Por Tânia Lima e Elizabeth Olegário Como render, em breves linhas, uma homenagem à poesia de Conceição Lima, voz maior das ilhas de São Tomé e Príncipe, cuja recente partida nos deixou essa funda sensação de orfandade na literatura africana? Há mortes que parecem suspender o tempo, como se o silêncio se tornasse mais denso e o mundo, de súbito, menos habitável. A sensação que temos é de que estamos todos enlutados. A morte é sempre uma surpresa trágica. A partida de uma poeta grandiosa da estirpe de Maria Conceição de Deus Lima é um mistério inconcluso na finita infinitude da condição humana. Perder uma poeta é perder também uma forma singular de (re)inventar a linguagem, pois sua poesia é convite à palavra cerzida no universo de uma literatura que reivindica na eleição das metáforas o experimento com o verbo insular. Ao transpor a leitura da memória como guardiã dos séculos, a palavra poética em Conceição Lima alcança a reminiscência de uma cosmogonia afroinsular com um tipo de crítica que denuncia as consequências da colonização no território africano. A sua poesia ergue-se como maré antiga: ao mesmo tempo delicada e devastadora, íntima e coletiva. Em seus versos, as ilhas deixam de ser apenas geografias para converterem-se em corpo, cicatriz, raiz e destino. Cada poema parece nascer do sal, da ancestralidade e da matéria viva da história, convocando vozes silenciadas, reinventando pertencimentos e abrindo caminhos para uma África plural, ferida e luminosa. Enquanto casa matrilinear, a (re)escritura da poeta de O útero da casa alinhava o fio da criação literária à po-ética do Arquipélago. No universo insular das palavras, a ilha poética da autora de A Dolorosa Raiz do Micondóinscreve-se no horizonte das literaturas africanas contemporâneas, com poemas direcionados à cartografia local, à memória histórica e à consciência anticolonial. Sua escrita faz da ilha não apenas espaço geográfico, mas território simbólico de ancestralidade, ruína e reinvenção. Essa reconstrução simbólica ecoa nos versos em que a poeta ergue a casa sobre os escombros da história. Nesse sentido, como assinala Inocência Mata as “imagens líricas da realidade transformam-se em corrosivas e antilíricas” (MATA, 2006, p. 240). Aqui projectei a minha casa:alta, perpétua, de pedra e claridade.O basalto negro, porosoviria da Mesquita.Do Riboque o barro vermelhoda cor dos ibiscospara o telhado.Enorme era a janela e de vidroque a sala exigia um certo ar de praça.O quintal era plano, redondosem trancas nos caminhos.Sobre os escombros da cidade mortaprojectei...
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