george gershwin

Gershwin, o compositor que elevou o jazz a um nível superior

Manoel Onofre Jr.16 de abril de 2019Música, Opinião, Artigos e Crônicas, Image

Todo aficionado de Jazz, que também seja amante da Música Erudita, certamente terá em George Gershwin (1898-1937) um dos seus compositores favoritos. É que Gershwin, como ninguém mais, soube elevar o Jazz ao nível da grande música. Com isto ele criou algo de verdadeiramente novo. Sem dúvidas trata-se de um dos mais importantes fenômenos da curta história da música nos Estados Unidos. Depois dele e antes surgiram experiências semelhantes; nenhuma, todavia, o iguala.

Gershwin começou pela canção popular, sob inspiração de blues e rag times. Depois de obter sucesso com revistas e musicais, partiu para coisa mais séria: Blue Monday, ópera de câmera, com libreto de Buddy da Silva (1922). Esta obra se impôs pela música cheia de vitalidade e exuberância. Não teve grande repercussão, porém. Mais tarde, reorquestrada por Ferde Grofé, ressurgiu com o título, 135 th Street.

RHAPSODY IN BLUE

Dois anos depois da estreia de Blue Monday, veio a Rhapsody in Blue, primeira incursão do autor no campo da música sinfônica. Marcante aí, a presença do Jazz. Lânguidos sons de clarineta introduzem o piano; após, anuncia-se o grande tema e, logo, toda a orquestra o ataca em catadupas de sons alegres e selvagens.

Curiosa a afirmação de Gershwin de que se inspirara, para compor esse tema, no bater ritmado das rodas do trem nas juntas dos trilhos. Mas, a alucinação rítmica inicial, em que se pressente uns longes de primitivismo africano, vai se desfazendo na medida em que preludia o segundo tema. Este é lento e arrastado, romântico e cheio de sentimento. No final o tema primeiro retorna, com maior força. É magistral.

Essa Rapsódia obteve grande sucesso. Segundo Charles Schwertz “é apropriado dizer que com a Rhapsody, a música americana alcançou a maioridade na sala de concerto”. A primeira execução, realizada no Aeolian Hall, de Nova York, por Paul Whiteman e sua Palais Royal Orquestra, teve o próprio Gershwin como solista (1924). Gershwin, diga-se de passagem, era também um ás do piano.

Em 1925 aparece o Concerto para Piano e Orquestra em Fá Maior, ” que foi saudado como a primeira grande obra musical surgida em solo norte-americano” (Otto Maria Carpeaux – Uma Nova História da Música, 1968). Dos seus movimentos, o último tem sido bastante vulgarizado, talvez pela féerie que o caracteriza, muito embora não seja menos belo o primeiro movimento. Tecnicamente, esse concerto representou um avanço significativo em relação à Rapsódia – é o que dizem os entendidos.

Nessa esplêndida composição continua a música impressionista, por vezes de raiz folclórica, também presente, com a mesma intensidade, na obra clássica seguinte, An American In Paris (1928), poema sinfônico, outro grande sucesso, melodioso e cheio de ritmos, como a Rapsódia. A abertura – vale frisar – “em estilo tipicamente francês, à maneira de Debusy” (Gershwin) acentua o tom impressionista.

Um filme de Vincente Minnelli, estrelado por Gene Kelly – Sinfonia de Paris – contribuiu para difusão dessa obra no mundo inteiro.

Importa dizer, que, enquanto Gershwin trabalhava em música assim “séria”, não deixava de lado a canção popular, de que tornou-se um dos maiores expoentes. Sua popularidade, neste sentido, somente é igualada pela de nomes como Coler Porter, Richard Rodgers, Irving Berlin e poucos outros. Canções famosas: Embraceable You, The Man I Love, S´Wonderful, etc. Compôs também para vários musicais e filmes de Hollywood.

PORGY AND BESS

No entanto, Gershwin aspirava a criar nada menos do que uma verdadeira e grande ópera. Algo “com personagens do povo, situações do povo, ambiente do povo, música do povo. E destinada, naturalmente a ser de agrado do povo” – diria.

Decidido a realizar esse sonho, obteve do escritor Du Bose Heyward o libreto e de Ira Gershwin as letras das canções. Em 30 de setembro de 1935 estreava Porgy and Bess. Foi relativo sucesso. Mas, depois, ganharia o mundo. De todas as operas modernas, é a mais popular e representa contribuição imensa para a renovação e atualização do gênero.

Uma história de amor entre negros de um bairro pobre da cidade de Charleston, no litoral da Carolina do Sul (EUA) – eis, em suma, o enredo. De tudo sobressai a paixão renitente de Porgy por Bess e a leviandade desta no Amor. Como a Carmen de Bizet, Bess é uma das grandes figuras de femme fatale na galeria de personagens de ópera.

No palco desse drama pessional, entremeado de lutas de morte, desenvolve-se a vida cotidiana típica de uma comunidade negra, com suas manifestações culturais peculiares. E em tudo está a marca do Jazz e do Blues.

UMA SINFONIA INACABADA

Após os aplausos da estreia, no Colonial Theatre, Gerswhin disse: “Minha música começa hoje”. Dois anos depois ele morria sem ter podido compor outra obra de vulto. Como afirma Otto Maria Carpeux, “vida e obra de Gershwin foram uma sinfonia inacabada”. (Ob,cit.).

Além das peças já referidas, deixou, de música erudita, a Second Rhapsody, a Cuban Overture, três prelúdios para piano (obras, inexplicavelmente, pouco conhecidas no Brasil) e quase nada mais.

Gershwin é meu compositor predileto. Gosto de tudo que ele fez, tanto a música instrumental e orquestral quanto a ópera e a canção popular. Quando descobri a sua arte, lá pelos idos de 1960, fiquei quase que em estado de epifania. Sei que ele não é um grande mestre, não tem a genialidade de um Beethoven, de um Mozart, mas a sua música me toca mais profundamente do que a de qualquer outro compositor.

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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