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Entrevista com Serguei, em seu último show em Natal

Sérgio Vilar7 de junho de 2019Entrevistas, Música, Image

Meu chará morreu hoje, uma sexta-feira até então bonita. Sergio Augusto Bustamente, conhecido no meio rocker e pela sua amante Janis Joplin como Serguei, tinha 85 anos de boy. Um garotão prafrentex desde sempre. Tive o prazer de conversar com esse cara em março de 2010 quando esteve em Natal. Trocamos várias ideias e até passamos a nos seguir no Twitter (hoje ele tem 100 mil seguidores e segue apenas 953, entre eles, eu! rs). Eu mesmo sugeri a pauta quando soube do seu show no antigo Sancho Pub, no alto de Ponta Negra. À noite, fui lá; um dos poucos gatos pingados, infelizmente. Serguei cantou alguns rocks, não lembro quais. Acho que umas cinco ou sete músicas. A idade não permitia muito mais. O resto ficou por conta da banda Jack Black. Abaixo segue a matéria publicada no Diário de Natal sobre sua última vinda a Natal.

Por Sergio Vilar

O ex do mito Janis Joplin e notório pansexual se diz fã de Ademilde Fonseca e escravo do sexo e do rock

Se o espírito do rock fosse materializado ele teria o estereótipo de Serguei – nome artístico de Sérgio Augusto Bustamante. No livro do rock brasileiro, este senhor de quase 77 anos é destaque em capítulo dedicado às histórias inusitadas e folclóricas do rock nacional. Serguei é autêntico rocker man com mesma aura hippie de jovens de 20 anos. Quem comparecer ao Sancho Pub amanhã pode conferir um show inusitado de alguém cuja loucura sadia contamina desejos libertários de um mundo mais ameno e menos racional.

Após demorada e confusa conversa por telefone, duas impressões antagônicas: a de que o roqueiro estagnou na psicodélica década de 70 e vive entorpecido pelo slogan Paz e Amor e pelo namorico com a branca de voz negra, Janis Joplin, ou que subiu os degraus do passado e chegou ao novo século antenado com as novas tecnologias e confusões do mundo moderno.

Serguei carrega mais de 11,4 mil leitores (ou seguidores) no Twitter. Lá, o roqueiro expõe intimidades nada convencionais, fruto da “liberada sexualidade” e da aura psicodélica ainda viva. São conluios com astros e estrelas da natureza. No último “post”, uma mostra: “Acho que o sol deu uma piscadinha pra mim. Meu lado feminino acabou de ovular. I LOVE IT!”. Em outro… “O sexo psicodélico faz bem pra pele e rejuvenesce a aura. Transas papai-e-mamãe são o cúmulo da caretice. SORRY!”.

Mas para desgosto de muitos fãs do roqueiro, Serguei confidenciou ao Diário de Natal sequer possuir computador. O Serguei do Twitter é o amigo “Rafa”, que liga para ele, ouve frases e posta no microblog. Outro mito atribuído a Serguei são as transas inusitadas com árvores e seres da natureza. Segundo o próprio, há muito folclore nos boatos, embora confirme que o pansexualismo é a liberação total do sexo, “mas não inclui animais”. O boato surgiu a partir de um gozo junto a uma árvore – episódio relatado em programa de TV.

Serguei conversou com o Diário de Natal de sua residência, na paradisíaca Saquarema – vila carioca disputada por surfistas do mundo inteiro. A ligação estava péssima. O entrevistado atropelava perguntas e falava o que queria. A residência, na verdade, é o Templo do Rock – um museu ambientado nos moldes da década de 60 e repleto de raridades, a exemplo da moto dirigida por Janis Joplin. Em casa, Serguei se diverte com as várias gerações de visitantes, sem se dar conta de seus quase 80 anos.

