Totonho

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Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu

É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu

É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações

E assim ter amigos contigo em todas as situações  

Ana Vilela

Se tem uma coisa que eu gosto nessa vida é festejar o aniversário de pessoas queridas. Desde o início do ano, devo ter participado de uns seis aniversários, incluindo-se nessa lista amigos e familiares. No dia 11 de março, participei de uma comemoração muito especial em família: os 60 anos de Totonho. Ele é cunhado de Francisco, meu companheiro.

Dia da festa. Francisco acabara de chegar de uma viagem de trabalho e dormira pouco na noite anterior. Mesmo assim, chegou em casa animado para o aniversário de Totonho. Eu havia passado o dia assistindo aula, mas também estava animada porque os encontros da família de Francisco são sempre muito animados/especiais. Raramente eu perco um desses momentos. O mais recente deles havia sido o aniversário de Luiza, cunhada de Francisco. Foi um domingo de samba, feijoada e churrasco para festejar os 79 anos de uma carioca totalmente apaixonada pelo Rio Grande do Norte. Ela mora no Rio atualmente, mas vem a Natal todo ano e faz questão de comemorar o aniversário com a família potiguar. Detalhe: seu esposo, José, não está mais aqui. É muito comovente a ligação que ela tem com os familiares do esposo e a consideração com cada um deles.

O aniversário de Totonho me fez lembrar as noites de sopa na casa de Ires, ou os almoços na casa de Ivete, irmãs de Francisco. Ivete nos deixou no carnaval de 2025. Ela adorava receber os seus em casa e cozinhar para a família. Preparava uma torta de frango que jamais provei outra igual. Que saudade das comidinhas de Ivete! Saudade do seu abraço caloroso e da sua risada gostosa! (Enquanto escrevo esta crônica, sou capaz de ouvir sua voz me chamando de “cunhadinha”). Saudade de tomar um café da tarde em sua companhia ou de ficar conversando com ela enquanto assistíamos alguma novela (foram poucos esses momentos com Ivete, mas eles deixaram marcas profundas). Ela vendia cosméticos e era quase impossível resistir às promoções da Natura quando íamos à sua casa. Ivete era daquelas pessoas acolhedoras, que oferecem o melhor que têm. Impossível esquecer aquele pão francês quentinho com nata e um café bem forte numa tarde chuvosa em que Francisco me pegou no trabalho e passamos na casa dela para um café da tarde em família. Isso sem falar nas carnes que ela preparava e outras coisas mais. Saudade daqueles almoços de domingo. Ires também cozinha muito bem, assim como Iraneide e Ivoneide, as outras irmãs de Francisco. Resumindo: é uma família de gente prendada. A matriarca, dona Maria Félix, era uma cozinheira de mão cheia.

Vez por outra, Francisco relembra alguns dos pratos que a mãe preparava. A canjica é um deles. Tem a bolacha de leite, o bolo de coco. Outro dia ele fez um bolo de leite com a receita da mãe. Uma delícia. A canjica é outro prato que a família gosta de preparar nos festejos juninos para relembrar a mãe e as mesas fartas na Fazenda São Sebastião, em Pedro Avelino, onde eles nasceram e passaram a infância. E se tem uma lição que eles aprenderam com a mãe foi esta: não é preciso de um motivo especial para se reunir e/ou preparar uma comida gostosa. Muitas vezes eles marcam um encontro para jogar baralho (tradição iniciada com os pais, Chico Ferreira e Maria Félix). E esse jogo pode varar a noite ou durar um dia inteiro. Agora mesmo, enquanto escrevo esta crônica, eles estão jogando cartas na varanda da casa de praia.

Voltemos ao aniversário de Totonho. Todos devidamente arrumados, saímos para buscar Ires, que levaria alguns itens da festa consigo, e em seguida, “partiu aniversário”.  Torcedor do América de Natal, o tema da festa não poderia ser outro. A decoração estava linda! Tudo remetia ao seu time do coração. O América Futebol Clube, fundado em 1915, é o clube potiguar de maior destaque nacional, com mais participações na Série A do Campeonato Brasileiro. Motivo de orgulho para um torcedor tão fanático que decidiu comprar uma casa próximo ao clube do seu coração. O aniversariante estava devidamente trajado com seu manto vermelho, como era de se esperar. Iraneide, sua esposa, estava radiante. Como é de costume, nos recebeu com muita alegria e uma mesa farta. Só faltou mesmo o filho deles, Iago, que vive na Europa com a esposa, Amanda.

A festa foi uma espécie de seresta na área externa da casa. Uma dupla que cantava os mais diversos estilos musicais animou a plateia e nos fez até dançar forró ao som de algumas canções do rei do baião e outras músicas do gênero. Foi bom demais! Nos divertimos muito. O único defeito da festa foi que ela terminou cedo. Motivo: São Pedro resolveu mandar uma chuva para aplacar o calor de uma noite abafada, mas a festa era ao ar livre. No entanto, a chuva não foi motivo para desanimar os convidados, que continuaram a bater papo dentro de casa e apreciar o excelente jantar que nos esperava antes do tão desejado bolo do aniversário e os docinhos que o acompanham.

E quando chegou a hora dos parabéns, muitas emoções. Um dos momentos mais comoventes da noite foi o discurso de Totonho. A gratidão foi a palavra-chave de sua fala. Agradeceu à família e aos amigos presentes pelo privilégio de festejar 60 anos junto aos que ali estavam, não esquecendo de agradecer aos que organizaram a festa surpresa (detalhe: ele foi informado que seria apenas um encontro familiar, com poucos convidados; só entendeu o que estava acontecendo à medida que os convidados iam chegando), seus irmãos, sua esposa, seu filho e nora e a família de sua esposa, especialmente Dulcinéia, Pardal, Fernanda e Priscila. Foram muitas as surpresas daquela noite. Uma delas foi a afilhada que veio de Campina Grande festejar o aniversário do padrinho. Palavras simples, mas cheias de afeto, delicadeza e verdade. Como nos ensina Rubem Alves: “Nós não vemos o que vemos, nós vemos o que somos. Só veem as belezas do mundo aqueles que têm belezas dentro de si”. Totonho é esse homem cheio de belezas dentro de si. Foi tão bonito quando ele disse que a emoção maior era saber que sua mãe estava presente na festa. Mesmo enfrentando os sintomas de uma demência, ela estava ali, e a coisa mais bonita foi ver o afeto entre mãe e filho. Naquele momento, vi ali, naquele abraço emocionado, não um homem cheio de obrigações e responsabilidades, mas um menino que recebe o carinho e a benção de sua mãezinha. Uma cena que guardarei para sempre na lembrança.

Totonho é uma pessoa admirável. Um homem bom no sentido amplo do termo. Um homem que vive para a família e para os amigos. Participa de muitas atividades na Paróquia de São Pedro, no bairro do Alecrim, entre elas o Encontro de Casais com Cristo (ECC), e está sempre envolvido em ações da igreja. Está sempre disposto a ajudar e cuidar dos amigos e familiares. Prova disso é quando estamos na casa de praia, em Barra de Maxaranguape, raramente o vejo parado. Mesmo na praia, levanta cedinho para comprar o pão, limpar o jardim e fazer outras atividades domésticas. Aos domingos, tem um motivo especial para acordar cedo: assistir a santa missa acompanhado da esposa e de alguns familiares. A alegria é outra marca registrada de Totonho, ele é um dos melhores contadores de piada que conheço. Não consigo parar de rir quando ele começa a contar alguns causos, piadas ou mesmo situações inusitadas de sua própria vida, como foi o dia em que viu seu carro descer uma ladeira sozinho e saiu correndo atrás do veículo. Detalhe: era um dia de chuva e o terreno estava cheio de lama. O resto vocês podem imaginar.

Ainda sobre o aniversário de Totonho e as emoções daquela noite memorável. Uma cena me chamou atenção na festa: duas meninas pareciam alheias a tudo que estava acontecendo ali, as conversas efusivas, os reencontros, as declarações de afeto, as lembranças compartilhadas, as canções que contam histórias… Fiquei observando aquela cena e pensando na importância de as crianças participarem desses momentos em família, desses rituais que organizamos para celebrar a vida de quem a gente ama. Rituais que se repetem, mas nunca são iguais. Mesmo que não compreendam agora a dimensão desses momentos, eles ficarão guardados em suas memórias afetivas e de algum modo lhes ensinarão a importância da presença, do afeto, do abraço, da declaração de amor. Afinal, “A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto”, como nos ensina o historiador francês Pierre Nora, pensador que criou o conceito de lugar de memória. Isso sem falar na beleza de partilhar o alimento numa mesa farta de comida e alegria. Sobretudo em tempos de redes sociais. Um tempo em que é mais importante postar do que viver. Um tempo em que é mais importante parecer do que realmente ser. Um tempo de tantas superficialidades. Um tempo de padrões/metas inalcançáveis. Eu quero o tempo da delicadeza, o tempo das coisas simples, o tempo do café com bolo no final da tarde, o tempo da risada fora de hora, o tempo da caminhada à beira-mar, o tempo de uma rede e um bom livro no meio da tarde, o tempo do café da manhã em família…

Essa reflexão me faz lembrar uma outra declaração de Pierre Nora: “A memória instala a lembrança no sagrado”. Isso reforça em mim a certeza de que aquelas meninas estavam guardando para si, ainda que inconscientemente, uma reserva de afeto e magia, enquanto esperavam o tempo passar naquela “festa de adulto”. Afinal, “A memória é afetiva e mágica”, como diz Pierre Nora. Um dia, quem sabe, elas vão lembrar daquela noite chuvosa em que nos reunimos para festejar as seis décadas de existência de Totonho. Talvez elas digam a si mesmas, em determinado momento: sorriam, a vida presta. A vida presta porque existem pessoas como Totonho, dispostas a amar seus semelhantes, a fazer o bem e partilhar as dores e delícias da vida com os seus. Ele sabe que a vida acontece sempre no presente, ela não pode ser economizada para amanhã, como nos ensina o mestre Rubem Alves. Obrigada, Totonho, por dividir conosco sua alegria, seu entusiasmo e sua vontade de viver!

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Andreia Braz

Escritora e revisora de textos.

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