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E lá se foi o som da rouxinol; Glorinha Oliveira parte aos 95 anos

24 de fevereiro de 2021Entrevistas, Memória do RN Image

A musa maior da música potiguar se foi aos bravos 95 anos de idade. Maria da Glória Mendes Oliveira, nossa Glorinha deixou legado, simpatia e uma voz inconfundível de rouxinol que percorreu rádios, vinis, palcos e o coração do natalense.

Glorinha estava internada no Hospital Rio Grande para tratar de enfisema pulmonar. Há muito dores de artrite, sobretudo nos joelhos, já lhe castigavam mais que a falta de prestígio do potiguar com sua história.

Tive alguns divertidos encontros com Glorinha, seja na casa da rua João Carlos de Sousa, em Santos Reis, seja na casa por trás do colégio Marista, na Cidade Alta, ou nos palcos, com o da Assembleia Cultural.

Infelizmente consegui resgatar apenas esta curta entrevista realizada em 2009 para o Diário de Natal, que segue abaixo.

Meu último papo com ela foi no camarim da edição do Troféu Cultura, em 2019, ela acompanhada de admiradora e também cantora Valéria Oliveira, do inseparável filho Aécio e também de Eliete Regina, que também se apresentaria logo mais. Talvez tenha sido seu último show. E se foi, que bom que um suntuoso palco a recebeu.

Gravei nosso papo, mas ainda estou à procura do áudio. Foi algo breve, mas bacana. Ela falava de sonhos e memórias.

Mas quem quiser conhecer sua história não faltam documentos. Há, inclusive, a biografia “A Estrela Conta”, livro escritor pelo também saudoso Nelson Patriota, além de documentários e registros em vídeo. Também uma entrevista muito boa na edição nº 12 da Revista Brouhaha.

Em resumo, Glorinha foi mais do que essa cidade reconhece. Uma pessoa simples nascida nas Rocas, mas uma estrela maior cujo sonho era ter uma casa própria. Na entrevista a seguir ou nesses outros meios que sugeri, o leitor pode e deve saber mais da nossa rouxinol potiguar.

Por Sergio Vilar

Diário de Natal (2009)

A relação de Glorinha Oliveira com os palcos merecia crônica de Nelson Rodrigues. É quase um caso de obsessão. O palco, o amante insaciável. Glorinha, a moça carente de amores. Uma paixão de mais de 70 anos. Em dezembro de 2007, o palco amante ouviu a despedida da voz de Rouxinol. Na noite de hoje, ela retorna aos braços daquele que sempre lhe acolheu. Será no Mercado de Petrópolis, dentro da última edição anual do projeto Quarta Cultural do Mercado de Petrópolis.

A voz jovial e potente de Glorinha jorrou romantismo pelos quatro cantos do Norte e Nordeste durante décadas. Aos 84 anos, Maria da Glória Mendes Oliveira diz pela primeira vez que sente a sua voz “fugir” e já perdeu a disposição para shows. Prefere, então, “parar no auge”, sem desafinar ou sair do tom. Na despedida há dois anos, Glorinha cantou ao palco amado: “Eu sei que vou te amar. Por toda minha vida, eu vou te amar. Em cada despedida eu vou te amar…”. E eis a volta.

O palco já não é mais aquele de outrora – o velho amante da mocidade. Glorinha gosta mesmo é de chegar e cantar, sem formalidades, parafernalhas eletrônicas e querelas burocráticas na montagem do… palco. Se vale mesmo é do “gogó”. Mesmo nas rádios de outrora, como a pioneira Rádio Educadora de Natal havia espaço para grandes orquestras, como a de Waldemar Ernesto, e tudo ao vivo, na “bucha”. E foi em consideração ao maestro Waldemar a volta de Glorinha aos braços do público. Ela explica o porquê.

Entrevista Glorinha Oliveira

Porque a volta aos palcos neste projeto?

Porque é uma coisa mais informal. Palco mesmo eu não tenho mais disposição. Esse ano eu penduro as chuteiras. A barra ta pesando, já. Quero deixar o palco no auge, sem desafinar. Cantar mesmo só em casa, numa brincadeira entre amigos, sem ser como profissional. É o jeito. Já são 84 anos nas costas, meu filho.

Essa relação com o palco parece caso de amor mal resolvido: sempre há uma reconciliação…

Graças a Deus caí no gosto do povo e sempre pedem para eu voltar. Mas cada qual sabe das suas possibilidades. Minha voz está fugindo. Em casa eu testo e tenho auto-crítica suficiente para perceber isso. É de fazer pena ver Ângela Maria desafinar, sair do tom. Nem sei se ela é mais velha do que eu, nem quero saber. Ademilde Fonseca, por exemplo, disse textualmente para mim que desistiu de cantar pelo mesmo motivo.

O Quarta Cultural é um projeto realizado mais pelo idealismo de abnegados do Mercado de Petrópolis, sem apoios. O cachê é ínfimo. A senhora decidiu participar para colaborar com o projeto?

Tocarei com Paulo Tito (violonista e compositor), um grande nome da nossa música. O Paulo me falou que não abre a boca ou leva seu material para tocar de graça em canto nenhum porque não é besta. Ele está certo. Mas preferi dizer sim a quem teve consideração comigo. Então, o cachê que seria me dado, de R$ 50 para cobrir custos, dei pra ele. Vou cantar de graça, mesmo sendo uma pessoa humilde, sem nem casa própria para morar.

E essa consideração se deve a quem já que o Mercado é formado por vários permissionários?

A Bruninha (Bruna Hetzel, produtora do evento) é neta do maestro Waldemar Ernesto. E tenho grande consideração por Waldermar desde muito tempo. Se ele me pedisse para cantar de graça no meio da feira eu ainda iria.

A senhora ainda mora de aluguel?

Enquanto ainda tiver dinheiro para pagar… Infelizmente não deu para fazer um “pé-de-meia” enquanto cantei. O artista era mal visto naquela época. Quando chegava para cantar parecia que estava contaminado. Hoje em dia é diferente e todo mundo sabe cantar depois da tecnologia que ajeita a voz. Na minha época era no gogó. Veja que hoje recebo um salário mínimo mais uma pensão dada por Garibaldi (Filho). Só o aluguel da casa (no bairro de Santos Reis) é 300 reais.

A casa própria é seu grande sonho, então?

Se aparecesse um louco e dissesse: ‘Você fará um show e depois vai para sua casa’ eu faria das tripas, coração, subiria no palco para meu último show porque depois iria para uma casa que eu pudesse chamar de minha. Meu segundo sonho é gravar um DVD. Mas isso, antes de eu pegar minha passagem só de ida eu ainda faço; é segredo profissional. Sairá pela UFRN. Enfim, apesar dos pesares sou feliz. Só reclamo das dores da artrose. Mas vejo tanta gente em situação pior. Ora, estou viva, inteira. Não estou velha, estou usada; estrada é que fica velha. Gostaria que muitos tivessem a alegria que tenho hoje.

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