Entrevista exclusiva com Crispiniano Neto, novo gestor da FJA

A governadora eleita Fátima Bezerra anunciou na tarde desta sexta-feira (14), através de suas redes sociais, o nome do engenheiro-agrônomo e jornalista Joaquim Crispiniano Neto para o cargo de diretor-geral da Fundação José Augusto (FJA), órgão com status da Secretaria Estadual de Cultura do RN.

Perfil do novo gestor? Crispiniano Neto, 62 anos, é bacharel em Direito, pós-graduado com Especialização em Leitura e Produção. Natural de Santo Antônio do Salto da Onça, é casado, com três filhos e seis netos.

Exerceu por duas vezes o cargo de diretor da FJA em três administrações estaduais (governos de Wilma de Faria, Iberê Ferreira e Robinson Faria).

Durante suas gestões à frente do órgão criou as Câmaras Setoriais de formulação de políticas para cada linguagem artística, implementou a Rede de Pontos de Cultura do RN, com 60 unidades; concluiu as obras de seis Casas de Cultura Popular; implantou a Lei do RPV – Registro do Patrimônio do Vivo, beneficiando oito artistas e dois grupos do Folclore Potiguar; o Núcleo de Produção de Audiovisual, Rede Mais Cinema, com 25 unidades; desenvolveu o projeto Nós na Tela, em 21 cidades com oficinas de iniciação à produção cinematográfica, além de um programa de editais, com o prêmio Núbia Lafayette de Música.

O novo gestor da FJA foi membro do Conselho Nacional de Políticas Culturais e da Câmara Setorial do Livro e da Leitura do Ministério da Cultura e coordenou o Fórum dos Secretários de Cultura do Nordeste. Também participou da Comissão gerenciadora da lei Câmara Cascudo por mais de dez anos e antes de ser gestor da FJA, fez parte do seu Conselho Curador.

É integrante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, na cadeira de número 26, que tem como patrono, Luis da Câmara Cascudo, da Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel e da Academia Mossoroense de Letras; membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Como poeta tem mais de 170 folhetos de Literatura de Cordel publicados, com mais de três milhões exemplares espalhados pelo Brasil e outros países. Publicou 22 livros publicados, com mais de 200 mil exemplares vendidos.

Mantém coluna diária no Jornal de Fato de Mossoró – RN, Programa semanal na Rádio Difusora de Mossoró e comentários diários na Rádio AM Difusora de Mossoró, Rádio FM Cidadania de Mossoró-RN e Rádio Rural de Mossoró.

ENTREVISTA – CRISPINIANO NETO

Você já assumiu a pasta em outras duas oportunidades. O que a experiência lhe indica como prioridades para esta gestão?

CRISPINIANO NETO – Esta será uma gestão de reconstrução. Há quase um clima de terra arrasada, na Fundação José Augusto. A instituição, que tinha em torno de 600 servidores ativos na minha primeira gestão, hoje só conta com pouco mais de duzentos, dos quais pouco mais de setenta são dos corais e da Orquestra Sinfônica e que cumprem dignamente suas obrigações, fazem com esmero o trabalho artístico, mas não lhes cabe dar suporte na área administrativa. Tem pelo menos meia dúzia de setores administrativos da FJA que já não contam com nenhum servidor de carreira. Quase todas as unidades funcionam num nível de precariedade bastante grave e o diálogo organizado com os artistas, que iniciamos no passado através das câmaras setoriais, foi interrompido e precisa ser rearticulado. A rede de Pontos de Cultura foi abandonada e as Casas de Cultura estão funcionando precariamente, porque conta a presença dos artistas das cidades terem e o apoio de algumas prefeituras.

Prioridades agora serão duas: Reconstruir a teia de relacionamentos e parcerias com artistas, grupos e instituições e focar nos recursos do Banco Mundial para os quais deixamos na nossa última passagem, quase quarenta projetos prontos, alguns dos quais já se encontram em andamento e outros que teremos que desengavetar. Com um olho no programa de governo apresentado pela governadora Fátima Bezerra, os dados e sugestões da Subcomissão de Transição e a realidade, haveremos de encontrar o caminho. Das outras duas vezes que ali chegamos, também não encontramos nenhuma facilidade e conseguimos tirar algum de pedras e transformar limões em limonadas.

