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Para ler antes de cancelar Woody Allen

Assisti a “Simplesmente Alice”, o filme mais agridoce de Woody Allen numa sessão vespertina do mais agridoce cinema que Natal já teve – o Rio Verde, com suas duas salinhas coladas no tão mastodôntico quando datado Rio Grande, nas cercanias da nova catedral, todos sabem, mas preciso compor aqui uma locação imaginária que corresponda ao que pretendo dizer, caso consiga.

“Simplesmente Alice” tem uma luz suave, uns banhos de vermelho que longe de soar agressivo consegue justamente o efeito oposto, um certo conforto visual que você dificilmente vai encontrar na cinematografia do nerd pós-80 anos que o sr. Allen segue sendo. Quase contrasta com o restante dos filmes dele, a menos que você lembre que ali ele cutuca a autenticidade de certa filantropia ou piedade social, sobrando farpas bem-humoradas para os exageros dos seguidores da cultura oriental.

Farrow e Allen

Digo isso sem ter revisto o filme, que o amigo(a) encontra nas plataformas de streaming. Esqueci de dizer que Alice é Mia Farrow, claro. E pensar que o filme foi feito a poucos passos na linha do tempo da denúncia que viria a separar definitivamente o casal – que nunca morou junto de fato – e gerar um escândalo monumental, com acusações recíprocas de um suposto abuso sexual de um lado com linchamento moral puro e simples de outro…

Por isso aí vocês vêm o quanto ficou difícil falar sobre “A Autobiografia”, em que Woody Allen relembra sua trajetória. É fato que quando o caso aparece lá por mais da metade do livro meio que gera um turbilhão narrativo que ofusca tudo o mais, atropela as histórias e o estado de coisas que ele vinha estabelecendo antes, exatamente como ocorreu na vida – o escândalo foi instalado e num instante parece que “Manhattan”, “Neblina e Sombras”, “Anne Hall” (entre nós “Noivo neurótico, noiva nervosa”), “Match Point” (obra-prima casual), “Crimes e Pecado” (obra-prima não casual) e até “O Dorminhoco” (a primeira vez que topei com esse cinema ligeiro, ácido e inteligente ao mesmo tempo) viraram fumaça.

Nada vira fumaça e nem tudo que é sólido se desmancha no ar. “A Autobiografia”, embora (pra mim) algo aborrecida na primeira metade, quando Allen explica com desdém exagerado sua origem no Brooklyn e seu ingresso no mundo dos shows de piadas que o levaria muito naturalmente ao cinema (sem ser um iniciado no ramo os nomes que ele apresenta não farão mesmo muito sentido pro leitor brasileiro), soa como um filme de… Woody Allen quando ele fala de… filmes.

Para quem, como eu, cultua “livros de bastidores” da música ou do cinema, é um sorvetão de chocolate com cobertura de caramelo. Pena que, lá pras tantas, ele tenha que parar tudo pra (re)construir sua história com Mia Farrow e (re)colocar no lugar as peças dessa complicada relação.

Mas os detalhes sobre os filmes são, como sempre neste tipo de livro, um acepipe para quem não consegue passar uma semana longe de uma história contada em qualquer tela. E mesmo diante de certa ranzinice de que o sr. Allen não abre mão a gente, como se diz hoje, passa o pano.

Leia “A autobiografia” antes de, também como se diz hoje, fazer o cancelamento de Woody Allen. Se você não se convencer dos argumentos do cineasta e escritor contra a estridência das denúncias de Mia Farrow, pelo menos vai querer ver ou rever cada um dos filmes com que ele, aqui pernóstico ali sensível ou mais à frente visionário, soube ler muito bem nosso não menos conturbado mundo. Leveza na tragédia humana, a combinação que não foi ele quem inventou mas que tão bem sabe praticar.

Pena que não temos mais o Cine Rio Verde pra você sair da sessão do mais recente filme dele, frouxo ou frouxa de rir, num cair de tarde sob o viaduto vestido de templo que permanece sendo a nova catedral de Natal.

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