#CaminhosdeNatal: Rua Juvino Barreto, o limite da rixa entre canguleiros e xarias

rua juvino barreto

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A atual Rua Juvino Barreto está localizada no bairro da Ribeira, perpendicular à praça Augusto Severo, no trecho compreendido entre as avenidas Câmara Cascudo e Deodoro da Fonseca.

No final do século XIX, a rua já existia e era conhecida pela denominação de Beco do Tecido, em razão da presença da Fábrica de Tecidos, logo depois do beco. No local da fábrica acha-se atualmente instalada uma agência da Caixa Econômica Federal.

O Beco do Tecido era o limite máximo entre o Xarias e os Canguleiros, que nutriam uma rivalidade que durou por dezenas de anos. Era inexplicável aquela separação, pois as famílias da Cidade Alta e da Ribeira conviviam pacificamente. A meninada, encontrando um morador do bairro contrário, expulsava-o imediatamente, aos gritos de “Xaria não desce!” ou “Canguleiro não sobe!’’.

Grandes grupos de canguleiros subiam a ladeira, armados, para assistirem à Festa da Padroeira. Depois de terem participado dos atos religiosos e profanos, sabiam que a batalha era inevitável no Beco do Tecido.

Juvino Barreto

A denominação da rua Juvino Barreto, dada àquele logradouro público, foi posterior ao ano de 1901, quando faleceu o seu patrono. Juvino César Paes Barreto nasceu no município pernambucano de Aliança, a 2 de fevereiro de 1847, filho do coronel
Leandro César Paes Barreto, republicano e insurgente da Revolução Praieira (1848), e Umbelina de Medeiros César.

Aos 10 anos de idade, Juvino ficou órfão de pai e passou a trabalhar como caixeiro viajante, em um estabelecimento de Nazaré/PE. À noite, ele ainda trabalhava em uma pequena oficina de encadernação, instalada em sua própria residência. Em 1869, associou-se ao irmão Júlio Barreto, estabelecendo-se em Macaíba, neste Estado.

Juvino Barreto casou-se em 28 de janeiro de 1873, com Inês Augusta Paes Barreto, filha de Amaro Barreto. Transferindo-se para o Recife, ali passou a dirigir a firma Júlio & Irmão. Voltou em seguida, passando a residir com o sogro e com um cunhado, Fabrício Maranhão, no Porto de Guarapes, em Macaíba.

Juvino sonhou um dia construir uma fábrica de tecidos em Natal. Tirou proveito das Leis nº 732, de 9 de agosto de 1875 e 773, de 9 de dezembro de 1876 e dispôs de 8.000 metros quadrados de terreno, no começo da então Rua da Cruz.

Comprou na Inglaterra as mais modernas máquinas existentes na época, com o compromisso de pagá-las com os lucros obtidos. Em 24 de maio de 1886, lançou a pedra fundamental do edifício fabril, em cerimônia presidida pelo presidente da província, José Moreira Alves da Silva. A fábrica foi inaugurada em 21 de julho de 1888. Junto à fábrica, Juvino construiu vila, escola, capela e prestou assistência médica completa aos seus operários.

Segundo Câmara Cascudo, Juvino Barreto era um homem “pequeno, forte, moreno, barba cerrada, sempre de casimira, com um revólver metido entre a calça e o colete, revólver que jamais disparou’’.

Juvino Barreto, era católico fervoroso, caridoso e de grande visão social, tendo sido considerado um modelo ideal de patrão. Foi o fundador da “Libertadora Macaibense”, conseguindo um grande número de alforrias de escravos. Foi condecorado com a Imperial Ordem da Rosa, pelos serviços prestados à causa abolicionista. Também foi sócio do Clube do Cupim e Oficial Superior da Guarda Nacional.

Em frente à sua fábrica, Juvino construiu um notável palacete, que hoje abriga o Colégio Salesiano São José, e ali criou seus 14 filhos. A casa foi construída em um imenso sítio que abrangia todo um quarteirão.

Ainda em vida Juvino doou, conjuntamente com a esposa, Inês a casa com todas as benfeitorias existentes na chácara, à Ordem dos Salesianos, que somente poderia entrar na posse do imóvel, após o falecimento do cônjuge sobrevivente.

Juvino Barreto, conhecido como o “pai dos pobres”, faleceu em sua residência, em 9 de abril de 1901. A cerimônia triste, grandiosa e solene do enterro, contou com a presença de quase 3.000 pessoas. Naquele dia o comércio foi fechado.

A rua que possui o seu nome, não apresenta exemplares representativos da arquitetura de outrora.


ILUSTRAÇÃO: Eunádia Silva Cavalcante

Jeanne Nesi

Jeanne Nesi

Superintendente do IPHAN-RN, Sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do RN, e Sócia correspondente do Instituto Histórico Geográfico e Arqueológico de PE. Fundou a Folha da Memória, com periodicidade mensal. Publicou cinco livros, sendo dois como co-autora. Publicou folhetos, folders e cordéis e mais de 300 artigos sobre o assunto em uma coluna semanal no jornal Poti, na Folha da Memória e em revistas do IHGRN.
Atualmente aposentada, mas sempre em defesa do patrimônio histórico.

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1 Comment

  • […] No terreno onde recentemente foi edificada a Agência da Caixa Econômica Federal da Ribeira, localizado no trecho final da avenida Câmara Cascudo, em frente ao Largo Dom Bosco, foi originalmente ocupado pela primeira fábrica da Cidade, a Fábrica de Fiação e Tecidos de Natal, idealizada e construída pelo industrial Juvino Barreto. […]

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