Triple Ipa: XXX mais aroma e sabor

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Saudações, tripleristas para quem gosta de uma boa IPA!

Para variar um pouco, hoje, falaremos de um estilo cervejeiro que quase nunca abordamos por aqui: IPA! (Claro que contém ironia). No entanto, em minha defesa, devo dizer que tudo que é bom a gente repete. No caso, por ser um estilo em franca ascensão, com muitas possibilidades de variação e muito querido pelo público em geral, nada mais justo do que se aprofundar sobre as IPA’s e suas variantes.

A variedade de IPA, ou subestilo de IPA, escolhido da vez foi a Triple IPA, ou, para encurtar um pouco a nomenclatura, TIPA. A escolha foi feita pensando na tendência de incremento e de produção que o mercado tem vislumbrado sobre ela recentemente.

A IPA, certamente, já é uma velha conhecida de quem acompanha as postagens da coluna no blog. A Triple IPA é justamente uma IPA, só que triplicada… porém, nem tudo é tão fácil e simples como se imagina, já que não estamos falando de uma “simples matemática”, e sim de algo com muito mais nuances que os números podem apresentar na escrita fria no papel.

Assim, convido-os a ler mais sobre esse subestilo de IPA, uma modalidade turbinada com mais maltes e mais lúpulos, ou seja, mais aromas e mais sabores na sua IPA!

Mais, mais e mais!

Como o próprio nome já indica, uma Triple IPA é uma cerveja que toma uma IPA como base e pretensamente lhe acresce três vezes (o triplo) mais os elementos constituintes: maltes e lúpulo. A princípio, pode-se pensar que é algo simplório fazer essa conta. Todavia, como tudo na vida, na prática a teoria é outra.

Apesar do nome aludir ao caráter “triplo” da IPA, a conta não é uma simples progressão aritmética dos termos empregados na produção da cerveja. Não obstante, há de se considerar que, se existe a Triple IPA (TIPA) deve haver também a Double IPA (DIPA), sim, isso é uma verdade inarredável.

As Double IPA’s (também conhecidas pela alcunha de Imperial IPA) são muito mais disseminadas que as Triple IPA’s, talvez tanto quanto as IPA’s “ordinárias”. Nessa esteira, há de se dizer que o cálculo de ser dupla ou tripla segue o mesmo parâmetro de “incoerência”: uma Double IPA não tem exatamente a duplicação (ou aplicação em dobro) dos marcadores de estilo de uma IPA convencional.

Exemplificativamente, o teor alcoólico de uma IPA tende a variar entre 5% e 7,5%, no entanto, em uma Double IPA o teor alcoólico não é simplesmente dobrado, pois, se o fosse, teríamos uma cerveja de, no mínimo, 10% de teor alcoólico, podendo chegar até mesmo a incríveis 15% (o equivalente ao teor alcoólico de um vinho dos mais encorpados)! Sem embargo, aplicando os mencionados parâmetros de ABV a uma Triple IPA, deveríamos ter cervejas de entrada nesse subestilo que partissem com mais de 15% de teor alcoólico, sendo admitido que as mais potentes pudessem alcançar mais de 20% no seu resultado final. Porém, de fato, isso não acontece.

As Double IPA’s costumam ter entre 7,5% de teor alcoólico e 8,5%, já as Triple IPA’s usualmente partem dos 8,5% até, no máximo 11%, embora algumas cervejarias mais experimentais ousem alçar suas cervejas a patamares mais perigosos, que ultrapassem a barreira dos 11% de teor alcoólico para suas Triple IPA’s.

O teor alcoólico não é o único parâmetro para reconhecimento de uma Triple IPA, embora seja dos melhores para aferir a potência de uma IPA triplicada. Outrossim, é necessário que ela possua uma carga maltada bem mais robusta e uma lupulagem mais alta que uma IPA ordinária, e claro, mais alta que uma Double IPA, para que alcance o status de Triple IPA.

West Coast Triple IPA (ou WCTIPA)

Existem basicamente dois subtipos de Triple IPA’s, as West Coast Triple IPA’s e as New England Triple IPA (que serão abordadas na seção seguinte). São dadas várias outras nomenclaturas para subgêneros interseccionais, como “International IPA”, e alguns outros, mas, em termos constitutivos que são capazes de definir um ramo de estilo (ou sua variação mais específica), o embate fica entre WC x NE.

