Sempre gostei de janelas. Parecem os olhos da casa. Se nossos olhos são as janelas da alma, as janelas da casa têm um pouco disso também. Se abertas, parecem convite ao mundo lá fora. Ou comunhão com a brisa que adentra o lar. Se fechadas há um quê de proteção, mesmo contra a chuva, que se faz poesia quando respinga na janela. Então janelas têm essa aura íntima de convite, de proteção e de interseção entre a sombra do quarto e o sol do mundo. Sendo as janelas nosso binócluo à paisagem mundana e guardião do nosso conforto, elas são quase amigas. E fiéis. Estão ali todos os dias. No quarto da minha filha elas ganharam um adorno, pintado com caneta posca. Nele, estamos eu e ela em algum campo verde. É um desenho simples, mas cheio de significado porque estamos só eu e ela na janela do quarto. E as janelas do quarto são as mais íntimas. Se ela acorda e olha para fora, estamos eu e ela. À tarde, quando chega cansada da escola, estou ali também. À noite, naquelas horas mais congeladas, a faço companhia. E dali vemos juntos o verde que encobre as dunas com aquele jeitão de gigantes adormecidas. Em todas as horas, eu e ela na janela. Ela com seu jeitinho doce, alegre. Eu, mais introspectivo, sentado, admirando algo que ela me pôs a olhar, um quadrante único, que só existe em nossas janelas. Mas mesmo elas sendo estáticas, as janelas se abrem para novos ares todos os dias. Uma nova página do mesmo livro. Uma nova história a cada manhã. Porque somos novas histórias todos os dias. Cores de primavera, cinzas da alma, roxos de solidão, coloridos quando estamos cheios de cores. Mas seja qual for a matiz, estamos eu e ela. Quando o sol insiste em entrar pela janela nas manhãs, furando a falsa proteção da cortina, se espera, talvez inconsciente, que um sonho bom adentre o quarto ao abrir a janela. Mas nem sempre os sonhos vêm. E se a vida não imita a arte, na realidade dos dias estamos ali, com a sensação que o dia nos espera, e na companhia um do outro sempre haverá planaltos verdes. Porque estamos eu ela na janela. Nos verdes do dia. No olhar ao longe ou nas solitudes do quarto. Só eu e ela no cantinho da janela. Todos os dias. A olhar...
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