por Giancarlo Vieira

Paul McCartney entrou na década de 80 de forma estranhamente similar ao começo dos anos 70.

Depois de uma série de mudanças de formação, sua banda Wings, encerrava as atividades e ele amargava a terrível realidade do desaparecimento trágico de John Lennon.

Mesmo que não tivesse nada para provar em termos de talento e genialidade, o Beatle flertou com o pop sintético e insípido das paradas de sucesso enquanto se distanciava deliberadamente de seu passado de glórias.

Embora tenha continuado sua rotina inabalável de compositor, seus discos seguiam um irregular ecletismo comercial que testava a paciência até de seus fãs mais fiéis.

Nesse contexto, ele alternou bons momentos como o convincente “Tug Of War” de 1981, fez parceria com o mega astro Michael Jackson em “Pipes Of Peace” de 1983, reciclou hits em “Give My Regards To Broad Street” de 1984, até fracassar com o pastiche de new wave em “Press To Play” de 1986, disco esnobado por crítica e público.

Um pequeno alento veio com o mais inspirado “Flowers In The Dirt” de 1989, que trazia a bela “This One” e a ótima parceria com Elvis Costelo na beatlesca “My Brave Face”. No divertido vídeo da canção, guitarras rickenbackers de 12 cordas emolduravam a melodia ao mesmo tempo em que ele empunhava o icônico Hofner Violin Bass, sua marca registrada nos sixties.

Retomando a paixão por apresentações ao vivo, McCartney chegaria aos anos 90, fazendo as pazes com os palcos e com seu passado Beatle. O álbum de 1993, “Off The Ground”, repetiu a fórmula, mas não trouxe canções tão boas quanto o anterior.

Em 1995, ele finalmente se reuniu com seus velhos companheiros George e Ringo e com o produtor Jeff Lynne para o projeto “The Beatles Anthology”, um monumental documentário de mais de 10 horas cobrindo a trajetória da banda e que incluía lançamentos de raridades, entre livros, discos e montanhas de memorabilia que alimentaram o merchandising de fim de milênio para os FabFour.

O ponto alto da reunião foi a gravação de canções trabalhadas com a voz de Lennon tirada de antigos tapes e mixada em cima do emocionante instrumental e vocal dos “Threatles”, como a imprensa passou a denominar o trio sobrevivente. Mas o resultado das gravações de “Free As A Bird” e “Real Love” foi massacrado por parte da crítica que considerou a produção muito aquém do clássico cancioneiro Beatle.

O projeto, no entanto, fez McCartney contemplar e reverenciar sua própria carreira e começar a compor um novo bloco de canções absolutamente sublimes.

O resultado desse renascimento seria a gestação de “Flaming Pie“.
O processo de composição do novo álbum foi marcado por um período doloroso para Paul. Sua mulher, Linda McCartney, tinha sido diagnosticada com câncer de mama, alguns anos antes e a doença retornou com força devastadora. Como em vários momentos do passado, ele amparou a família enquanto buscava terapia no trabalho.

Ao convocar Jeff Lynne para as sessões, McCartney reforçou a ideia de uma sonoridade sixtie e buscava a simplicidade de produção que o líder da Electric Light Orchestra imprimiu em “Cloud Nine”, o disco que marcou a volta de George Harrison ao sucesso em 1987.

O produtor, no entanto, não trabalhou como um definidor do som do álbum, se limitando a aparar arestas desnecessárias das canções e atuando como convidado de luxo.

A rigor, as gravações começaram em 1995 e foram concluídas no início de 1997. Além de Lynne, McCartney também convidaria Ringo Starr para a bateria, o velho amigo Steve Miller para a guitarra e o lendário George Martin para a montagem dos arranjos orquestrais. Mas a maior parte dos instrumentos do álbum ficaria a cargo dele mesmo.

Gravado num mundo pós Grunge e dominado pela midiática disputa britpop entre Oasis e Blur, o homem de Liverpool não buscou concorrer com seus jovens, talentosos e arrogantes recicladores. De olho no que acontecia musicalmente, ele apenas seguiu seus instintos e confeccionou uma verdadeira aula musical.

O resultado era simplesmente inacreditável: uma reunião de canções maravilhosas, letras inspiradas, belas melodias e energia de sobra para uma performance vocal e instrumental poucas vezes conseguida pelo próprio McCartney em carreira solo.

A sonoridade do álbum é um verdadeiro caleidoscópio de tudo que fez dele um dos maiores compositores do século XX.

Temos no álbum, folk singelo como “Great Day” e “Calico Skyes”, Blues urbano e rocks estradeiros em “Used To Be Bad”, “Flaming Pie” e “If You Wanna”. Lindas baladas como “Somedays”, “Little Willow” e “Souvenir”. Power Pop delicado em “The World Tonight” e “Young Boy”, até as vibrantes Beatle Songs “The Song We Were Singing” e “Beautiful Night”.

A crítica saudou o trabalho como um brilhante retorno ao inspirado compositor do passado. Não à toa, muitos o compararam ao memorável “Band On The Run” de 1973. E o sucesso comercial aconteceu, com o álbum entrando no Top Ten de diversos países e chegando a um heróico segundo lugar na Inglaterra e nos EUA.

No ano seguinte, Paul amargaria a perda de sua esposa, Linda, e a maior parte dessas canções, infelizmente, não entraria no set list de suas futuras turnês. Mesmo assim, o disco adquiriu status de obra prima e permanece como seu trabalho mais aclamado dos anos 90.

