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Discos que Mudaram Minha Vida: Aqualung, do Jethro Tull

5 de abril de 2021Música, , Image

Por Giancarlo Vieira

Lançado em 19 de Março de 1971, Aqualung é o quarto álbum da banda inglesa e representa sua primeira obra prima e um dos maiores discos do Rock progressivo.

Formado em meados dos anos 60, o Jethro Tull é facilmente confundido com o seu frontleader, o flautista, violonista e compositor Ian Anderson.

Em uma época em que o Rock era sinônimo de deuses da guitarra como Clapton, Beck, Page e Hendrix, Anderson adotou um instrumento pouco comum no estilo: a flauta transversal. Isso fez do Jethro Tull uma banda alienígena na cena musical do período.

A competente mistura de estilos formatada pelo flautista de longos cabelos, barba, casaco xadrez e olhos esbugalhados, que se equilibrava em uma das pernas como um duende alucinado, deixava todos embasbacados.

A partir da entrada do guitarrista Martin Barre no ótimo “Stand Up” de 1969 e no heróico “Benefit” de 1970, Ian Anderson fixa a fórmula definidora do som do Tull. Em Aqualung, sai o baixista original Glen Cornick e assume Jeffrey Hammond. John Evan também é oficializado nos teclados.

É nesse contexto de imensa criatividade e definição de ambições sonoras que Aqualung é composto, gravado e lançado.

E o resultado é absolutamente sublime e atemporal.

Embora Anderson tenha veemente rejeitado o rótulo de “álbum conceitual”, o disco é claramente dividido em dois temas fundamentais: a estratificação de classes da sociedade inglesa e a vida miserável dos moradores de rua de Londres no lado A do LP, e uma crítica mordaz e impiedosa à hipocrisia da religião cristã na definição dos valores morais da Inglaterra pós vitoriana, no lado B do álbum.

O foco da obra surge a partir de uma coleção de fotos de moradores de rua da capital inglesa, feita por Jennie Anderson, esposa do vocalista na época. A arte da capa é um trabalho genial do americano Burton Silverman, e foi feita a partir de uma fotografia de um mendigo com as características físicas do próprio Anderson. Na contracapa um texto surrealista ilustra uma inversão radical do primeiro capítulo do Gênesis, com o homem criando Deus à sua imagem e semelhança.

Mas nada funcionaria se as canções não fossem boas.

Além disso, encontramos no álbum todos os elementos que fizeram a fama da banda: longos solos de flauta, riffs poderosos da guitarra passando por calmarias folk, baladas orquestrais, e hard rock bem moldado com pianos, mellotrons, órgãos e uma base sólida de baixo e bateria.

Um incrível som elétrico acústico mantido no equilíbrio da corda bamba do perfeccionista Anderson.

O álbum foi um sucesso de público e parte da crítica saudou o trabalho como uma das mais complexas e inteligentes obras musicais do início dos anos 70.

Mesmo assim, o clima entre banda e imprensa foi quase sempre marcado por um tenso cabo de guerra. Numa das críticas mais mordazes ao trabalho, o semanário “Headline from Disc & Music Echo” sentenciou: “Bons céus, agora Ian Anderson quer nos fazer pensar”. O sucesso comercial do álbum não mudaria muito esse panorama.

O Jethro Tull ainda lançaria discos emblemáticos e geniais nos anos 70, entraria num limbo eletrônico nos anos 80 e ressuscitaria os fundamentos do seu som em bons álbuns dos anos 90.

Aqualung, porém, permanece imortalizado como o álbum que define o auge de seu poder lírico e melódico. Um marco impecável que segue influenciando gerações na história da música.

Faixa a Faixa:

1. AQUALUNG

Riff poderoso de guitarra numa melodia espetacular que vai do hard à passagem etérea e Folk do violão de Anderson. Com letra de Jennie Anderson, a canção apresenta uma arrepiante descrição, com doses exatas de ironia e compaixão, de um maltrapilho de reputação duvidosa que observa garotinhas com segundas intenções e está entregue à sua própria sorte. O solo marcante de Barre está entre os trabalhos mais memoráveis do subestimado guitarrista.

2. CROSS EYED MARY

A flauta de Ian Anderson dá as caras pela primeira vez no álbum. Melodia espetacular com um diálogo enfurecido do hammond de Evan, flauta e guitarra. Quem seria a “Maria Vesga” do título? Uma prostituta estilo “Hobin Wood” roubando dos ricos e doando aos pobres? A garotinha observada pelo Aqualung? Um dos pontos mais altos do álbum. Regravada mais tarde pelo Iron Maiden.

3. CHEAP DAY RETURN

A visita de um filho a um pai enfermo. Uma canção autobiográfica? Um pouco de mistério numa trama celestial de violões. O resultado é uma pequena jóia de menos de 2 minutos de duração.

4. MOTHER GOOSE

A visão de um estudante sobre a “fauna inglesa” do Picaddily Circus na era Flower Power com uma analogia com personagens bizarros vivendo em situações extremas. Arranjos sensacionais de violões e flautas dobradas.

5. WOND’RING ALOUD

A única Lovesong do álbum é uma das melodias mais bonitas de toda a discografia do Jethro Tull. Conduzida pelo belo dedilhado do violão de Anderson, a faixa apresenta um arranjo de cordas sutil e sublime. Cortesia do maestro David Palmer.

6. UP TO ME

Uma das mais estranhas e complexas canções do álbum. A história de um working class observando e observado por outros personagens à margem da sociedade. Bela trama de violões, flauta e guitarras em meio à risos nervosos e histéricos.

7. MY GOD

“A sangrenta igreja da Inglaterra na corrente da história, requer sua presença na paróquia para o chá”. Um ataque sem precedentes à hipocrisia da Igreja ao trancar Deus na “gaiola dourada”. Instrumental erudito de violões na abertura e eletricidade correndo solta a seguir. Segue-se um coro gospel e mais delírios acústicos e elétricos com uma das maiores performances de flautas da carreira de Anderson. A fórmula sonora clássica do Tull em seu auge.

8. HYMN 43

Mais violência lírica contra a hipocrisia religiosa. “Se Jesus salva, ele deveria se salvar de seus seguidores sagrados e sangrentos que usam seu nome na morte. Oh Jesus, salve-me”. Instrumental hard rock com Martin Barre numa performance histórica. Ian em vocal enfurecido.

9. SLIPSTREAM

Clássica vinheta acústica com linda orquestração de Palmer. Uma metáfora sobre a consciência de Deus numa última rodada etílica. Anderson magistral.

10. LOCOMOTIVE BREATH

Referências à Bíblia de Gideão numa história de traição e morte. “A locomotiva não vai desacelerar” diz a letra apocalíptica. Início com piano clássico e a banda caindo num hard clássico com guitarras e flautas enfurecidas. Uma das canções mais lembradas e famosas da banda.

11. WIND UP

Redentora balada sobre alguém que recusa a lavagem cerebral das escolas dominicais e questiona o exercício da fé da cristandade. Linda melodia cantada entre balbucios de ironia, resignação e escárnio. Um fechamento de ouro para uma obra prima radical do século XX.

Jethro Tull em Aqualung:

Ian Anderson: flautas e violões
Martin Barre: guitarras elétricas e acústicas
Jeffrey Hammond: Baixo e vocais
John Evan: piano, órgão e mellotron
Clive Bunker: bateria e percussão.
David Palmer: arranjos orquestrais

Produção: Ian Anderson e Terry Ellis.


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