[ENTREVISTA] As lições de Muirakytan Kennedy de Macêdo (1964-2021)

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O Rio Grande do Norte perdeu, mês passado, um dos seus mais destacados historiadores. Poeta, professor, escritor, Muirakytan Kennedy Macedo além de grande figura humana era um importante intelectual que valorizava nossas raízes, com destaque para o Seridó.

A seguir reproduzimos uma entrevista que fizemos com ele, em 2015, para o livro Impressões Digitais, vol 3 (Sebo Vermelho- CJA Edições), onde ele aborda um pouco da sua vida e obra.

  1. Muirakytan K. de Macedo onde você nasceu?  Fale-nos um pouco de como foi sua infância e juventude.

Nasci de uma bela Maria (Dona Baiá) em Caicó (RN), Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana, Ribeira do Seridó. Menino da Praça do Rosário, quando as praças não tinham sido tomadas pelo gentio bárbaro, passei a maior parte do tempo em brincadeiras analógicas, fracassando em todas as competições físicas (atletismos rústicos, pugilatos infantes e alpinismos vegetais e minerais). Magro, cabeçudo e desconfiado da justiça do mundo, burilei-me entre semelhantes pequenos e cruéis: o bullying formou meu caráter arranhando minha alma e calcificando minha calma. Filho de bodegueiro (Seu Macêdo), mercadejei primeiras necessidades e outros gêneros de prejuízos que lotam as cadernetas de criaturas perdulárias no purgatório católico. Fui garçom no bar de meu pai e, com os dízimos do apurado, comprei meu primeiro livro (uma biografia de D. Pedro II que nunca li) e dezenas de quadrinhos.

  1. E quais foram suas primeiras leituras?

Li primeiramente as palavras e as coisas mimeografadas em álcool nas apostilas escolares: pera, uva, maçã, trem, navio… No sertão distante da época, substantivos tão abstratos que considero minha iniciação na ficção. Nunca a minha imaginação foi tão azeitada. A esta altura do currículo eu já estava preparado para outra irrealidade que me exilou mais ainda do mundo: quadrinhos, quadrinhos, quadrinhos. Sohnirdauq, sohnirdauq, sohnirdauq, isso mesmo, formei um léxico inteiro com palavras invertidas coletadas em revistas de Disney à Kripta, pensando que haveria uma língua estrangeira que assim se estruturava. Na verdade uma maneira de escapar do pânico quando descobri que era realmente possível o auto-teletransporte involuntário. Melhor aprender a língua de lá e não morrer de solidão na Polinésia, por exemplo. Os livros vieram tardiamente. Teria sido a biografia de D. Pedro II, mas não consegui passar da beleza de sua capa dura. A leitura literária foi uma imposição escolar. Aos 13 anos, O seminarista  de Bernardo Guimarães. Uma obsequiosa estação no tédio. A coisa começou a ficar boa com a ambiguidade de um Dom Casmurro. Estranha sensação de uma literatura que deixava algo para o leitor ruminar depois de terminar um livro que não findou até hoje. Dona Gildete, a professora de Português, não podia mais ajudar. Passei a ler, além de quadrinhos, livros que a Editora Abril publicava em edições populares: Papillon, O poderoso chefão, O grande Gatsby, O Sol também se levanta… Depois foram alguns livros que não me fizeram muito bem e prometi a mim mesmo que não iria nunca mais ler romances: Crime e castigo, Idade da Razão, A naúsea… Mas sempre fui atraído e traído pelo abismo. E confortava-me ficar na companhia de Dom Quixote, outro adoecido pelos livros.

  1. Como foi o período como aluno universitário, algum motivo especial pelo curso de História?

História apresentou-se como uma consequência lógica de um raciocínio prático e torto. Fui aprovado em Matemática. Cursei um ano. Fui atraído pelo rigor formal dessa ciência que, se por um lado me colocava em um mundo seguro, por outro, impedia-me de criar. O que criar na matemática? O mundo ali me parecia já dado para todo sempre. Paguei os cálculos e álgebras, no entanto, ainda encantado com estes domínios onde as narrativas são formas puras, deparei-me com as aulas de História da Filosofia ministradas por Padre Tércio, um esteta do magistério e exímio plantador de dúvidas férteis. Daí a História começou a se mostrar como uma acionadora de narrativas e conhecimento da épica, tragédia e comédia humanas. Portanto, ali eu me reencontrava com esta região transversal entre a realidade e a ficção. Comecei meus estudos universitários em Caicó e fiz outro vestibular para a graduação em História na UFRN em Natal, onde conclui o curso de História bacharelado.

  1. Fale-nos um pouco da sua área de atuação profissional? Atualmente você é professor da UFRN, correto? Que disciplinas você leciona?

Atuo como professor do Departamento de História da UFRN-CERES. Tenho formação em História, doutorado em Ciências Sociais e Pós-doutorado em Educação. Leciono ultimamente História do Brasil I e II (colônia e império), além de História do Rio Grande do Norte. Também atuo, até o momento (março /2015), no Mestrado em História da UFRN.

  1. Quais são suas principais influências se tratando de livros? Você lê muita coisa da sua área, ou a literatura de um modo geral atrai sua atenção?