As West Coast (WC) IPA’s são o estilo clássico de cervejas mais lupuladas primeiramente desenvolvidas em solo do novo mundo, após a revolução cervejeira que inaugurou a escola cervejeira norte-americana.

Suas principais características sempre foram lúpulos tendendo ao resinoso e ao pinho, com um perfil cítrico não tão potente, uma base maltada robusta e muito expressiva, pouco ou nenhum uso de adjuntos e com notas bem carameladas (às vezes, tão carameladas quanto às IPA’s que lhe originaram, as English IPA’s). Ela é dotada de um corpo não tão alto, variando em uma gradação mediana, um amargor persistente e notável, e uma drinkability mediana, nada perto de uma cerveja que deva ser servida numa Oktorberfest, por exemplo.

O escopo em fazer uma Triple (passando previamente por uma Double, como já abordado) sempre consistiu em tornar ainda mais evidentes todas as características já presentes no estilo (WCIPA, no caso). Ao transformar uma WCIPA em uma WCTIPA algumas características acabaram sendo excessivamente ressaltadas.

As duas principais características foram o dulçor, advindo de seu perfil altamente caramelado, e a percepção de álcool, que nas WCIPA’s não era algo tão denotado, mas que nas suas versões Triple acabou sendo um elemento de grande destaque. Ao passo que a lupulagem resinosa e o amargor acabaram perdendo um pouco do seu protagonismo inicialmente posto.

Podemos dizer, sem que se soe como um criticismo exacerbado, que o perfil extremo das WCTIPA’s não foi capaz de conquistar tanto assim o mercado. Os dois pontos anteriormente destacados acabaram sendo uma constante inconveniente, bem porque, para suportar o teor alcoólico mais elevado, uma base maltada muito grande teve que ser montada, dando o dulçor característico, se não, a percepção do ABV seria ainda maior (e olhe que na maioria dos caso já é algo muito presente e destacado).

O problema é que o corpo das WCTIPA’s, por sua constituição inicial, acabava não dando o suporte necessário nem para o alto ABV nem para o dulçor em grande exponencial. Tais detalhes acabavam deixando a maioria dos exemplares do subestilo em questão um tanto quanto desequilibrados.

De toda maneira, as WCTIPA’s, apesar de não muito populares, nem na época que foram lançadas, nem atualmente, ajudaram a desbravar o aumento das cargas de malte e lúpulo no desenvolvimento de IPA’s mais fortes em seus elementos constitutivos basilares.

New England Triple IPA (ou NETIPA)

Quem gosta de IPA’s de um modo ou de outro já ouviu falar nas famosas NEIPA’s. É uma variante lupulada bastante hypada (clique aqui para saber mais sobre hype) por assim dizer, e que angaria cada vez mais fãs nas mesas de bares de cerveja artesanal mundo afora (só se for mundo afora mesmo, porque aqui ainda falta vacina…).

Assim, criar uma Triple tendo por base uma New England IPA consiste em tentar exibir de modo mais fulgurante ainda seus elementos basilares. Diferentemente das WCIPA’s, as NEIPA’s possuem um perfil frutado altíssimo, focando em tonalidades cítricas e, em alguns casos, no dank (clique aqui para saber mais).

As NEIPA’s costumam ter uma base maltada bem neutra, pouco expressiva, e a escolha por esse tipo de base tem uma razão de ser: deixar que a lupulagem seja o ponto alto da cerveja. Usualmente são dotadas de um corpo alto, turbidez destacada e um amargor baixíssimo.

