Palmyra Wanderley, a maior feminista do RN

O Rio Grande do Norte sempre teve, em passagens significativas da sua história, mulheres notáveis; basta citarmos, como exemplos, Clara Camarão, esposa do índio Poti, primeira de que temos registro, a pegar em armas para defender sua terra da invasão holandesa; Celina Guimarães Viana, primeira mulher eleitora do Brasil e da América Latina; Alzira Soriano, primeira prefeita no Brasil; Maria do Céu Fernandes, primeira deputada estadual do RN; Lucy Garcia Maia, primeira aviadora do Nordeste; Ademilde Fonseca, primeira intérprete de letras de chorinho; Maria Gomes de Oliveira, primeira reitora de universidade pública do Brasil; Myriam Coeli, primeira jornalista diplomada…

O denominado movimento feminista nacional começa pioneiramente com a potiguar Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, nascida em Papari (hoje Nísia Floresta). Nísia Floresta lançou em 1832 seu primeiro livro, Direitos das Mulheres e Injustiças dos Homens (publicado quando ela tinha apenas 22 anos de idade, trazia estampada em sua capa, a informação de que se tratava de uma tradução livre de Vindications of the Rights of Woman, da escritora inglesa Mary Wollstonecraft).

PALMYRA WANDERLEY – A NOTÁVEL FEMINISTA

Porém, nenhuma outra mulher potiguar, até meados do século XX, ganharia tanto prestigio e notoriedade na sociedade natalense, sobretudo pelo engajamento nas lutas feministas e na literatura, como Palmyra Wanderley (1894-1978). Palmyra, ainda muito jovem, começou a escrever poemas, publicando seu primeiro livro Esmeraldas, em 1918. Esmeraldas, embora com forte influência romântica, obteve relativo sucesso de público e de critica no Estado. Palmyra foi também uma espécie de agitadora cultural no seu tempo; participava ativamente da vida literária na capital, inclusive, com muitos trabalhos voltados ao engajamento social, inventando campanhas e contribuindo para ajudar instituições e pessoas carentes.

Em 1914, Palmyra idealizou, organizou e dirigiu, juntamente com sua prima, Carolina Wanderley, uma revista feminina pioneira, “Via Láctea”, periódico que circulou até 1915 e trazia colaborações de mulheres escritoras do Estado. Nessa revista, bradavam seu grito de liberdade contra a sociedade machista e opressora da época. O órgão literário, daria impulso significativo à carreira da jovem poeta que, como já dissemos, publicou o seu primeiro livro de poemas em 1918, e daria inicio a uma longa produção literária, num curto espaço de tempo.

Nos anos 20, Palmyra começa a escrever crônicas no jornal A República, divulgando ideias feministas. Além de ser incentivadora desses conceitos, orientava e aconselhava suas leitoras sobre a importância de ler bons livros, indispensáveis à formação intelectual e moral da mulher. Questões essas que estavam em processo de formação na província, e ganhariam ânimo após a vinda de Bertha Lutz (ativista do feminismo, bióloga e política brasileira) a Natal em meados dos anos 20.

Em 1922, publicou-se a primeira antologia poética do Rio Grande do Norte, organizada por Ezequiel Wanderley, dela constando 108 escritores. Doze mulheres, fazem parte da seleção, dentre estas, Nísia Floresta, Auta de Souza, Palmyra Wanderley, Anna Lima e Adelle de Oliveira. Palmyra também colaborou com a “Cigarra” (1928-1929), revista que documentou uma das fases mais movimentadas da vida intelectual da cidade.

ROSEIRA BRAVA

Todavia, é no ano de 1929, ao publicar Roseira Brava, que Palmyra Wanderley dá um salto em sua carreira literária, consagrando-se como uma das principais poetas do país. Inclusive ganhando menção honrosa da Academia Brasileira de Letras, em 1930. Palmyra vivia o seu auge como escritora, sendo lida e badalada no meio literário de Natal e estados vizinhos.

Roseira Brava, teve capa de Adriel Lopes, poeta e ilustrador, considerado por muitos o primeiro capista do Estado. O livro foi lançado também no Recife tendo boa repercussão e recebeu muitos elogios da imprensa e da critica nacional, como, por exemplo, em artigos de Andrade Muricy, Tristão de Athayde, Agripino Griecco e João Ribeiro.

