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Laurence Bittencourt: as muitas faces de um intelectual

Thiago Gonzaga20 de novembro de 2019Entrevistas Image

Escritor, poeta, jornalista, psicólogo e professor, Laurence Bittencourt Leite é graduado em Comunicação Social (jornalismo) e Psicologia. Também fez mestrado em Literatura Comparada na UFRN.

Além da docência, tem vasta experiência como jornalista, atuando no rádio, televisão e jornais. Escreve artigos para revistas, periódicos e sites sobre diversos temas, tais como Psicologia, Ciência, Comunicação, Educação e Pedagogia, Teatro, Literatura, Filosofia, Economia e Política.

Laurence Leite é autor de dois livros: Entre mares (poemas), Por que não o que é nosso? (ensaios); e tem colaboração em outros, além de participação em dezenas de bate-papos, palestras, oficinas e inúmeras bancas, sendo uma importante referência na sua área de atuação.

A seguir, destacamos alguns trechos de uma entrevista que fizemos com ele, no ano de 2013, para o livro Impressões Digitais – Escritores Potiguares Contemporâneos, primeiro de uma série de três, nos quais entrevistamos mais de cem escritores norte-rio-grandenses das mais diversas áreas.

Laurence Bittencourt Leite, onde você nasceu? Relate-nos um pouco de como foi sua infância.

Laurence Bittencourt Leite – Nasci em Natal e passei minha infância (até os 12 anos) numa ruazinha chamada Waldemar Falcão que ficava por trás da antiga Rádio Poti onde depois passou a ser ocupada pelo extinto “Diário de Natal”. Acho que minha veia para escrever já deva ter sido talvez tocada por esse contato próximo com um jornal. Bom, mas minha infância foi vivida na rua jogando bola, empinando pipa, subindo em árvores, isso com os amigos da época. Lembro claramente a quantidade de vezes que pulávamos o muro da Rádio Poti para subir nas mangueiras que ficavam lá dentro. Eu e alguns desses amigos cansamos de ser expulsos pelos vigias que “tomavam conta” do prédio. Tempo bom. Tempo de liberdade que hoje não se vê mais, tamanha a insegurança dos nossos dias, e, claro, pelas mudanças que Natal sofreu. Estou falando da década de 1970 que foi esse momento que estou relatando. Hoje as áreas de lazer são dentro de apartamentos, o que restringe muito a liberdade das crianças.

E quais as suas primeiras leituras literárias?

Vou confessar uma coisa para você, Thiago, até início da adolescência li pouco, quase nada para ser franco. Até mesmo os livros de literatura que éramos obrigados a ler no segundo grau achava um saco. Tudo que é obrigado não pega, não é verdade? Essa coisa de leitura por escolha minha e com prazer só foi entrar na minha vida lá pelos 15, 16 anos, o que sem dúvida foi um pouco tardio. Quando estava terminando o segundo grau comecei a fazer incursões pela leitura e lembro o fascínio que me causou a leitura, ou releitura provavelmente, de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Foi a minha primeira lanterna. E aí posso dizer que não parei mais. Os principais autores nordestinos eu devorei sem parar: Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e outros. Isso sem falar nos poetas, claro.

E seu contato com a literatura potiguar, como aconteceu? Você se lembra, por exemplo, do primeiro livro potiguar que leu?

Lembro claramente. Foi o livro do escritor Eulício Farias de Lacerda chamado O rio da noite verde. Eu era (sou ainda) muito amigo dos filhos dele e certamente essa proximidade deve ter ajudado. Eu frequentava muito a casa dele. Cheguei a fazer uma entrevista com ele, quando era aluno do curso de Jornalismo na UFRN. Infelizmente essa entrevista se perdeu. Uma pena.

Com que idade você começou a escrever seus primeiros textos, e do que tratavam?

Interessante isso, mas foi algo simultâneo a minha incursão pela leitura com as primeiras tentativas de escrever. Como se uma coisa levasse a outra, não é? Mais ou menos com 16 anos; comecei praticando poesia e, aos poucos, fui passando para a prosa. Lembro-me de alguns contos que ensaiei nesse período, isso dentro de uma vertente pacifista, criticando as guerras, etc. Eram pequenas histórias, cujos heróis eram pessoas que denunciavam e combatiam as guerras. Tudo isso ficou para trás, obviamente.

Laurence, você estreia oficialmente em livro com Entre mares? Relate-nos um pouco acerca da experiência de estrear em livro. Do que tratava a obra, e como era publicar livros há mais de 20 anos em Natal? Mudou muita coisa em relação aos dias atuais?

Pois é, foi uma estreia com um livro de poema, Entre mares, imagine, uma espécie de primeira cria. Numa fase em que estava muito influenciado pela leitura dos grandes poetas que admiro, como Carlos Drummond, Fernando Pessoa e Pablo Neruda. Admiro-os até hoje, e a leitura deles terminou marcando esses poemas. Bom, de qualquer forma penso ser difícil julgar a si mesmo, não é? Passei por algumas fases com relação a essa publicação. Primeiro a euforia pelo lançamento, depois uma fase de autocrítica, percebendo toda imaturidade contida neles.

Cheguei a trocar correspondência com Carlos Drummond de Andrade e lembro claramente o que ele me disse em carta: “Laurence, só o tempo e você mesmo irão dizer se você deve continuar ou não fazendo poesia”. Acho que ele tinha razão e terminei abandonando, achando-me pouco vocacionado para o fazer poético, apesar da boa repercussão que o livro encontrou. Hoje eu tenho simpatia por ele, porém havia sim muita imaturidade, o que é normal pela minha idade quando do lançamento; e acho que não o reeditaria. Mas valeu por um momento. Quanto a publicar um livro 20 anos atrás posso dizer que mudou muito. Acho que avançamos, hoje há mais editoras, por exemplo.

E a época de estudante universitário como foi? Algum motivo especial o levou a cursar Comunicação Social na UFRN?

Ah, sem dúvida, foi uma época de contestação do que chamávamos de stablishment, contestar e se opor ao status quo. O jornalismo se mostrou um projeto viável e que tinha tudo a ver com esse desejo de ir contra, de subversão mesmo. Poder escrever em jornal, falar a um público maior, a ideia de poder mudar o mundo, coisa típica de todo adolescente quando começa a despertar para o mundo. Depois minha inquietação natural, o desejo de compartilhar as mesmas ideias com outros, se bem que eu sempre mostrei desde jovem certa independência de espírito, o que foi muito bom. Ainda é, na verdade… Então, foi isso, o jornalismo era algo que, pelo menos em ideia, se mostrava promissor para debater e contestar as coisas que eu não concordava. Aliás, tem aquela frase famosa do Millôr Fernandes: “jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. É por aí.

Laurence, e na sua profissão como jornalista, onde mais gostou de atuar? Jornalismo cultural?

Olha, confesso que atuei pouco na linha de frente do jornalismo, mas, sem dúvida, o lado que mais me agrada e encanta é o do jornalismo cultural. Deixo até uma pergunta no ar: como se pode gostar de política em um país como o nosso, tamanhos os absurdos, as incoerências, os casuísmos, não é verdade? É uma pena. Talvez seja interessante lembrar a frase de Bertold Brecht: “o verdadeiro ignorante é o ignorante político”. Talvez eu seja.

Quais são os livros que não podem faltar na sua estante? De literatura universal, brasileira e local?

Olha, Thiago, é sempre muito difícil a indicação de listas, porque sempre de caráter pessoal, e terminamos esquecendo alguém que gostamos, mas eu diria que são vários. Na literatura local, por exemplo, a nossa literatura, do nosso Estado, me parece indispensável, para começar, a leitura de dois clássicos da nossa crítica: Informação da literatura potiguar, de Tarcísio Gurgel, e Literatura do Rio Grande Norte, de Constância Lima e Diva Cunha. No singular não pode faltar: Alma Patrícia, de Luís da Câmara Cascudo, Versos, de Lourival Açucena, Terra Natal, de Ferreira Itajubá, nem tampouco O rio da noite verde e O dia em que a coluna passou, ambos de Eulício Farias de Lacerda. Mas como esquecer o Livro de poemas, de Jorge Fernandes, Cantigas de amigo, de Myriam Coeli, Arado, de Zila Mamede?

