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Laerte Coutinho: rouxinol ou mar?

Marcius Cortez17 de maio de 2019Opinião, Artigos e Crônicas, Image

A Laerte pensa que é mar e rouxinol. Ela agora cria pérolas metafísicas. Quadrinhos sem palavras com dois tipos de som: o silêncio e a música. Tenho preferido as que são apenas imagens. Laerte não briga mais com o humor, libertou-se da tirania das personagens e igual ao vento, galopa nas alturas da arte solta.

Porém é importante dizer que o Pirata do Tietê não abriu mão de suas impagáveis porradinhas. O autor de “Deus” não está nem aí para as teorias da moda. Porque brilhar não é seu objetivo já que isso é rotina ao longo de seus 40 anos em cartaz, na imprensa, televisão, teatro e sindicatos. Com raro talento escapa do confuso como o vampiro escapa dos espelhos.

Nesses últimos tempos, Laerte vem desconstruindo fórmulas e viajando em torno dos seguintes temas: a violência, a mediocridade e a imensa miséria que o mundo e o nosso país soltam pelas fuças.

Ele/ela vem se dando bem na arte de tocar o imaginário popular. Entre seus cartuns recentes fluem a crônica. Suas inquirições vêm temperadas por dúvidas atrozes e pelo seu principal ponto de honra: jamais cagar regra.

Sua arte é um precioso tesouro da cultura brasileira. Não é fácil se renovar a cada traço, a cada texto, a cada curva. Seu trabalho prima pela originalidade, pela florescência de uma linguagem que se afina e se redefine. Suas tiras vêm da pena capaz de desenhar a cabeça do cavalo aos 5 anos como fizera Leonardo da Vinci.

Tenho-o sentido orientado pelo código da renovação, suas novas conceituações filosóficas e o peso de sua especulação existencial. Vi-o recentemente na festa da entrega do Prêmio Averroes 2019, iniciativa do Hospital Premier e da OBORÉ PROJETOS ESPECIAIS. Foi um acontecimento político, mas foi principalmente uma demonstração que Laerte é assim. Súbito ergue os braços para cima e despenca em felicidade. Em seguida corre para o palco a fim de abraçar os netos Valente e Ariel e o filho Rafael Coutinho, também cartunista. Na sequência enche a voz e anuncia para o “Jardins de Soraya” lotado: “vou ser avô pela quarta vez, minha filha Laila está gravida”.

A mim o criador de “Laertevisão” não engana. Ele é o verdadeiro crossdresser do mar e do rouxinol. Dedico a ele a visão que lateja na minha memória. É um quadro do pintor francês Louis Édouard Fournier, The Funeral of Shelley (1899). Logo na primeira visão, uma certeza nos toma a alma: um poeta/um cartunista é um rouxinol que se senta na escuridão e canta com doces sons para alegrar a sua própria solidão: os seus ouvintes são como homens encantados com a melodia de um músico invisível que sentem que estão sendo movidos, mas não sabem de onde ou porquê.

Esses homens encantados não se arrependem do que foram pois foram transformados em mar, riqueza e raridade.

Sobre o autor

Marcius Cortez

Cinco livros publicados e o jogo ainda não acabou. Escrever é um embate que resulta em vitórias, derrotas e empates. O primeiro livro de Borges vendeu apenas 37 exemplares. O gol é quando encontramos um significado que melhore a realidade.

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