E ai, o rock morreu ou vagueia como zumbi?

Neste mês, as celebrações do Dia Mundial do Rock reacenderam uma discussão travada nas últimas décadas: o rock morreu? Aproveitando a data de hoje, dos 75 aninhos do ainda jovem Mick Jagger, vamos discutir o assunto?

Entusiastas do gênero responsável pela moldura cultural do Ocidente entre as décadas de 1960 e 1990 (aqui no Brasil, até fins da década de 80, penso) acreditam que sim, que o rock bateu as botas.

O argumento contrário provém, sobretudo, dos atuais rockers. Mergulhados na cena musical atual de streamings, festivais independentes e divulgação virtual, eles assistem de perto a cena e defendem a qualidade do som atual.

kurt cobainMas a discussão vai além. Não é qualidade. Ou não só isso. É comportamento. É influência. É representatividade. E isso o rock perdeu faz décadas.

Minha opinião é que o rock sobrevivia em coma já no início dos anos 90. Fumou um último trago com o Guns e sucumbiu junto com a morte de Kurt Cobain. Ou deu lá seu último suspiro com Amy.

E a morte de figuras icônicas já influenciou notoriamente a queda de outros gêneros musicais menos sortidos de ídolos e referências, como Frank Sinatra no jazz.

Mas, claro, não seria o fim do Nirvana que sacramentaria um comportamento cultural. Sim, porque o rock, desde sempre foi muito mais do que música. Unido ao jornalismo contracultural ou publicações como a Rolling Stone, moldou gerações e influenciou o desenrolar da história.

Muitas pedras precisaram rolar para enterrar o poder e a história construídos ao longo de décadas de suor, guitarras, sexo e drogas.

NOVAS TECNOLOGIAS

As novas tecnologias diluíram a possibilidade de ascensão do rock. Adolescentes da Geração Y ouvem música pelo celular no ônibus, no intervalo da aula. Música baixada de graça. O consumo de música, em geral, é massificado e homogêneo, solúvel.

Ninguém junta mesada para comprar discos, CDs; produtos físicos. Ninguém valoriza ou cultua informações do catálogo, das composições, da produção dos álbuns. Ninguém coleciona mais nada.

Ou seja: a idolatria se perdeu. E com ela, os grandes astros, os ícones, a rebeldia, os hits. O rap sugou a rebeldia do rock adolescente de outrora. Ultrapassou fronteiras da periferia e tem sido a voz da transgressão juvenil.

O PAPA E O ROCK SÃO POPS

Sem sustentação de “público fiel”, de fãs, de espaço nas rádios, o rock tem se valido de nichos independentes, para nichos de público.

Nas paradas ou mesmo no streaming é tarefa árdua encontrar bandas ou artistas do rock legítimo. No Brasil, então, dominam os MCs da ostentação ou os sertanejos sem chapéu; é uma “sofrência” só.

E não vale procurar pelo rótulo de classificação. Vale escutar e definir se é rock ou não. Muitos estão camuflados em arranjos do pop mais puro e moderno, com baterias eletrônicas e outros recursos, digamos, sem parentesco próximo com o rock.

De tanta escassez, músicas de carinhas como Bruno Mars e Di Ferrero têm sido taxadas de rock. Um dos novos hits brazucas, a canção Pesadão, tem a MC Iza e o rótulo de rock, talvez pela parceria com Falcão, ex-integrante d’O Rappa.

Mesmo o Pop, primo-irmão caçula do gênero, tem sido atropelado por outras “etnias” musicais. E quando se busca o rock raiz se busca a nostalgia. E lá estão no topo bandas icônicas dos últimos tempos da indústria fonográfica, como Red Hot Chili Peppers e Oasis.

FINALMENTE, O ROCK MORREU?

Opinei mais acima do último suspiro pela Amy antes da guitarra parar de bombear o sangue do rock. Mas os deuses nunca morrem. Talvez vagueiem por aí como zumbis em busca de súditos. A chama nunca apaga. Está aí. Está em cada adolescente rebelde. Em cada vontade de transgredir.

E isso não é velho nem é novo. É nato! Portanto, o rock não precisa ser o antes. Precisa apenas ser verdadeiro; precisa ser. Não precisa, necessariamente, ser raivoso, mas transmitir alguma rebeldia, alguma autoridade própria, independente. Alex Turner ou o The National estão aí como bons representantes de um rock soturno, lento e de bom gosto. Mas guitarras preponderantes ajudam.

Geração Beyoncé. Geração Anitta. E agora Pablo Vittar. Nada contra, mas sinto falta do som que ouvia onde quer que tivesse. Se ligasse o rádio, na parada de ônibus, na TV, das discussões com os amigos. Sinto falta das lojas de discos repletas de ídolos do rock. Do Rock in Rio com rock e contestação. Das bancas de revistas com posters e revistas com o tema.

Sinto falta. E talvez isso se chame saudade. E saudade talvez se sinta do que está distante. E o que está distante, quem sabe, um dia volte.

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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