A Lei Câmara Cascudo privilegia os grandes espetáculos que rendem maior retorno midiático às empresas patrocinadoras. Como diluir esse investimento aos pequenos projetos e, sobretudo, ao interior do Estado, já que a Lei também concentra grande parte da fatia para Natal? O Fundo de Cultura seria solução?

Muito antes de ser gestor da FJA fui membro da Comissão Gestora da Lei Câmara Cascudo. Conheço a fundo a sua importância e também as mazelas que se incrustaram no seu bojo. A Paraíba tem a Lei Augusto dos Anjos que com um terço dos recursos incentiva uma quantidade cinco ou seis vezes maior de projetos.

Tentamos, via Comissão de Transição, ter acesso aos dados atuais, mas o que obtivemos é muito superficial. Assim mesmo deu para sentir a gravidade de, num Estado em que a cultura vive em petição de miséria, termos uma sobra anual de 20 a 30% dos recursos anunciados. Isto em função da imensa dificuldade de captação por falta de acesso aos poucos patrocinadores habilitados e dispostos investirem. O RN tem alguns milhares de empresas contribuintes de ICMS, mas só quinze ou 20 delas patrocinam através da Lei Câmara Cascudo. Temos 4,5 a 5 bilhões de reais anuais arrecadados, mas nunca se conseguiu usar o incentivo de 6 milhões de reais num exercício. Dos mais de cem projetos aprovados anualmente, só uma média de vinte, conseguem captar. E destes, cinco ou seis ficam com dois terços dos recursos. Raramente se tem mais de 10% dos projetos provenientes do interior. Quase nunca atravessam a Reta Tabajara.

Precisamos repensar a Lei Câmara Cascudo, fazer funcionar de fato, o Fundo Estadual de Cultura e desenvolver uma política de editais que, juntamente com o fundo, democratize o fomento aos artistas, grupos e produtores culturais, desconcentrando os recursos geograficamente e melhorando a quantidade de projetos contemplados.

Afora essas prioridades, já velhas conhecidas da classe artística, o que você pretende criar ou deixar como marca desta gestão?

Nas muitas reuniões dos fóruns nacional e nordestino de secretários estaduais de cultura de que participei, os colegas sempre diziam que quem quisesse se dar bem focasse em eventos de grande repercussão midiática. Não descarto a importância dos eventos, mas entendo que esse é o papel dos produtores culturais. O papel do Estado é estruturar uma Política Cultural que valorize a amplitude do universo artístico-cultural, que democratize o acesso e a fruição respeitando a democratização territorial para que não se continue pensando que Cultura é privilégio da elite socioeconômica e das cidades grandes e médias.

O perigo de se criar uma “marca” numa gestão é que os outros aspectos são menosprezados ou desprezados para privilegiar um ou dois. Insisto que o papel do Estado na área cultural é estimular a realização da cidadania cultural. A luta pela concretização de um Sistema Estadual de Cultura com certeza será o nosso foco. No nosso Estado só 7 das 167 cidades possuem teatros, Livrarias dignas desse nome não chegam a cinco cidades, 98% dos municípios não possuem cinemas, o povo que mais gosta de dançar, não tem acesso a espetáculos de dança, a música virou entretenimento de gosto duvidoso, quando não desastroso, em detrimento do aspecto artístico-cultural e as bibliotecas mais atualizadas não renovam seus acervos há quase duas décadas.

A “marca”, se tiver, deve ser a luta para reverter essa tragédia que levou muitos cinemas a se tornarem templos caça-níqueis e resgatar grupos de cultura popular que cederam espaço às bocas de fumo.

Prioridades nem sempre são passíveis de rápida solução. Então, qual será a primeira ação da FJA? Algum edital para o carnaval que já bate as portas?

Com todo respeito pelo carnaval, não haverá tempo para se pensar algo que não seja uma gambiarra. Ainda não tenho informações oficiais sobre o novo orçamento em aprovação para 2019, mas até onde pudemos apurar, o que sobra da folha de pessoal, gira em torno de quatro milhões para o ano e tem uns dois milhões para ficar em Restos a Pagar.

A prioridade 1 é correr em busca de mais recursos, como quem procura água em Marte, porque o Estado vai estar num esforço hercúleo para pagar pessoal, num ritmo que não pode ser de urgência urgentíssima, vamos tentar recuperar os projetos para os recursos do Banco Mundial, que deixamos prontos e foram engavetados, tocar os projetos que estão em andamento como Teatro Alberto Maranhão, Museu Café Filho, Pinacoteca, Fortaleza dos Reis Magos, Memorial Câmara Cascudo e Biblioteca Câmara Cascudo.

Vamos buscar soluções conjuntas com os segmentos artístico-culturais organizados e parcerias com unidades administrativas do próprio Estado que estão fazendo cultura ou têm potencial para isto, mas que cujas ações correm à revelia da Fundação José Augusto.

Imagine se cada secretaria resolver fazer Saúde e Segurança, o Estado vira um caos. Mas na cultura, sempre se teve a prática de esquecer a unidade responsável por esta política pública.

Se alguns equipamentos culturais foram reabertos, outros permanecem fechados, como o Teatro Alberto Maranhão, a Biblioteca Câmara Cascudo e, de certa forma, a Fortaleza dos Reis Magos. Todos eles estão com obras em andamento. Mas as Casas de Cultura, não. Essas seriam maiores desafios para esta gestão no quesito equipamento cultural?

As Casas de Cultura, como já falei acima, estão sobrevivendo por obra e graça da abnegação um servidor cuja “EUquipe” trabalha sem gratificação e quase sem diárias. Do apoio de algumas prefeituras e da presença de artistas locais ocupando espaço dentro delas. Não existe mais um real de verbas específicas para elas.

Deixamos quase trinta projetos de reforma física e estruturação de auditórios com caixas cênicas e climatização, equipamentos de sonorização e iluminação e o atendimento de outras necessidades que poderão devolver às casas de cultura popular o papel para o qual foram criadas. Além disso queremos fazer e aprovar os projetos de 16 outras casas que, por força de intervenção do Ministério Público tiveram as obras paralisadas nos alicerces, ou já à altura das paredes, do madeiramento ou das cobertas. Tem casa que ficou faltando somente o acabamento e os equipamentos. Uma tragédia que se arrasta há doze anos e que representa um prejuízo incalculável pelo que ali se imobilizou e pelo que se deixou de fazer pela cultura dessas cidades. Na minha primeira gestão consegui concluir seis delas. Tenho certeza que logo que se equilibrem as finanças do Estado, a governadora autorizará que ressuscitemos estas obras que, no estágio em que ficaram, a meu ver, são um escárnio ao necessário zelo com a coisa pública.

Quais nomes você pode adiantar de sua futura equipe de gestão? Haverá alguma mudança no organograma dos quadros da FJA?

Formar uma equipe é arte. Quem errar nesse pontapé inicial, vai errado até o fim da linha. Pretendo contar com parceiros que fizeram por merecer a confianças nas outras experiências. Espero que Deus me dê graça da distância de outros com quem convivi. Só não acho conveniente adiantar nomes antes de fazer todas as tratativas. Nada mais grave que anunciar um nome e depois não se concretizar. Quanto ao organograma requer mudanças urgentes. Quase nada do que está no papel bate com a realidade. Na verdade, o ideal seria criar uma Secretaria de Cultura. O RN está super defasado em ter a sua cultura gerida por uma fundação, quando as fundações perderam praticamente todas as especificidades que lhes conferiam alguma vantagem na gestão. Mas hoje não se pode falar em criar nenhuma unidade a mais. Virou discurso ideológico.

O país vive um momento de transição de governo e tudo indica que o Ministério da Cultura se torne mera secretaria de Governo. Em que medida esta ação prejudica os Estados e, particularmente, o Rio Grande do Norte?

O modelo que foi desenvolvido por Gilberto Gil e Juca Ferreira, é, sem dúvidas, o que deu melhores resultados. Isso começou a degringolar ainda no último governo petista. Com Temer, teve um desempenho para além de sofrível. Agora, me parece que tem amplas possibilidades de piorar. Mas é aquele modelo exitoso que nos inspira. Mesmo que tenha mudado a realidade, trabalharemos com a mesma mentalidade. Fazendo as adaptações, obviamente. É o modelo compatível com a governadora que está chegando e que foi uma deputada e é, ainda, uma senadora que teve o maior destaque nacional em todas as grandes lutas em prol da cultura brasileira.

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Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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