O visual bizarro, extravagante, hippie, autêntico, psicodélico e bem humorado é moldura de um “anjo maldito”, como classificou o fã Paulo Coelho. Um vigor movido pelo espírito do rock e lubrificado pelo sexo. A tríade sexo, drogas e rock ‘in roll é capenga para Serguei. “Sou escravo do rock e do sexo. Drogas, nunca usei. Eu disse a Janis que tinha medo de que ela fosse (morresse) cedo pelo vício. Com mais alguns dias ele morreu de overdose”, disse o roqueiro na entrevista a seguir:

A Natal de Ademilde Fonseca

“Estou ansioso pra chegar em Natal. A única vez que fui aí foi quando eu era comissário de bordo da Air Line Brasil. Faz tempo. O avião deu pane e pousamos na Base Aérea de Parnamirim. Deu só pra sentir o ventinho famoso daí. E como está a praia da Redinha? Cara, e sou apaixonado pela Ademilde Fonseca. É das grandes damas da musica do Brasil, com 88 anos, cara. A vi em um piano bar no Rio. Era a figura de uma lenda, vestida de branco… Consegue imitar o som de um cavaquinho. O chorinho é extremamente instrumental. Mas a mulher enfiou sua voz na música, sem perder o ritmo, a afinação. Ela é um espanto”.

Cover x interpretação

“Existe concepção errada: cover é se eu colocasse uma peruca, uma fita amarrada na altura da testa, uma jaqueta vermelha e imitasse a figura de Jimmy (Hendrix). Não sou compositor, mas minha interpretação é muito forte. Trago uma releitura às músicas; me entrego, sou muito intenso no palco. Há uma linha divisória no palco apenas para receber a energia do público. O grande artista a gente conhece no palco”.

Show de amanhã

“Vou cantar músicas do disco novo e outras censuradas pela ditadura. São blues e rocks que marcaram época, a exemplo de With a little help from my friends (da dupla Lennon e McCartney, imortalizada na voz de Joe Cocker durante o Festival de Woodstock), Satisfaction, Sympathy for the devil (ambas dos Rolling Stones)… Em Loves of my life eu peço pra plateia sentar em homenagem a Freddie Mercury (ele fez o mesmo em pleno Maracanã, com 50 mil pessoas durante o segundo Rock in Rio)”.

Twitter x Templo do Rock

“O Rafa sabe tudo sobre mim; conto tudo e ele coloca no twitter. É como se fosse eu… Não tenho tempo nem paciência pra isso. Meu tempo é para o museu, que já recebeu 20,5 mil pessoas (em três anos). É uma casa no estilo dos anos 60, com quintal pintado de flores. Tem a moto que a Janis andou comigo em Ipanema, fotos minha beijando ela na boca; vou levar pra você ver.

O banheiro é como um camarim. As camas ficam no chão. Há quartos psicodélicos, escuros, com luzes fortes que iluminam posters; os olhos de Jim parecem brilhar. Tem fotos minhas peladão na Trip, outra no desfile do São Paulo Fashion Week, onde desfilei com uma camisa com estampa “Eu Comi a Janis”, e todas as reportagens que fiz. Amanhã você leva essa reportagem para eu pregar lá e levar pra prefeita de Saquarema, Franciane, a mais rock in roll do Brasil”.

Pansexualismo

“Tem um pouco de TV nisso. Falei uma vez que caminhava pela estrada dos cajueiros e meu tesão. Como não tinha ninguém, me masturbei ali mesmo. E quando estava gozando me agarrei a uma árvore, um ponto de apoio sólido. Aí me perguntaram: ‘Você comeu a árvore?’. Eu coloquei o dedo na boca e disse: ‘Comi’. Aí se espalhou”.

Encontro com Jim Morrison

“Encontrei a Janis num festival de rock em Long Island, em 1968. Ela era amiga do Jim. Em uma festa na sala do motel (o La Cienega Boulevard), Janis me alertou: ‘Você se cuida. Não mostra essa sua maldita língua se não ele (Jim) puxa e enfia “um” prontinho na sua garganta e eu vou ter problema’. O Jim apareceu. Era super alto, aí me disse: ‘What’s up’. Eu abri a boca. Depois dei um beijo no pescoço dele. Cara, me ajoelho diante da beleza dele”.

Sexo sem drogas e rock ‘n roll

“Faço muito sexo. Sou escravo do sexo e do rock. Mas sem drogas. A vida é emoção. Se você perde a emoção você é um morto vivo. Rir, chorar, sentir, transar de olho arregalado e vermelho pela droga não é vida. Vender a alma ao diabo não é vida. Se for beber, tem o limite. Amo uma vida sem vício. Quero curtir, viver, cuidar dos meus bichos (Serguei cria quatro cachorros encontrados nas ruas, mas já foram dez). Sou muito doido, mas inteligente da cabeça. Sei me conduzir. E eu quero é mais”.

Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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