo Pimenta de Mello, Pedro Simões Neto, Raimundo Nonato da Silva, Umberto Peregrino, Vingt-un Rosado) e nove de meu próprio punho, salvas da cesta do lixo.

Em 2015, saiu a 2a edição (Natal, CJA), em parceria com Thiago Gonzaga, que escreveu substanciosa introdução. Acrescentamos cartas de cinco escritores (Clauder Arcanjo, Genival Rabelo, Hudson Paulo Costa, Mário Gerson, Murilo Melo Filho) e excluímos as de minha autoria, além de outras.

Bastidores da vida literária

Há nessas cartas revelações interessantíssimas sobre os bastidores da nossa vida literária. Isso é que, com certeza, despertará mais atenção. Mas, também, há, em meio à “conversa epistolar”, reflexões, tiradas poéticas, informações várias, mil coisas mais.

Creio que essa seleta, se outros méritos não tiver, valerá como documento não só para a História da vida literária, mas, também para a biografia de alguns dos seus vultos mais importantes.

Vejamos a seguir uma amostra significativa, com diversos fragmentos.

ARIANO SUASSUNA

Dramaturgo, ficcionista e poeta, membro da Academia Brasileira de Letras, diz:

“Não sei se você sabe disso, mas meu bisavô era pernambucano, da família Cavalcanti de Albuquerque. Era do ramo que tinha o apelido de Suassuna e foi quem, da família, em 1822, por nativismo, adotou o nome indígena. Ele foi para o Rio Grande do Norte, muito moço, com um seu parente mais velho que ia governar o Estado. E aí, no Rio Grande do Norte, terminou se fixando, como boiadeiro e criador de gado. Dessa maneira, meu avô paterno, Alexandrino, nasceu na Serra do Martins. Meu Pai e eu é que nascemos na Paraíba, mas a família Suassuna ainda hoje é “fronteiriça” – um pedaço em Catolé do Rocha, outro distribuído pelo Rio Grande do Norte, principalmente no Patu”.  (Recife, 21-06-1974).

ASSIS BRASIL

Ficcionista, ensaísta, crítico literário:

carta assis brasil“Aqui vai a lista provisória dos poetas da terra para a antologia “A Poesia Norte-rio-grandense no Século XX”. Veja aí; talvez possamos acrescentar mais uns seis ou sete nomes e / ou subtrair outros. Deixo isso a seu critério que está mais “próximo” do que eu.

Talvez possamos incluir Cosme Lemos e / ou Martins de Vasconcelos, representando Mossoró. Precisaria então de dados bibliográficos deles” (Rio de Janeiro, 14-10-1996).

O livro “A Poesia Norte-rio-grandense  no Século XX” foi publicado em 1998 (Rio de Janeiro: Imago Editora / Natal: FUNCART), com organização, introdução e notas de Assis Brasil. Ao elenco inicial juntaram-se mais dois poetas de Mossoró, Aécio Cândido e R. Leontino Filho.

CLAUDER ARCANJO

Ficcionista, cronista, poeta e editor:

“As cartas aos amigos, além de nunca serem ridículas, são o melhor bálsamo para as torpes querelas do mundo. Querelas que querem nos levar aos esgotos do pessimismo, mas nós, sonhadores, não somos de esgotos. Podemos até, como dizia Baudelaire, sermos meio desengonçados no solo, mas nas asas de um texto, de uma poesia, transmutamo-nos em bela ave, nem sombra do albatroz desajeitado.” (Mossoró, 18-06-2004).

COSME LEMOS

Poeta:

“Vou, aos 75 anos, de ar tranquilo no meu dever profissional cumprido, sentindo a vida em fuga, ao sabor do câncer e da esclerose e, INFELIZMENTE, dúbio na crença, mas amando (muito !!) ao meu DEUS-HOMEM-JESUS.

A morte vem pertinho…” (Natal, 30-08-1979).

FAGUNDES DE MENEZES

Jornalista, ficcionista e poeta:

“Estou para publicar um livro de poemas que é uma espécie de reação a essa poesia, cerebral geométrica às vezes e ás vezes charadística, tão frequente nos últimos tempos. Uma reação consciente a versos que, a meu ver, não constituem poesia, antes disfarçam a indigência mental de seus autores. Creio que precisamos de um neo-romantismo, sem o sentimentalismo de alguns românticos e, ao mesmo tempo, de uma poesia sem a rigidez formal dos parnasianos.” (Rio de Janeiro, 06-04-1998).

HOMERO HOMEM

Poeta e ficcionista:

Falando sobre o seu livro “Terra Iluminada”: “Nosso estado, teve e tem muitos bons poetas. Mas senti que faltava um livro de poesia abrangente, pegando tudo de essencial reduzido a estado de puro lirismo: histórico, geográfico, psicológico, social, compromissado e/ou puramente humano, humanamente descompromissado e/ou compromissadamente político”. (Rio de Janeiro 07-11-1978).

Terra Iluminada, única obra poética que tem o Rio Grande do Norte, totalmente como tema, publicou-se em 1979 (Rio do Janeiro: Presença Editora/ Natal: UFRN).

JARBAS MARTINS

Poeta e escritor:

É a vida, amigo, que no final é isto mesmo: busca, reencontro e dispersão. O que nos marca mais na vida é o seu caráter transitório. Nascemos sob o signo da perda: do paraíso, do ventre materno. O resto são desvios para não darmos com a Perda Final (Açu, 17-03-1978).

NEI LEANDRO DE CASTRO

Poeta e ficcionista:

“Estou alinhavando um novo livro de poemas, chamado Diário Íntimo da Palavra, algo um tanto diferente do que tenho feito nos últimos livros que publiquei. É, como diz o título, uma espécie de diário íntimo em forma de poesia, confissões poéticas, a intimidade da palavra. Mas eu acho que não trato a poesia como ela merece. Desprezo-a como quem despreza uma amante linda, terna, eterna, etérea, maravilhosa. E o mais estranho é que, quando volto para ela, depois de mil pelejas com o romance, ela me recebe de braços abertos, de pernas abertas, com todos os beijos de sua boca”. ( Rio de Janeiro, 06-01-1995).

VINGT-UN ROSADO

Escritor, polígrafo e animador cultural:

Referindo-se ao então diretor da Escola Superior de Agronomia de Mossoró:

“O diretor entende que a ESAM não pode perder tempo com a Coleção Mossoroense, embora nos 2.281 títulos publicados, mais de 500 digam respeito às ciências agrárias, cerca de 1.000 títulos (livros, folhetos e artigos) ao problema da seca.

Não tenho certeza se o trabalho que comecei em 1948 ainda vai muito longe” (Mossoró, 14-04-1993).

Houve um tempo em que a cidade de Natal, ainda lírica e provinciana, tinha o seu centro de convivência, a sua ágora, lugar onde todos se encontravam.

Corriam os anos de 1960. Nas calçadas da Rua João Pessoa, trecho compreendido entre a Princesa Isabel e a Av. Rio Branco, as rodas de conversa se formavam pela manhã, de tardezinha, e à noite.

As pessoas – políticos, funcionários públicos, profissionais liberais, estudantes, etc. – batiam papo, comentavam notícias do dia, falavam da vida alheia, entre um cafezinho e outro tomados no Café São Luiz, a alguns passos. E sempre arriscavam um olho no mulherio que ia passando, vindo das compras. Neste espaço de muitas tradições – o Grande Ponto famoso – as mulheres não paravam. Por que?

Verdadeira universidade popular, o Grande Ponto era tudo isso e algo mais. Hoje, decadente, sem sombra do que foi, dá pena.

Lembro, com saudades, o bulício daquele pequeno mundo. Boatos, planos (políticos ou não) discussões, intrigas, amizades, comentários sobre futebol, tudo vivia no clima de comunicação fácil. Quanta coisa importante, quantos empreendimentos, quantos poemas teriam nascido ali.

Mercearia

A história do Grande Ponto começa com o bar Mercearia que ali havia, com esse nome, há muitas décadas. Ficava, exatamente, na esquina da Av Rio Branco com a Rua João Pessoa, onde se encontra o Edifício “Amaro Mesquita”.

Para a cidadezinha de então, o bar servia de ponto de encontro, continuava a tradição dos cantões. Com o passar do tempo, o número de frequentadores foi crescendo, sobrando da sala, já pequena para a calçada.

A AVENIDA SUBMERSA

Uma das principais vias públicas de Natal, a Avenida Deodoro da Fonseca, mais conhecida como Avenida Deodoro, atravessa o bairro da Cidade Alta de ponta a ponta, começando em uma ladeira – a do Baldo – e terminando em outra – a da antiga Rádio Poti, ou vice-versa.

Durante o ano de 1955, ainda adolescente, morei na casa de nº 814, situada quase no cruzamento com a Rua Apodi, ao lado do Colégio Marista. Era a casa do meu avô materno João Vicente da Costa.

Três anos depois voltei a morar lá e lá permaneci, como hóspede do meu avô por mais dois ou três anos. De modo que a Avenida Deodoro foi um cenário marcante da minha juventude, que me deixou saudades. Era o meu caminho, da casa do meu avô ao Cine Rio Grande, quando vim do interior, e logo fiquei tocado pela magia do cinema; depois tornou a ser o meu caminho em procura do Grande Ponto.

Nesse percurso diário tornei-me íntimo da avenida. Meus passos por lá ficaram nas calçadas, até que aquilo tudo foi destruído, muitos anos depois, em nome do progresso.

Hoje, quando passo entre as ruínas que sobraram, sinto algo me machucar dentro do peito… Resta-me o consolo de reconstruir, na memória, proustianamente, aquelas casas que tanto me viram passar.

Elite natalense

Ao lado da residência do meu avô morava Seu Messias Soares, pai do jovem Ernani Rosado, futuro médico, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Mais acima, na esquina com a Rua Apodi situava-se a casa do deputado Aderson Dutra, de Patu; em sequência, sempre na direção do centro ficavam o pequeno bangalô do comerciante Carlos Silva, a casa dos Matosos e a vivenda de Rui Pereira, senhor de engenho, do Ceará-Mirim (tempos depois, demolida, construir-se, no local, uma bela casa, em estilo moderno, residência do casal Denise Pereira – Arnaldo Gaspar, casa esta também demolida).

Duas quase mansões, geminadas, vinham a seguir, morada dos irmãos Militão e Raimundo Chaves, comerciantes originários de Pau dos Ferros, donos do Armazém Natal, uma das maiores lojas de secos e molhados existentes em Natal, naquela época.

No outro lado da avenida, onde hoje se encontra a sede da Procuradoria Regional da República, uma casa rodeada de terraços, com um jardim acolhedor à frente, era a residência do cônego Luiz Wanderley, professor, orador sacro e latinista emérito, pároco da Igreja do Rosário, onde era moda realizar-se os casamentos da elite natalense.

Prosseguindo na reconstituição nostálgica da Avenida, encontrava-se, já quase na esquina da Rua General Osório, a casa do médico Olavo Montenegro, em estilo moderno, tendo ao lado, no mesmo estilo, a do Sr. Waldemar de Sá, gente do Ceará-Mirim.

Quase no final do meu caminho, na esquina da Rua João Pessoa, erguia-se a ampla vivenda do Sr. Milton Varela, onde, alguns anos depois, funcionou o Centro Cearense.

O castelo da Deodoro

Ponto culminante desse trajeto, no lado oposto da João Pessoa, bem pertinho do Cine Rio Grande, alteava-se, misterioso, o “castelo” do Dr. Moisés Soares, verdadeiro monumento arquitetônico, depois demolido para se construir no local, um monstrengo de concreto e vidro. Esse “castelo” nada tinha de castelo, mas era assim que o povo o chamava, talvez por causa de uma espécie de minarete que encimava sua linda varanda. Já então estava abandonado; ervas daninhas alastravam-se pelo jardim, e suas paredes externas mostravam a pátina dos anos. Com o seu ar de decadência, cercava-o uma aura romântica encantadora.

Dr. Moisés Soares, advogado, homem de posses, construiu esse palacete para sua residência quando casasse com a sua noiva, a poetisa Palmyra Wanderley, mas não conseguiu realizar seu intento, pois a morte o levou bem cedo.

Assim reza a lenda, contribuindo para acentuar o caráter romântico daquela edificação, criminosamente destruída.

E é com a lembrança de sua bela fachada que encerro a caminhada pela avenida dos meus bons tempos.


FOTO:

Esquerda superior: Praça Tamandaré.
Esquerda inferior: Vista aérea da Deodoro.
Direita superior: Vista plana da Avenida Deodoro.
Direita inferior: Praça Pio X, onde hoje funciona a Catedral.

DO MISTÉRIO DAS CIDADES

Como um rio, que nunca é o mesmo, pois suas águas passam e se renovam a cada instante, também uma cidade nunca é a mesma todo o tempo.

Numa conferência enfeixada em livro sob o título “Imagens & Itinerários de Paris” (edição bilíngue), Américo de Oliveira Costa cita Paul Leautaud a respeito da “perpétua mudança das fisionomias de Paris, segundo a hora, o tempo, a estação”.

Diz Leautaud, em tradução não literal:

“Tal bairro deve ser visto pela manhã, na primavera. Tal outro ao meio dia em pleno verão. Tal outro ainda durante o langor do outono, por volta das cinco horas da tarde. Tal outro, enfim, à noite, no inverno, dentro da clara aridez do frio”.

A propósito, vejamos o que diz José Saramago no fecho do seu livro “Viagem a Portugal”:

“O fim de uma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava”

Daí porque não posso dizer que conheço Lisboa, embora já tenha estado lá cerca de vinte vezes. Nem mesmo Natal, onde vivo há longos anos, eu conheço bem…

Mas, voltando a Paris, esta é a minha cidade predileta, depois de Martins, é claro. Lisboa, Roma, Nova York, Londres, Buenos Aires, Natal, Mossoró, Recife, Rio, Salvador, Petrópolis também ganharam meu coração…

Preciso conhecer Viena, Praga e Istambul.

O QUE É PARIS?

Paris é o Louvre, Notre Dame, os cafés nas calçadas dos boulevards, o rio Sena, a Torre Eiffel… Elegância e finesss d`esprit seriam atributos característicos do parisiense típico. “Paris é uma festa” – disse Hemingway.

Tenta-se definir Paris, em vão, ela é muito mais do que tudo que foi dito a seu respeito.

Em suas memórias, Gilberto Amado gravou esta frase lapidar: “Uma rua de Paris é um rio que vem da Grécia”. Evidentemente, quis o grande escritor referir-se ao patrimônio cultural que a cidade herdou da antiguidade greco-romana. E que está bem presente, inclusive, na arquitetura da urbe. A igreja da Madeleine, o Arco do Triunfo, Les Invalides e o Pantheon, afora tantos outros edifícios monumentais, são exemplos do mais autêntico estilo neoclássico. Presenças greco-romanas, transfiguradas.

Mas, vale dizer que, sob esse aspecto arquitetônico, existe outra Paris, bem mais antiga – a Paris dos monumentos góticos, de que se sobressai Notre Dame.

Singular e plural, a grande metrópole torna-se íntima como um vilarejo, em cada um dos seus quartiers: Montmartre, Montparnasse, Champs-Élysés, Quartier Latin, St. Germain… Só os nomes fazem sonhar – diria o poeta Ascenso.

NAS QUEBRADAS DA SERRA

Martins da minha infância era uma cidadezinha lírica e provinciana, cercada de verde, no alto da serra mais bonita do mundo.

Câmara Cascudo, que, ainda menino, morou lá, saudou-a com uns versos de Olavo Bilac:

“Última a receber o adeus do dia,
Primeira a ter a benção das estrelas…”

Quantas vezes eu fui até as quebradas da serra, e me demorava, sozinho, absorto, o olhar perdido naquele mar azul que era o sertão visto do alto. Eu sentia um apelo, um chamado na linha do horizonte. Que havia do lado de lá? – me indagava.

Quase toda a chã da serra, além da área urbana, era um imenso pomar, com muitos cajueiros, mangueiras e jaqueiras enormes, derramando sombras. Frutas ninguém comprava; quem as quisesse bastava apanhá-las no próprio sítio ou no de pessoa amiga.

Todo mundo se conhecia e interagia naquele pequeno mundo que guardava, ainda, muitos costumes e tradições do sertão arcaico.

Embora eu tenha nascido em Santana do Matos, fui para Martins, com os meus pais, ainda bebê, e lá vivi até os onze anos de idade, de modo que sou martinense por adoção. E muito me orgulho disto.

AMIGA DA GENTE

Lisboa derrama-se por sobre sete colinas, “cheia de encanto e beleza”, como diz um fado, que a exalta. Vista do alto de uma dessas colinas, a velha cidade faz lembrar Salvador, Bahia. Velhos sobrados descendo ou subindo as ladeiras sugerem ângulos do Pelourinho, e o rio Tejo, espraiado, sereno, ao fundo, parece a baía de Todos os Santos. Salvador deveria tomar a benção a sua mãe, Lisboa…. Mas, a semelhança entre as duas cidades fica apenas no visual…

Lisboa é bem comportada. Trânsito organizado, largas avenidas, ruas bem traçadas e limpas, edifícios quase sempre da mesma altura, cinco ou seis andares. (Deste cenário destoam, somente, os bairros antigos e a periferia da cidade).

Lisboa conquista o visitante, é “amor à primeira vista” – perdoem o clichê. É simples e acolhedora como uma pequena praça. Não tem a pompa, a soberba de outras metrópoles europeias; em pouco tempo torna-se amiga da gente.

Nada melhor do que caminhar pelos seus bairros cheios de história e legenda: ir de bonde à Alfama, onde tudo começou; esquadrinhar o Rossio e a Baixa, subir ladeiras do Bairro Alto, curtir Belém e maravilhar-se com a beleza do Mosteiro dos Jerônimos.

Ah! Lisboa de Camões, de Eça, de Fernando Pessoa e de tantos outros grandes escritores que decifraram a alma dessa cidade sem par.

A BIG APPLE

Para o turista, Nova York é Manhattan. Fora desta ilha não há muito o que se ver. Manhattan equivale, em extensão territorial, a uma cidade de médio porte. Está visto, portanto, que Nova York – a maior cidade do mundo, considerando-se toda a área metropolitana – cabe na palma da mão do turista.

É facílimo orientar-se nessa megalópole, cortada simetricamente de ruas, num sentido, e de avenidas, no outro, todas numeradas, exceto a Broadway e mais duas ou três, tendo no centro, do alto a baixo, como espinha dorsal, a 5ª avenida.

Não se pense que Nova York – notadamente, Manhattan – seja apenas um conglomerado de arranha-céus, com tudo que há de mais moderno, up to date. Não.

A Big Apple também tem muita densidade histórica e cultural. Tem “personalidade”. Nisto, aliás, difere de quase todas as outras cidades norte-americanas.

Cosmopolita, como Paris e Londres, condensa e abriga um tanto da cultura proveniente de várias partes do mundo. Acho mesmo que o melhor para a gente ver em Nova York é a Europa. Sim, a Europa que está nos museus e galerias de arte. No Metropolitan, por exemplo, há salas e mais salas transpostas de palácios europeus, um pátio espanhol, a grade do coro da catedral de Valadolid, tanta coisa mais.

Do Metropolitan e do Museu Guggenhein (belíssimo edifício) avista-se o Central Park, contraponto verde à selva de pedra.

Feliz a megalópole que tem no coração (em duplo sentido) um Central Park.

O Rio Grande do Norte tem uma dívida de gratidão para com uma de suas mais ilustres filhas, a cantora Ademilde Fonseca. Decorridos cerca de sete anos do seu falecimento, não se registrou nenhuma homenagem significativa à sua memória, nem sequer um nome de rua lhe foi dado. Lamentável omissão.

Ainda bem que o seu nome não ficou totalmente esquecido. Em 2015, a pesquisadora Leide Câmara publicou, pela 8 editora, em parceria com o Selo Cultural Caravela, “Ademilde Fonseca – A potiguar no choro brasileiro”, livro bem documentado, em que aborda aspectos da vida e da obra dessa que é considerada, por muitos, a maior das cantoras que o Rio Grande do Norte já doou ao Brasil.

Ademilde Ferreira Fonseca nasceu na localidade Pirituba, município de Macaíba, a 4 de março de 1921. Ainda criança veio para Natal, onde sua família fixou residência; aqui se casou e daqui se lançou no mundo musical. Uma de suas primeiras apresentações ao público deu-se através da famosa rede de amplificadoras de Luiz Romão, com sede no bairro da Ribeira.

Mudando-se, com a família, para o Rio de Janeiro, então capital da República, Ademilde tornou-se, ao longo das décadas de 40 e 50, uma das mais prestigiosas cantoras brasileiras. É verdade que não chegou a ter a fama de uma Emilinha Borba ou de uma Dalva de Oliveira, tampouco mereceu o prestigio junto à crítica, que desfrutava Elizeth Cardoso, por exemplo.

Intérprete do choro

No entanto, nada ficava a dever a estas, como cantora dotada de extraordinários dotes vocais. Seu repertório, sempre de alta qualidade, contribuiu, sem dúvidas, para o sucesso que obteve. Ademilde quando cantava, deixava-se possuir pela música. Era da estirpe de Carmem Miranda: natural, espontânea, vibrante.

Dona de estilo especialíssimo, foi uma das primeiras senão a primeira intérprete do choro cantado. A seu respeito, Herminio Bello de Carvalho, autoridade em matéria de MPB, afirma:

“Rainha inconteste de um gênero predominantemente instrumental, ela se impôs através dos anos como intérprete, única e inigualável. Afinação irrepreensível, articulação precisa, senso rítmico incomum e timbre inconfundível” (Nota na contracapa do Lp “A Rainha Ademilde e seus Chorões Maravilhosos”).

Note-se que as interpretações de Ademilde eram valorizadas, quase sempre, por excelente acompanhamento orquestral, do qual faziam parte verdadeiros ases do choro.

Sucessos da Rainha do Choro

Dentre os sucessos da Rainha do Choro destacam-se “Tico-tico no Fubá” (Zequinha de Abreu\ Eurico Barreiros), “Apanhei-te Cavaquinho” ( Ernesto Nazareth\ Darci de Oliveira\ Benedito Lacerda), “Brasileirinho” ( Waldir Azevedo\ Pereira da Costa), “Delicado” ( Waldir Azevedo\ Ari Vieira), “Galo Garnizé” ( Miguel Lima\ Antonio Almeida\ Luiz Gonzaga), “Pinicadinho” (Jararaca e Ratinho\ Severino Rangel), “Meu Cariri” (Rosil Cavalcanti\ Dilu Melo).

Embora tenha se notabilizado com chorinhos, polcas e baiões, como estes, também soube afirmar-se em composições nada trepidantes, tipo “Doce Melodia” (Abel Ferreira\ Luiz Antonio), “Sonoroso” (K-Chimbinho\ Del Loro) e outras de viés romântico ou sentimental.

Entre parêntesis, diga-se que o autor da melodia do choro citado por último, K-Chimbinho (pseudônimo de Sebastião Barros) é norte-rio-grandense, natural de Taipu, figura de primeira plana na história do choro, não só compositor, mas também instrumentista.

Referindo-se ao itinerário artístico da Rainha do Choro, Leide Câmara observa, com justeza:

“O fato de ser respeitada como mestra do chorinho, por um lado ajudou, e por outro, prejudicou a carreira da cantora, pois com ‘a decadência’ do choro, ela passou alguns anos no esquecimento” (Dicionário da Música no Rio Grande do Norte, 2001).

Em meado da década de 70, Ademilde voltou à crista da onda com a ressurgência do chorinho. E em plena forma. Recebeu várias homenagens, entre as quais destaque-se o chorinho ‘Títulos de Nobreza’ (João Bosco\ Aldir Blanc), cuja letra, citando os nomes de choros famosos, termina por declinar, como que em apoteose, “Ademilde no Choro”.

A convite do Governador Cortez Pereira, Admilde, já com 53 anos de idade, mas ainda no fio, apresentou-se em Natal, 1975, dentro do evento “Reencontro”, que reuniu vários artistas norte-rio-grandenses, de projeção nacional: cantores, músicos e compositores. Brilhou, como sempre.

Em 1977, lançou o Lp “A Rainha Ademilde e Seus Chorões Maravilhosos”, pela gravadora Copacabana, em parceria com o Museu da Imagem e do Som (RJ). Ótimo disco, esse. Foi o seu canto de cisne. Daí em diante somente apareceu em coletâneas musicais, e fez alguns shows, Brasil afora.

Ademilde faleceu no Rio de Janeiro, a 27 de março de 2012, com 91 anos de idade. Um dia antes apresentara-se num programa televisivo, no Rio, ao lado de sua filha Eymar Fonseca, também cantora.

PORTO FRANCO, de Francisco Rodrigues da Costa. Mossoró: Editora Sarau das Letras. 2017.

Trata-se da segunda edição refundida do primeiro livro do autor – “Saudades”, 2005 – com um novo e sugestivo título.

Memorialista experiente, Francisco Rodrigues da Costa (Chico de Neco Carteiro, como gosta de ser chamado) parte mais uma vez em busca do seu tempo de menino e adolescente na cidade de Areia Branca, a amada terra de nascença. Figuras do seu convívio e fatos, que o marcaram, revivem na prosa simples, despojada, boa de se ler.

Este livro vem se somar a cinco outros do mesmo autor, compondo uma das obras memorialísticas mais importantes já surgidas em solo potiguar, digna de alinhar-se junto a outras duas igualmente notáveis, do gênero: “Viva Getúlio – As Areias Brancas da Memória”, de Francisco Fausto Paula de Medeiros e “Rastros nas Areias Brancas”, de José Nicodemos.

CADERNO DE ESPANTOS SEGUIDO DE VATICÍNIOS NA LÍNGUA DO NÃO, de Nelson Patriota. Natal: 8 editora, 2019.

Reflexão, poesia, ficção, humor, tudo isto de forma fragmentária, numa linguagem sutil, plena de metáforas – eis, em suma, o conteúdo desse “caderno”, misto de diário íntimo e jornal literário. Um livro para se ler e reler.

Atente o leitor, de modo especial, para os vaticínios, presentes não só no espaço que lhes é dado, mas também dispersos em toda a obra. Veja-se, por exemplo:

“Deus e a solidão”: Se o universo é só uma matéria pedregosa e a vida, um privilégio da Terra, então Deus corre um grande risco de se tornar supérfluo se não se apressar a replicar a Terra, planeta agonizante, em outras partes do universo. De que valeria que Deus existisse num universo sem vida? Sua solidão seria de tal modo previsível e insuportável como nem um deus a suportaria”.

RADIOLA, de Damião Gomes. Mossoró: Editora Sarau das Letras, 2014.

Médico, escritor nas horas vagas, o autor reuniu nesse livro 40 crônicas de sua autoria sobre música popular brasileira, já publicadas na revista “Papangu”, exceto uma que saiu na Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar.

O subtítulo dessa coletânea – “Conversa de Música” – deixa entrever o tom descontraído da prosa, que enleia o leitor em sua malha.

Trazendo revelações interessantes, começa por dizer da pouca importância da música potiguar no cenário nacional, ontem e hoje. A certa altura afirma: “Não se deve dissociar o desenvolvimento cultural da atividade e do poder econômico e, num Estado pequeno e pobre como o nosso, seria um milagre se tivesse surgido um João Gilberto, um Chico Buarque, um Milton Nascimento”.

Segundo Damião Nobre, o primeiro grande nome surgido no Rio Grande do Norte e com projeção nacional foi o Trio Irakitan. Cita e comenta, a seguir, outros intérpretes do mesmo nível: Ademilde Fonseca, a rainha do chorinho, Núbia Lafayete, “uma espécie de Nelson Gonçalves de saias”; Elino Julião, “o Luiz Gonzaga do Rio Grande do Norte”, e Leno “que foi o nosso representante da Jovem Guarda”.

No gênero brega – adianta o autor – “tivemos alguns cantores com bastante projeção, como Carlos André, Carlos Alexandre e Evaldo Freire e na modalidade da música dita romântica, Gilliard foi outro nome de sucesso”.

Entre parêntesis: Quando Damião Nobre escreveu essa crônica, duas cantoras potiguares, que vieram a ter sucesso além dos muros provincianos – Roberta Sá e Marina Elali – ainda se achavam no início da carreira.

Numerosos outros escritos, enfeixados na coletânea em foco, abordam múltiplos aspectos da MPB. Alguns destes, bastante curiosos (“Apelidos e Pseudônimos”, “Ilustres Desconhecidos”, “Listas”, etc. – conferem ao livro um certo ar de almanaque.

Leitura imperdível.

EU SOU TREZENTOS – MÁRIO DE ANDRADE: VIDA E OBRA, de Eduardo Jardim. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2015.

Uma biografia intelectual – é como se poderia definir este livro, que relata e explica as ideias e a arte poética do “Papa do Modernismo”, mas deixa de lado quase tudo de sua vida privada. Nenhuma revelação sobre o lado humano.

Alguns aspectos da obra andradiana, como, por exemplo, o conto, também passam em brancas nuvens. Prefere o biógrafo enfocar o poeta, o ensaísta, o pensador e o animador cultural.

Um bom trabalho, embora parcial.

A CORRENTE, de Stefan Zweig. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1955.

Várias novelas, reunidas nesta coletânea, constituem momentos altos da obra ficcional de Stefan Zweig, escritor multifacetado, também grande em outros gêneros literários, como a biografia, o ensaio, a memorialística e a crônica.

“Confusão dos sentimentos”, integrante da coletânea, é uma obra-prima. Aspecto merecedor de especial atenção, nesta novela, a maneira como o autor aborda a temática homossexual. Sem preconceito e profundamente humano. É comovente a história do professor, já idoso, e seu jovem aluno, que se consomem numa paixão proibida. Imagine o impacto que esse livro deve ter causado quando do seu lançamento por volta dos anos 1930.

Para quem não sabe: o austríaco de origem judaica, Stefan Zweig (1881-1942) foi expulso do seu país pelos nazistas, em 1930, e terminou radicando-se no Brasil, onde viveu até morrer. Ele e a sua segunda esposa, alarmados com a perspectiva de vitória nazista, na segunda guerra mundial, cometeram suicídio.

Quando se trata da dramaturgia produzida no Rio Grande do Norte, um nome surge, com destaque: Racine Santos. Na verdade, parece-me justo considerá-lo o maior dramaturgo norte-rio-grandense de todos os tempos. E não é favor dizer isto. Qualquer pessoa medianamente informada sobre a história da nossa arte cênica, concordará comigo.

Nosso Estado não teve um Ariano Suassuna, glória de Pernambuco, embora nascido na Paraíba; não teve um Nelson Rodrigues, um Dias Gomes, ambos, por sinal, também nordestinos da gema – para citar apenas três expoentes.

Dentre os nossos dramaturgos e comediógrafos, podemos mencionar, afora Racine Santos, uns poucos: Segundo Wanderley (patrono da cadeira nº 16 da ANRL), Meira Pires, Sandoval Wanderley; nenhum, porém, mais importante do que Racine Santos, em termos de criatividade e renovação estética. Sandoval e Meira Pires foram, principalmente, homens de teatro, isto é, animadores do movimento teatral em nossa província.

Se Racine vivesse em São Paulo ou no Rio, seu nome teria, sem dúvidas, projeção nacional, mas, ele não quis e não quer outro lugar para morar e amar senão a sua Natal de nascença. E Natal, como já disse outro “provinciano incurável”, não consagra nem desconsagra ninguém. No entanto, o reconhecimento da sua obra é questão de tempo. E já começa a se fazer sentir, até mesmo fora do Brasil.

Autor de várias peças – dramas, sátiras, comédias -, baseadas, em grande parte, no populário nordestino, com alto teor de crítica social, dentre outros atributos, Racine Santos conhece a fundo os segredos da arte cênica, como dá mostras, em “À luz da lua, os punhais” (1990), traduzida para o espanhol e “A Farsa do Poder” (2010), por exemplo.

Não se pense que a sua atividade intelectual restringe-se à dramaturgia. Ele é tão bom ficcionista quanto dramaturgo. (Mas, todos teimam em chamá-lo de teatrólogo).

Em 2017, estreou no romance com “Macaíba em Alvoroço”. Não é o seu primeiro trabalho de ficção, mas, sem dúvidas, é aquele com que se firma nessa difícil arte.

A narrativa bem urdida recria o pequeno mundo de uma cidade do interior, com sua gente simples e pitoresca. Personagens como Xexéu, o poeta popular; Cancão, soldado de polícia; o cabeceiro Sérgio e sua mulher Anjinha, tipos populares admiráveis pela grandeza humana, contrastam com o farisaísmo de outros personagens, estes secundários – o Prefeito, o Padre e o Delegado de Polícia. Alguns lances de suspense, beirando a literatura policial, e numerosas referências à cultura popular tornam a leitura extremamente interessante.

Sob o prisma da forma ressalte-se a linguagem valorizadora do coloquial nordestino.
Como numa peça de Ariano Suassuna, esse romance contém uma mensagem de sentido moral, bem expressa no final pelas sábias palavras de um personagem, que o leitor logo adivinha ter sido moldado na pessoa do escritor Câmara Cascudo.
Não tenho receio de afirmar que o livro “Macaíba em Alvoroço” nasceu fadado a tornar-se um marco na ficção potiguar (e brasileira, claro).

Racine também romancista

Voltando-se mais uma vez para a prosa de ficção, já um tanto deslembrado do teatro, Racine Santos lançou, em 2019, “… De susto, de bala ou vício”, título que remete à letra de uma famosa canção de Caetano Veloso.

Trata-se de um romance (ou novela), cuja ação transcorre em Natal, nos turbulentos anos sessenta. A cidade ainda provinciana serve de pano de fundo a um drama amoroso cheio de peripécias. Nas estrelinhas, fatos reais, característicos dos “anos de chumbo”, conferem à narrativa um sabor memorial, valendo, inclusive, como testemunho e denúncia.

De modo especial, dois aspectos ressaltam deste romance: o monólogo interior, inicial, à maneira de James Joyce- – experiência inédita na literatura potiguar – , e o excelente perfil do teatrólogo Sandoval Wanderley, tornado personagem de primeira plana.

Como bem observa François Silvestre, no posfácio, esse novo romance de Racine é a denúncia de que pra onde ele for leva o teatro. Na forma é prosa no papel; na plástica é fala do teatro. Falas do teatro épico. De onde Racine é semente e fruto. Criador e criatura. O épico mais discursivo do que heroico. Mas – adverte o escritor – “sem perder as vestes talares do romance”.

Eis aí a prova de que o romancista Racine Santos veio para ficar.

Resta dizer que, além de dramaturgo, teatrólogo e ficcionista, ele também é poeta, ensaísta (autor do livro “Natal em Cena”, 1996) e jornalista, com vasta experiência como editor cultural de jornais e revistas natalenses. Em suma, um escritor consumado, que só a miopia intelectual da província não consegue enxergar.

A Academia Mossoroense de Letras deixou de eleger o poeta Antônio Francisco para uma das suas cadeiras vagas. Quem perdeu não foi Antônio Francisco, foi a Academia.

Homem simples, avesso a formalidades, ele se inscreveu já no final do prazo regimental e absteve-se de comunicar a sua candidatura aos acadêmicos. Esta a razão porque contou apenas com seis votos – alega-se. Mas, na verdade, procedeu certo.

Todos o conhecem em Mossoró, sabem do seu valor; não era preciso que fizesse comunicações, muito menos pedisse votos. Deveria ter sido eleito por aclamação, sob uma salva de palmas.

Antônio Francisco vale por uma academia.

Niemeyer em Natal

Darcy Ribeiro já disse que Oscar Niemeyer é o único brasileiro a ser lembrado, no mundo todo, daqui a mil anos. Desnecessário ressaltar a autoridade, e o peso das palavras do mestre Darcy, especialista em brasilidade. Acho que toda pessoa medianamente informada concordará com o famoso escritor e antropólogo. Pode ser que alguém junte ao nome do arquiteto o do compositor e maestro Villa-Lobos. Seria razoável.

Mas, o que é fato é que ninguém contesta sua enorme importância. Niemeyer distingue-se, sobretudo pelos edifícios públicos, que projetou para Brasília, mas numerosas outras obras de sua autoria espalham-se por diversos países. Quase todas estas edificações, por serem verdadeiras joias arquitetônicas, são muito bem cuidadas, e não poucas tornaram-se atrações turísticas.

Há, no entanto, uma exceção. É triste dizer, caro leitor, mas esta se situa em nossa capital. Refiro-me ao monumento ao presépio, situado no bairro de Lagoa Nova. Desprezado pelos órgãos públicos ditos competentes, acha-se em lamentável estado de conservação. Dá pena vê-lo.

Qualquer outra cidade se orgulharia de contar com uma obra de arte admirável, como essa. Mas, Natal…

Destruiu-se quase tudo do monumento, inclusive o belíssimo mural de autoria de Dorian Gray Caldas. Urgem providências por quem de direito. É preciso dar um basta à desídia e à incultura.

Recuperado, o espaço poderá sediar os festejos natalinos e uma mostra permanente de presépios.

Anatole France

Leio pela primeira vez Anatole France – “As Sete Esposas do Barba Azul”, coletânea de contos muito interessantes, glosando histórias tradicionais, como a “Bela Adormecida”. Pena que o tradutor não seja bom, a julgar pelas cacofonias e frases desordenadas que comete, e pelo grande número de palavras estranhas. Anotei: gebo, enojosa, onusta, cinca, anosos, contemptor e outras preciosidades.

Para quem não sabe: Anatole France esteve na crista da onda lá pelas primeiras décadas do século XX, quando a literatura francesa ainda imperava, absoluta. O romancista de “Thaís” era reverenciado, em todo o mundo, como um semi-deus. Quando veio ao Brasil, em 1909, foi saudado por Rui Barbosa, na Academia Brasileira em meio a grandes festas. Marcel Proust, que muito o admirava, tornou-o personagem do seu famoso roman a clef, “Em Busca do Tempo Perdido”.

Hoje, a obra literária de Anatole France acha-se de tal modo esquecida, que, como todo enjeitado, deve ter sofrido alguma injustiça, por parte das novas gerações.

Patronímicos

Encontrei nos meus “alfarrábios” um papel velho com anotações sobre patronímicos. Sou curioso do assunto.

Que vem a ser patronímico? Segundo o Dicionário Aurélio, é “o sobrenome derivado do nome do pai”. Assim: Fernandes de Fernando; Bernardes de Bernardo. Curiosamente, vários patronímicos encontráveis atualmente em Portugal e no Brasil (e nos demais países lusófonos, presumo) derivam de nomes arcaicos, há muito em desuso. Por exemplo: Lopes de Lopo; Gonçalves de Gonçalo; Mendes de Mendo; Martins de Martim; Fagundes de Fagundo; Paes de Paio; Soares de Suário; Teles de Telo; Dias de Dídico (!).

Ao contrário, há nomes comuns & patronímicos obsoletos: João (Joanes), Pedro (Peres), Bento (Bentes), Estevam (Esteves), Ramiro (Ramires).

É interessante observar que, em Portugal, proliferam Nunos, mas, ao que me consta, há poucos Nunes lá, enquanto que, no Brasil, sucede o inverso: muitos Nunes e quase nenhum Nuno. Isto se explica: Nuno é o nome de um herói nacional português, D. Nuno Álvares Pereira, guerreiro e santo, canonizado pelo Papa João Paulo II.

A título de curiosidade relaciono a seguir outros patronímicos: Álvares de Álvaro; Rodrigues de Rodrigo: Henriques de Henrique; Lins de Lino; Marques de Marcos; Simões de Simão, Vasques de Vasco.

Comunismo? Capitalismo?

Em seu livro “As Amargas, não…” – deliciosa mistura de memórias, diário íntimo, aforismos, notas de leitura e de viagens –, Álvaro Moreyra refere-se a um caricaturista mexicano de renome nas primeiras décadas do século XX, Figueiroa.

“Sempre que um pobre lhe estendia a mão, gritava – Não peças esmola. Proteste – Sentia, como o escritor Marteau, que a caridade é injuriosa e contrária à fraternidade humana. Não se trata de dar. Trata-se de restituir. Nada de enternecimentos por conta. O que é preciso é a justiça completa, a quitação. Não se cogita de melhorar a condição dos pobres, sim de suprimir a condição dos pobres”.

Eu também penso assim. Mas, reflito, como “suprimir a condição dos pobres”? Parece-me que isto só será possível num sistema econômico justo, equitativo. Não no capitalismo, não no comunismo. Qual, então? A História dirá.


FOTO: Julia Dolce

“Pernambuco tem uma dança
que nenhuma terra tem”

Estes versinhos bem expressam a pernambucanidade do frevo. O legítimo, só made in Recife. Foi aí, que, no começo do século XX, ele nasceu, filho do maxixe e da habanera, segundo alguns estudiosos.

Num excelente ensaio, já clássico, Valdemar de Oliveira, estudando as fontes do mais carnavalesco dos gêneros musicais, esclarece:

“Recuando-se (…) de uma geração para outra – de pais, a avós, bisavós, trisavós, compreende-se a dificuldade em conceituar, rigorosamente, a origem do frevo, isto é, em abrir caminho na terra do Tempo para descobrir-se até onde vão suas radículas. De começo, é claro, não era maxixe, nem polca, nem quadrilha, nem dobrado ou modinha, e era tudo isso, no fim de contas, em solução perfeita.” (“Frevo, Capoeira e Passo” – 1971, pág. 33).

Música popular (mas não folclórica) e forma de dança, o frevo, talvez a mais engenhosa expressão musical brasileira, ficou meio enjeitado. Perdeu terreno para o samba e a marchinha, por causa de sua regionalidade e do seu caráter estritamente carnavalesco.  Só nos últimos anos tem obtido maior difusão nacional, e é executado com mais frequência fora dos dias de Momo. Compositores como Alceu Valença e Morais Moreira o prestigiam sempre.

Existem vários tipos de frevo, mas o genuíno é o frevo-de-rua. Fácil distingui-lo: é aquele que faz a folia “frever” na alucinação do passo. Exclusivamente instrumental, requer fanfara incrementada, num esbanjamento de metais. Essa modalidade foi eclipsada pelo frevo-canção, menos trepidante e mais romântico, que surgiu por volta de 1930 e logo passou a fazer concorrência à marchinha. É frevo cantado.

Deve-se mencionar, ainda, dentre as modalidades principais, o frevo-de-bloco, parente da marcha-rancho. Só tem graça quando executado pelos corais dos “blocos”, animação dos carnavais recifenses. Pede orquestra de pau e­ corda. Há, entretanto, uma interpretação individual muito boa, fazendo exceção à regra; é a do Hino do Batutas de São José, por Zélia Barbosa com o Quinteto Violado, gravação incluída no LP “Música Popular do Nordeste”, vol. 1, da Marcus Pereira. A  voz límpida, parecida com Nara Leão, valoriza essa belíssima composição (de autoria de João Santiago), cuja letra, apesar de tosca e ingênua, ou por isso mesmo, não poderia deixar de entrar em qualquer antologia.

Mas os mais lindos frevos-de-bloco são, sem dúvidas, Evocação nº 1, de Nelson Ferreira e a Marcha nº 1 de Vassourinhas, de Matias da Rocha. Desta os versos singelos já ganharam sabor folclórico, principalmente estes:

“Se essa rua fosse minha /eu mandava ladrilhar/com pedrinhas de brilhante /para o meu amor passar.”

Vale dizer que Vassourinhas virou frevo-de-rua, “verdadeiro hino do carnaval do Recife”.

Evocação nº 1 tem na sua crônica sentimental um fato interessante. Foi a música que José Lins do Rego, saudoso do Recife antigo, pediu para ouvir após receber a extrema­ unção. Assim diz Aldemar Paiva em nota na contracapa do LP “O Que Eu Fiz… E Você Gostou – Carnaval Cantado de Nelson Ferreira”.

Quem desconhece estes versos?

“Felinto…Pedro Salgado… /Guilherme…Fenelon … /cadê teus blocos famosos?”

Fato digno de nota, Evocação nº 1 foi talvez o único caso de sucesso estrondoso do frevo no carnaval carioca. Dominou, absoluto, em 1957.

Mestres do frevo

O escritor pernambucano Mário Melo considera José Lourenço da Silva (Zuzinha) o pai do frevo. “Foi ele quem estabeleceu a linha divisória entre o que depois passou a chamar-se frevo e a marcha-polca, com uma composição que fez época e pertencia ao repertório da minha gaitinha dos tempos acadêmicos” (Cit. por José Ramos Tinhorão – “Pequena História da Música Popular (Da Modinha à Canção de Protesto)” – 1975, pág. 141).

Dentre os compositores da pequena classe média recifense – muitos deles instrumentistas de bandas-de-música – salientaram-se outros nomes:  Levino Ferreira  (O  Último Dia), os irmãos Valença (Um Sonho Que Durou  Três Dias), etc.

Mestres, porém, existem apenas dois: Nelson Ferreira (Casá-Casá, Qual é o Tom, Come-Dorme, Pernambuco, Você é Meu) e CAPIBA (Lourenço da Fonseca Barbosa ), o primeiro talvez e mais importante, do ponto de vista só do frevo, por dominar, com a mesma maestria, todas as modalidades.

Capiba, que também é autor de canções de sucesso, notabiliza-se mais pelo frevo-canção (É de Amargar, Os Melhores Dias de Minha Vida, Quando se Vai Um Amor, E… Nada Mais, A Pisada é Essa, etc.).  Ambos não somente compõem, criam música, mas também são exímios letristas. Da verve ferreiriana sirvam de exemplo os seguintes versos:

“Dedé, Dedé/Você diz que me qué /Mas você me enganô/E deu a outro o seu amô.

“Dêstá, você, Dedé, muié marvada /Gastei meu coração só com você /Dadá, Dedé, Didí, Dodó, Dudú/Dessas muié mais neste mundo eu não quero sabê.”

(Dedé – fragmentos.  Interpretação de Claudionor Germano – LP “O Que Eu Fiz… E Você Gostou/ – Carnaval Cantado de Nelson Ferreira”).

Outra bonita letra:

“Maria, ó Maria, me responde já /Maria, onde está a minha fantasia?
(Bis)
“A minha fantasia é uma coisa louca /De um lado ela é palhaço/Do outro é Arlequim/
Metade é de seda /Metade de algodão/ Não é rica nem pobre/ Mas serve pra mim”. ”
(De “Minha Fantasia” – LP cit)

Capiba, assim como Nelson Ferreira, revela-se em sua arte um homem do povo. Nas letras de composições suas encontramos com frequência expressões do linguajar popular. Estes versos, por exemplo, em que ele faz trocadilho com a palavra farol, que significa, na gíria da época, pabulagem, mas também é o nome de um recanto de Olinda.

“Você diz que gosta de mim/Mas só pode ser brincadeira de berlinda/
Por que você mente tanto assim?/Quem vai pra farol é o bonde de Olinda.”
Outros bons momentos do Capiba letrista nestes fragmentos, aliás um tanto machistas…
“Mulher que não consente seu marido passear /E por qualquer besteira pega logo a reclamar
É bom ficar em casa pras crianças balançar /Chega pra lá, deixa o homem se virar.”
(“Deixa o Homem se Virar – Interpretação de Claudionor Germano – LP “Capiba – 25 Anos de Frevo”, 1975).

“Que é que eu vou dizer em casa /Quando chegar quarta feira de cinzas?
Que é que eu vou dizer, que é?/Com este cheirinho de mulher.”
(Que é Que Eu Vou Dizer – LP cit.)

Ressurgência do frevo – Os trios elétricos

O surgimento dos trios elétricos da Bahia, na década de 60, assinala o início de nova era para o frevo. Pequenas orquestras à base de guitarra elétrica, conduzidas em carros de som com alto-falantes superpotentes, logo tornaram-se coqueluche (vá lá o termo) nos carnavais de Salvador e, depois, de todo o Brasil. A elas deve-se o renascer do carnaval de rua.

Caetano Veloso tomou-as como tema na primeira e melhor de suas composições carnavalescas:

“Atrás do trio elétrico/Só não vai quem já morreu.”
(Carnaval de 1969. Gravações: do próprio Caetano e de Nara Leão).

O frevo é o gênero que melhor se presta para execução por aqueles conjuntos. E tem efeito eletrizante, sem trocadilho. Daí a redescoberta e o consequente prestígio junto a compositores novos.


FOTO: Sérgio Bernardo/PCR

Luiz Gonzaga, grande sanfoneiro e cantor, cognominado Rei do Baião, distingue-se na História da Música Popular Brasileira, principalmente, como compositor. Mas, os seus maiores sucessos foram criados não por ele só, mas em parceria com Humberto Teixeira e Zé Dantas, de modo que estes compositores também são reis, com direito a todas as honras…

Zé Dantas (José Dantas de Souza Filho – 1921/ 1962), talvez o mais importante dos três, como compositor – letrista e criador de música – não tem obtido o reconhecimento que bem merece. Por que? Em sua carreira sempre se houve com muita discrição.

Autopropaganda não era com ele. Nunca se preocupou em administrar a própria glória. E, morrendo moço, exatamente quando o baião estava em declínio, seu nome apagou-se no mundo musical, ficou relegado ao esquecimento, por bastante tempo, somente voltando o merecer homenagens na década de 70, face à ressurgência do gênero nordestino. Ainda assim, não lhe foi dado, então, o devido realce. Zé Dantas continuou sendo ofuscado por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, o que, aliás, se explica, no caso de LG, que sempre apareceu mais, por ser, além de compositor, intérprete e homem-show.

Note-se, porém, que as composições de Zé Dantas/ Luiz Gonzaga foram, mais do que as de Humberto Teixeira/ Luiz Gonzaga valorizadas pelos grandes nomes da Nova Música Nordestina. Alceu Valença, Fagner e Quinteto Violado – compositores e intérpretes – ressuscitaram êxitos como Vem Morena, Cintura Fina, Riacho do Navio, Sabiá, Vozes da Seca, A Volta da Asa Branca, e se abeberaram no trabalho de Zé Dantas & Luiz Gonzaga. Fagner, em dueto com o Rei do Baião, deu magnífica interpretação a Acauã, composição de autoria só de Zé Dantas (LP “Luiz Gonzaga & Fagner”, 1984). Já o Quinteto Violado havia revalorizado esta mesma composição – pequena obra-prima, diga-se de passagem – em seu LP de estreia, 1972.

Não obstante essa preferência, as publicações especializadas e a grande imprensa subestimaram e continuam a subestimar o grande compositor pernambucano.

Veja-se a “História da Música Popular Brasileira”, publicação em fascículos da Abril Cultural (1970 a 1972), que dedicou um número à dupla Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira, concedendo a Zé Dantas apenas uma página do fascículo. Tremenda injustiça!

Já a Enciclopédia da Música Brasileira (São Paulo: Art. Editora Ltda, 1977) incorre em erro semelhante: apresenta longo verbete sobre Humberto Teixeira, enquanto dedica a Zé Dantas poucas linhas. Observe-se que a referida Enciclopédia, obra digna de respeito, cita, equivocadamente, Acauã como sendo resultante da parceria Gonzaga/ Zé Dantas.

Ninguém pode negar a relevância histórica da dupla Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira. Deve-se a esta o lançamento do Baião, como gênero musical, “uma forma de integração da cultura popular nordestina à comunicação de massa”. Além de tudo, o patrimônio musical que a dupla doou ao Brasil e ao mundo é inestimável. Lamentamos, no entanto, que se queira superestimá-la, em detrimento de uma presença não menos importante na História do Baião: Zé Dantas.

OBRA DIVERSA

Autor de numerosos baiões, cocos, xotes, toadas, e de alguns rojões, rancheiras e um maracatu, em todos estes gêneros Zé Dantas manteve-se fiel à temática sertaneja e nordestina; saiu dela, somente, em duas ou três marchas carnavalescas, uma toada natalina, duas “batucadas”, pouquíssima coisa mais. E, quase sempre, usou a linguagem matuta.

Dedicado à pesquisa do folclore, desde a juventude, soube em muitos casos, estilizar e adaptar a música rural sertaneja; valeu-se do Desafio e da Literatura Oral, em tudo conservando a autenticidade, homem do sertão, que era, exilado na cidade grande.

Na letra que fez para o xote Riacho do Navio (música de Luiz Gonzaga), podemos constatar uma grande nostalgia do sertão de sua infância:

“Riacho do Navio
Corre pro Pajeú
O Rio Pajeú
Vai despejar no São Francisco
(O Rio São Francisco
Vai bater no meio do mar) Bis

Ah! se eu fosse um peixe
Ao contrário do rio
Nadava contra as águas
E nesse desafio
Saía lá do mar pro Riacho do Navio
Eu vinha direitinho pro Riacho do Navio

Pra ver o meu Brejinho
Fazer umas caçadas
Ver as pegas de boi,
Andar nas vaquejadas
Dormir ao som do chocalho
E acordar com a passarada
Sem rádio e sem notícia
Das terras civilizadas.”

Esta belíssima composição recebeu, há algum tempo, nova roupagem na interpretação de Marina Elali, neta de Zé Dantas, grande divulgadora da sua obra musical.

NATAL DO SÉCULO XX, de Carlos e Fred Sizenando Rossiter Pinheiro. Natal: 8 Editora, 2010.

Tendo estreado em 2009, com o livro “Dos Bondes ao Hippie Drive-in”, os autores – nossos irmãos Goncourt – enveredam mais uma vez “em busca do tempo perdido”. Aliás, o verbo enveredar não está aqui bem empregado; “Natal do Século XX” abre caminhos. Misto de memórias e documentário, com muitos dados e fotos, repassa, também, um tanto da crônica sentimental da cidade.

Na prosa ágil e leve, aparentada com a objetividade jornalística, a narrativa, do meio para o fim, torna-se, plenamente, memorialística. Episódios, curiosidades, fatos pitorescos deixam entrever um certo ar de almanaque. Alguns erros de revisão e omissões não chegam a comprometer a obra.

“Natal do Século XX” não pode faltar na estante de todo bom natalense.

SINOS, de Clauder Arcanjo. Mossoró: Sarau das Letras; Salamanca (Espanha): Trilce Ediciones, 2019.

A magia dos sinos tem inspirado muitos poetas, pelo mundo afora; é temática fascinante. Clauder Arcanjo, poeta consumado, soube explorar essa mina, tirando ouro de um veio, aparentemente, esgotado. Vejam os versos a seguir:

“Nem se sabe de onde vieram
Dependurados na manhã fria
Eles espalhavam seus dobres
Por cima dos telhados altos, e
A província ressumava a altar.”

Repassada de lirismo, a poesia de Clauder Arcanjo, não só neste fragmento, mas em todo o seu livro, flui, simples e clara, não precisa de chave para se abrir e decifrar.

A edição, bilíngue, valorizada pela tradução para o espanhol, do escritor Alfredo Pérez Alencart, conta com desenhos de João Helder e Miguel Elias, e numerosas fotografias, de Jose Amador Martin, Marcão Melo e Ricardo Chrisóstomo, verdadeiras obras de arte, à altura do texto.

CORAÇÃO DE PEDRA & OUTRAS HISTÓRIAS, de Damião Gomes. Natal; CJA Edições, 2016.

Doze histórias compõem esta coletânea, com grande variedade temática e formal. O conto inicial, “O Amigo da Onça”, por exemplo, é uma peça de humor sobre fatos cotidianos, beirando a anedota. No conto que dá nome ao livro, narrativa mais densa e impactante, evidencia-se a versatilidade do autor, que também incursiona, com desenvoltura, pelos domínios do maravilhoso e do fantástico, em outros contos.

A prosa fluente, despida de ornamentos, prende o leitor, envolve-o prazerosamente em sua malha. Um certo viés kitsch, presente, inclusive, nos títulos de alguns contos (“Não Maltrate o Coração de uma Mãe”, “Mar de Rosas”) confere à obra especial característica.

VELHOS COSTUMES DO MEU SERTÃO, de Juvenal Lamartine de Faria. 3ª. ed. Natal; Sebo Vermelho Edições; Mossoró: Fundação Guimarães Duque, 2006.

No fim de vida, já cego, o autor ditava aos netos artigos diversos, quase sempre versando sobre temática regional. Dentre estes destacam-se os da série “Velhos Costumes do Meu Sertão”, publicados originalmente em jornal (1954), depois enfeixados em livro.

Trata-se de um repositório imenso de informações acerca do sertão antigo, a vida nas fazendas, de modo especial.

Região semi-árida, que ficou como que parada no tempo, até ao início do século XX, esse sertão, meio medieval, revive nos artigos de quem nele viveu, intensamente.

Político de primeira plana, Presidente (Governador) do Estado, mas, também, homem de letras, espírito cosmopolita, Juvenal Lamartine jamais distanciou-se do seu Seridó, queria bem a ele. A prova está neste livro admirável.

Leia também: 10 anos sem Oswaldo Lamartine. Sua última entrevista

DICA BÔNUS

OS MALAVOGLIA, de Giovanni Verga; tradução Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade, São Paulo: Abril Coleções, 2010.

Obra-prima do grande escritor italiano, narra a comovente história de uma família de aldeões sicilianos pobres e infelizes. O Realismo em toda a sua crueza.

Publicado em 1881, o livro não envelheceu e até apresenta uns traços de modernidade.

Nota curiosa: a inserção de provérbios em grande número no decorrer da narrativa.

Antes de mais nada, devo dizer, que não tenho a pretensão de efetuar estudo crítico e/ou biográfico sobre o grande escritor baiano, mas, apenas, quero, modestamente, revelar impressões que a leitura dos seus livros me propiciou ao longo de muitos anos.

Para começo de conversa, uma constatação óbvia, mas indispensável: a obra literária de Jorge Amado divide-se em duas fases distintas; a primeira estende-se do romance de estreia – “O País do Carnaval” (1931) – até o romance “Gabriela, Cravo e Canela” (1958), e caracteriza-se pela inserção no Regionalismo Nordestino de 30, sob influxo do Realismo Socialista. Seguem-se a esta fase duas novelas, enfeixadas num só volume – “Os Velhos Marinheiros” -, uma das quais – “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água” – é considerada, unanimemente, a obra-prima do autor.

“Gabriela, Cravo e Canela” revive a saga do cacau no sul da Bahia, porém com um viés picaresco, e em nova linguagem, que prenuncia a segunda fase.

Vale salientar o caráter político-ideológico presente, até meados da década de 1950, na maior parte dos escritos de Jorge Amado. Ele pertencia ao Partido Comunista Brasileiro, sido eleito Deputado Federal por esta agremiação, em 1945.

2º fase – O cronista de sua gente

Depois de “Gabriela, Cravo e Canela”, o romancista, antes tão preocupado com a problemática social, vai se transformando em um bem humorado e sensual cronista de sua gente. Se, por um lado, está livre de compromissos político-ideológicos, por outro lado passa a comprometer-se, cada vez mais, com o seu público ledor, fazendo-lhe concessões, em prejuízo do alto padrão qualitativo, que a boa literatura requer. Vira autor de best-sellers.

Nesta segunda fase, grandes figuras de mulher tornam-se protagonistas principais de caudalosas narrativas, cuja ação transcorre, quase sempre, na amada terra da Bahia.

Confesso que não consegui gostar de nenhum dos romances jorgeanos posteriores a “Gabriela, Cravo e Canela”. Tremenda frustração para este leitor voraz, que, ainda jovem, se encantara com a leitura de obras admiráveis, como, por exemplo, “Terras do Sem Fim” – a melhor expressão da saga do cacau -, e “Mar Morto”, que é quase um longo poema em prosa.

Não passei das primeiras páginas de “Dona Flor e seus Dois Maridos”, talvez o mais famoso romance da segunda fase. E “Tenda dos Milagres”, outro romance desta fase, embora legível, pareceu-me, inclusive do ponto de vista temático, algo forçado, um tanto chato, enfadonho.

“Tocaia Grande – A Face Obscura” seria um bom romance se não fosse uma versão reciclada da saga do cacau. Neste livro, Jorge Amado repete-se a si mesmo. “Um romance muito ruim” – foi como o qualificou, enfaticamente, o crítico Jaime Hipólito Dantas, em seu livro “De Autores e Livros” (Mossoró: Editora Queima-Bucha, 1992). Já “O Sumiço da Santa”, penúltimo romance de J.A. afigurou-se-me pouco mais que um pretexto para homenagear os amigos baianos e tirar brincadeiras com eles.

Pequeno romance, que julgo das obras mais frustrantes, nesta segunda fase – “A Descoberta da América pelos Turcos” – merece figurar ao lado de outro fiasco, mas, este, da primeira fase -, a trilogia “Os Subterrâneos da Liberdade”.

Da safra outonal salva-se, ao meu ver, a novela “Farda Fardão Camisola de Dormir”, pelo que contém de sátira e ironia, mas não a incluo entre as grandes obras amadas…

Resta falar sobre “Tereza Batista Cansada de Guerra”. Foi o romance do mestre baiano, que eu li, por volta de 1976, com grande expectativa.

No meu diário íntimo, anotei o seguinte:

“Aproveito a tarde de domingo para começar a ler o novo romance de Jorge Amado – ‘Tereza Batista Cansada de Guerra’.
Claro que Jorge Amando não é mais aquele… Depois de ‘Os Velhos Marinheiros’ ele parece ter entrado em decadência, esgotando o filão picaresco e as possibilidades ficcionais do seu mundo urbano /baiano /popular, tratado com maestria em ‘A Morte e a Morte de Quincas Berro d’ Água’.

Não gostei de ‘Dona Flor’, tampouco de ‘Tenda dos Milagres’, daí uma certa prevenção para com este ‘Tereza Batista’, romance posterior àqueles dois outros. Mas, de qualquer maneira, vou de leitura a dentro. E torcendo para não me decepcionar”.

Após a leitura, infelizmente, o meu sentimento era de frustração.

Tempos depois, no mesmo diário, registrei: “Jorge Amado morreu. Cansado de guerra.”

Faço-lhe estas e outras restrições, mas, separando o joio do trigo, admiro, e muito, a sua grande obra de ficção.

Enganam-se os críticos que o subestimam, atentos, somente, aos seus livros da segunda fase.

Jorge Amado muito contribuiu para a renovação da ficção brasileira, na década de 1930 e começos da década seguinte, como integrante do Regionalismo Nordestino, e, depois, num período de transição, criou duas obras mestras – “Gabriela, Cravo e Canela” e “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’ Água” -, as quais bastariam para consagrá-lo.

Há muito tempo, num artigo de jornal, reportando-me à academia de letras – e não, especificamente, à ANRL – afirmava eu, de modo enfático: “A Academia é o panteão dos vivos”. Ironizava, com a irreverência própria dos jovens o que então me parecia ser academia.

No mencionado artigo eu citava o escritor e acadêmico R. Magalhães Júnior, que, numa entrevista deu este conselho aos jovens: “Atacar a Academia, já que a juventude deve ser rebelde contra o medalhão e a glorificação fácil”. Mas, concluindo, disse o mestre: “Depois de gritar bastante, entra para a Academia e tenta melhorá-la.”

Meu conceito de academia, hoje, é outro, inteiramente diverso daquele da minha mocidade. Eu mudei. Mudou a Academia. Não mais a vejo como um misto de Olimpo e Feira de Vaidades. Considero-a, tão-somente, na sua condição de alta agremiação literária, capaz de dinamizar a vida cultural, sob o signo da renovação, todavia sem perder de vista as melhores tradições.

Aceitar somente os canônicos

É ponto pacifico que a Academia deve acolher em seu quadro de sócios efetivos, somente, escritores canônicos.

Que se deve entender por “escritores canônicos”? Numa definição simplista, canônicos são aqueles autores consagrados que entraram para a História da literatura. Exemplos a nível nacional: Machado de Assis, Castro Alves, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade…

O termo cânone difundiu-se bastante depois que o famoso crítico literário Harold Bloom utilizou-o num dos seus livros mais conhecidos, “O Cânone Ocidental”, em que estuda 26 escritores fundamentais para a nossa cultura.

Sendo extremamente seletivas, pelo menos em tese, as academias de letras – cada uma composta por reduzido número de sócios (no máximo 40) – não poderiam deixar de atrair a cobiça de literatos principiantes e até mesmo de subliteratos, altamente vaidosos, que se julgam merecedores do título de acadêmico, (E, não raro, o conseguem, valendo-se quase sempre de suas relações de amizade).

Até mesmo na Academia Brasileira de Letras encontram-se tais penetras, o que, aliás, pode-se constatar desde a fundação da entidade em 1896. Com efeito, já entre os acadêmicos fundadores constam os nomes de ilustres desconhecidos: Urbano Duarte, Pereira da Silva, Garcia Redondo e o Barão de Loreto. Escritores de segunda classe, eles não deixaram rastros na Literatura Brasileira, apenas satisfizeram seus anseios de glória, “imortais” enquanto viveram.

Ataulfo de Paiva, o típico sociável

Figura típica dessa qualidade de gente foi Ataulfo de Paiva (1867-1955). Sociável, maneiroso, mantinha largo círculo de amizades, especialmente entre figurões do Rio de Janeiro, então capital federal.

Ataulfo de Paiva tinha veleidades literárias, mas nunca conseguiu produzir algo significativo no campo das letras. Bacharel em Direito, realizou-se profissionalmente. Mas, não satisfeito, aspirou à imortalidade acadêmica, e tanto fez, no afã de alcançá-la, que foi eleito para uma das cadeiras do Petit Trianon.

Sobre a sua obra, a Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (2001) registra apenas dois discursos na ABL: “Elogio de Artur Orlando” e “Discurso de Recepção a D. Aquino Correia”. José Lins do Rego, que o sucedeu, na referida cadeira, ao invés de fazer-lhe o elogio de praxe, desancou-o.

Ataulfo de Paiva era um sujeito de sorte. Conseguiu galgar todos os postos que ambicionava, e ainda deixou o seu nome para uma artéria de Ipanema, no Rio, a qual, com o correr do tempo, tornou-se uma das mais movimentadas daquele bairro.
Mas, voltemos às academias.

Abertura além das letras

Em seu livro “Academia Brasileira de Letras – Histórias e Revelações”, (2003), Daniel Piza, após citar Machado de Assis e dizer da sua importância, refere-se a outro dos fundadores da entidade – Joaquim Nabuco – considerando-o não menos influente que o “Bruxo de Cosme Velho”. E acrescenta:

“…foi o maior defensor da ideia de que a Academia, tal qual na França, não se limitasse a escritores e abrisse vagas para homens públicos, como o Barão do Rio Branco (embora, no caso, ele fosse um prosador de talento), mesmo quando não tivessem obra literária digna do nome…”

A presença de “expoentes”, segundo Joaquim Nabuco, serviria para dar relevo público à ABL. “Nós precisamos de um certo número de grandes seigneurs de todos os partidos”, escreveu a Machado de Assis, em 6/12/1901. “Não devem ser muitos, mas alguns devemos ter mesmo porque isso populariza as letras.”

Explica-se a posição de Nabuco. Ele próprio, que era um grande escritor, era também um “expoente”: diplomata (foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na Inglaterra), deputado geral, célebre pela sua participação na Campanha Abolicionista.

A ABL, seguindo-lhe o entendimento, tem acolhido, “ad immortalitatem”, vez ou outra, elementos alheios ao mundo literário, como, por exemplo, Santos Dumont, Osvaldo Cruz e Ivo Pitanguy. Nessa onda pegaram carona, em ocasiões diversas, alguns políticos – Getúlio Vargas, Dantas Barreto, Marco Maciel, etc. –, que pouco ou nada escreveram a não ser discursos.

E la nave va…

NOSSA ACADEMIA

No dia 14 de novembro de 1936, um grupo de intelectuais, tendo à frente Luís da Câmara Cascudo, fundou a Academia Norte-rio-grandense de Letras, instituição voltada para “a cultura da língua, da literatura, ciências e artes”.

Seu primeiro presidente foi o poeta Henrique Castriciano, um dos nossos mais ilustres homens de letras, e, que, instado pelos seus pares, aceitou o encargo. A secretaria geral ficou com Cascudo; as 1ª e 2ª Secretarias, respectivamente, com Edgar Barbosa e Adherbal França, e a tesouraria com Clementino Câmara.

Sobre as providências iniciais com vistas à fundação da entidade, há depoimento do próprio Adhebal, nestes termos: “A Academia nasceu das reuniões em casa do Dr. Câmara Cascudo (…) Ele é para nós o que foi Conrart para o imortais da França (…) A Presidência ficou com Henrique Castriciano, que é, assim, o nosso Machado de Assis”.

Compunha-se a Academia inicialmente, de 25 sócios, mas por força de reforma estatutária, de 1948, esse número aumentou para 30, e mais tarde, em 1957, para 40. Formou-se desta maneira o quadro definitivo, nos moldes da Academia Francesa.

Cada uma das cadeiras tem o seu patrono, escolhido pelo respectivo fundador. Da leva inicial sobressaem-se escritores e poetas, como Ferreira ltajubá, Auta de Souza e Segundo Wanderley; juristas como Amaro Cavalcanti e Luiz Gonzaga de Brito Guerra; polígrafos do porte de Luiz Carlos Wanderley, Nísla Floresta e Luís Fernandes.

Na segunda leva de patronos vieram, entre outros, Manoel Dantas, Aurélio Pinheiro e Armando Seabra. Por último surgiram vultos da estatura de Jorge Fernandes e Afonso Bezerra.

Lamentavelmente ficaram fora Tobias Monteiro, Polycarpo Feitosa, Rodolfo Garcia, entre outros escritores. Também foram escolhidos, como patronos, nomes não propriamente de escritores, mas de eminentes potiguares, com lugar garantido na História da Inteligência, por exemplo: Padre Miguelinho, Almino Afonso, Padre João Maria e Augusto Severo.

A Academia funcionou, inicialmente, no Instituto de Música, depois no Instituto Histórico e Geográfico até transferir-se para o atual endereço à Rua Mipibu, 443. A construção da sede própria resultou de uma longa e obstinada luta do presidente Manoel Rodrigues de Melo em busca de colaboradores junto aos órgãos públicos e à iniciativa privada. No terreno doado pelo Governo do Estado começaram os trabalhos em 1958, concluindo-se doze anos depois. Mas, a inauguração da sede, devidamente mobiliada, ocorreu a 23 de janeiro de 1976.

Duas árvores monumentais embelezam o jardim, tornando-o extremamente acolhedor: um pau-brasil, talvez o maior de Natal – plantado pelo então presidente Onofre Lopes – e um jambeiro (Deus os conserve a salvo do machado arboricida).

A Academia conta com uma biblioteca e uma revista que vem circulando a partir de 1951, lançados desde então 60 números.

Da programação cultural constam palestras, mesas-redondas, sessões de saudade e “A Academia nas Escolas”. Anualmente, são concedidas honrarias a norte-rio-grandenses com destaque em vários segmentos da sociedade – Palmas Acadêmicas “Câmara Cascudo”, Mérito Acadêmico “Agnelo Alves” e troféu “Mecenas Potiguar”. Por último, instituiu-se, em parceria com o Grupo Vila, um prêmio literário, cujo regimento está sendo elaborado.

Vários melhoramentos têm sido feitos pela atual administração, à frente o poeta e escritor Diógenes da Cunha Lima.

Nascido e criado em cidade do interior, eu vim a conhecer o cinema quando já tinha uns dez anos de idade. Foi numa visita a Natal, em companhia dos meus pais, hospedado na casa do meu avô materno, em pleno centro do bairro do Alecrim. Bem perto ficava o Cine São Luiz (onde hoje se ergue uma agência do Banco do Brasil), e lá assisti, pela primeira vez a um filme. Era “Os Amores de Pandora”, com Ava Gardner e James Mason nos papéis principais.

Terminada a sessão, saí do cinema em estado de graça, se é que assim posso me expressar. Depois, muito depois, ficou-me na memória apenas uma cena do filme – aquela em que Ava Gardner, de pé, em meio a um amplo salão, ostenta a sua beleza exótica. Recentemente, pude rever, em DVD, esse filme, que é de primeira qualidade (Diretor: Albert Lewin). Comecei bem.

Anos após, já morando em Natal, não perdia as matinês do Rex e do Rio Grande. O cinema me fascinava. Virei um cinéfilo inveterado: colecionava as revistas “Cinelândia”, “Filmelândia” e as figurinhas do álbum “Ídolos da Tela”. Sabia de cor os nomes de quase todos os astros e estrelas de Hollywood. Dentre os mais famosos, Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Katharine Hepburn, James Stewart, Audrey Hepburn, Marlon Brando – insuperáveis tanto no drama quanto no romance; Marilyn Monroe, Rita Hayworth, Ava Gardner, Elizabeth Taylor, Sophia Loren, deusas, símbolos sexuais; os galãs Clark Gable, Cary Grant, Tyrone Power, e, nos musicais, Fred Astaire, Gene Kelly, Cyd Charisse, Judy Garland e Frank Sinatra, este, também grande no drama e na comédia. Quem, hoje em dia, lembra-se deles?

Por volta de 1955, se não me engano, o Cine Rio Grande passou a exibir filmes em cinemascope, com som estereofônico, uma novidade sensacional; a tela enorme parecia levar o espectador para dentro dela. Foi um alumbramento. Tenho bem viva na memória a emoção que senti ao assistir ao primeiro filme em cinemascope – “O Manto Sagrado”, de Henry Koster, com Richard Burton e Jean Simmons.

Filas intermináveis se faziam diante do cinema. Sucederam-se outros sucessos de público: “Como Agarrar Um Milionário”, comédia romântica, de Jean Negulescu, com Marilyn Monroe, Lauren Bacall, Betty Grable; “Suplício de uma Saudade” de Henry King, com Jennifer Jones e William Holden, melodrama que fez ensopar de lágrimas muito lenço.

Era o tempo das chanchadas, toscas imitações dos musicais de Hollywood, com tempero carioca. Oscarito e Grande Otelo, dupla hilária, contracenavam com o indefectível par romântico, Eliana e Cyll Farney.

Inaugurado ainda na década de 1950, o Cine Nordeste, bem mais confortável que os demais cinemas existentes na cidade, com a novidade do ar condicionado, tornou-se o templo dos cinéfilos mais fervorosos, entre os quais eu me incluía, embora sem alardear essa qualidade. Não fiz parte do Cine-Clube Tirol, porque as sessões, ali, realizavam-se nas manhãs dos domingos, quando a prioridade para mim era a praia.

Nunca curti os cineastas então em moda, idolatrados por uma parcela da jovem intelectualidade natalense: Godard, Antonioni, Ingmar Bergman… Inovadores, herméticos. Mas, gostava imensamente, como ainda gosto, de outros mestres menos sofisticados: Billy Wilder, Hitchcock, Fellini (da primeira fase, especialmente), John Ford.

Passados 50 e poucos anos, continuo fã do cinema, só que prefiro curtir DVD, numa TV de 42 polegadas, com a sua telona, que me restitui um pouco da magia dos cinemas. A partir de 1982, habituei-me a anotar, num caderno, os títulos dos filmes vistos por mim, quase todos em video-cassete, a princípio, e DVD, especificando, de cada um, o diretor e o elenco.

Dia desses, revendo a relação, selecionei nada menos de 120 filmes, e, dentre estes, escolhi os melhores. Ai vão eles – memoráveis clássicos -, discriminados por gêneros.

Creio que a lista poderá servir como roteiro para quem desejar conhecer mais um pouco e curtir a chamada sétima arte.

AÇÃO E AVENTURA:

– O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston, com Humphrey Bogart, Walter Huston
– O Salário do Medo, de Henri-Georges Clouzot, com Yves Montand, Charles Vanel.

DRAMA:

– Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, com Gloria Swanson, William Holden.
– O Que Terá Acontecido a Baby Jane, de Robert Aldrich, com Joan Crawford e Bette Davis.
– Ladrão de Bicicletas, de Vittorio de Sica, com Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola,
– As Noites de Cabiria, de Federico Fellini, com Giulietta Masina, François Perier.
– Fedora, de Billy Wilder, com Marthe Keller, William Holden.

COMÉDIA:

– Tempos Modernos, de Charles Chaplin, com Chaplin, Paulette Goddard.
– Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, com Marilyn Monroe, Jack Lemmon, Tony Curtis.
– Meia Noite em Paris, de Woody Allen, com Adrien Brody, Kathy Bates Carla Brunni.

MUSICAL:

– Cantando na Chuva, de Stanley Donen/Gene Kelly, com Gene Kelly, Debbie Reynolds.
– Sinfonia em Paris, de Vincente Minnelli, com Gene Kelly, Leslie Caron.
– A Roda da Fortuna, de Vincente Minnelli, com Fred Astaire, Cyd Charisse
– Hair, de Milos Forman, com John Savage, Treat Williams, Beverly D’Angelo.

SUSPENSE:

– Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock, com Farley Granger, Robert Walker.
– M, O Vampiro de Dusseldorf, de Fritz Lang, com Peter Lorre.
– Intriga Internacional, de Alfred Hitchcock, com Cary Grant, Eva Marie Saeint, James Mason.
– Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock, com James Stewart, Kim Novak.
– Rififi, de Jules Dassin, com Jean Servais, Magali Noel.

ÉPICO:

– Spartacus, de Stanley Kubrick, com Kirk Douglas, Laurence Olivier.
– Lawrence da Arábia, de David Lean, com Peter O‘Toole, Anthony Quinn.

FAROESTE:

– Os Brutos Também Amam, de George Stevens, com Alan Ladd, Jean Arthur.
– Paixão dos Fortes, de John Ford, com Henry Fonda, Linda Darnell.

ROMANCE:

– Casablanca, de Michael Curtiz, com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman.
– E o Vento Levou, de Victor Fleming (co-diretor George Cukor), com Clark Gable, Vivien Leigh,

GUERRA:

– Glória Feita de Sangue, de Stanley Kubrick, com Kirk Douglas, Ralph Meker.
– Inferno nº 17, de Billy Wilder, com William Holden, Don Taylor.

FILM-NOIR:

– Pacto de Sangue, de Billy Wilder, com Barbara Stanwick, Fred Mac Murray.
– O Falcão Maltês, de John Huston, com Humphrey Bogart, Mary Astor.
– A Vida por um Fio, de Anatole Litvak, com Barbara Stanwick, Burt Lancaster.

MEMORIAIS:

– Amarcord, de Federico Fellini, com Bruno Zanin, Magali Noel.
– Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, com Philippe Noiret, Jacques Perrin.

DE INTERESSE JURÍDICO:

– Testemunha de Acusação, de Billy Wilder, com Tyrone Power, Charles Laughton, Marlene Dietrich.
– Doze Homens e uma Sentença, de Sidney Lumet, com Henry Fonda, Lee J. Cob.

BRASILEIROS:

– Central do Brasil, de Walter Salles, com Fernanda Montenegro, Marília Pera.
– Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, com Atila Iório, Maria Ribeiro.
– Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco, com Fernando Ramos da Silva, Marília Pera.

Desta lista, quais os melhores filmes? Atrevo-me a selecionar os seguintes

TEMPOS MODERNOS.

– Uma sátira à modernidade, último filme mudo do criador de Carlitos. Literalmente genial.

CREPÚSCULO DOS DEUSES.

-Sem dúvidas, o melhor filme que já se fez sobre o mundo do cinema, ou melhor, sobre Hollywood. Drama com profundo sentido humano. Dois dos atores principais – Gloria Swanson e Erich von Strohein – desempenham papéis que representam, de certo modo, o que eles eram na vida real, como atriz e diretor/ator, respectivamente.

UM CORPO QUE CAI.

-Dos filmes de Hitchcock é difícil dizer qual o melhor. São obras-primas, com o toque de suspense e humor, que só o mestre soube dar. Mas, este é o mais famoso.

CANTANDO NA CHUVA.

-Musical antológico, cuja temática remete ao advento do cinema falado. Coreografias que ficaram na história. Gene Kelly, co-diretor e ator, na cena em que dança com um guarda-chuva, atinge o ponto mais alto de sua carreira.

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR.

-Excelente realizador de filmes dramáticos, o diretor Billy Wilder mostra sua versatilidade nesta comédia, considerada pelo American Film Institute a melhor de todos os tempos. Marilyn Monroe, inigualável.

Quem se debruçar sobre a história da vida literária, no Rio Grande do Norte, vai deparar-se com alguns fatos inusitados. Por exemplo: um dos nossos maiores escritores – Polycarpo Feitosa (pseudônimo de Antônio José de Melo e Souza) não pertenceu à Academia Norte-rio-grandense de Letras, nem sequer como sócio honorário. Por quê… Nunca se soube o motivo de sua ausência numa instituição, que, pelo menos em tese, reúne a elite intelectual do Estado.

Ficcionista de primeira grandeza, além de poeta, ensaísta e memorialista, Polycarpo Feitosa é um nome que orgulha o nosso Estado. Tinha tudo para ser acadêmico, inclusive status social (às vezes é levado em conta). Disfarçado pelo pseudônimo, Antonio de Souza exerceu altos cargos: Governador do Rio Grande do Norte (dois mandatos), Deputado Estadual, Procurador Geral do Estado, Senador, etc.

Note-se que, apesar da sua fama de ermitão, não era avesso à vida literária, pois, entre outras atividades sócioculturais, fundou e dirigiu, ainda jovem, o Grêmio Polimático, entidade prestigiosa, e foi sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Quando a ANRL foi fundada, em 1936, Antonio de Souza havia deixado de exercer, no ano anterior, as funções de Secretário Geral do Estado (substituto eventual do Interventor Mário Câmara) e aposentara-se no cargo de Consultor Geral do Estado.

Noticiando a instalação da ANRL, disse o jornal do Commércio, do Rio de Janeiro:

“Realizou-se, ontem, em Natal, solenemente, a instalação da Academia Norte-rio-grandense de Letras, fundada sob a orientação da Federação das Academias de Letras do Brasil e auspícios do governador do Rio Grande do Norte.

A Academia compõe-se de 25 cadeiras, sob o patrocínio de nomes ilustres de riograndenses falecidos, e já ocupadas as primeiras vinte por individualidades representativas da intelectualidade do Estado.”

Após enumerar os patronos e acadêmicos destas cadeiras, o jornal adianta:

“Para as cinco restantes cadeiras os acadêmicos serão eleitos dentre os Srs. Adauto Câmara, Eloy de Souza, Januário Cicco, José Augusto, Nestor Lima, Rodolfo Garcia, Matias Maciel, Tobias Monteiro, Valdemar de Almeida e Tavares de Lyra.”

Cinco dos nomes citados, aliás, dos mais eminentes, não foram eleitos: Eloy de Souza, José Augusto, Rodolfo Garcia, Tobias Monteiro e Tavares de Lyra. Estes três últimos tornaram-se sócios honorários.

José Augusto veio a ser eleito, anos depois, quando se aumentou para 30 o número de cadeiras, em 1943. E Eloy de Souza elegeu-se em 1949, sucedendo a Antônio Pinto de Medeiros, que renunciou. Em nenhum momento foi cogitado o nome de Antonio de Souza.

Em 1957 ampliou-se, mais uma vez, o número de cadeiras da ANRL, fixando-se o mesmo em 40, de forma definitiva, conforme o modelo da Academia Francesa. Antonio de Souza falecera dois anos antes, mas ninguém lembrou-se de homenageá-lo como patrono de uma das cadeiras então criadas.

Motivação política?

É provável que a exclusão do ilustre escritor, quando da fundação da Academia, tenha tido motivação política.

Como consta da notícia do Jornal do Commércio, acima citada, a novel entidade nasceu “sob os auspícios do governador do Estado”, que era, então, Rafael Fernandes. Este disputara a governança com Mário Câmara, em 1935, numa das campanhas mais conturbadas da história do Estado. Numerosas inimizades resultaram do sectarismo generalizado nessas lutas políticas. Ora, se Antonio de Souza tinha sido um homem da confiança de Mário Câmara…

Antônio de Souza, injustamente esquecido

Decorridos 64 anos de sua morte, Antonio de Souza está, injustamente, esquecido.
Fala-se muito e muito se escreve sobre ilustres governadores do Estado – Alberto Maranhão, José Augusto, Juvenal Lamartine, Aluízio Alves – mas nunca se diz que Antonio de Souza foi um dos melhores governantes que já tivemos, senão o melhor.

Honradez, tino administrativo, conhecimento da problemática socioeconômica do Estado, tudo depõe a seu favor. Mas, não é reconhecido.

No campo da literatura, as homenagens vão, quase sempre, para Câmara Cascudo, Auta de Souza, Jorge Fernandes, Zila Mamede e alguns outros, deixando de lado Polycarpo Feitosa. Dos seus cinco romances, apenas um – “Gizinha” – foi reeditado, e o seu único livro de contos permanece em primeira edição. Felizmente, o editor Cleudivan Janio, da CJA Edições, prometeu agora relançá-los.

Não sei de grande logradouro, tampouco de instituição que tenha o nome do eminente patrício. Estudo biográfico em profundidade – nenhum! Em 2016 tracei o seu perfil, em breves pinceladas, editado num volume, tipo pocket book, pela 8 Editora, na prestigiosa Coleção Presença.

Ampliando agora esse trabalho juntei valiosos subsídios, muitos destes coletados com a ajuda do escritor Thiago Gonzaga, e escrevi o livro “Antonio de Souza. (Polycarpo Feitosa) – Uma Biografia”. O lançamento está previsto para o mês de março do próximo ano.

Chamava-o Zé Maria. Foi com este nome que o conheci na roda de conversa da livraria, onde, às vezes, ele aparecia, sempre interessado em literatura. Apreciava muito a ficção científica e o realismo fantástico, como, aliás, gostava de dizer, mas não escondia o seu entusiasmo por escritores portugueses. Eça de Queiroz, Miguel Torga, Raul Brandão, tantos outros.

Certa feita recomendou-me a leitura do romance “Mau Tempo no Canal’, de Vitorino Nemésio, cuja ação transcorre no arquipélago dos Açores. Entre parênteses: José Maria descende do açoriano Rodrigo de Medeiros Rocha, notável desbravador que, nos meados do segundo quartel do século XVIII, em companhia do irmão Sebastião, estabeleceu-se no Brasil, mais precisamente na Ribeira do Sabugi, região do Seridó, sendo ambos considerados os troncos da família Medeiros no Brasil.

Zé Maria ou, depois, Figueiredo Rocha

Afora os escritores já mencionados, José Maria era fã de Jorge Luís Borges e Thomas Mann. Para ele não existia, na ficção universal, personagem maior do que Bartleby, de Herman Melville.

Evidente a qualificação intelectual do leitor inveterado que era José Maria. Sempre o vi assim, amigo dos livros, mas nunca suspeitei que ele tivesse veleidades de escritor. Cauteloso, escrevia em surdina, guardava na gaveta o fruto que, com certeza, considerava ainda não de todo maduro.

Mas eis que, em 2007, surgiu em cena, pronto para a aventura literária, com o romance “O Golem do Potengi”, em que deixou patente sua extraordinária capacidade imaginativa, na criação de um pequeno mundo ficcional entre a realidade cotidiana, a história e o fantástico.

A seu pedido escrevi um texto para a orelha do livro, no qual moldei esta nota.

Além de “O Golem do Potengi”, José Maria publicou, de sua autoria, em forma de livro, um alentado estudo sobre a Ordem Rosacruz, da qual participava.

Nosso amigo José Maria Figueiredo Rocha já não era tão-somente o leito voraz, o servidor público formado em Ciências Exatas (Matemática e Física), o paulista potiguarizado, filho de seridoenses, vivente da cidade do Natal; era também o escritor Figueiredo Rocha.

Personalidade sui generis: introspectivo, retraído, de poucas palavras a não ser quando estava com os amigos mais próximos. Além da inteligência e cultura, que lhe eram peculiares, revelava extrema sensibilidade. Dele se poderia dizer o que Rimbaud disse consigo mesmo:

-Par delicatesse j’ai perdu ma vie.

Numa madrugada de maio passado, José Maria se foi desta vida por vontade própria. Deixou um vazio no meio cultural natalense, é claro. E muitas saudades.

Pedro Vicente

A partida inesperada de Zé Maria lembrou-me a de outro amigo, frequentador da roda de conversa na livraria – Pedro Vicente da Costa Sobrinho, que se foi para o Outro Lado nos idos de 2013.

Intelectual conceituado, autêntico scholar (com alma de poeta), Pedro Vicente era uma grande figura humana. Conheci-o, ainda, nos bons tempos das “Cocadas”, quando mal saídos da adolescência, fazíamos de uma praça, assim apelidada, no centro de Natal, a nossa primeira universidade. Vivíamos os anos 60, a mais bela década do século XX. Tempos de Sartre e Bertrand Russell; tempos da Bossa Nova, dos Beatles e do Tropicalismo; de Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Câmara Cascudo; tempos do Cinema Novo…

Em meio à agitação política, mesmo nos primeiros anos da Ditadura Militar, debatíamos do alto das “Cocadas”, os grandes temas na crista da onda, inclusive os de natureza político-ideológica. Um jovem, então, destacava-se pela palavra fluente, já prenunciando o causeur que viria a ser. Seu nome despertou-me especial atenção: Pedro Vicente. Macauense, tivera larga vivência no Recife antes de vir morar em Natal. Dava gosto ver como ele discorria sobre os mais variados assuntos, agitando idéias, criticando autores e livros, comentando os fatos do dia. Indicou-me autores de quem eu nunca ouvira falar, como, por exemplo, Bulgakov, de “O Mestre e Margarida”.

Convém salientar que, nos debates em que se envolvia, com paixão, mantinha-se sempre no plano das ideias; nunca resvalou para retaliações pessoais. Falar mal da vida alheia, jamais! Sem dúvidas, foi um dos melhores “professores” naquela Universidade do Grande Ponto.

Depois, perdi-o de vista. Tinha ido estudar na União Soviética — disseram-me. Mais tarde tive notícia do amigo: estava no Acre. Fascinado pela Amazônia, ali — já graduado em Ciências Sociais, pela UFRN — ocupou cargos de relevo — Diretor do SENAC, Diretor do SESC, além de exercer o magistério e desempenhar importantes funções na administração da Universidade Federal do Acre.

De volta a Natal em começos da década de 1990, retomou o exercício do magistério — Professor da UFRN — e foi, algum tempo depois, Diretor da Editora da UFRN. Nestas funções, em dois períodos, realizou notável trabalho, tendo, inclusive, implementado plano editorial que marcou época. Dezenas e dezenas de livros e publicações outras vieram a lume graças ao editor doublé de escritor.

Também na condição de Diretor da Editora da UFRN, o Professor Pedro Vicente prestou relevante serviço à Academia Norte-rio-grandense de Letras, possibilitando a edição de quatro números de sua revista.

Eleito por unanimidade para ocupar a cadeira nº 31, cujo patrono é o Pe. Brito Guerra, essa escolha teve o sabor de uma consagração. Com efeito, deixou implícito o reconhecimento da totalidade dos acadêmicos a toda uma obra literária, da qual sobressaem quatro livros/solo e três coletâneas organizadas pelo autor. Duas das mencionadas obras — vale frisar — constituíram-se, originariamente, em teses acadêmicas: “Capital e Trabalho na Amazônia Ocidental” (São Paulo: Editora Cortez, 1992) e “Comunicação Alternativa e Movimentos Sociais na Amazônia Ocidental” (João Pessoa: Editora da UFPB, 2001), ambas, como as demais, bem recebidas pela crítica.

Muito poderia ser dito a respeito destas duas obras. Todavia, aqui não se trata de estudo crítico, é obvio. Um comentário, tão-somente. Quero referir-me ao fato de que, ao contrário da maioria dos amazonólogos, quase todos fascinados pelo “Inferno Verde”, Pedro Vicente sensibilizou-se com as lutas sociais e as condições políticas e econômicas, abrindo caminho num campo ainda pouco trilhado.

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Devo ressaltar um aspecto que me parece de grande importância na personalidade intelectual de Pedro Vicente, além das virtudes evidentes — inteligência e integridade. É que tendo sido um professor-doutor voltado para o estudo das ciências humanas e sociais, também foi um artista em potencial, um poeta, embora nunca tenha cometido versos, que eu saiba. Tais qualidades estão presentes, de modo especial, em dois dos seus livros menos divulgados: “Exercícios Circunstanciais” (Natal: Edições Coivara, 1997) e “Outras Circunstâncias” (João Pessoa: EDUFPB, 2002).

Confesso que são os livros de minha predileção, em toda a sua obra. Seus títulos sinalizam uma despretensão, que só pode ser entendida como prova de modéstia. Pois, de circunstanciais no sentido de coisa datada ou de interesse transitório, esses escritos não têm nada.

A temática é variada, e bem demonstra a versatilidade do autor, indo, com desenvoltura, das “Reflexões de Marx sobre O Estado no Livro de “O Capital” a “Um Olhar sobre o Olhar de Morse”, entre outros assuntos, no primeiro livro; e de “O Escritor Nordestino: um Itinerante à Procura de Editor”, a “Cascudo, Historiador da Comida”, no segundo.

Os “exercícios” também revelam qualidades especiais do autor, como, por exemplo, o gourmet e o cinéfilo, no admirável “Cinema e Gastronomia: A Festa de Babette”, sem dúvidas, ponto alto do seu ensaísmo.

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Por vezes, Pedro se tornava polêmico, no debate de ideias e fatos com os amigos da roda, por exemplo, quando afirmou, para espanto de todos, ao comentar suas andanças em Paris, de onde há pouco retornara:

-O Louvre é um museu de quinquilharias!

Pareceu-me que esta sua frase não passava de mera boutade. Pedro tinha grande senso de humor.

Muito sofreu às voltas com o câncer, que sempre soube enfrentar, bravamente.

Aproximando-se o momento derradeiro, fui visitá-lo, no hospital, onde estava internado há alguns dias. Ele ainda teve ânimo para me dizer, num fio de voz:

-O cerco está se fechando.

E acrescentou, fazendo alusão a um verso de Manuel Bandeira:

-Resta apenas tocar um tango argentino.

Dias desses, estive me lembrando de Eudes Bezerra Galvão. Eudes foi meu colega na Faculdade de Direito; fazia parte de uma turma boa – Deífilo Gurgel, Glênio Andrade, Jarbas Martins, Ney Lopes e Pedro Simões, com quem eu tinha afinidades e maior aproximação.

Depois de formado, Eudes não seguiu carreira jurídica, preferiu exercer cargos na administração pública, inclusive o de diretor da empresa de turismo do Estado, no Governo Cortez Pereira. Deixando Natal, algum tempo depois, ele foi morar em Brasília, e terminou por se fixar em Buenos Aires, como alto funcionário do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Era uma espécie de cônsul do Rio Grande do Norte na capital da Argentina. E lá morreu, precocemente, vitimado por um infarto.

Figura humana fora de série, Eudes tinha uns modos aristocráticos, em sua nobreza santa-cruzense, e – peculiaridade interessante – gostava de cultivar amizades com personalidades importantes.

Certa vez, eu, que era repórter de “A Ordem”, fiz uma brincadeira para mexer com ele: publiquei, no jornal, uma crônica, inventando que ele fora anfitrião de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, em Natal. Pura gozação. Para escrever essa crônica inspirei-me numa outra de Carlos Drummond de Andrade, em que o poeta relata imaginária visita de Greta Garbo a Belo Horizonte.

Ontem, remexendo nos meus “alfarrábios”, encontrei o recorte da crônica, o papel já amarelado pelo tempo. Transcrevo a seguir dois trechos da mesma, a título de curiosidade:

“Tudo nasceu de uma correspondência do universitário Eudes Galvão, único natalense a manter contato intimamente transoceânico com celebridades européias e norte-americanas.

Pois bem, Eudes, numa de suas conversas epistolares com Sartre, convidou-o a vir passear na cidade dos reis, descrevendo-lhe, com força persuasiva, a tranquilidade provinciana que, se para uns é tédio, para outros significa paz de espírito.

Sartre, em resposta, mandou dizer que aguentasse a mão, e qualquer dia estaria espirrando por aqui. Mas, fez uma ressalva: ‘Desejo permanecer incógnito em sua Natal'”.

(…)

…Naquela tarde, fomos debaixo de aguaceiro ao aeroporto, com grande expectativa, receber o casal famoso.

Esperamos um bocado de tempo. Afinal abriu-se a portinhola daquele bimotor e surgiram aos nossos olhos, dois vultos – Sartre, baixinho, óculos escuros, certamente para despistar eventuais caçadores de autógrafos, ao lado de Simone de Beauvoir, esta bem mais avantajada de corpo, o qual comprimia-se num vestido amarelo com grandes flores de estampa.

Fomos às apresentações. O filósofo ligeiramente irritado com a chuva. A romancista melhor humorada. Tencionavam demorar-se quinze dias aqui em repouso bucólico.

Alcançaram realmente a pretensão.

A imprensa de Natal, com seu faro para furos, nem ao menos sonhou com a presença de tão importantes personalidades, bem ali na casa do Rio do Sol. Felizmente.”

Engraçado é que muita gente acreditou nessa história.

POTENCIAL BECO DA LAMA

Quando era Presidente da EMPROTURN, Eudes Galvão adivinhou o potencial turístico do Beco da Lama, viela escondida no centro histórico de Natal, até então considerada reduto do submundo. Propôs recuperá-la. Sua sugestão serviu de zombaria, até mesmo na imprensa. Lembro-me que Eudes chegou a ser ridicularizado, publicamente. Hoje, o Beco da Lama virou atração turística, todo adornado com painéis do melhor grafite-arte. O mundo dá muitas voltas, como diz a sabedoria popular.

DE UM QUARTEIRÃO DA MEMÓRIA

Tenho em meu arquivo todas as cartas que me foram enviadas por Eudes Galvão. De uma delas pinço este fragmento, prova de que Eudes, embora não tenha publicado nada, sabia escrever com elegância e senso de humor:

“Fico aguardando, com entusiasmo, o seu livro. Assim – verdadeiramente – como esperei os anteriores. Até porque serei o seu biógrafo. As velhas cartas seguem, implacáveis, e guardadas, como sói acontecer, num velho baú, amarelecendo ali, caladas, na umidade das margens do rio Trairí.

Obrigado pela carta. Agora raras e curtas. Assim mesmo valem a pena.

Você é uma dessas pessoas que povoaram uma quadra da minha vida, da maneira mais gratificante possível. Devo-lhe isso. Uma forma de pagar (e nunca liquido o débito) é dedicando-lhe o melhor de minha amizade e com muito apreço,

Eudes”

Há algum tempo, batendo um papo animado com Hudson Paulo, escritor e poeta, martinense da Jurema, falamos sobre João Cabral de Mello Neto. Hudson eufórico: conseguiu comprar, num sebo da cidade, a obra completa de João Cabral, em bom estado de conservação.

Disse-lhe que sou pouco versado em poesia (epa! involuntário trocadilho) e muito menos em João Cabral, mas me gabo de ser um dos primeiros nesta aldeia de Poti, a ler o grande poeta pernambucano.

Por volta de 1959 deparei-me com um livro dele – “Duas Águas”- que, a bem dizer, devorei, fascinado. De modo especial causou-me profunda impressão uma série de poemas denominada “Cemitérios Pernambucanos”. Ainda hoje, transcorridos tantos anos, tenho de cor alguns versos.

“Nenhum dos mortos daqui
Vem vestido de caixão;
Portanto, eles não se enterram,
São derramados no chão”.

(Do poema “Cemitério Pernambucano (Nossa Senhora da Luz)”.

Hudson gostou de saber que eu tive oportunidade de conhecer pessoalmente João Cabral. Quando este veio a Natal, parece-me que a convite de Zila Mamede, não me lembro em que ano, vi, numa noite na Livraria Clima do CCAB – Petrópolis, aquele senhor magro, moreno, média estatura, metido num terno muito simples, calado, retraído, na fisionomia um ar de gauche na vida…. Ninguém diria que ali estava um dos maiores poetas do Brasil e do mundo, já então consagrado. Não tive coragem de me aproximar dele. Inibido diante de tamanha celebridade, limitei-me a observá-lo de longe.

João Cabral de Melo Neto, compreende?

Recentemente, vi, na televisão, um documentário sobre João Cabral, com depoimentos a respeito de sua vida & obra, e ele próprio sendo entrevistado e declamando poemas de sua autoria. Tudo de primeira.

Em sua fala, curiosamente, o poeta usa e abusa da palavra compreende.

Parece um tique nervoso:

-Isto assim, assim, compreende? Isto assim, assim, compreende? Compreende?

Fez-me lembrar do Desembargador Floriano Cavalcanti, meu professor no Atheneu e na Faculdade de Direito, que não dizia meia dúzia de palavras sem indagar, com toda a ênfase:

-Entendeu você?

Conversas de Poetas

“…eu acho que o próximo não tem por que aguentar as nossas pulgas. Quer dizer: eu não tenho por que publicar coisas com minhas preocupações, com minhas angústias, eu não tenho por que falar de mim. Eu não me considero digno de fazer um só poema falando de mim diretamente. Toda experiência serve de material para um poema, mas essa experiência vai aparecer no poema sob outra forma. Ninguém tem o direito de se confessar em público, ninguém tem o direito de incomodar os outros com os seus problemas e com suas pulgas”. João Cabral de Melo Neto em entrevista inclusa no livro “Conversas de Poetas” (organização e edição de Adriano de Sousa e Flávia Assaf).

Estas palavras do poeta maior deveriam servir de lição a alguns poetas e poetisas, que têm surgido, ultimamente, em nosso Estado.

Poesia desmedida

Num volume do seu jornal literário, Hildeberto Barbosa Filho vergasta, a certa altura, uma safra de poetastros – confessionais, sentimentalóides – que infestam a sua província. E, lá para as tantas, diz:

“Odeio, sim, a poesia dos que ingenuamente confundem poesia com confissão de sentimentos, com a expressão de mágoas, dores, alegrias, boas intenções, enfim, com os estados d’alma que trespassam a sensibilidade dos corações ditos românticos”.

E acrescenta o crítico, com a argúcia de sempre:

“Essa poesia em que o sentimento aflora de maneira desmedida, caracteriza-se por um aspecto fundamental: nenhuma, ou quase nenhuma, consciência da linguagem. Essa poesia paradoxalmente não logra o intento primeiro da arte poética, isto é, não consegue se transmutar no poema”.

Não fica aí, mas estende-se, com proficiência, sobre o assunto.

Amor aborrecido

Em seu livro “Nosso Amigo Castriciano”, Câmara Cascudo conta a seguinte anedota:

“O poeta Jaime dos G. Wanderley pergunta um dia a Henrique Castriciano:

-Mestre Henrique, o senhor amou alguma vez? Castriciano coça o queixo e confidencia:

-Eu já tenho passado meus seis meses bem aborrecidos…”

Não acredito que alguém que ame e seja amado possa aborrecer-se com o Amor. Henrique Castriciano apenas amava, mas não era amado. Triste sina! Pelo menos, restou-lhe a alternativa de após seis meses, libertar-se.

Da beleza que não basta

Que é que faz a gente amar alguém? Com certeza não é só a beleza física. Também a graça, a simpatia, a bondade e as afinidades múltiplas, a reciprocidade de sentimentos, a cumplicidade, enfim. Se pintar sexo, melhor. O sexo é uma espécie de condimento do amor.

Vinicius de Morais disse com aquele “saber de experiência feito”:

– As feias que me perdoem; beleza é fundamental.

Sim. Mas, por si só não basta. E o conceito de beleza varia de pessoa a pessoa.

O amor em Vinícius

Dos poetas brasileiros, nenhum, até hoje, soube cantar o Amor melhor que Vinicius. Sirvam de exemplo estes versos de uma das suas canções com Tom Jobim:

“Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, e eu não existo sem você”.

Amor e morte

Na vida há duas coisas, realmente, importantes: o Amor e a Morte. Eros e Tanatos.
Va lá o truísmo…

“O “diário” é o melhor companheiro para conversar. A gente fala. Ele não responde. Mas, um dia conta tudo que ouviu”. Quem diz isto é o escritor Alvaro Moreyra em “As Amargas, não…”, livro injustamente esquecido, em boa hora reeditado pela Academia Brasileira de Letras, no qual pesco esta outra pérola:

“Se um anjo do Senhor me participasse – Vou te levar para o Paraíso – eu lhe pediria, olhando Florença – Não, não me leve para o Paraiso… estou tão bem aqui…”

Na extrema-unção…

Padre Mota, vigário de Mossoró, estava para morrer, já recebera a extrema-unção. Nisto aproxima-se dele uma beata e lhe diz:
-Padre Mota, console-se, o senhor vai para o céu.

E ele, choroso:
– Mas, eu gosto tanto de Mossoró.

A culminância do minuto

Há algum tempo, encontrei num texto de Gilberto Amado uma frase que guardei na memória: “O minuto é uma culminância. Galgai-a”.
Agora, lendo o poema “O Relógio” de Baudelaire, deparei-me com estes versos:

“O minuto é uma ganga, ó frívolo mortal,
De que não deixarás de extrair todo o ouro!”

E os chatos?

“Se é verdade que tens pena dos cegos, dos coxos, por que não tens pena dos maus? Os maus, por sua desgraça, são aleijados também.”

Epiteto, citado por Alvaro Moreyra em “As Amargas, não…”

Eu diria: E os chatos? Por que não tens pena dos chatos?

Botânico x jardineiro

Resposta do escritor Jules Renard (1864-1910) a um crítico literário:
– O crítico é botânico. Eu sou jardineiro.

Rico = pobre

Palavras de outro escritor famoso, Anatole France (1844-1924):
“A lei é igual para todos. A lei proíbe tanto ao rico quanto ao pobre, dormir debaixo das pontes e roubar um pedaço de pão.”

Raça inferior para sempre

No fecho do seu livro “A Sedição do Juazeiro” Rodolfo Teofilo, referindo-se às mazelas políticas do Ceará do seu tempo, afirma: “Os nossos males não terão fim tão cedo. A sua origem é a mestiçagem com todos os vícios e defeitos das raças inferiores”.

Que diria Gilberto Freyre de tamanho disparate?

A tese da pureza racial como fator civilizatório, levantada pelo Conde de Gobineau e outros pseudocientistas, está inteiramente superada. No tempo de Rodolfo Teófilo estava na crista da onda; daria, inclusive, respaldo a regimes políticos despóticos como o nazismo e o fascismo.

Sadomasoquismo

“O sofrimento purifica”.
Dostoievski.
Será….

Admiração e um muito obrigado

Nas horas tortas da vida que seria de nós sem a Música?
Obrigado, São Jorge Gershwin; obrigado, São João Sebastião Bach.

Em toda minha vida nunca me deixei fanatizar. Não é do meu feitio idolatrar nada nem ninguém. No entanto, admiro alguns vultos que exerceram forte influência em minha formação intelectual. Quais? Na literatura, Eça de Queiroz, Machado de Assis e os romancistas regionalistas da década de 1930, especialmente Graciliano Ramos; na música, George Gershwin, os Beatles e Noel Rosa; nas artes plásticas, Van Gogh e os Impressionistas; no cinema, Alfred Hitchcock e Billy Wilder.

De perto ninguém é normal

“A familiaridade gera o desprezo e raramente traz a admiração”. Frase de Apuleio (c. 124-c. 170), autor de “O Asno de Ouro”, precursor do romance moderno. Sábias palavras, ressaltam uma das mais desconcertantes ironias da vida: a banalização dos relacionamentos.

Amor, ridículo

Macedonio Fernandes costumava dizer a Jorge Luís Borges:
– A Morte é uma falácia.

Será que é, mesmo?

Parodiando o escritor argentino, eu diria que, em relação ao Amor, a Palavra é uma falácia. Na verdade, os que se amam entendem-se, de preferência, por olhares, gestos, atitudes e até pelo silêncio.

“Eu te amo”. Existe expressão mais gasta e inócua do que esta? Como empregá-la sem cair no ridículo?

Fernando Pessoa já disse que todas as cartas de amor são ridículas.

A dúvida da certeza

Mário Quintana, no livro “Porta Giratória”, falando a um padre proselitista:
-Sempre tive o bom senso de duvidar não só das minhas certezas mas também das minhas dúvidas.

Melhor o silêncio

Ligo o aparelho de televisão enquanto degusto (que palavra feia!) uma fatia de queijo. Sintonizo canal especializado em notícias. O apresentador informa que, na BR 101, um ônibus capotou, causando a morte de duas pessoas. Mudo de canal, e surgem, na tela, uns senhores a comentar jogos de futebol. Outro canal: programa de auditório. Mais outro: novela. Haja saco! Chega. Desligo o aparelho.

Salvação

“Yo soy yo y mi circustancia y si no la salvo a ella no me salvo yo”
Ortega y Gasset.

Cita-se muito a primeira parte desta frase, mas, inexplicavelmente, ignora-se a segunda parte.

Demasiados minutos de fama

Em declaração à imprensa, Umberto Eco afirmou que, hoje em dia, com o advento da internet, os imbecis, de que o mundo está cheio, podem vir a público exibir os seus escritos execráveis. (Cito de memória).

Em seu livro “Da Preguiça como método de trabalho”, Mário Quintana refere-se a um poeta espanhol, don Pedro Manuel de Urrea, que florescendo na época da invenção da imprensa, empalidecia só de pensar que seus versos, com isso, corriam o risco de ser lidos até mesmo nas adegas e cozinhas”.

Garatujas da idade

Duas coisas que as novas gerações adoram e eu detesto: tatuagem e som alto demais. Também abomino grafite – não o grafite-arte, mas essas garatujas que emporcalham fachadas e muros das cidades. Ainda bem que nem todo jovem tem essas manias.

Ferrari CR7

Perguntado por que não aderia à moda da tatuagem, o jogador de futebol Cristiano Ronaldo disse:
– A uma Ferrari não se adesiva.

Vergonha alheia

‘Não me espanto com a perversidade dos homens, mas com a sua falta de vergonha”.

A frase de Jonathan Swift (1667-1745) vem a calhar quando se atenta para a corrupção que grassa nas altas esferas do poder.

Desde sempre e agora pior

Duas espécies de político infelicitam nosso país: o corrupto de sempre, e agora mais do que nunca, o medíocre, violento e desastrado.

Em nossa literatura, como, aliás, em muitas outras, certos livros distinguem-se não apenas pelo seu valor intrínseco, mas também pela sua importância histórica, seja porque constituem verdadeiros marcos, seja porque de uma forma ou de outra mudaram o curso dos acontecimentos, fizeram surgir coisas novas.

É o caso, por exemplo, de “Dois Poetas do Nordeste”, de Veríssimo de Melo (Rio de Janeiro: Ministério de Educação e Cultura – Serviço de Documentação, 1964). A este pequeno/grande livro deve-se a redescoberta de Jorge Fernandes, modernista pioneiro no Rio Grande do Norte.

Com efeito, antes da publicação de “Dois Poetas…” pouco se falava e menos se escrevia sobre o poeta, mas depois foram surgindo cada vez mais estudos sobre ele, de modo que, hoje, é um dos autores norte-rio-grandenses mais prestigiosos. Numerosos ensaios, artigos, teses e dissertações acadêmicas têm enriquecido a bibliografia a respeito da sua única obra poética, “Livro de Poemas de Jorge Fernandes” (Natal: Tipografia de “A Imprensa”, 1927).

No meu livro, “Salvados – Livros e Autores Norte-rio-grandenses” (3ª ed. – Natal: Offset Editora, 2014) especifico a referida bibliografia, da qual se destacam três livros: “O Lirismo nos Quintais Pobres”, de Humberto Hermenegildo de Araújo (Natal: FJA, 1997), “Leitura de Jorge Fernandes”, de Francisco das Chagas Pereira (Natal: FJA, 1985) e “Jorge Fernandes, o Viajante do Tempo Modernista”, de Maria Lúcia de Amorim Garcia (Natal: RN Econômico, 2009).

Jorge Fernandes, como se vê, está bem estudado. Merecidamente. Mas, convém ressaltar que, não fora o estudo precursor de autoria de Veríssimo, é bem provável que ele permanecesse por bastante tempo, desconhecido.

“Dois Poetas do Nordeste” foi editado pelo MEC, integrando uma serie de notáveis publicações, com distribuição em todo o território nacional, o que diz da sua relevância. Ao que me consta não teve reedição.

Jorge Fernandes e Ascenso Ferreira (o outro poeta focado) identificam-se, além da própria nodestinidade, pelo engajamento no Movimento Modernista, bem como pela linguagem de natureza oral; pelo sentido plástico e cromático dos seus versos; pelo humor e outras características de suas obras. Veríssimo de Melo, com o seu estilo ágil e leve, estuda-os de forma objetiva e dá depoimento pessoal, amigo que foi dos dois. Também transcreve vários poemas, inclusive, de Jorge o famoso “Rede”, antevisão do Concretismo.

Em 1970, Veríssimo organizou a segunda edição do “Livro de Poemas”, acrescentando algumas poesias inéditas e outras coletadas em coleções de jornais e revistas (Natal: FJA). Além da introdução, pelo autor, valoriza essa reedição um texto de Luís da Câmara Cascudo, amigo e grande incentivador de Jorge Fernandes.

AFONSO BEZERRA

Tão significativo quanto o poeta Jorge Fernandes, para as nossas letras, é o escritor Afonso Bezerra (1907-1930).

Em 1967, Manoel Rodrigues de Melo reuniu toda a sua obra em um volume sob o título “Ensaios, Contos e Crônicas”, acrescido de introdução e notas (Rio de Janeiro: Editora Pongetti). Admirável pesquisa bibibliográfica e crítica, essa, que se constitui em uma das melhores contribuições ao estudo da literatura no Rio Grande do Norte.

Afonso Bezerra tinha tudo para se tornar um escritor de renome nacional, mas infelizmente, morreu moço, sem ter tido tempo de realizar a grande obra, cujo potencial demonstrava possuir.

Dos gêneros literários por ele cultuados, foi o conto, sem dúvidas, aquele em que revelou suas melhores qualidades de artista da palavra. Imbuído de forte sentimento telúrico, compôs, com engenho e arte, pequenas histórias em que revelou flagrantes da vida do sertanejo – costumes, traços psicológicos, coisas e animais – e o fez usando do próprio linguajar matuto. Neste sentido alinhou-se junto a Hugo de Carvalho Ramos e Afonso Arinos, autores a quem muito admirava, e outros contistas regionalistas.

Como já tive oportunidade de dizer, em “Ficcionistas Potiguares”, ele foi, de certo modo, um precursor do Regionalismo Nordestino da década de 1930. Inquestionável a sua importância no contexto da literatura potiguar.

Mas, lamentavelmente, os seus contos, embutidos na referida coletânea, lado a lado com trabalhos outros menos valiosos, não tiveram o realce que bem merecem. Fazia-se necessário resgatá-los do injusto olvido mediante publicação em volume próprio com ensaio introdutório e notas.

NO RANCHO DOS BENTINHOS

Em boa hora, o escritor e pesquisador Thiago Gonzaga tomou a si esse encargo árduo, mas prazeroso, concretizando-o em livro sob o título “No Rancho dos Bentinhos e Outros Contos” (Natal: Sebo Vermelho Edições, 2014).

Thiago Gonzaga tem know-how: autor de vários trabalhos de pesquisa publicados em livro, com boa receptividade de crítica e do público, entre os quais “Presença do Negro na Literatura Potiguar & Outros Ensaios” (Natal: CJA Edições, 2014) e “Os Grãos – Ensaios sobre Literatura Potiguar Contemporânea” (Mossoró: Sarau das Letras/Natal CJA Edições, 2016).

Mas, a sua atividade intelectual não se restringe ao campo da pesquisa e do ensaio: Thiago é também contista, autor do livro “Uma Outra Estação” (Natal: CJA Edições, 2016), igualmente bem aceito, e nesta condição pôde interagir da melhor maneira com a obra ficcional de Afonso Bezerra.

Não tenho dúvida em afirmar que “No Rancho dos Bentinhos”, deverá ter, em relação à obra ficcional de Afonso Bezerra, o mesmo significado histórico que tem “Dois Poetas do Nordeste”, em relação ao “Livro de Poemas de Jorge Fernandes”.

Nascido em Santana do Matos e criado em Martins, com raízes familiares nesta cidade do alto sertão, considero-me um sertanejo, um completo sertanejo, mesmo sendo vivente de Natal há longos anos. Não seria, pois, de admirar que eu apreciasse a literatura de cordel.

Mas, confesso, não morro de amores por ela. Na verdade, gosto e muito da poesia simples e rústica dos antigos cantadores; daqueles que o mestre Câmara Cascudo estudou em seu livro “Vaqueiros e Cantadores”. Um Inácio da Catingueira, um Leandro Gomes de Barros, um João Martins de Ataíde.

Quando menino, em Martins, eu comprava, na feira, folhetos desses menestréis sertanejos. Não gosto é desse falso cordel atual, feito por poetas medíocres, de cidade grande, sem vivência no sertão.

Dia desses, remexendo nos meus “alfarrábios”, encontrei o recorte de um artigo que incluí na primeira edição do meu livro “Salvados”, mas que retirei das edições posteriores, intitulado “As Enchentes do Rio Mossoró em Folheto de Cordel”. Transcrevo-o a seguir.

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“Meu Nordeste brasileiro
És palco de tantas cenas.
O tempo é qual palhaço
Que representa centenas
De fenômenos aberrantes
Coisas grandes e pequenas”

Assim começa o primeiro folheto de cordel a usar como tema a cheia do rio Mossoró, em 1967. Seu título: “A Cheia do Rio Mossoró e o Sofrimento do Povo”. Autor: Antônio Lucena. Trata-se de um exemplar típico da literatura de cordel: cinco folhas dentro da capa cor-de-rosa, com a gravura de um homem empurrando um arado.

Esta cena, diga-se de passagem, não tem muito a ver com o texto. Há outra ilustração na contracapa: o clichê de um vereador local ao lado de encomiosa legenda, apregoando “seu trabalho incessante pelo flagelo dos desabrigados” … Abaixo desta, outra, também sobre vereador local: “Sacrificou sua vida na virada da canoa”.

Ambos os edis estão citados de mistura com outros heróis, tais como o Prefeito, o Bispo e o Juiz de Direito. Antônio Lucena, o autor, revela-se um apologista nato. Mas, o que importa é que ele, às vezes, tem graça em sua poesia. Como, por exemplo, nestes versos, em que fala sobre algumas causas da enchente:

“Diversos açudes pequenos
Arrombaram de uma vez.
O açude de Lucrécia
Sangra desde o dia seis.
Açude Apanha Peixe
Sangra faz mais de mês”

Mais adiante, referindo-se ao desespero da gente desabrigada é de uma simplicidade tocante:

“Umas mil e tantas famílias
Ficaram desabrigadas
Vendo as suas casinhas
Com as paredes molhadas
E outras querendo cair
Com as paredes rachadas”

Curiosamente, a falta de meios de expressão funciona como poesia.

Sobre o episódio de inundação da tradicional churrascaria, que se situava às margens do rio, quase dentro, assim, disse Antônio Lucena:

“Churrascaria “O Sujeito”
De Boanerges Perdigão
Entrou água na cozinha
Entrou água no salão
Entrou água na farinha
Entrou água no feijão.”

Notar aí um detalhe, aliás, comuns à poesia de cordel: a preocupação em pormenorizar o relato.

Da churrascaria as águas avançaram pelo centro da cidade, até concederam entrevista….

“Saiu fazendo visita
Ao comércio grossista
Foi ao Banco do Brasil
Fez por lá uma entrevista
Dizendo que o nosso rio
É forte e otimista”

Então, o autor conversou com as águas, e estas lhe disseram “que vivem cheias de mágoas”. Ele termina dando conselho:

“Então façam suas casas
Sem ser no leito do rio”.

E faz o rio falar:

“Não explorem minhas margens
Em tempo seco de estio
Relembrem os invernos fortes
Os meses de chuva e frio”.

Vários aspectos, além dos já referidos, podem ser detectados nesse despretensioso cordel, como, por exemplo, a procura das rimas a todo custo, e certo ar “ingênuo”, deixando bem evidente, mas uma vez, o parentesco da poesia popular com a arte naif.

É claro que Antônio Lucena não alcança, como cordelista, o alto patamar de um Antônio Francisco, de um Crispiniano Neto, mas, afinal, dá o seu recado.

Sem a menor originalidade, mas falando do fundo da alma, posso dizer que tenho no coração quatro cidades: Santana do Matos, Martins, Mossoró e Natal.

Afora Santana, minha terra-berço, de onde saí para não mais voltar, com apenas 1 ano e poucos meses de idade, as demais formam o meu itinerário de Pasárgada…

Em Martins, no alto de uma serra paradisíaca (vá lá o clichê), vivi a infância, uma década cujos encantos a memória sentimental vai ampliando à medida em que passam os anos e a gente vai ficando cada vez mais nostálgico.

Como Martins não dispunha, então, de uma escola secundária, meus pais me mandaram continuar os estudos em Mossoró, interno no Colégio Diocesano Santo Luzia, que ainda funcionava no velho prédio da Praça Vigário Antonio Joaquim (Anos depois, lamentavelmente, demolido). Era o ano de 1956. Mossoró era uma cidade tranquila e provinciana, mas já cognominada Capital do Oeste. Desenvolvia-se graças ao comércio e indústria do algodão, principalmente.

Para que se avalie a sua crescente importância sócio-econômica, basta dizer que contava com uma instituição bancária local, o Banco de Mossoró, sediado num “arranha-céu” (cinco andares!), linha aérea regular e estrada de ferro – a “Mossoró-Souza”.

Um jornal, “O Mossoroense” velho de guerra, e duas rádios – Rádio Difusora de Mossoró e Rádio Tapuio – constituíam a impressa escrita e falada, como então se dizia.

Dois clubes movimentavam a sociedade com festas animadas: Ipiranga e ACDP (Associação Cultural e Desportiva Potiguar, que, inicialmente, chamava-se apenas ADP), situada à margem do rio Mossoró, logo após a ponte “Jerônimo Rosado”. O povo, gaiatamente, dizia que a sigla ADP significativa “Adepois da ponte”, e ACDP “Adepois da curva da ponte”.

No plano cultural, Vingt-Un Rosado e João Batista Cascudo Rodrigues eram os nomes em evidência, grandes animadores, ou melhor, ativistas, para usar a linguagem de hoje. Vingt-Un à frente da “Coleção Mossoroense”, já a todo vapor; livros e plaquetes editados em profusão; João Batista no ICOP (Instituto Cultural do Oeste Potiguar) e n´outras frentes, ambos cheios de ideias e sempre dispostos a coloca-las em prática.

“O Mossoroense”, fazendo jus à tradição, tinha a eficiência de Lauro da Escóssia, seu diretor, e a pena afiadíssima de Jaime Hipólito Dantas. Outros nomes – Rafael Negreiros, Elder Heronildes – participavam do jornal como colaboradores.

Em 1957 meus pais vieram residir em Mossoró (papai, Juiz de Direito, fora promovido para a terceira entrância, vindo ocupar uma das duas Varas da Comarca de Mossoró), e eu, até então interno no “Santa Luzia”, ganhei harbeas corpus, passei a estudar externo. Foi um alívio, uma felicidade. Vale dizer, entre parêntesis, que o Colégio havia se mudado, no meio do ano anterior, para o prédio novo, construído na periferia da cidade.

Sobre a minha vivência no tradicional educandário, que me deixou tantas marcas, escrevi página de memórias, incluída no meu livro “O Caçador de Jandairas” (3ª. edição, revista e aumentada. Natal: Oito Editora, 2019).

Morávamos em casa alugada, na rua Tibério Burlamaqui um casarão com não sei quantos quartos e salas. A rua sem calçamento tinha um doce ar de subúrbio.

Adolescente, 13 anos em flor, sempre às voltas com os desencontros e alumbramentos próprios da idade, eu começava a descobrir a Vida… Minha maior curtição eram as matinês nos cinemas Pax e Caiçara. Duas a três vezes por semana me largava pela rua Mário Negócio em direção ao centro da cidade, ansioso para assistir à fita em cartaz.

Às vezes, depois do filme, voltava pra casa quase correndo, não podia perder, no rádio, mais um capítulo da novela “Jerônimo, o Herói do Sertão”.

Foi na Mário Negócio que descobri a Biblioteca Pública Municipal, instalada num salão do andar térreo do Clube Ipiranga; ali mantive os primeiros encontros com a Literatura e findei virando leitor inveterado.

Muita coisa ainda teria a dizer sobre Mossoró do meu tempo. Mas, ela tornou-se, como a Itabira de Drummond, apenas “um retrato na parede”… E como dói.

Chega de saudade.