Assim dito, tenho pensado na nossa conversa da semana passada. Não somente naquela originária e agradavelmente formal sobre seu estimado amigo. Mas, principalmente, movida por aquela outra, sutil, que foi escapando pelos córregos subterrâneos daqueles que se embebedam com as palavras. Pessoas que escrevem são muito solitárias. Não por alguma maldição. Sim, porque escrever requer atenção, concentração e respeito. Por essa razão, a solidão da escrita é nossa melhor companhia. Mas é sempre muito bom encontrar alguém com esse mesmo vício ou ofício, com essa mesma necessidade, passatempo ou devoção. Quase tão bom quanto ler e escrever é reconhecer um leitor e um escritor nas palavras do outro. Gente cuidadosa com concordância nominal e verbal nas frases faladas, sem fazer força, sabe? Gente que vai dar um jeito de colocar na conversa mais banal a citação de um autor ou uma passagem de uma história que leu. Gente que gosta de ouvir e depois de contar histórias. Enfim, pessoas que amam os livros. Tanto, que às vezes inventam de escrever alguns; seja para engavetar nos arquivos digitais ou para sacrificar algumas arvorezinhas em nome dessa vaidade demasiado humana de construir narrativas e compartilhá-las com o mundo. Na tese de abertura do livro As regras para o parque humano, o filósofo Peter Sloterdijk diz que os livros são cartas para amigos distantes. Mas, voltemos à frase inicial. Não é segredo para ninguém minha queda por Sigmund Freud. E quando eu falo assim, permito quaisquer brechas edípicas faiscantes contidas nessa oração. Fato é que eu nasci primeiro dos meus pais. Depois, nasci de novo da minha psicanalista e de Sigmund Freud. Esse inventor da terapia que busca até hoje, nas palavras do sujeito (alguns preferem indivíduos), o sentido não dito, aquele guardado a sete chaves, para além das palavras. Ele era apaixonado por literatura. A ponto de ter a lucidez de admitir que a literatura era infinitamente mais potente no que diz respeito à leitura da alma humana. O livro A Interpretação dos Sonhos foi publicado em 1900. Vale lembrar que o livro já estava escrito há pelo menos um ano, mas, pelo jeito, o médico sacava de marketing e decidiu publicar exatamente na virada do século, para dar ainda mais destaque à terceira ferida narcísica que ele abria na humanidade, a de que o rei não é rei em sua própria morada. Em outras palavras: a de que a razão (consciente) não...
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