O que me fascina é a forma escrita de apropriação do mundo, sendo os livros, eles próprios mundos de celulose e bytes. Os livros que me sitiam são principalmente de literatura. Alguns autores me fizeram experimentar uma indelével vertigem que carrego junto ao espírito. Os Borges e Kafkas lidos na juventude me deram prumo para a leitura através de dificuldades labirínticas e absurdos encastelados. Os livros de história são leituras frequentes, premidas pelas vértebras do ofício, mas também pelo simples impulso de conhecer, especialmente em obras que tem qualidade literária e sedução narrativa.

  1. Muirakytan, em 2005 você deu uma contribuição muito importante para a cultura do Estado, com a obra “A penúltima versão do Seridó – uma história do regionalismo seridoense”. Fale-nos um pouco desse trabalho e da construção dele. Como surgiu a ideia?

“A penúltima versão do Seridó” surgiu da inquietação do historiador ao detectar a carga regionalista que esta espacialidade porta. Impressiona-me como o Seridó era adjetivado de modo tão peculiar no estado, por ser um lugar e cultura singulares. Além disso, ser região-continente de um habitante cuja existência é única no RN: o seridoense. Por outro lado, diante da constatação de que as identidades geo-culturais no estado frequentemente se davam de forma municipalizada (o natalense, o mossoroense etc) quis entender como o regionalismo seridoense se elaborou na história se estendendo pelo território que não se confinava em uma cidade. Daí a pesquisa sobre o discurso regionalista e o substrato histórico no qual ele se teceu: ocupação colonial pela pecuária, economia algodoeira, política e cultura. O título é uma brincadeira com um ensaio de Borges (A última versão da realidade) e com a convicção de que as explicações históricas são versões sempre inacabadas.

  1. Em sua opinião quem foi o maior historiador do Rio Grande do Norte?

Prefiro um coletivo de historiadores. Sendo assim, mesmo considerando uma lista insuficiente: pela erudição e por pensar a cultura como documento histórico, Câmara Cascudo; pela dedicação quase fetichista ao documento escrito, Olavo de Medeiros Filho; pelo pioneiro esforço analítico: Denise Mattos Monteiro; Helder Alexandre Medeiros de Macedo, pela excelência da pesquisa acadêmica.

  1. Existe algum movimento em prol da manutenção da cultura do Seridó?

Creio que o Seridó é bastante agitado com relação a este aspecto. Cito alguns: movimentos de emergência étnica, especialmente as comunidades quilombolas que lutam por seu reconhecimento fundiário e cultural; o registro da Festa de Santana de Caicó como patrimônio cultural do Brasil; a mobilização do meio artístico: Associação Amigos do Sobrado (Caicó), Associação Avoante de Cultura (Currais Novos), Escambo popular livre de rua (Carnaúba dos Dantas), Museu de Acari, Grupo Casarão de Poesia (Currais Novos).

  1. Você estreou na poesia em 2011 com a obra “partícula elementar”, relate um pouco desse trabalho. Do que tratam os poemas?

Na orelha do pequeno livro (até para fazer jus ao título), escrevi que “toda poesia é sobre o óbvio. Todo verso deve ir do cisco à cisma; da carícia ao abismo; do átomo ao sentido. (…) O Saara deseja ser o que é: linguagem. Este livro é sobre todos os desertos infestados de palavras, obviamente”.

  1. Como acontece seu processo de escrita? você tem alguma espécie de rotina para escrever, algum momento especifico, ou, se tratando de poemas, eles nascem naturalmente?

Tenho a escrita na palma da mão. Com horário para começar e terminar. Com direito a mesa e escritório rigorosamente limpo e organizado. Preciso de silêncio e de ordem externa para poder afundar desordem interna, sou um escafandro asséptico de mim mesmo. Sim, café, café e café. Nesses momentos não suporto ruídos. Encontrei uma forma de artificializar o silêncio: escutar a música de repetição de Philip Glass. Os textos acadêmicos nascem naturalmente em parto humanizado. Poesia nasce a fórceps. Evito as árvores de onde brotam versos.

  1. Que tipo de arte o atrai além da poesia?

A pintura de Lucian Freud e Bacon. Bonsais. Prender o ar. Respirar.

  1. Você tem contato com o que está sendo feito atualmente no Seridó se tratando de poesia? Continuamos tendo a tradição de bons poetas seridoenses?

Leio os poetas do Casarão da Poesia (Currais Novos) e quando minha esposa Ana Santana permite, os inéditos dela. Temos antenas no Seridó.

Ana de Santana e Muirakytan
  1. Indique-nos cinco livros para se conhecer um pouco da História do Rio Grande do Norte?

Introdução à História do Rio Grande do Norte – Denise Mattos Monteiro

Capitania do Rio Grande: histórias e colonização na América portuguesa – Helder Alexandre Medeiros de Macedo e Rosenilson da Silva Santos (organizadores).

Cronologia Seridoense – Olavo de Medeiros Filho

História do Rio Grande do Norte – Luis da Câmara Cascudo

Visões de República no Rio Grande do Norte – Almir de Carvalho Bueno

  1. Quais os planos literários para o futuro?

Primeiro lançar o livro que resultou da minha tese de doutoramento: Rústicos Cabedais: Estudar e escrever sobre a história do corpo. Ultimamente me dedico a pesquisar os corpos doentes e mortos (cultura funerária) através de livros de óbito, inventários e testamentos do Seridó nos séculos XVIII e XIX. Depois abordarei o casamento e o batizado no âmbito da história do corpo sacramentado para esse período.

  1. Quem é o escritor Muirakytan Kennedy de Macedo?

Um leitor e um magro não praticante.

Thiago Gonzaga

Thiago Gonzaga

Pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros.

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