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Aqui tem resenha e faixa a faixa do novo Jaguatirica Print, de Luisa e os Alquimistas

O terceiro álbum de Luísa e os Alquimistas, Jaguatirica Print, é uma coleção de hits prontos. E nisso se assemelha ao primeiro disco, Cobra Coral. Mas desta vez, a aura cigana das canções, entoadas até em outras línguas, se concentra nos batidões da urbe nordestina. É menos cosmopolita e mais raiz. É mais sexy e menos nômade. Mas ambos encontram a sintonia da cantautora Luísa e os beats e grooves de seus alquimistas.

E mesmo com o regionalismo popular dos rincões nordestinos, escancarado e pairando sob a atmosfera brega-funk, há um passeio constante pelas ruas e ruelas da Jamaica – uma marca presentes nos três discos da banda, inclusive no mais vagaroso e eletrônico Vekanandra (2017), o segundo álbum.

“Nesse disco procuramos nos aprofundar na energia sonora dos batidões eletrônicos da música urbana nordestina, conectando isso com um ambiente de experimentação de timbres, arranjos, flows e assuntos que se misturam ao dub, dancehall, reggaeton, rap, zouk, r&b”, disse Luisa.

Ela ressaltou ainda a sonoridade embebida de referências ao passado e na busca de climas por vezes retrô e, até mesmo, brega, dos anos oitenta e noventa, também está presente na parte visual do disco.

Natal + São Paulo

Diferente dos dois primeiros discos, Jaguatirica Print foi produzido por vários alquimistas. No começo de 2018, Luísa e o baixista do grupo e produtor musical do disco, Pedras, começaram a pensar o terceiro álbum.

“A partir desse contato foram surgindo alguns beats. Nesse meio tempo me mudei de Natal para São Paulo, ampliei a formação da banda – que passou a ter novos três alquimistas no Sudeste – e paralelo a isso fomos aprovados no edital da Natura”, lembra Luísa.

A partir deste momento, a produção musical passou a ser compartilhada entre dois integrantes da formação de Natal, Pedras e Gabriel Souto, e Luísa assumiu a direção artística de todo o material do álbum e grande parte das composições.

Os alquimistas de Natal, que deram início ao grupo com Luísa são Gabriel Souto, Pedras e Zé Caxangá. Em Sampa, os novos alquimistas: Pedro Regada, Carlos Tupy e Tal Pessoa.

“No final de 2018, fizemos uma primeira imersão de gravação, onde a formação de Natal passou uma semana numa residência artística na Praia de Cotovelo (RN). Desse processo já resultaram novas músicas que foram trabalhadas posteriormente”, conta.

Ao longo do primeiro semestre de 2019, Luísa seguiu compondo as letras até que todo o grupo se reuniu durante um mês em uma casa/estúdio no bairro da Lapa, em São Paulo. “Os produtores do álbum vieram pra cá e junto com a formação daqui as gravações rolaram de maneira bem natural”, conta Luisa.

A mulher nos batidões

O disco conta com participações de várias cantoras, compositoras e parceiras de Luísa: a MC e repentista, Jessica Caitano, natural da cidade de Triunfo (PE); Catarina Dee Jah, que vive em Olinda (PE); Doralyce, pernambucana radicada no Rio de Janeiro; Sinta A Liga Crew e Jamila, da cena de João Pessoa (PB); e Luê, que vive em São Paulo, mas vem de Belém (PA). Além de Izy Mistura, cantor que veio do Togo, mas vive no Brasil.

“Essa presença feminina das convidadas veio do desejo de enfatizar a narrativa da mulher nesses batidões eletrônicos, que ainda são predominantemente ocupados por temas que partem do lugar de fala, não só masculino, mas também machista e objetificador”.

De fato, as letras do álbum tocam em várias questões, onde até mesmo as músicas de amor tem uma poética que passa mensagens de empoderamento e foge do romantismo sofrência convencional.

“Memórias da infância perto da praia, paisagens sonoras nostálgicas, o cotidiano opressor da cidade grande, músicas pra fazer o passinho dxs malocas, feminismo, saudade, partida, solidão, amizade, sororidade, redes sociais… tudo isso pode ser encontrado nesse álbum”, resume a artista.

Identidade Visual

A identidade visual também leva a assinatura de Luísa e traz o artista paraibano Thiago Trapo, responsável pela capa de “Vekanandra”. E ainda a equipe da Mole Enterprise na produção da capa e de alguns vídeos.

A capa do álbum, incorpora de modo crítico referências de antigas coletâneas de música. “Quando surgiu o nome ‘Jaguatirica Print’, a foto de uma bunda com um short de animal print veio na na minha cabeça na mesma hora. Comecei a pesquisar várias referências e vi capas de coletâneas de música caribeña, disco e boogie, que faziam o uso desse recorte do corpo feminino, mas de uma maneira sexista, machista e objetificadora”, aponta Luísa.

A partir daí, a artista também se deixou influenciar por inspirações femininas, como o disco Índia, de Gal Costa, e decidiu fotografar sua própria bunda:

“Por que não? Pensei… Nós mulheres nos privamos de muitas coisas por medo do que os outros vão pensar ou dizer, por medo de sermos assediadas, estupradas, violadas. O short que uso na capa do álbum é lindo, mas eu não ousaria usá-lo nas ruas de São Paulo sozinha, entende? É muito triste essa constatação. Concebi essa capa na vontade de subverter essa lógica opressora em que nós mulheres vivemos”.

