Minhas editoras, meu patrimônio

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Quase todo mundo que conheço tem uma marca de cerveja preferida. Ou pode ser de carro. Ou de roupa. Ou modelo de calçado. Tem gente que tem, mais que preferência, paixão por esses fetiches da vida cotidiana. Tem quem tenha quase adoração, semidependência.

Eu tenho uma história assim. Por algo que tanto pode ser simbólico quanto absolutamente tangível. Tenho uma queda irresistível por editoras. Que bonito é uma marca editorial, um jeito especial, cuidadoso e único de fazer livros. Que beleza é aquilo que já se chamou de “casa editoral”.

Se eu fosse rico e tivesse dinheiro pra queimar ao luar, fundaria – e manteria, com todo o prejuízo do mundo – umas cinco casas editoras, cada uma dedicada a um tipo de livro, uma preferência editorial, uma necessidade do público leitor, uma faixa de mercado. Seria doce ser capitalista desse jeito, bem diferente daqueles outros empresários da morte que aumentam os preços dos remédios para entubar pessoas no momento em que esses produtos mais são necessários.

Mas voltemos às casas editoras. Não as tenho, nunca as terei. A ilusão de selecionar autores, recolher e dar projeção a textos inéditos, a vaidade de republicar clássicos esquecidos, o prazer de gerar novas capas, modelos de paginação, séries originais é pura fantasia de leitor inveterado.

Nem por isso estou totalmente desvalido neste terreno. A meu favor, tenho um rico patrimônio acumulado. Você também tem, levando em conta que se dá ao trabalho de ler este tipo de texto. Com toda certeza tem. É podre de rico que nem eu. Vamos nos exibir, meu caro ou minha cara? A gente pode. Porque temos na memória uma fileira de casas editoras para jogar na cara dos caretas, ignorantes e outros pelotões da triste atualidade.

Minha primeira aquisição foram as editoras de livros didáticos. Ali pelos 11 anos entrei no ginásio e me vi dono de uma marca cobiçada – todos sabem que editoras de livros didáticos têm venda garantida, demanda certa, preços invejáveis. Tornei-me dono da editora Ática. Não sei se gostava mais do nome ou do tratamento editorial que ela davamaos livros, sobretudo os de português. Era um prazer estudar português naqueles livros. Os de geografia me faziam viajar pelo mundo – eu já era ricaço, lembre-se. Bastava olhar os mapas e as fotografias coloridas e a viagem estava garantida.

Pela mesma época, farejei um negócio infalível – dois, acabo de lembrar. Um chamava-se Edições de Ouro e nos dava um vasto cardápio de clássicos brasileiros ou de adaptações de verdadeiros pilares da literatura universal. Preciso dizer que entre os adaptadores estava, por exemplo, um Carlos Heitor Cony. Por aí o amigo ou amiga vê o quanto meu tino empresarial era imbatível.

As Edições de Ouro marcaram época e me abriram as portas do mercado de livros serializados. Para pré-adolescentes era tiro e queda, venda certa, ainda que difícil – pelo Correio, que a cidade não tinha livrarias. Pra citar um título, lembro da série “Os Seis”, sobre um grupo de meninos e meninas que investigava mistérios nas praias de Sepetiba, estado do Rio.

O outro negócio infalível a que me referi no parágrafo acima não tardou e se chamava Círculo do Livro. Era uma autêntica mina de dinheiro pros meus bolsos a republicação, em formato padronizado, de livros que já haviam sido testados nas editoras originais. Era um “plus” pros direitos autorais e pra ambas as editoras – mas, sobretudo, para o leitor do interior, aquele em condições similares à da canção “Livro”, de Caetano Veloso.

Vi-me jovem – e já nadando em dinheiro com o patrimônio memorialístico das editoras em franca formação. Os livros da moda – muitos, “o livro que deu origem ao filme tal” – vinham com o selo da Record que, claro, não explorava somente esses. Era a mais estabelecida editora brasileira do período e eu só preciso citar um autor do seu catálogo pra não me estender muito: Jorge Amado.

