BIBLIOBUNKER: Ilhas, labirintos: poemas escolhidos

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Ilhas, Labirintos: poemas escolhidos

Autor: Elí de Araujo

Editora: Sol Negro

Ano: 2022

Páginas: 125

O finado Harold Bloom, sujeito conhecido por algumas opiniões “polêmicas” e “canceláveis” (como a de que o Rei Lear de Shakespeare é literariamente superior à Cabana do pai Tomás de Harriet Beecher), afirmou certa vez que lia poesia como se estivesse fazendo uma oração.

Isso, obviamente, não tem nada a ver com carolice pietista ou proselitismo religioso. Segundo Bloom, a boa poesia precisa ser decorada e introjetada na memória tal qual uma oração.

Tenho certeza, amigo velho, que se o finado professor de Yale estivesse vivo (e soubesse ler português), certamente decoraria vorazmente muitas das poesias de Elí de Araujo, publicadas nesta coletânea, editada em 2022 pela Sol Negro.

O volume traz uma amostra muito bem colhida das safras poéticas de Elí, desde o seu livro de 1982, Reminiscências do Tártaro até o Catábase de 2021. Uma coletânea essencial para os amantes da boa poesia que apresenta um registro fundamental de parte dos sete primeiros livros deste que, nascido e criado aqui pela Taba de Poty, sem nenhuma sombra de dúvida, é um dos melhores (senão o melhor) poeta de sua geração.

Se você não acredita na opinião deste professor de província que vos fala, amigo velho, então peço que me conceda o benefício da dúvida e dê uma navegada pela costa acidentada dessas ilhas literárias, espalhadas por esse labirinto de alumbramentos poéticos. Tenho certeza que em algum momento você vai se achar obrigado a concordar comigo.

Cada poema dessa coletânea é uma surpresa, um novo deleite, um desconcerto, um rasgão, uma fissura de liberdade criativa naquilo que o filósofo Martin Heidegger chama de “falatório” (essa espécie de rede de banalidades retóricas que a nossa linguagem ordinária constroi para nos aprisionar).  

E por falar em oração, há, inclusive em seus poemas, inúmeras referências a textos bíblicos, como no “Salmo 23”, publicado em seu livro de 1991 (Deterioremus), uma perturbadora e inusitada interseção entre o “livro de Jó” (o mais desconcertante texto do cânone judaico) e os salmos atribuídos a David.

Seguindo uma inversão irônica do lirismo mesopotâmico (com seus poemas de exaltação e louvor a divindades como Baal, Marduk, Yaweh ou Inanna), Elí brinca com o desespero de David, aproximando a sua súplica lamuriosa (sempre pendurada nas paredes das casas de alguns crentes mais devotos) da devastadora crueldade do deus que atormenta o pobre Jó:  “o Senhor é meu pastor / Nada me faltará / Nem mesmo o vale das sombras / onde se ocultar”.

Aliás, o David de Elí reaparece também em poemas posteriores como em “Prece” do livro Poema/Rio de 2016. Ali o rei salmista ressurge para desmontar a cruz de Cristo, orando, sem nenhum embaraço moral, culpa ou pudor, para aquele Yahweh que é um deus de vingança e de poder, um senhor das tempestades que não se envergonha em deleitar com o sofrimento de seus inimigos: “Dai-me, Senhor, uma peixeira / que corte tudo rápida e certeira / dai-me, Senhor, açougue & fundamentos / sobre a velha angústia e o novo tormento/ Dai-me, Senhor, os teus estigmas / e a tua cruz de madeira dolorida / Quero dela fabricar a lança e o picador / Para deslaçar o porco e o cordeiro / Serei mais que touro o toureiro”.  

As referências à religião, ao amor e à morte, constantemente apontam para o desamparo ontológico que nos entrega tanto às misérias, quanto aos deleites da existência, em meio aquele sacrifício da eternidade que torna a vida possível: “Ele é meu pastor / Ele É / eu não sou”.

Andando aparentemente na contramão das tendências mais minimalistas e coloquiais que proliferaram no campo da poesia brasileira no final do século passado, especialmente na chamada “geração marginal”, Elí não tem pudor de chamar o cânone pro centro do seu jogo. O diálogo com as figuras da tradição literária clássica,  como o Ugolino de Dante, o Ulisses de Homero, os condenados do Tártaro de Hesíodo, não aparece, no entanto, marcado por algum resíduo de idealização neo clássica que fez a cabeça desse tal de “ocidente” depois da Idade Média. Não vá folhear as páginas desse livro, amigo velho, esperando que Elí de Araújo derrape em projeções arcádicas ou românticas, de uma Grécia luminosa, como aquela que alemães tipo Winckelmann inventaram e que brasileiros tipo Monteiro Lobato empurram pra dentro do Brasil profundo de Dona Benta e Tia Nastácia.

No poema “Flautambor”, publicado originalmente no livro Rua do Coração Perdido (1995), Elí evoca o espírito de uma Grécia selvagem e sombria, a partir da ode que o despedaçado deus semente, o morto, o ressuscitado, o costurado, Dionísio Zagreu, lança para suas bacantes: “Aí pedaço! Tome pedaço! / eu danço/ eu bebo/ eu rasgo/  em carne de primeira / segunda e outras partes / Sob teu olhar me decomponho / moça bonita, (…)”.

