Antologia reúne novíssima geração de poetas potiguares e será lançada sábado

A produção poética em Natal ganha mais uma nova compilação: a antologia Blackout. O lançamento ocorrerá próximo sábado, 3 de março, no Bardallos Comida & Arte (Rua Gonçalves Lêdo, 678, Cidade Alta), a partir das 19h. Além de um sarau poético, o evento contará com atrações musicais: Luan Bates, Binnê e Uma Senhora Limonada.

Reunindo 18 poetas da chamada “novíssima geração”, o projeto tem como objetivo a publicação de poetas ainda inéditos em livro, até a reunião dos textos, além de fazer um panorama fiel do que é produzido, em termos de poesia, na Natal de agora.

Ayrton Alves Badriyyah e Victor H Azevedo, ao longo de um ano, trabalharam na seleção dos nomes, na captação dos poemas e na produção artesanal do livro, em edição cartonera, com a finalidade de torná-lo mais acessível ao público.

A coletânea faz homenagem ao poeta Blackout, em ter seu nome no título, como forma de impulsionar a fuga do ícone da marginália natalense do ostracismo.

Ao longo de 144 páginas, poetas Murilo Zatu, Olga Hawes, José Zapíski, Ana Mendes, Ian Itajaí, Gabrielle Dal Molin, Caroline Santos, Maíra Dal’Maz, Igor Barboà, Maluz, Ionara Souza, Pedro Lucas, Folha Joice, Jota Mombaça, Gessyka Santos, Ayrton Alves Badriyyah, Victor H Azevedo e Fulô, escrevem sobre tudo, a partir da percepção oferecida ou dissolvida por essa cidade.

QUEM FOI BLACKOUT?

“Adeus: cinco letras que choram.” Esta foi a última frase do poeta Blackout para o livreiro Abimael Silva, em visita ao Sebo Vermelho, no Centro de Natal. Dois dias depois, a 14 de Dezembro de 1999, o poeta foi eletrocutado, ao fazer um ‘bico’ numa residência do seu bairro, e se encantava de vez deste mundo.

Blackout, pseudônimo de Edgar Borges, foi poeta, pintor de paredes e eletricista, radicado na cidade do Natal, no bairro de Mãe Luiza.

Sobrevivia de fazer ‘bicos’ e de trocar seus poemas por dinheiro ou refeições no café São Luis, no centro de Natal. Sua vida se dividia, muitas vezes, entre as ruas e as noites passadas no Hospital Psiquiátrico Dr. João Machado, na capital potiguar. Durante o tempo que ficou internado, o psiquiatra Franklin Capistrano, que também se dedica à literatura, o diagnosticou com hebefrenia, uma perturbação psíquica que se desenvolve ao término da puberdade.

Lembrado por todos pelo seu estilo excêntrico de vestimenta, era perseguido pela polícia por ser pobre e, sobretudo, por ser negro. No entanto, esse racismo não era (é?) praticado apenas pela polícia, o que pode ser verificado na exclusão do poeta de importantes antologias e trabalhos acadêmicos sobre a produção poética no Rio Grande do Norte.

Infelizmente Blackout caiu no esquecimento e acabou se diluindo na memória dos natalenses, à la “memória do Brasil”, um poema visual de sua autoria.

Em 1981, aos 20 anos, publica pela Cooperativa dos Jornalistas de Natal (COOJORNAT), com a ajuda de amigos, seu primeiro e único livro intitulado “Duas Cabeças”, numa edição bem simples. Além disso, participou da antologia “Geração Alternativa”, organizada por J. Medeiros e, também, publicou alguns poemas dispersos em jornais locais, todos completamente inéditos em livros.

Informações sobre o poeta são de difícil acesso ou inexistentes.

BLACKOUT POR BLACKOUT

E, para concluir, ninguém melhor do que o próprio poeta, para falar de sua própria vida. Abaixo segue uma pequena autobiografia presente no início do seu livro. Texto publicado pelos organizadores na Poesia Subterrânea:

“Nasci a 16 de outubro de 1961. E comecei a despertar meus sonhos quando criança porque na época passei por diversas condições. Indo estudar num Colégio Interno; este mesmo pertencia ao Governo do Estado.

Depois fui encaminhado para o Ginásio Agrícola de Currais Novos, onde tive o prazer de conhecer mais de perto, todas as barras que passam um ser humana para conseguir sua identidade.

Andei bastante para alcançar este cálice e aqui confesso o pouco que aprendi está aqui nestas páginas cansadas e de tantas lutas, onde a cada dia procuro a finalidade de um EU.

Agora faço uma pequena pausa para agradecer todas as pessoas que fazem parte desta mesma maratona. Incentivo abertamente… persista que jamais será vencido por outras palavras.”

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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