Há um momento estranho na vida adulta em que organizar metas deixa de parecer produtividade e se parece com arqueologia. A pessoa senta diante de uma folha em branco para planejar os próximos seis meses e, sem perceber, começa a escavar ruínas de si mesma. Foi assim comigo. Sempre vivi cercada de cronogramas: Planos diários, semanais, mensais, semestrais, anuais. Como quem tenta negociar com o tempo para que ele não escape pelos dedos. Mas, quase na metade deste ano, algo me obrigou a interromper o ritual automático de listar objetivos e simplesmente continuar correndo atrás deles. Algumas metas já não faziam sentido. Outras, haviam morrido silenciosamente sem que eu tivesse coragem de enterrá-las. Então, percebi que não bastava reescrever o planejamento, eu precisava interrogar cada item como quem pergunta a um estranho: “O que estás fazendo aqui?” E foi desconfortável. Quando comecei a rever minhas metas, senti algo parecido com uma espécie de esquizofrenia na consciência. Como se muitas vozes falassem ao mesmo tempo dentro de mim. Uma dizia para produzir mais. Outra para alcançar alguma estabilidade admirável aos olhos dos outros. Outra sugeria reconhecimento, validação, aplauso. Algumas falavam em tom de urgência. Outras em tom de culpa. Mas quando eu tentava aprofundar a conversa, entender a origem daquelas ordens ensurdecedoras, eu já não sabia distinguir o que era realmente meu e o que havia sido instalado em mim pelos desejos alheios. Então, resolvi calá-las. Voltei ao papel. Escrevi uma meta por vez. E ao lado de cada uma, uma pergunta simples: “Por quê?”. Foi assustador perceber quantas respostas não me pertenciam. Algumas metas eram apenas tentativas sofisticadas de satisfazer expectativas externas. Pequenos sacrifícios cotidianos oferecidos a pessoas que sequer mereciam participação acionária sobre o meu tempo. Havia desejos terceirizados. Sonhos herdados. Ambições adotadas por convivência. Como móveis comprados para impressionar visitas e não para descansar o próprio corpo. E, em meio a essa reorganização trabalhosa, houve um instante em que me perguntei: estou satisfeita com o que construí até aqui? A resposta veio com uma serenidade inesperada: Sim. Talvez a minha vida não pareça suficiente para muitas pessoas. Talvez ela não caiba na ideia clássica de estabilidade que tantos aprenderam a venerar. Mas, para mim, ela basta. E basta justamente porque nela existe o que é raro: felicidade, saúde, movimento e sentido. E isso deve bastar. Tenho uma empresa há catorze anos. Meu próprio apartamento....
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