Uma voluntária da pátria

Jovita Alves Feitosa

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Diante da fraqueza das forças armadas brasileiras, no tocante a armas e a efetivo, o Império do Brasil, à frente o grande Dom Pedro II, a fim de se preparar para a Guerra do Paraguai (de 1864 a 1870), abriu o voluntariado para homens aptos para esse desafio. Estava criado o Corpo de Voluntários da Pátria, e o primeiro a se alistar foi o próprio Imperador, que chegou a atuar na frente de batalha. Cabia aos Presidentes das províncias, nomeados pelo Governo central, a formação dos seus grupos de Voluntários da Pátria. À época da guerra do Paraguai, o presidente da província do Piauí era Franklin A. de Menezes Doria, futuro barão de Loreto, que permitiu a uma mulher sentar praça no batalhão de V. da Pátria, no posto de segundo-sargento. Tratava-se da cearense Jovita Alves Feitosa (1848-1867), que fora morar no Piauí a fim de se alistar para participar da guerra contra o Paraguai, principalmente para defender a honra da mulher brasileira, vítima das atrocidades dos invasores.

No intuito de ser logo aceita como V.P., Jovita cortou o cabelo e vestiu roupa de homem, pois a missão era vedada às mulheres. O disfarce deu certo e Jovita Alves Feitosa foi aceita como voluntária. Porém, durou pouco seu regozijo, pois alguém notou suas orelhas furadas e a presença de seios, motivos para a rejeição do seu sonho. Mas a Joana d’Arc (1412-31) brasileira não desistiu do seu heroico intento e apelou para o Presidente da província do Piauí, que, sensível ao gesto, ordenou a inclusão da jovem de 17 anos, ao segundo grupo de Voluntários da Pátria. A essa altura, Jovita já recebia muitos aplausos públicos, na condição de heroína nacional.

O segundo corpo de Voluntários do Piauí, com 460 praças, entre eles, a segundo-sargento Jovita Alves Feitosa, partiu de Terezina  a 10 de agosto de 1865. O destino era o Rio de Janeiro e o percurso, feito de navio, levou 37 dias, com escalas em São Luís, João Pessoa, Recife e Salvador. Em cada uma dessas cidades, Jovita recebeu grandes homenagens das autoridades e do próprio povo.  Em São Luís, o grupo foi homenageado em peça teatral e, ao final, foi exigida a presença da segundo-sargento no palco, quando a cobriram de flores, sob intensos aplausos. No Recife, Jovita foi hospedada no Palácio do Governo, e, no Teatro Santa Isabel, houve um espetáculo em sua honra, inclusive declamações de poesias. A 04 de setembro, o vapor chegou a Salvador, e a voluntária voltou a receber grandes homenagens.

No entanto, como sempre existem as “vozes dissidentes”, foi o que ocorreu com todo aquele louvor à figura de uma mulher humilde, nordestina, além de pouca instrução, e Jovita Alves Feitosa sofreu muitas decepções (assunto para outra crônica). Mas seu nome consta, desde 2018, no Livro dos Heróis e das Heroínas da Pátria, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília.

Daladier Pessoa Cunha Lima

Daladier Pessoa Cunha Lima

Primeiro reitor eleito da UFRN. Exerceu o cargo de 1987 a 1991. Graduado em Medicina pela UFRN (1965), tem especialização em Medicina do Trabalho e Administração Universitária, com vivência em instituições universitárias no exterior. Ao se aposentar, abdicou da Medicina e optou pela Educação, tendo se dedicado à instalação da FARN, atual UNI-RN, no ano de 1999. É, ainda, membro da Academia de Medicina do RN e do Instituto Histórico e Geográfico do RN. É autor dos livros Noilde Ramalho – uma história de amor à educação e Retratos da Vida, além de outras publicações. E em abril/2017 foi eleito para a cadeira nº 3, da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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