Conversa com o poeta e escritor Christi Rochetô

Christi Rochetô

PIX: 007.486.114-04

Colabore com o jornalismo independente

Alguns anos atrás tentávamos acompanhar, através de leitura, o que se vinha produzindo de mais interessante na literatura produzida no Rio Grande do Norte. Como fruto dessas leituras publicamos o livro Impressões Digitais – Escritores Potiguares Contemporâneos, em três volumes, com mais de cem relatos de escritores que produzem em nossa terra, além de outras obras com resenhas, como por exemplo, Os Grãos- Ensaios Sobre Literatura Potiguar Contemporânea e Literatura Afro no Rio Grande do Norte.  De uns tempos pra cá, tal atividade tornou-se um desafio, devido à explosão de publicações, nos quatro cantos do Estado. Evidentemente que, mesmo não conseguindo privilegiar todos os lançamentos, ficamos alegres quando temos notícias de bons escritores surgindo na cena literária, poetas e ficcionistas, inclusive com alguns tendo reconhecimento na região nordeste e até em todo país. Dessa forma ainda tentamos através de nosso espaço neste blog, divulgar os novos valores que têm surgido na cena cultural do Estado.

Só para citar a região do Seridó, dez anos atrás tínhamos ali uma nova geração se consolidando em nossas letras com nomes como os de Iara Maria Carvalho, Ana de Santana, Theo Alves, Mama Frei, Wescley Gama, Maria Maria Gomes, Adélia Danielli, Luma Carvalho, Jeanne Araújo; atualmente já temos uma geração, que se espelha em tal, dando continuidade a uma rica tradição literária, basta citarmos como exemplo, dois valores do Seridó que vêm ganhando amplo destaque; Bia Crispim  e Luiza de Souza.

Vale destacar vários outros nomes que têm surgido na cena literária, poesia e ficção, e vêm se afirmando nos últimos anos. Hoje abrimos espaço para outro valor, Christi Rochetô, que nos deu entrevista exclusiva, a seguir:

1 Christi Rochetô, onde você nasceu? Relate-nos um pouco da sua infância e juventude?

Nasci em Jardim do Seridó, interior do Rio Grande do Norte, no ano de 1986. Minha infância foi dividida, uma bem normal, num tempo em que ainda não havia internet no nosso dia a dia: brincar na rua, subir em árvores, roubar fruta. Quase todos os dias chegava em casa machucado, com os “chamboques” dos pés arrancados, galos na cabeça, olho roxo, etc. Portanto, posso dizer que tive uma infância, em parte, comum e feliz. Mas, por outro lado, sempre tive a saúde muito sensível, então a outra metade dessa infância foi acamado ou preso em casa para não “pegar tempo” quando estava, principalmente, em crise asmática.

2-Quais foram suas primeiras leituras literárias?

Lia muito de tudo em minha adolescência, principalmente depois de ter vindo para Natal, já no ano 2000. Quando cheguei aqui, chovia muito, a vizinhança era violenta, então o viver solto que tinha no interior não existia mais. Então encontrei refúgio na leitura. Hoje, sabendo o significado do que chamamos “literatura literária”, penso que minha iniciação (se posso dizer assim) foi com Ernest Hemingway com O Velho e o Mar. Até hoje um de meus livros favoritos.

3 – Quando e porque você veio residir na capital?

Minha mãe veio primeiro. Eu fiquei no interior com minha avó. Quando ela se separou de seu segundo casamento, vim ficar com ela para ajudar com meu irmão mais novo, na época com 3 anos. A ideia sempre foi voltar, mas acabei ficando.

4- Com que idade você compôs seus primeiros escritos? Já pensava em escrever um livro quando era jovem?

Só me entendi escritor quando publiquei Sombra Fria, meu primeiro livro publicado (mas não o primeiro livro escrito). Mas escrevo desde que me entendo por gente. Com 9 anos eu já rascunhava em cadernos de desenhos livros sobre a paleontologia dos dinossauros que eu sonhava encontrar nas serras ao redor de Santana do Seridó, onde passava os fins de semana com meu avô.