O corpo da NEIPA é um dos grandes diferenciais, quando comparadas com as congêneres das WC’s. A NEIPA costuma ser juicy (suculenta – ter a aparência de um suco bem concentrado), ter uma turbidez altíssima, deixando-a bem turvas (por causa dessa característica, a NEIPA também é conhecida como hazy IPA’s – hazy tem a ver com o elemento turvo no aspecto da cerveja). Seu corpo tende a ser bastante aveludado. O corpo alto e bastante pesado é o diferencial, ele é capaz de prover uma sensação na boca de preenchimento (o termo, em inglês, utilizado para definir essa sensação é Mouthfeel), sem, no entanto, ter um alto amargor ou uma baixa drinkability (ou seja, uma baixa capacidade de se beber em maior quantidade a cerveja sem que ela seja enjoativa). Para atingir o escopo de se ter um corpo assim, aveludado, costumam-se usar alguns adjuntos, como aveia ou trigo, aumentando, por conseguinte, a densidade total da cerveja.

As NETIPA’s tendem a destacar todas as características previamente descritas, e desempenham seu mister com maestria. A lupulagem consegue atingir níveis estratosféricos, com técnicas avançadas de saturação de lúpulo. As cervejarias “top de linha” (ou high-end, para usar um termo da Geração Z – “f*ck off, boomer”, eles diriam) conseguem desenvolver NETIPA’s com perfis altamente frutados e variados e com baixíssima percepção do teor alcoólico existente. Em alguns exemplares, o dulçor residual pode ter algum destaque inconveniente, mas não costuma ser algo tão incisivo como nas WCTIPA’s.

O único ponto negativo que às vezes é encontrado nas NETIPA’s é a ocorrência de harsh, e muito raramente de trub (para saber mais sobre os dois, clique aqui). Em certo sentido, a ocorrência dos dois é algo até entendível, por mais que o harsh seja algo que deva ser evitado a todo custo, com as altas cargas de lúpulo utilizadas nas NETIPA’s, e a depender da varietal de lúpulo utilizada na receita, é bem provável que o harsh dê as caras no resultado final.

De toda maneira, as NETIPA’s vêm ganhando cada vez mais destaque, com belos exemplares que conseguem esconder muito bem o alto ABV, e manifestando lupulagens insanamente expressivas, tons frutados, notas de frutas pouco usuais, como lichia, carambola, seriguela e uva verde, incrementando, sobremaneira, a complexidade no subestilo em análise.

Saideira

As Triple IPA’s, de modo geral, são o extremo que se pode conhecer das já bastante conhecidas IPA’s, seja na sua modelagem mais robusta das WCTIPA’s, com seu caramelado e seus aromas e sabores de pinho e resinosos, quer seja nas novas NETIPA’s, com seu amargor baixo, seu frutado intenso e seu teor alcoólico quase que escondido em camadas de complexidade.

Na dúvida, experimente um exemplar de cada: uma WCTIPA e depois uma NETIPA (ou inverta a ordem, não há uma regra específica quanto a isso).

Vai ser nocaute na certa!

Música para degustação

Ao se falar de Triple IPA, a primeira imagem que me ocorre à mente é do filme Triplo X (ou XXX), famosa trilogia cinematográfica de blockbusters do Vin Diesel. Uma das cenas mais icônicas dos filmes do careca parrudo é quando ele chega no show da banda de industrial metal Rammstein e eles estão executando a canção Feuer Frei!

Na cena, voam labaredas para todos os lados, uma batida industrial é repetida a todo vapor, muitos sintetizadores rasgam o plano iluminado em neon e os vocais graves do Till Lindemann comandam a festa! Confira a seguir!

Um brinde triplo a todos!

Saúde!


FOTO PRINCIPAL: Neil Ferguson

Lauro Ericksen

Lauro Ericksen

Um cervejeiro fiel, opositor ferrenho de Mammon (מָמוֹן) - o "deus mercado" -, e que só gosta de beber cerveja boa, a preços justos, sempre fazendo análise sensorial do que degusta.
Ministro honorário do STC: Supremo Tribunal da Cerveja.
Doutor (com doutorado) pela UFRN, mas, que, para pagar as contas das cervejas, a divisão social do trabalho obriga a ser: Oficial de Justiça Avaliador Federal e Professor Universitário. Flamenguista por opção do coração (ou seja, campeão sempre!).

Sigam-me no Untappd (https://untappd.com/user/Ericksen) para mais avaliações cervejeiras sinceras, sem jabá (todavia, se for dado, eu só não bebo veneno).

A verdade doa a quem doer... E aí, doeu?

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