A tipografia, referências de fontes e logomarcas foram construídas a partir da pesquisa no universo do vapor wave na estética tropical nordestina.

Faixa a Faixa

Descoladinha

O disco abre com Descoladinha, um feat com Jéssica Caitano, feito durante imersão da Red Bull Music Pulso 2018. Com elementos do brega funk e do dancehall, ela fala das descoladinhas do Nordeste. “São aquelas que se vestem de um jeito diferente, com personalidade e criatividade. Frequentadoras de ‘rolés alternativos’ , eu e Jéssica somos descoladinhas desde pequenas”, brinca Luísa.

Tous Les Jours

Com um beat envolvente e sensual, Tous Les Jours é uma parceria com Izy Mistura. O encontro dos artistas também se deu durante a residência da Red Bull e Teago Oliveira (Maglore) e Gabriel Souto, que também participavam da residência, também assinam a faixa. Com letra em português, francês, espanhol e inglês, a canção inspira até mesmo os mais desavisados com uma pegada afro pop gostosa pra sair dançando.

Cadernin

Cadernin é “uma sexy lovesong que fala de saudade”, define a artista. Com inspiração no movimento Batidão Romântico da Paraíba, a música traz elementos do hip hop, pop e R&B dos anos 2000.

Calor no Rio

Essa quarta faixa é um feat com Doralyce, autora da música, e trata-se de um tecnobrega dançante com timbres de surf music.

Jaguatirica Print

A potente Jaguatirica Print é mistura de brega funk, reggaeton e música eletrônica, orquestrado por seis mulheres poderosas: além de Luísa, Camila Rocha, Kalyne Lima e Preta Langy, o trio da Sinta A Liga Crew, e também Jessica Caitano e Jamila. A música é no estilo cypher e “fala de amor entre mulheres, resistência feminista, respeito pelos nossos corpos, tudo de maneira direta, lírica afiada e uma variedade de flows muito rica”, conta Luísa.

Olhos de Tocha

Depois vem Olhos de Tocha, um brega funk bem dançante pra decorar o passinho. Música que em breve vai ganhar videoclipe com a participação do dançarino Yrlan Souza, popularmente conhecido pela sua coreografia ”Teile e Zaga” (assista ao teaser aqui).

Garota Ligeira

Em Garota Ligeira, parceria com Luê, Luísa foi buscar memórias de sua infância na praia. Com refrão em francês, ela conta que “a sonoridade foi concebida como uma paisagem sonora tropical que passeia pela música caribeña e também faz referências a timbres dos carnavais fora de época do Nordeste nos anos 90”.

Furtacor

Já Furtacor, primeiro single lançado do álbum, “aborda um romantismo sem clichês, livre, leve e solto. Traduz a liberdade de viver o amor nas suas diversas formas”, conta. Bregão, com toques de arrocha, é canção pra dançar de rosto colado.

Sol em Câncer

A última música do disco com participação especial é Sol em Câncer, que traz Catarina Dee Jah e mistura xote, dub e música eletrônica experimental na construção do beat. Juntas elas cantam sobre o movimento de êxodo do Nordeste ao Sudeste e a vida de luta e trabalho das mulheres nordestinas nas grandes metrópoles brasileiras.

Algoritmos

Um dub envolvente que também mergulha no tema das dificuldades e desafios de viver em São Paulo.

Like Attack

Fechando o álbum, o dub digital LikeAttack, faz uma crítica irônica ao mundo superficial do Instagram, no qual as pessoas vivem em função de conseguir cada vez mais seguidores, aumentar o engajamento, entre outros objetivos que se renovam a cada dia.

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FICHA TÉCNICA JAGUATIRICA PRINT

Luísa e os Alquimistas: Luísa Nascim, Gabriel Souto, Pedras, Zé Caxangá, Pedro Regada, Carlos Tupy e Tal Pessoa

Direção Artística e Musical: Luísa Nascim
Produção Musical e Mixagem: Gabriel Souto e Pedras
Participações: Catarina Dee Jah, Doralyce, Izy Mistura, Jamila, Jéssica Caitano, Luê e Sinta a Liga Crew
Músicos convidados: Léo Fasio (Descoladinha) e Rafael Melo (Furtacor)
Masterização: Luiz Café
Estúdios de Gravação: Red Bull Station, Cigarra e Suame
Técnicos de Gravação Red Bull Station: Alejandra Luciani, Funai Costa e Éric Yoshino
Selo: Rizomarte Records
Distribuição Digital: ONErpm
Direção de Arte: Thiago Trapo e Mole Enterprise
Identidade Visual e Material Gráfico: Thiago Trapo
Fotografias Encarte: Rudá Melo
Styling: Mole Enterprise
Confecção de Figurino: Ruth Wünsch
Fotos de Divulgação: Luana Tayze
Assessoria de Comunicação: Café 8
Gestão do Projeto: Erva Doce Produções
Assistência de Produção: BaseB Cultura Entretenimento e Rizomarte
Patrocínio: Natura Musical
Gravado entre abril de 2018 e junho de 2019

FICHA TÉCNICA CAPA

Fotografia: Rudá Melo
Direção de Arte: Mole Enterprise e Thiago Trapo
Identidade Visual e Material Gráfico: Thiago Trapo
Styling: Mole Enterprise
Confecção de Figurino: Ruth Wunsch

Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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