Não tenho fotos que comprovem. Talvez ainda reencontre o ingresso, guardado em alguma caixa antiga. Mas posso, sobretudo, render tributo a esse grande momento da minha vida escrevendo — em homenagem ao privilégio de termos visto, naquela sexta-feira de novembro de um longínquo 1990, um verdadeiro gênio. Todas as vezes que conto que assisti a um show de Ray Charles, as pessoas arregalam os olhos. Nunca havia escrito sobre esse episódio — sobre ter visto, de perto, uma lenda, um dos maiores gênios da arte do século XX. Foi em 30 de novembro de 1990, uma sexta-feira. Meu irmão Zizinho, grande apreciador de jazz e blues, instigou-me a pegar o carro e seguir até Recife, pela BR-101 ainda não duplicada. Ele havia comprado ingressos caríssimos para a apresentação do “Genius” — custavam algo em torno de 100 dólares cada, uma pequena fortuna para a época. Pegamos meu velho e valente Corcel II e seguimos viagem até a capital pernambucana. Hospedamo-nos na casa de parentes e, na noite do show, rumamos ao Teatro Guararapes, com capacidade para 2.400 pessoas. Mas, devido ao alto preço das entradas, havia cerca de 800 espectadores. Muitos nem sequer sabiam quem era aquele tal de Ray Charles; alguns chegaram ao desplante de dormir durante a apresentação. Mal sabiam que estavam diante de uma criatura de genialidade única — alguém que venceu dois preconceitos brutais: o de ser negro numa América racista e o de ser deficiente visual. Seu talento e sua criatividade assombraram o mundo e o catapultaram à condição de superastro. Misturava gospel e sensualidade, fé e estrada, sagrado e mundano — tudo na mesma pulsação. A apresentação foi memorável: uma hora intensa, sem direito a bis. Uma orquestra magistral executou números instrumentais antes de abrir espaço para a performance das Raylettes, as magníficas backing vocals de Charles. Logo em seguida, entra o homem — guiado até o piano, anunciado pelo speaker: “Ladies and gentlemen, the king of soul, the king of blues, Mr. Ray Charles!” Antes de começar, ainda em pé e voltado para a plateia, com um sorriso imenso, ele simulou um abraço em si mesmo — um gesto simples, mas carregado de carisma. “Georgia on My Mind”, “I Can’t Stop Loving You”, “Hit the Road Jack”, “What’d I Say” e “I Got a Woman” estavam lá, além dos blues e do country que ele tanto amava. O mais impressionante é que existem...
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