Tal qual nos ditirambos de Nietzsche, o poeta se apresenta para o sacrifício ritual e teofágico das sacerdotisas do deus da embriaguez, em uma Grécia que faria Tomás Antônio Gonzaga saltar em pânico do seu monte parnaso, correndo em zigue zague em meio às suas ovelhas helenistas, fugindo da imagem de uma Marília de Dirceu nua e tresloucada, comendo carne crua em estado de euforia mística.

É por isso, amigo velho, que essa Grécia de Elí é também uma Grécia antropofágica, onde o sombrio e o selvagem ganham o tempero do riso oswaldiano. Particularmente eu penso que é justamente aí, justo onde o humor encontra a dor, que os poemas dessa coletânea nos tiram do eixo.

Juntando sem pudor o clássico ao moderno, sem fazer concessões às forminhas pré estabelecidas; sem necessitar de um exercício semiótico de desconstrução do signo como nas vanguardas formais dos anos 60 e 70, a poesia de Elí consegue ser profundamente iconoclasta, mantendo sempre aquele domínio da técnica da construção do verso que, no olhar de um crítico do breve século passado, poderia soar “anacrônico”.

Me parece que é justamente no domínio da musicalidade que dá à poesia dita clássica o seu tom, que Elí de Araujo avança na liberdade criativa dessas suas ilhas, labirintos. Como no poema “Partiçãopublicado no livro Não & Círculo, de 1998: “Parto das partes, nascer / parte dos partos, sair / na mor parte do tempo, o / ponto do tempo é morrer, o / parto do tempo é sentir”.

No melhor estilo da pirâmide poundiana, onde a acústica da palavra se encontra com a forma visual do verso para produzir aquele deslocamento do sentido que nos lança para além do ordinário de nossa linguagem, as ilhas/labirintos de Elí de Araújo nos surpreendem a cada virada de página. Quem tem o prazer de conhecer Elí pessoalmente, sabe que essa surpresa, como na sua poesia, está nele mesmo que, sempre sendo, na senda de Heráclito, costuma, na trilha desta vida, contornar sem culpa o caminho da verdade bem redonda. Assim como são seus poemas, Elí é… mas também não é… canônico e iconoclasta, clássico e moderno, melancólico e bem humorado, demasiadamente sombrio e desconcertantemente luminoso, universal em seus voos miméticos e extremamente particular no seu próprio e irrepetível sentimento de poesia.

Ps.1 quem tiver interesse em adquirir o livro pode entrar em contato direto com a Sol Negro através do e-mail ed********@*****il.com , pelo instagram @solnegroeditora ou nas melhores casas dos ramo (na Cooperativa Cultural da UFRN, inclusive, vi uma edição em capa dura com as obras completas de Elí de Araújo – fica a dica!).

Ps.2  pra deixar um gosto de “quero mais”, aproveitando as flexíveis métricas editoriais do mundo digital, fica aqui uma reprodução de um dos meus poemas prediletos da coletânea –  “A velha profissão da poesia e do poeta”, publicado no livro Catábase de 2021.

 

Um poema sem fim e sem começo

Um poema sem pé e sem cabeça

É este poema que agora escrevo

E que festeja a mera aparência

.

Um poema sem trama e sem enredo

Um poema sem arte e sem essência

É este que a ninguém mais mete medo

Poema sem ardil, sem consistência

.

E se quiserem um poema que algo diga

Apresento-lhes com a devida vênia,

Este aqui, inventado sem o fundamento

Que dele faria literatura extrema

.

Um poema vem sendo fabricado

Para ser menos que ar quebrado

Ou da arte poética excrescência

Um poema sem arte ou ciência

Feito de maxilas e mandíbulas

Que de nada fabula ou revela

.

Um poema que não educa a memória

Um poema que não educa a matéria

Que tampouco aproveita outras glórias

E que tenha do sujo e do delicado

E seja falto de tudo ao mesmo tempo

Um poema que entre a voz e o silêncio

Que misture o inaudito e o grito

.

Um poema entre destino e desalento

Um poema que atravesse um tormento

.

Como um barco atravessa o pensamento

Bem queria deixar aqui na página

Esse barco de madeira e de água

Que vagasse no mar do descompasso

Que voasse para céus sem horizonte

Ou para dimensões sem mundo

.

Um poema que no espaço tão distante

Não passasse de leitura circunstante

De alguém que aqui chegou

Em busca de segredos ou mistério

Ou da solução para tristeza e tédio

E só encontrou um poema aleijado

Que precisa dos olhos do vivente

Para voltar como ente encarnado

Como milagre fantasiado

Como corpo que se faz aberto

.

Pelo discurso deserto

Que lhe atravessa a dicção

Das letras postas em gonzos

Brotam palavras que rangem

De torno a torno o poema

.

É este poema que escrevo e esqueço

E que festeja a mera aparência

Um poema sem arte ou ciência

Um poema sem pé e sem cabeça

Uma imagem, uma voz e um silêncio

Um poema sem fim

E sem começo…

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Pablo Capistrano

Escritor, professor de Filosofia e Direito do IFRN. Dramaturgo do grupo Carmin de Teatro.

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