Consumi o máximo que pude, emprestado dos amigos ou de bibliotecas públicas ou escolares, o que fosse possível. Nunca esquecerei do dia em que meu pai chegou de Campina Grande trazendo meu muito esperado exemplar de “Tocaia Grande”, num dia qualquer do ano de 1983. Ou seria 84? Não importa, o que vale é o espírito daquele tempo e o fato de eu, numa cidade sem livrarias, ficar cada dia mais rico em patrimônio editoral.

Estudante universitário em Natal, investi tudo o que tinha numa novidade única, absolutamente renovadora, diria quase revolucionária. Na verdade, era bem antiga, mas a repaginada que um sócio meu chamado Caio Graco Prado lhe deu fez com que virasse a coqueluche do momento (perdão pelo “coqueluche do momento”, mas a expressão bem vem a calhar; e perdão por esta última também): editora Brasiliense.

Nunca mais eu tive o mesmo prazer em ser dono de um patrimônio editoral como tive com a Brasiliense. Com ela, acrescentei ao patrimônio séries de livros que até hoje soam pra-frente quando a gente lembra: Cantadas Literárias (publicou Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, o livro de uma geração); Encanto Radical (publicou a minibiografia Lennon, de Lúcia Villaes entre outros volumes de bolso); Primeiros Passos (O que é socialismo, capitalismo, arquitetura, poesia, cinema, comunicação e por aí vai); Circo de Letras (publicou “Mulheres”, de Charles Bukowski).

Depois da Brasiliense, tudo poderia se tornar um grande anticlímax. Mas veio não a superação – que aquele modelo de livros ninguém de fato nunca mais fez, aquela geração de leitores caiu nos braços das respeitáveis responsabilidades da vida adulta e é assim que a roda da vida gira. O que veio foi algo também muito marcante em termos de qualidade, profissionalismo mesmo. Veio a Companhia das Letras, que está aí, até parecendo algo rotineiro ao publicar sempre excelentes livros, autores, edições. Mas não podia ser vista dessa forma comum quando surgiu: era um sopro novo também, nos trazendo tijolos de história como “Rumo à Estação Finlândia”, de Edmund Wilson, ou o marco “Chega de Saudade”, de Ruy Castro.

No caso da Companhia das Letras é perda de tempo ficar citando livros e escritores – ela é tão presente, soube de inscrever de tal maneira no mercado de livros e se mantém tão atual que a lista não acabaria nunca. Pra mim segue sendo vital, espero que não feche nunca. Meu bolso bilionário agradece.

Mas é preciso – e aqui se explica a razão dessa confissão quase contábil, não fosse eu alguém que de fato ama os livros e não vive sem eles, sobretudo os da ficção mais livre – é preciso dizer que novas editoras seguem surgindo, sem deixar meu patrimônio parado. E foi uma delas, recentemente, durante as férias de janeiro-fevereiro deste 20-21 de transição tão complicada que me surpreendeu: Aleph.

A editora Aleph foi fundada, ora vejam, em 1984 – tempo em que a Brasiliense ainda soprava a poeira de mercado envelhecido. Mas parece nova. Pra mim, de fato, é. Comprei agora, não é? Vi muitas vezes por aí mas foi só ao surfar na onda dos booktubers que resolvi experimentar.

alephNunca fui muito atraído pela ficção científica. Sempre me cheirou a algo muito frio, quase metálico, sem humanidade. E eu fugia desse tipo de livro – como das editoras que os publicavam. Eu já era rico, tinha meu patrimônio certo, ia arriscar por quê? Concorda? Mas a garotada que fala de livros no YouTube me deixou curioso e eu finalmente comprei e li “Flores pra Algernon” (sublime, poético, fofo como diria a atual geração, a partir de uma premissa que faz você querer dormir com o livro sob o travesseiro; foi um dos livros que tive o prazer de ler quase ao mesmo tempo que meu filho de 13 anos).