PIONEIRA NA ANRN

Palmyra se tornaria uma espécie de poeta oficial da cidade, e constantemente publicava seus versos em diversos periódicos, A República, A Ordem, Folha da Tarde, Diário de Natal, Tribuna do Norte, além de pronunciar conferências sobre Auta de Souza e sobre a condição feminina, atuando juntamente com sua prima Carolina Wanderley. Em 1936 a duas se consagrariam ao entrar pioneiramente para a Academia Norte-rio-grandense de Letras, Palmyra escolhendo como patrona Auta de Souza.

A escritora natalense era estrela de primeira grandeza à época. Embora não tenha, no nosso ponto de vista, incorporado o discurso feminista à poesia, fez com que seus versos também pudessem ser estudados sob a perspectiva de gênero, dada a forma como se impôs na sociedade machista e conservadora em que vivia.

PALMYRA MORREU ESQUECIDA

No dia 19 de novembro de 1978, há exatos quarenta anos nos deixava a poeta nascida em 06 de Agosto de 1899, filha do Juiz Celestino Carlos Wanderley e de Ana Guimarães Wanderley. Faleceu, lamentavelmente, sozinha e esquecida na mesma cidade em que nasceu.

É lugar comum dizer que ela é um dos maiores nomes da poesia norte-rio-grandense. Tendo publicado apenas dois livros, deixou muita coisa inédita, versos, crônicas, teatro, conferências e novelas. Mulher antenada ao seu tempo, percebeu toda a movimentação na sua cidade e produziu bastante, inclusive muito material de circunstância, o que talvez tenha deixado sua obra poética irregular; todavia, é notório que ela foi bastante louvada em seu auge, não apenas no Rio Grande do Norte, mas também, como já dissemos, teve seu valor reconhecido em outros estados, como Pernambuco e Paraíba.

HOMENAGEM A PALMYRA

Os escritores, Humberto Hermenegildo de Araújo e João Maria Paiva Palhano, pesquisadores que dispensam apresentação, acabam de prestar uma justa homenagem à poeta natalense, com a obra Palmyra Warderley – Entre Trinta Botões de Uma Roseira Brava : Estudo crítico e seleção de poemas. ( EDUFRN, 2018)

Num criterioso estudo, revelam-se novos e interessantes aspectos da obra em foco. Os pesquisadores se aprofundaram numa análise crítica, desnudando um dos livros de poemas mais famosos do Estado, e oferecem ao leitor uma verdadeira incursão pela poética de Pamyra, com alguns poemas selecionados junto ao ensaio critico.

Palmyra Warderley – Entre Trinta Botões de Uma Roseira Brava contém prefácio da poeta e escritora Diva Cunha, acompanhado de um texto dos pesquisadores com esclarecimentos sobre o trabalho, justificando a escolha do tema e a seleção de poemas, além de um artigo da professora e pesquisadora Marilia Gonsalves Borges Silveira, seguido de um amplo estudo, de Araújo e Palhano, denominado “Uma Trama de Muitos Fios”. A seleta dos poemas está dividida em quatro partes: “Botões de Sol e de Espuma”, “Botões Entre Tercetos e Quartetos”, “Botões Entre Suspiros”, e por último, “Botões de Sempre e de Neblina”.

Situando-se entre a tradição de Auta de Souza e a modernidade de Jorge Fernandes, Roseira Brava faz de Palmyra uma espécie de poeta de transição, o que é admitido pelos pesquisadores, ao constatarem, no estudo, numa perspectiva historiográfica, que a obra de Palmyra condensa os dois grandes movimentos da nossa poesia na terceira década do século passado.

Palmyra Warderley – Entre Trinta Botões de Uma Roseira Brava : Estudo crítico e seleção de poemas homenageia a poeta natalense nos quarenta anos de sua morte, e a coloca no patamar que merece, proporcionando sobretudo para a nova geração a possibilidade de conhecer a importância e o valor de Palmyra Wanderley, denominada por Agripino Griego de a Cigarra dos Trópicos.

About The Author: Thiago Gonzaga

Thiago Gonzaga

Pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *