O centenário de Zé Dantas: o sertanejo puro, estudioso da cultura popular

zedantas e luiz gonzaga

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Eu não poderia deixar terminar o ano de 2021 sem falar do genial José de Souza Dantas Filho, ou Zedantas. Segundo Ferreti (2012 [1988]), era assim que ele costumava assinar suas composições. Manteremos essa grafia.

Se estivesse vivo, este estudioso da cultura popular e parceiro de Luiz Gonzaga contaria com 100 anos. Zedantas nasceu em 27 de fevereiro de 1921, no município de Carnaíba, então Carnaíba de Flores, microrregião do Sertão do Pajeú, em Pernambuco. A sua cidade natal fica a 400 quilômetros de Recife.

No livro “Zedantas segundo a letra I”, publicado em 2010, a viúva do compositor, a senhora Iolanda Simões de Souza Dantas, conta detalhes sobre a vida do marido.

Zedantas passou parte da infância em Carnaíba, mas seu pai tinha uma propriedade no município de Betânia. O Riacho do Navio passava dentro da fazenda e serviu de inspiração para criar a canção homônima.

Amante das coisas do sertão, estudioso do folclore, Zedantas nunca esqueceu suas origens. Segundo depoimento de dona Iolanda, já casados e morando no Rio de Janeiro, sempre que voltavam a Carnaíba, Zedantas […] se encontrava com os vaqueiros e no alpendre da fazenda, cada um que cantasse os motes, os aboios, as cantigas de vaqueiros, os desafios, as incelências. Quando tinha algum visitante, passavam a noite todinha cantando. O ZéDantas gravava tudo aquilo e levava para o Rio. […]  Muitas músicas saíram desses motivos, dos vaqueiros da terra dele.

Variante de “excelência”, incelência é o canto entoado à cabeça dos moribundos ou dos mortos (CASCUDO, 2012 [1979]).

Em 1930, Zedantas muda-se para Recife. Estudante de Medicina, já era fã de Luiz Gonzaga quando o conheceu em 1947, no Grande Hotel em Recife. Segundo depoimento do sanfoneiro a Dreyfus (2012 [1996]), Zedantas conseguiu enganar a segurança, bateu na porta do quarto e quando Gonzaga abriu, Zedantas entrou “como se estivesse tangendo gado… tchan, tchan! Oi, hê boi, cuch, cuch”. Nesse encontro, o acadêmico de Medicina mostrou a música “Resfolego da Sanfona”, que foi gravada com o nome “Vem, Morena”. Fato interessante é que Zedantas pediu a Luiz Gonzaga para gravar a música sem pôr o nome do estudante como parceiro, pois seu pai não queria que ele fosse compositor. Luiz Gonzaga não atendeu ao pedido e “Vem, Morena” foi lançada em janeiro de 1950, assinada como parceria de Zedantas e Luiz Gonzaga.

Em 1950, Zedantas muda-se para o Rio de Janeiro para fazer residência em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital dos Servidores do Estado. Do casamento com D. Iolanda Simões, em 1954, nasceram duas filhas, Sandra e Mônica, e um Filho, José de Souza Dantas Neto.

Já famoso, Zedantas dividia-se entre as atividades de médico e compositor de baiões. Entre os grandes sucessos, resultantes da parceria com Luiz Gonzaga, destacam-se: “A Volta da Asa Branca”, o “Xote das Meninas”, “ABC do Sertão”, “Riacho do Navio”, a “Dança da Moda”, “Forró de Mané Vito”, “Acauã” e “Vozes da Seca”.

De acordo com D. Iolanda, com o passar dos anos, Zedantas começou a sofrer de “espondilite reumatoide”, por causa da posição que o obstetra assume na assistência dos partos. Para o alívio das dores que sentia na coluna, passou a usar, então, cortisona, droga recém-chegada dos Estados Unidos. Os efeitos colaterais da cortisona incluem retenção de líquidos e cicatrização mais lenta de lesões. O uso frequente do medicamento debilitou a saúde do compositor. Um dia, no carnaval, na casa de Luiz Gonzaga, Zedantas lesionou o tendão de Aquiles e teve de se submeter a uma cirurgia. Mas o ferimento não cicatrizou. Pouco tempo depois, devido à insuficiência renal, o compositor morreu, em 1962, aos 41 anos de idade. Teve de partir tão jovem!

Luiz Gonzaga considerava Zedantas um puríssimo sertanejo. Tão puro que dizia que quando chegava perto dele, sentia cheiro de bode. Isso lembra uma máxima que o próprio Zedantas afirmava sobre o roceiro nordestino: “para quem ama, catinga de bode é cheiro!”

A senhora Iolanda conta que Zé Dantas afirmava que, quando morresse, queria ser sepultado em sua terra, com uma cruz de madeira num pé de mororó e um bode lambendo a cruz. Seu último desejo demonstra o quanto ele amava as coisas do Nordeste. Quanta simplicidade, quanta beleza bucólica de amor à terra!

Quando estive em Recife, no Congresso da Associação Brasileira de Linguística, em 2016, visitei o antigo Grande Hotel. Atualmente, é o Fórum Thomás de Aquino, uma das sedes do Tribunal de Justiça de Pernambuco. Fiquei admirando o prédio e imaginando-me testemunha daquela cena histórica: o notável Zedantas visitando Gonzaga. Gostaria de ter uma máquina do tempo!

Também passei em frente ao prédio em que residia D. Iolanda, na Praia de Boa Viagem, pois ficava pertinho do hotel onde se realizava o Congresso. Infelizmente, não cheguei a conhecê-la. Ela partiu no ano seguinte, em 2017.

Quis a trama do destino que, em solo potiguar, a sua filha Sandra fincasse raízes como juíza de Direito e nascesse, aqui, a neta de Zedantas, a cantora Marina Elali. Marina tem a missão de levar à frente, para as futuras gerações, o impecável legado do avô.

Obrigado, Zedantas! Feliz centenário! Agradecemos pelo lirismo, pelo humanismo e sensibilidade social com os mais humildes.

Enfim, não acabaste inodoro, incolor ou insípido, pois tu tinhas, como afirmava Cascudo, a areia da tua terra debaixo dos pés de tua alma. Seguiremos cantando e cantarolando as tuas canções, nas noites brasileiras, sob o luar do sertão: ai, que saudades que eu tenho…!


Referências:

CASCUDO, Luís da Câmara Cascudo. Dicionário do folclore brasileiro. 12 ed. São Paulo: Global, 2012 [1979].

DREYFUS, Dominique. Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga. 3. ed. São Paulo: 34, 2012 [1996].

FERRETTI, Mundicarmo. Na batida do baião, no balanço do forró: Zedantas e Luiz Gonzaga. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Massangana, 2012 [1988].

ZÉDANTAS segundo a letra I. Memorial Luiz Gonzaga. Coleção Arquivo Vivo. vol. 01. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2010. 80 p.

Sandro de Sousa

Sandro de Sousa

Filho de Macau-RN, residente em Natal desde os 5 anos de idade. Licenciado em Letras Português-Inglês (UFRN), Doutor em Letras (UFPB) e advogado.

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