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Miller, Marilyn e um certo major brasileiro

“Há pessoas tão vivas na vida que não parecem desaparecer quando morrem.” Quem escreveu esta frase foi Arthur Miller, o dramaturgo, autor de ‘A morte de um caixeiro viajante’, ‘As bruxas de Salem’ e outros clássicos do teatro ocidental.

A sentença está na sua autobiografia, ‘Uma vida’, publicada no Brasil em 1989 pela Editora Guanabara. O livro é um tijolaço com mancha de texto de saturar qualquer leitor inveterado em suas 557 páginas de densas memórias, profundas impressões sobre eventos que vão desde a Grande Depressão dos anos 30 até as barbas da Guerra do Vietnã e da contracultura.

Por esse mar de palavras escrito com a seriedade de quem se julgava uma plena testemunha do seu tempo – e muitas vezes protagonista de vários dos episódios que ficariam gravados na mente da humanidade – passa um cardume de celebridades, da era em que esta palavra gigantesca só era realmente aplicada a quem estava à altura dela.

Você esbarra em gente como Elia Kazan, o cineasta que veio do teatro, e Julius Robert Oppenheimer, o físico que liderou o projeto Manhattan, laboratório da bomba atômica que instalou uma cortina de pavor na sala onde habita o gênero humano.

E nem precisaria mencionar a principal personalidade que o livro obrigatoriamente acolhe, tenta decifrar, procura ajudar mas falha, como não poderia deixar de ser: Marilyn Monroe, com quem Miller manteve um casamento nem tão tumultuado quando se pode imaginar antes de começar a ler o primeiro parágrafo desta autobiografia.

Obviamente que já está claro pelo que digo aqui sobre este livro que aquela frase inicial – permitam relembrar: “há pessoas tão vivas na vida que parecem não desaparecer quando morrem” – é um pensamento de Arthur Miller após a morte de Marilyn.

Vou cometer uma heresia em favor da ideia que tento construir aqui, com a cumplicidade do leitor amigo; vou retirar a frase do contexto original, embora até o leitor não muito amigo seja capaz de concordar que ela certamente não se aplica somente a Marilyn Monroe. Vou aplicar a mesma frase a uma pessoa da atualidade, completamente distinta de alguém como a estrela de cinema, absolutamente estranha a uma mísera frase da autobiografia inteira de Arthur Miller. Mas o fato é que a conexão se fez, ao menos pra mim. E gostaria de dividir com vocês.

O que quero dizer é que a frase de Arthur Miller se aplica, neste momento, perfeitamente bem à figura do senador Major Olímpio. Ele mesmo. Calma. Não desista ainda. Eu chego lá. Há poucas semanas, estava eu trabalhando na redação da TV Câmara, em Brasília, quando chegou em todas as telas uma notícia infelizmente não de todo inesperada: o parlamentar, que vinha enfrentando a Covid-19 com dificuldades, num quadro clínico delicado, acabara de ter morte cerebral. Para aquela tarde estava prevista a vinda do presidente que o Brasil em má hora elegeu (elegeu mesmo, ainda que num processo viciado em várias frentes, mas este não é o assunto principal aqui) para entregar ao Congresso mais uma de suas tristes propostas. Até as cadeiras da redação adivinharam na hora que seria tudo cancelado. Os relatos que chegavam era de senadores em prantos.

Agora vamos ligar os pontos, enquanto o leitor, amigo ou não, ainda tem paciência comigo. O Major Olímpio, que antes de ser senador fora deputado e portanto uma pessoa do conhecimento de qualquer jornalista que trabalha no Legislativo em Brasília, era em si, sozinho, um representante de tudo aquilo de que quero distância em matéria de política, comportamento, posturas, opiniões. Mas era um autofalante poderoso, do tipo que grita sua posição mais alto pra prevalecer. Mesmo assim, naquele momento eu senti a morte do Major Olímpio como nunca esperava.

A minha geração viu a morte de Cazuza, chorou o desaparecimento de Renato Russo, lamentou o adeus de Cassia Eller, passou pelo drama quase absurdo de Tancredo Neves acreditando nele ou não, passou por todas essas despedidas com a dor evidente, natural, um sentimento decorrente da mais legítima das empatias – e me perdoem se cito mais figura da arena pop do que da política, mas é que aquela nos toca mais do que esta. Então por quê, eu me questionava, estava naquela tarde sentindo tanto o fato de o Major Olímpio ter sucumbido à força do vírus – sendo ele uma figura da bancada da bala, um apóstolo consolidado da direita populista, um ex-bolsonarista que mal havia cortado o cordão umbilical com a deformação política maior ao qual estivera associado ontem mesmo?

A comoção natural entre a parte da população que entende a dimensão da crise do vírus estava presente, claro. Mas não apenas isso. E é aqui que entra a frase de Arthur Miller: a vivacidade de uma pessoa não tem cor política, escaninho ideológico, procedência cultural. Dei-me conta de que, de fato, o Major Olímpio fora uma personalidade marcante, com seus brados com os quais estávamos acostumados (dizem colegas que, desligada a câmera, era uma ovelha mansa e cordial, não sei), sua fúria espetacular, seu bestial exagero que furava a frágil bolha da etiqueta política.

Continuo sem gostar do Major Olímpio como figura pública. A morte dele não modifica isso, tampouco legitima os semelhantes, não poucos, que ele deixou bem vivos aqui embaixo. Mas a morte dele tem ainda uma segunda camada de significados – poderá ter, o futuro dirá, permitam-me um adiantamento. O fato de alguém que esteve muito à beira do negacionismo ter caído pela Covid-19 não pode deixar de ser algo marcante.

Brigado com o presidente, Major Olímpio fez vídeo em favor da vacina e falou em defesa da ciência nos seus últimos dias. Mas também participou de atos contra o fechamento do comércio que rezam pela cartilha da negação ao distanciamento. Não poderia jamais dizer que mereceu – ninguém merece essa morte súbita, que lhe traga em poucos dias, às vezes horas, para uma asfixia num oceano seco de pavor e solidão final. Ninguém merece. A palavra merecimento aqui não faz sentido algum. O caso é outro.

Minha última aposta neste texto arriscado é dizer que a morte do Major Olímpio, por tudo o que ele representava, pode ser a consolidação deste meio estágio em que estamos politicamente, socialmente, culturalmente. Depois do tsunami extremista que varreu o país após a derrubada de Dilma e se instalou em todos os lugares onde o infeliz e impensado voto da população permitiu, estamos agora em outra maré. Quisera fôssemos pescadores tarimbados para saber medir com mais precisão. Estamos mais pra peixes que seguem a correnteza que passa com mais força. Mas é fato que há outras correntes na piscina cheia de ratos de onde tentamos desesperadamente sair. Essa água suja vai ser substituída e o processo já começou. A porção virulenta terá que ser despejada em algum momento – e águas novas virão. No meio da limpeza, agora, fica difícil ver com clareza. A morte do Major Olímpio, que fora um dos mais vociferantes comandantes desse barco, tem que significar algo mais. A deserção dele pode ser um espelho d’água de outra mudança de rumos muito maior, primeiro em uma baía, depois em um golfo, logo mais de um oceano inteiro.

Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que não nos faltam exemplos de mortes que, para além de reais, são absolutamente simbólicas. Agora mesmo tem alguém aí fora, peixe graúdo, que foi dado como morto. Ledo engano: está de volta ao convés, recoberto por uma nova camada de… significados, essa palavra abstrata que move o mundo da política e faz a humanidade oscilar para um lado ou outro conforme os ventos em volta. Estou me referindo a alguém a quem se pode tranquilamente associar aquela mesma frase de Arthur Miller: “há pessoas tão vivas na vida que não parecem desaparecer quando morrem”. Preciso citar nomes – ou nome?

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