Guerra está na moda

guerra e paz

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Descobri que Guerra e Paz, o livro de Tolstói, virou moda neste período em que as pessoas conscientes reduziram a circulação social para ajudar a conter a Covid-19. Teve matéria na Folha de S. Paulo, com Fernanda Torres, com quem não simpatizo nem um bocadinho, contando sua experiência de ter lido o clássico.

O curioso é que, assim como ela, comecei a ler Guerra e Paz em um contexto completamente solto do atual. Peguei pra ler em dezembro do 2019, ao encontrar uma edição barata – quase de graça – no kindle. 1 real. Guerra e Paz a 1 real. Por que não? Lá me fui. Até eu descobrir que aquilo era uma edição condensada e em tradução para o português de Portugal levou um tempo.

Mas eu não queria encarar a tradução célebre no Brasil, publicada primeiro pela Coscac Naif, que fechou, e comprada e relançada depois pela Cia das Letras. Isso porque cheguei a pegar um exemplar numa biblioteca pública, levei pra casa e quem acabou lendo (isso acontece frequentemente) foi Rejane Medeiros, minha companheira de vida, antes de mim. E reclamou do excesso de trechos em francês. Mais tarde, nossa querida Ana Luiza Câmara, companheira de redações passadas, contaria que passou pelo mesmo problema. Ambas largaram o livro.*

Lembrei então de uma outra tradução, baratinha também, pela L&PM em livros que eles chamam “de bolso”. Vá lá. 4 volumes. Só que meio difíceis de achar todos na mesma livraria. Comprei o volume 2, que correspondia ao trecho em que me achava no falso-português do kindle. Foi como uma revelação. Num instante consegui distinguir as famílias, os agrupamentos, os conflitos e principalmente as ideias – porque Guerra e Paz é como um filme feito em vários formatos. É como Oliver Stone naquele filme sobre uma dupla de malfeitores pop-modernosos cujo nome me escapa. Ou como no JFK pra ficar no mesmo cineasta. De uma cena pra outra ele muda a fotografia, o enquadramento, a granulação, o uso ou não de cor.

Assim é Guerra e Paz: às vezes um romanção descarado (daí Fernanda Torres dizer que parece uma novela das oito, e em grande parte está certa), outras um ensaio sobre questões militares, daqui a pouco passa a ser um texto absolutamente questionador sobre a teoria da História, logo adiante pega um caminho algo místico elaborando toda uma filosofia sobre transcendência e moralidade e por aí vai. Isso às vezes assim de um capítulo para o outro (o formato geral é bem fragmentado, de capítulos curtos num livro longo), sem preparar o leitor com transição alguma.

E tem essa coragem a que a atriz também se refere de fazer de figuras histórias como Napoleão – talvez o principal personagem do livro – em figuras ficcionáveis com base no que Tolstói achava não só dele, mas do que pensavam sobre ele, erroneamente ainda segundo o autor.

Lá estava eu no emaranhado de famílias russas, festões em São Petersburgo, acampamentos militares mil e cercos infalíveis quando veio a pandemia. Foi como se sentir um inseto no falso conforto de uma fina teia de aranha que, quase invisível vista de perto, tornava-se um emaranhado do qual é impossível se desvencilhar quando se alcança um distanciamento mínimo para ter uma noção completa.

Isso aí que escrevi na frase anterior é Guerra e Paz – ou pelo menos foi Guerra e Paz pra mim. Rendi-me ao livro em quatro volumes como um quase desertor depois da última trincheira, misturando o fanatismo por Napoleão com nossa mais que primitiva atração brazuca por Bolsonero, o abandono de Moscou com o avanço da pandemia, as dúvidas adolescentes de Natasha com a lembrança também remota do drama da Anna Karenina, cujo primeiro volume eu havia lido décadas atrás (e a quem preciso, agora, reencontrar).

Só depois de não apenas ler Guerra e Paz, mas sobretudo o comentário final que a edição da L&PM traz entendi melhor todo aquele ensaio desesperado que Dostoievski compõe em Memórias do Subsolo, e que me deixou boquiaberto de perplexidade encantada anos atrás. Neste posfácio, Tolstói comenta que a literatura russa jamais vai se ater aos formatos consagrados do romance europeu, diz que aquilo que escreveu não é só uma narrativa, também não é só uma dissertação e por aí vai.

Eles já eram assim, eu é que não notava. E numa hora inesperada Rejane veio me dizer que o livro se tornara um dos mais procurados nas livrarias que entregam volumes em casa, segundo uma reportagem que ela leu no segundo caderno do Globo.

Foguetões soem na noite das letras. Em meio a tanta escuridão, há uma velha forma de luz sendo renovada. É pra comemorar em meio às trevas.


CRÉDITO DA FOTO: blog roendolivros.com.br

Tião Vicente

Tião Vicente

Jornalista e servidor público (às vezes essas duas atribuições se confundem). Nasceu por acaso em Caicó, cresceu em Parelhas, estudou em Recife e Natal, aprendeu jornalismo e juventude nesta última, cansou um pouco e mudou para Brasília, trabalhou em edição em jornal e TV até fazer um concurso público para entregar esse brilhante currículo à emissora de tevê da Câmara dos Deputados. Tem funcionado até hoje. Por fora, pratica essas infidelidades paraliterárias. Tem uma central de blogs, quase todos esquecidos (para referência, arrisque novosopaodotiao.blogspot.com).

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