Depois, peguei um autor que eu já conhecia, mas que nas edições da Aleph parece que foi descoberto ontem: Michael Crichton e seu “O Enigma de Andrômeda”. Thriller literário com uma pegada paracientífica extremamente bem formatada (você não precisa entender, e não entende, partes do livros que são compostas por documentos “oficiais” em linguagem cifrada, mas sem esses trechos destacados a atmosfera da leitura jamais seria a mesma).

Precisava de um terceiro pra consolidar minha nova paixão e arrematar a Aleph, colocando mais uma editora no meu nababesco patrimônio memorialístico. Futuquei prateleiras na livraria do Natal Shopping e muito indeciso acabei adquirindo “Sonhos Elétricos”, coletânea de contos de Philip K. Dick que eu, por sinal, nunca havia lido. Não preciso falar nada sobre “Blade Runner”, imagino. Vou pular essa parte por desnecessária. O fato retumbante, e que não posso nem devo pular, é que meu patrimônio se renovou e se enriqueceu e agora eu vou seguir adiante, com ficção científica ou não, com os rendimentos da Editora Aleph na minha conta bancária.

E veja que eu nem falei de outra que está nos meus planos (li apenas um livro deles) pra não causar muito furor nas bolsas de apostas futuras – ok, não resisto, é a Todavia, de quem li abobalhado “Sobre os ossos dos mortos”, de Olga Tokarczuk. “Torto Arado” já tenho aqui, sim, senhor, aguardando na fila.

Minha aposta empresarial é de que essas novas editoras e suas edições caprichadas – embora caras, admito, mas como bom empresário brasileiro tenho dificuldade de reduzir minha margem de lucro – estão salvando o mercado editoral da extinção pura e simples. Por mais que livrarias fechem, por menos que a grande maioria leia (com uma minoria gigantesca que lê por dois ou três e mantém as editoras abertas), por mais que o livro digital seja sempre um apelo, considero que essas edições de folhas de rosto, sobrecapas e manchas de textos, entre outros elementos, pensados e repensados para atrair e regalar o leitor, estão fazendo a diferença.

Voltei a ter vontade de colecionar livros, fisicamente, e penso que muita gente pode estar com esse sentimento. Então, o arremate dessa contabilidade livreira e literária é que, meu caro, minha cara, tenha olhos pra enxergar sua vasta riqueza. O cenário lá fora é de morte, a situação aqui dentro pede contenção e serenidade, a cena política exige qualquer coisa de explosivo, a arena da humanidade implora por uma virada de página que recoloque as bases nos seus lugares e avance o mínimo que seja e, com tudo isso, você tem toda razão em se sentir doente, abandonado, triste, angustiado e sobretudo pobre.

Pois é só mudar a perspectiva – e se você chegou até o final desse texto é do tipo que insiste e não se prende – e constatar a riqueza patrimonial que tem somente com base nos livros que ao longo da vida lhe deram deleite, encantamento, verdade e amplidão, assim como suas respectivas editoras sem os quais eles poderiam nem ter sido publicados. Dito isso, pode começar a mudar sua declaração anual ao imposto de renda.


CRÉDITO DA FOTO: Yu Lan

Tião Vicente

Tião Vicente

Jornalista e servidor público (às vezes essas duas atribuições se confundem). Nasceu por acaso em Caicó, cresceu em Parelhas, estudou em Recife e Natal, aprendeu jornalismo e juventude nesta última, cansou um pouco e mudou para Brasília, trabalhou em edição em jornal e TV até fazer um concurso público para entregar esse brilhante currículo à emissora de tevê da Câmara dos Deputados. Tem funcionado até hoje. Por fora, pratica essas infidelidades paraliterárias. Tem uma central de blogs, quase todos esquecidos (para referência, arrisque novosopaodotiao.blogspot.com).

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