5-Qual a sua área de formação? Como foram os tempos da faculdade?

Cursei História e Artes, mas nunca terminei nenhum. Não tinha uma vida participativa na universidade, pois trabalhava e estudava. Quando entrei, ainda no curso de História, já tinha família, estava em meu primeiro casamento e tinha uma filha recém-nascida. Nunca consegui conciliar o tempo de trabalhar e estudar e, apesar de ter ido longe no curso, acabei abandonando. Artes eu deixei porque me separei. Parece um ciclo, não é?

6- Relate-nos um pouco da sua estreia em livro, e fale-nos do seu primeiro trabalho. Como foi a concepção da sua obra de estreia?

Meu primeiro livro foi de contos, Sombra Fria, que publiquei pela Editora Patuá em 2020. Com a chegada da pandemia da covid-19, por eu ter comorbidade (sou asmático), passei um ano e pouco em casa, saindo o mínimo possível. Aí, encontrei tempo para organizar um material que já vinha escrevendo há 11 anos, mais ou menos, pude separar textos, reescrever outros, e percebi que tinha um volume com tamanho suficiente para chamar de livro. Depois eu precisava encaixar aquele material em um conceito. Quem me disse que era um livro sobre impressões sertanejas da morte foi Daniel Osiecki, revisor e leitor de originais da Kotter Editorial, que foi quem primeiro se interessou pelo material. Então fiz outra leitura e retirei algumas sobras e joguei fora esses textos excedentes. Aí eu percebi que a morte era, não um tema recorrente, mas um mote do livro. Em minha casa, nós temos uma visão quase folclórica da morte, nossos mortos teimam e continuar tangendo o cotidiano ao nosso lado, cresci ouvindo esse tipo de história. Então chamei de Sombra Fria, sendo a sombra fria da morte (ou memento mori, como a arte prefere) e também a sombra alívio da algaroba, que é minha árvore totem, debaixo da qual ouvi muitas dessas conversas e histórias.

7-Em que momento você decidiu que deveria publicar? E como foi o processo?

Quando li a segunda versão do livro que mencionei, acreditei que agora poderia publicar. Mandei para algumas editoras, todas de fora do estado, pois as editoras locais não tinham política para a publicação custeada pela editora. Recebi alguns nãos e dois sim’s. Um destes sim’s foi de Eduardo Lacerda, editora da Patuá, de São Paulo, que disse que um dos contos era o mais bonito que ele já havia lido. Papo de vendedor, mas deu certo, publicamos o livro. Nunca gostei dessa parte de processo editorial: assinar contratos, escolher capas, revisar. Acho revisar a pior parte, pessoas mexendo em algo que você fez, sugerindo correções de termos que você escolheu utilizar porque eles não entendem e não se dão ao trabalho de procurar, acabou que se corrigiu coisas que eu não queria e muitos erros passaram despercebidos, isso aconteceu nos três livros que publiquei. Mas é um mal necessário. No fim, em setembro daquele ano estranho, saiu o livro. Lembro que, uma vez conversando com Lacerda, ele disse (papo de vendedor de novo) que tinha sido uma honra para ele fazer parte do começo de minha história como escritor. Eu respondi que não sabia se publicaria outro porque, escrever sim é muito bom, mas publicar é terrível.

8- Como acontece o seu processo de criação? Qual o melhor momento para escrever? E o cenário e ambiente, contam muito?

Acredito em inspiração, por mais que muitos digam que não. Sou, antes de me dizer escritor, uma pessoa das artes. Não penso como uma coisa mágica, que a musa vai baixar em mim e escrever, não. Mas escrevo quando essa chama vem. Logo, não tenho um método específico, escrevo quando vem essa “vontade”, por assim dizer, e quando não vem, reviso. Nisso, o celular acaba sendo uma ferramenta importante, pois escrevo, muitas vezes no ônibus, indo e voltando do trabalho. Meus livros de poemas foram todos escritos dentro dos coletivos de Natal!