Muitos tiveram razão em afirmar que “Flaming Pie” representava mais um renascimento artístico e comercial para o incansável Paul. Gravado em meio à muitas adversidades, a obra flagra um homem determinado a escrever mais um belo capítulo de sua lendária história musical.

Adjetivos não faltam para o resultado do esforço do mestre. Brilhante, melódico, influente e atemporal, “Flaming Pie” é discoteca básica na seleção de clássicos para a ilha deserta.

FLAMING PIE – Faixa a faixa

1. THE SONG WE WERE SINGING (McCartney)

Clima nostálgico com lindo dedilhado de violão em letra que relembra o clima das “soluções cósmicas” da Era de Aquário. McCartney com vocal suave explodindo para um refrão tão pop quanto desconcertante.

2. THE WORLD TONIGHT (McCartney)

Riff maravilhoso de guitarra cristalina. Um Paul em registro vocal grave faz dueto com ele mesmo uma oitava acima. A canção traz um leve aceno a George Harrison com sutis arranjos de slide guitar conduzidos pela impecável sonoridade do baixo Hofner. Uma produção perfeita com Lynne e Paul em estado de graça. Segundo single extraído do álbum.

3. IF YOU WANNA (McCartney)

Mais guitarras arrasadoras de Paul e Steve Miller num dos melhores rocks dos anos 90. Segundo o encarte do álbum, uma “canção driving across America”. Velocidade e entusiasmo conduzida pela excelente bateria tocada pelo próprio McCartney. Soa como um recado aos ídolos jovens: “Hey, britpop de moptops… eu ainda estou aqui”.

4. SOMEDAYS (McCartney)

Conduzida por um violão comovente e arranjo maestral de harpa, cravo, oboé e cordas, este é, sem dúvida, um dos mais subestimados clássicos de McCartney em todos os tempos. Letra de emocionante declaração de amor:”Sometimes I Look Into Your Soul”.

5. YOUNG BOY (McCartney)

Levada impressionante de violões de Paul com um solo de guitarra antológico de Steve Miller. Uma canção de melodia maravilhosa com influências “Procol Harum” no final lento, com órgão Hammond nostálgico. Primeiro single extraído do álbum.

6. CALICO SKIES (McCartney)

Balada folk com introdução reunindo elementos de “I’m Looking Through You” e “Blackbird”. Paul, trêmulo de emoção, em outro momento passional: “I Will love you for the rest of my life”. Produção do lendário George Martin.

7. FLAMING PIE (McCartney)

Bluesy Rock com ecos de “Come And Get It”, o hit que o Beatle fez para o Badfinger em 1970. Mcartney e Lynne tocam todos os instrumentos mais uma vez. A letra marota brinca com a hilariante história criada por Lennon nos primórdios dos Beatles, de um homem surgindo do interior de uma “torta flamejante” e sugerindo o nome da banda: “vocês serão beetles com “A”.

8. HEAVEN ON A SUNDAY (McCartney)

Um pouco de Bossa Nova e latinidade em uma ensolarada canção. Belo solo de violão dialogando com a aguda guitarra de seu filho James. Linda McCartney completa a reunião familiar acrescentando backing vocals.

9. USED TO BE BAD (McCartney-Miller)

Blues básico com dueto vocal em clima de jam com Steve Miller. Um momento divertido, despretensioso e menos inspirado do trabalho.

10. SOUVENIR (McCartney)

Comovente rhythm’n’blues de progressão fascinante de acordes em sonoridade soberba. Naipe sutil de metais pontua o lindo arranjo de guitarras. O chiado de acetato de 78rpm no final da faixa deixa tudo mais saboroso e nostálgico.

11. LITTLE WILLOW (McCartney)

Arrepiante canção sobre a perda de uma amiga querida do clã McCartney. Violão sensacional e vocalizações celestiais marcam mais uma obra prima. Segundo alguns biógrafos, a canção foi escrita como tributo à Maureen Starkey, primeira esposa de Ringo, vitimada por um câncer em 1995.

12. REALLY LOVE YOU (McCartney-Starkey)

Jam session funky improvisada com Ringo Starr dividindo autoria e vocais. Um mimo de McCartney ao Beatle drummer com uma canção que pouco acrescenta à grandeza do projeto.

13. BEAUTIFUL NIGHT (McCartney)

Batida poderosa de Ringo numa canção verdadeiramente sublime. O Paul antológico baladeiro de piano Songs está de volta. Linda McCartney faz harmonias vocais neste que é provavelmente seu último registro em discos do marido. A orquestração de George Martin é espetacular e nem a inesperada mudança de andamento no final festivo, muda o tom confessional arrepiante da canção. Terceiro single extraído do álbum.

14. GREAT DAY (McCartney)

A canção mais antiga da leva (1992) é uma clássica balada acústica, sobre esperança em dias melhores. a canção se agiganta a cada nova audição. Um final bonito para uma obra inesquecível do gênio das belas melodias.

Músicos em Flaming Pie:

Paul McCartney: vocais e backing vocals, piano, guitarra, baixo, violão, órgão, teclados e bateria.
Jeff Lynne: guitarras, violões, teclados, backing vocals.
Ringo Starr: bateria e vocais.
Steve Miller: vocais e guitarra.
James McCartney: guitarra.
Linda McCartney: backing vocals.

Lançamento : 5 de Maio de 1997.
Relançado em 2020 em vários formatos, incluindo um luxuoso box set de vinis e cds remasterizados em Abbey Road.

Produzido por Paul McCartney-Jeff Lynne-George Martin.

Engenheiros: Geoff Emmerick, John Jakobs e Keith Smith.

(Para Karlo Schneider, in memorian).


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