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Hype cervejeiro: o que é?

Lauro Ericksen11 de novembro de 2020Cerveja / Gastronomia Image

Hoje vou iniciar a coluna com alguns questionamentos que chegaram em um e-mail de marketing do e-commerce cervejeiro chamado Bros Beer: “de onde vem o hype de uma cerveja?” […] “Estaria o hype associado à qualidade da cerveja? Ou a sua limitação e escassez? Ou a sua nota no Untappd? Ou, ainda, ao fato de todo mundo a sua volta estar falando sobre ela? Talvez um pouco de cada coisa?”. Em uma resposta simples: sim, um pouco de cada coisa, mas, ainda, algo mais.

Hypando: origem, qualidade e performance

A origem do hype é algo que não se explica por si. A busca por algo “exótico” ou que todos querem é algo que não se limita apenas às cervejas. Isso é algo bem óbvio, mas em um determinado meio, no caso, o dos beergeeks ou cervejeiros nerds, por assim dizer, essa ânsia pelo novo transcende alguns limites.

De modo sociológico, o hype nada mais é do que o próprio fetiche pela mercadoria – sim, o grande Carlos Marques, vulgo, Karl Marx, está certo sim, amiguinho; você vai pagar caro por algo que não precisa e que nem vale tudo aquilo só porque foi alienado do resultado da sua práxis – já que o valor de troca supera em muito o valor da mercadoria (são margens de 200% ou mais).

Ou será que alguém acha razoável pagar 50 coronavacs (ou quase 10 bidens) numa NEIPA? Não existe malabarismo ou ginástica hermenêutica que justifique esse valor, nem a qualidade nem a performance justificam isso. E nem caiam na ilusão que “você não está pagando pela cerveja, você está pagando (CARO!!!) pela experiência”. Alguém ainda cai nesse engodo? Espero que vocês já tenham superado esse marketing de pseudo-coach-quântico-de-internet.

Existe outro argumento que tenta dar murro em ponta de faca dizendo: tal cervejaria é hypada porque usa melhores insumos, coisa importada, lúpulo fresco plantado nas planícies do Idaho ou no pé da montanha que filmaram o Senhor dos Anéis na Nova Zelândia (o lúpulo de Mordor deve ser o melhor).

Aí você pesquisa mais um pouco, e tem cervejaria local vendendo NEIPA mais caro que (Pastry) Russian Imperial Stout. Enfim, a hipocrisia (já que sai exorbitantemente mais caro fazer uma RIS meia boca que uma NEIPA ótima). Então qualidade não é um critério.

Cervejaria hypadas: o que fazer?

Os filhotes do livre-mercado costumam dizer que cada um é livre para escolher a cervejaria que quiser, e que se tal cervejaria é cara e hypada, que se escolha outra. Adoro o elitismo de quem lucra com isso, mas, deixando a ironia de lado, não é uma simples questão de escolher uma outra mais barata e sim promover um verdadeiro cancelamento das hypadas.

Em síntese, não basta simplesmente não comprar tal cerveja de tal cervejaria hypada, e aqui, vamos dar nome aos bois: Koala San Brew e Spartacus Brewing, duas cervejarias hypadas, caríssimas, e que pouco estão ligando para acessibilidade de seu produto.

Engraçado que ambas são de Minas Gerais e se orgulham de ter técnicas inovadoras, usar lúpulos super frescos, etc etc. Todo aquele discurso marqueteiro que todos conhecem e que não justifica o preço excruciante que elas praticam. Talvez MG tenha sido anexada aos EUA e ainda não nos comunicaram, já que os valores praticados por elas são destoantes com o restante do mercado. Inclusive sua concorrente direta pelo posto de melhor cervejaria nacional, a Dogma, pratica valores bem mais abaixo, algo entre 10 a 15% (há um tempo atrás chegava a ser até 25% mais barata). Mas, como sempre, o hype justifica tudo (para quem acredita nele).

Poderia citar outras cervejas do mesmo talante das mineiras, como a Salvador, que dá frete grátis e tem um produto similar a R$ 34,75 a lata, com envio refrigerado (às vezes a lata ainda chega gelada, e olhe que eles mandam lá do Rio Grande do Sul).

Enfim, alternativas existem, o que é necessário fazer é cancelar cervejarias como a KSB e a Spartacus que praticam preços absurdos e até mesmo incentivam o hype para se locupletar, e já tiveram o despautério de ir às redes sociais de alguns consumidores questionar certos reviews que não lhe conferiam o valor que elas achavam devido. Em outras palavras, consumidores que não embarcaram no hype.

Limitação e Untappd: eles geram o hype?

Não vou embarcar na modinha neoliberal de alguns beer influencers que souberam Von Mises, Hayek ou Hoppe ontem indicados por algum vídeo de Youtube do “Olavo de Cavalo” e querem justificar tudo pela escassez. Aliás, algumas cervejas hypadas chegam até a encalhar, o exemplo mais recente é a “No Brainer” da KSB, que entrou em “promoção” em alguns e-commerce, ou seja, a limitação e a escassez não são o elemento prevalente no psicologismo do hype. Talvez a falsa sensação de que o produto é limitado contribua para isso, mas é apenas mais um joguinho mental de quem quer te cobrar mais caro pelo produto vendido.

De outra banda, temos o Untappd, um aplicativo que serve para avaliar cervejas, e os usuários podem deixar suas notas, impressões gerais e até foto da breja consumida.

Eu, particularmente, sou um entusiasta da ferramenta, até costumo pesquisar nela antes de adquirir alguma cerveja, mas a nota em abstrato não me representa muita coisa. Procuro me guiar mais por comentários e avaliações que tendam a ser mais técnicas, sejam de amigos ou dos demais usuários.

O hype se arvora nas notas dadas no Untappd, isso é algo facilmente perceptível, haja vista que o próprio site do Bros, mencionado no início, já fez propaganda da Spartacus (olha, mas que coincidência), dizendo: “Spartacus FWIW | Lançamento em 1ª mão | Limitado 4un por pessoa | rating 4,65 [de um máximo de 5]. Olha só o nível dos feedbacks:” e após isso colava alguns check-ins do Untappd.

No entanto, até aquele momento, a cerveja sequer contava com 60 check-ins, um número estatisticamente irrelevante para se traçar qualquer julgamento com base apenas na nota. Então, podemos concluir que essa publicidade era mero hype ancorado no Untappd.

A Saideira

Sim, o hype é real, precisamos conhecê-lo e até mesmo fugir dele. Todas as cervejarias em maior ou menor escala tentam hypar seus produtos, sejam elas nacionais ou locais. Sejam de MG ou do RN. O hype é onipresente. A saída é o cancelamento (foi assim que procedi com a Spartacus e a KSB a preços “normais”).

Música para degustação

Para finalizar, deixo como sugestão musical para degustação de uma cerveja não-hypada o clássico do System of a Down, “Fuck the System”. O hype é o sistema, não olvidem.


FOTO: facebook da KSB

Sobre o autor

Lauro Ericksen

Doutor (2016), Mestre (2012) e Bacharel (2013) em Filosofia pela UFRN. Especialista em Direito do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes - UCAM/RJ (2010). Bacharel em Direito (2008) pela UFRN. Oficial de Justiça Avaliador Federal (2011 - atualmente) no Tribunal Regional do Trabalho da 21ª Região (TRT-21), lotado na Vara do Trabalho de Macau - RN. Professor Universitário, cervejeiro e flamenguista.

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