9-E seus trabalhos inéditos, muita coisa na gaveta? Poesia, crônicas, ficção?

Muita coisa que nem sonho em publicar, outras que estou lutando para dar uma forma que eu consiga me sentir à vontade para mostrar para o mundo. Tenho experimentado esses formatos digitais para tirar da gaveta esses textos que julgo mais despretensiosos. Tem sido uma experiência boa, mas temo ter de lutar, no futuro, para não ficar preso à ela. Recentemente publiquei um livro de haikais, gênero poético que comecei a estudar durante a pandemia. Por não me sentir confiante ainda, leva-se anos para atingir a maestria, tem gente que leva a vida toda, preferi não gastar papel com ele. Mas tenho muito carinho por essa obra.

10-O que você lê na atualidade?  De literatura brasileira e local?

Recentemente descobri a paraibana Socorro Acioli, com A Cabeça do Santo, livro do mesmo gênero que os meus (realismo-fantástico) e gostei muito; também travei conversa com o sergipano Aledson Lima, de quem li todos os livros na base da troca e acabei me tornando amigo; D.B. Frattini, mineiro/paulista, Jeferson Tenório. Tento fazer como ensinou Machado de Assis, leio os meus contemporâneos à medida que posso. Daqui, Eduardo Ezus, com seu Terça Diminuta, foi que me iniciou nos haikais; Theo G. Alves e Silvia B., poetas de primeira linha e os contos/crônicas de William Eloi. Mas, falando de outras épocas, Jota Medeiros sempre foi uma influência nas artes e na literatura.
Os últimos livros nacionais que li, foi dessa turma aí.

11-Se fossem listar os grandes autores da sua vida, quem seriam eles e por quê?

Primeiro, Gabriel García Marquez, por ter me ensinado sobre o que eu queria escrever; Ernest Hemingway pela forma que, até hoje, me serve de referência, sempre volto ao Velho Santiago lutando contra os tubarões quando travo nos meus textos, penso que, de certa forma a luta é a mesma; Mia Couto, por me dar liberdade de misturar poesia e prosa numa coisa só; e Lygia Fagundes Teles que, junto com minha avó, me ensinou a contar histórias com a minha voz. Colocaria também Guimarães Rosa e Raimundo Carreiro aí por me inspirarem sempre e Nei Leandro de Castro por me mostrar, lá na minha adolescência, que Seridó dá literatura, sim.

12- Você mantém algum contato com a turma que escreve literatura potiguar contemporânea?

Tem muita gente aqui escrevendo e muita gente boa. Me organizo e me misturo quando e como posso, mas é tanta gente massa, que levaria uma vida para ter com todo mundo. Acredito que daqui e desta geração, vão sair grandes nomes da literatura nacional em breve, gente que será estudada nas universidades. Oxalá eu seja merecedor de meu nome estar no meio.

13- Para você quem seriam os grandes nomes da literatura potiguar?

Pergunta difícil, temo desmerecer pessoas só por não lembrar de todas agora. Mas posso falar de futuro: Eduardo Ezus é um Leminski em nossas terras; Regina Azevedo; Silvia B.; Heldene Leicam, articulador de Festival Literário de S. M. do Gostoso está rodando o Brasil com sua literatura infantojuvenil e pouca gente aqui sabe; Theo G. Alves é um poeta de uma sensibilidade única. A estes e aos outros, eu dou o tempo. O tempo vai mostrar.

14 -Quem é o escritor Christi Rochetô?

Sou o sonhador mais despretensioso do mundo. Não sei se serei lembrado um dia, mas sigo, seja pintando, seja escrevendo, seja cuidando de meus filhos, sou aquele que segue, apesar de já ter desistido tantas vezes.   

Thiago Gonzaga

Thiago Gonzaga

Pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros.

WhatsApp
Telegram
Facebook
Twitter
LinkedIn

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *