padre marcelo rossi e sergio vilar

O dia que o padre Marcelo Rossi chacoalhou Natal para lançar seu livro

Sérgio Vilar20 de maio de 2019Entrevistas, Image

Hoje o padre Marcelo Rossi completa 52 anos. Não sou religioso, mas gostava desse cara. Verbo no passado porque ele anda sumido. Soube de um quadro depressivo grave e desde então não li mais notícia. Em 16 de fevereiro de 2011 ele veio a Natal no auge da fama para lançar um livro. Até hoje nunca vi um furor tão grande por aqui para receber quem seja. As dependências do Midway e seu entorno estavam abarrotados de gente. Pessoas fizeram vigília na madrugada, armaram barracas para conseguir acesso rápido no primeiro segundo de abertura do shopping. À época escrevi essa matéria abaixo para o Diário de Natal, com breve entrevista com o padre e esse registro fotográfico massa de Canindé Soares. O padre se mostrou claramente chateado com a última pergunta. Segue abaixo.

Por Sergio Vilar

O padre Marcelo Rossi provocou uma romaria ao Midway durante o dia de ontem. Se as romarias ou procissões estão relacionadas ao culto de uma imagem, esta pode ser a do livro Ágape, lançado pelo padre em 2010 – o livro mais vendido da história do mercado editorial brasileiro. A comerciante Benedita Barbosa, 27, chegou às 22h30 do dia anterior, dormiu na grama do shopping e esperou abrirem as portas às 10h para ser a primeira da fila. A acomodação foi um saco de nylon com papeis picados que achou na rua e colocou como encosto. Benedita foi apenas uma das mais de 2 mil pessoas na fila formada no estacionamento do Midway antes da abertura do shopping.

A garçonete Maria Gorete, 36, chegou uma hora depois e fez companhia a Benedita. Disseram que passaram a madrugada em conversas e leituras do livro até o dia amanhecer. “Umas cinco horas começou a chegar gente, e vieram de vez”, comentou Gorete. Caravanas de Caicó e Caiçara do Rio dos Ventos trouxeram gente do interior. Benedita disse saber do perigo enfrentado. Deixou esposo e filho em casa. “Liguei, disse que estava bem e coloquei Deus na frente pra me proteger. Preciso falar ao padre para não parar essa obra linda porque salvou minha família com sua graça e pode salvar muito mais gente”, disse.

A segurança do shopping aumentou 15 homens e reservou a garagem do 3º piso exclusivamente para a fila. A brigada de incêndio e primeiros socorros estavam presentes. A entrada na livraria foi permitida às 130 primeiras pessoas, todas elas sentadas e à espera do contato pessoal com o padre. Apenas cadeirantes gozaram da preferência no atendimento. A justificativa dos seguranças é de que a maioria era de idosos. No interior da livraria foi montado um banheiro químico cercado por tenda para o padre. Marcelo Rossi chegou às 11h20 e a previsão foi de saída apenas ao fechar da livraria. A única pausa seria de dez minutos para um lanche.

A chegada do padre iniciou cânticos em uníssono na fila e acenos ao padre já no interior da livraria. Celulares em punho registravam em fotos o momento. Sentado à mesa, todo vestido de preto, o padre pediu a colaboração para evitarem “confissões” porque a fila fazia um “caracol” e precisava atender a todos. Pouco depois brincou com o silêncio: “Tem que gritar. Cadê a família potiguar?”. Na primeira entrevista à TV, pediu um “si bemol” ao guitarrista próximo e proferiu a primeira palavra do mais novo sucesso: “Nada…”. E a sequência foi toda da plateia. Os livros eram vendidos aos montes. Tinham seis mil unidades, com expectativa de venda total.

O título, Ágape, tem origem grega que significa amor. No livro, o autor apresenta trechos selecionados do Evangelho de São João e os reinterpreta à luz do significado do amor divino no mundo contemporâneo. Madre Teresa de Calcutá e Zilda Arns são alguns exemplos evocados pelo sacerdote para ilustrar as manifestações do ágape, seja pela via da caridade, seja na forma do amor ao próximo, sem exigências nem cobranças. O amor ágape, salienta o autor, não é contemplativo nem se encerra no indivíduo, mas exige ação pessoal e ação interpessoal.

As palavras com a imprensa foram rápidas. Mas, nesta breve entrevista, padre Marcelo Rossi, que promoveu lançamento na 23ª cidade, comentou seu momento ‘ágape’ e, além de mencionar o recorde brasileiro quanto à venda da obra, revelou curiosidades como a homenagem do papa Bento XVI ao pároco, com premiação no Vaticano, entre outros aspectos.

Entrevista – Marcelo Rossi

Há algumas décadas padre Zezinho iniciava essa missão de evangelizar pela música, sem a mesma popularidade. Qual a diferença para o hoje?

São propostas diferentes. Padre Zezinho pregou o evangelho dentro da igreja. Eu fui pra fora. Somos amigos, cada um com sua missão. Após 13 anos posso dizer que fui muito criticado. Apresentação em programas como o Faustão, lançamento de CDs de sucesso. Mas eu pensei comigo: “Me deem um tempo e provarei a validade disso tudo”. Ano passado escrevi esse livro. E nunca na história da literatura brasileira se vendeu dois milhões de livros em menos de seis meses.

Como foi o processo?

Vou contar uma curiosidade: na semana de lançamento do livro soube que o Papa queria me homenagear com o Prêmio Van Thuân 2010, porque me consideraram um evangelizador moderno. Foi um reconhecimento pela minha forma de divulgar a palavra de Deus. Uma semana depois quebrei meu pé. Mas precisava estar no Vaticano para receber o prêmio de suas mãos. Quer dizer, fui pela fé, pela força de vontade. É o que conto no livro. E olha que não sou de escrever, hein? Minha área é o canto, mas Deus me deu esse livro.

Qual a linha divisória entre o astro pop e o homem religioso?

Sou padre; não sou artista. Não faço show; sou reitor de um santuário, ministro missas. Isso que faço aqui é um contato pessoal. Todos que vieram serão atendidos. Qual o artista que você conhece faz isso? E olha que Natal é a 23ª cidade. E não paro por aqui. Sabe o que é isso? Isso é ágape!


Do blogueiro: Esqueci de colocar na matéria a ressalva do padre assim que terminei a entrevista. Minha última pergunta fez o padre comentar ao microfone para o público: “Não sou artista. Não autografo livros. Faço aqui uma dedicatória”. Até lembrei da entrevista com Ariano Suassuna. No dia seguinte, nas aulas-show dele, na UnP, o escritor comentou: “Ontem um repórter me perguntou se eu gostava dos Beatles”. Adivinha quem foi?

Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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