Tem que se ler também dois poetas atualíssimos como Walflan de Queiroz e Miguel Cirilo. Indispensável também As pelejas de Ojuara, de Nei Leandro. Há também um livro de contos sensacional de Francisco Sobreira chamado Não enterrarei os meus mortos. Ele é muito bom. Para não esticar ainda mais diria que ter algo de Paulo de Tarso, Alex Nascimento e Marize Castro, é indispensável. Na literatura nordestina colocaria em qualquer estante: Os sertões, de Euclides da Cunha, Angústia, de Graciliano Ramos, e Capitães de Areia, de Jorge Amado. Na literatura universal, a obra completa de Dostoiévski e Shakespeare.

E sobre o Eulício Farias de Lacerda, ele é o nosso maior romancista?

Olha você me pergunta isso a partir de um artigo que escrevi e que se encontra no meu livro Por que não o que é nosso?, em que fiz tal afirmação. Acho Eulício um escritor admirável. Mas temos outros também, ainda que eu sustente o que disse.

E temos bons contistas? E cronistas, temos muitos? Pode citar algumas indicações de leitura?

O nosso grande cronista continua sendo Vicente Serejo, e eu recomendo para qualquer um a leitura diária da coluna que ele publica em jornais. Seu livro Canção da noite lilás é simplesmente maravilhoso. Olha que título genial, não é? Eu diria, um lugar comum, que Serejo em nosso meio é quase uma unanimidade tal qual você apontou Newton Navarro nas artes plásticas.

E os nossos poetas? Você tem preferência por alguns? Quais nossos maiores nomes em sua opinião?

O nosso Estado é fértil em poetas, não é? Basta lembrar de Zila Mamede. Mas destacaria Alex Nascimento e Marize Castro, dois autores contemporâneos nossos extremamente singulares e que estão entre os maiores do país. Ressalto a poesia de Jarbas Martins, que me parece um bom exemplo de intelectual e poeta, e Paulo de Tarso.

Laurence nos fale um pouco do seu livro de ensaios Por que não o que é nosso?. Do que ele trata, e como foi a concepção da obra?

Bom, trata-se de uma coletânea de artigos que escrevi em jornais, aqui de Natal, durante certo tempo. Fiz uma triagem do que achei que valia a pena perpetuar, o que terminou gerando o livro. Foi muito bem recebido. A noite de lançamento foi marcante para mim. A primeira edição está esgotada. Inclusive deverei fazer uma nova edição, a editora que lançou o livro tem insistindo muito nesse sentido, e eu concordei, o que deverá ser feito ainda este ano, provavelmente. É um livro em que toco nos temas culturais que me agradam. Passeio no livro da arte feita no Rio Grande do Norte à literatura universal. Tem alguns ensaios como, por exemplo, sobre Hannah Arendt que me deu imenso prazer em escrever. Enfim, é um livro que me deu imenso prazer em lançar.

Laurence também é professor universitário, como é a experiência de ensinar, o que você leciona?

Adoro ensinar, adoro o contato com os alunos. Eu sempre aprendo. A sala de aula acho que terminou sendo o meu grande palco, talvez como uma forma de compensar o não ator profissional que não consegui ser… Taí uma boa explicação que agora me ocorreu. Claro que não há nenhuma idealização com relação à educação em nosso país, mas quem de fato se sente bem nessa função sabe do que estou falando.

Quais os planos literários para o futuro?

Fazer a segunda edição do meu livro Por que não o que é nosso?, e como já tenho quase pronto um livro de entrevistas mesclado com ensaios literários, penso em publicar esse livro também. Esses deverão ser os meus projetos dentro de um plano literário.

Quem é o escritor Laurence Bitencourt Leite?

Alguém que tenta fazer sempre o melhor.

Sobre o autor

Thiago Gonzaga

Pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros.

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