Meu encontro com a simplicidade de Dominguinhos

Dominguinhos fez show no Rio Grande do Norte em 2010. Talvez tenha sido o último. Foi uma bonita apresentação no tradicional Forró da Lua, espaço abrigado no complexo do Museu do Vaqueiro, que inclui ainda a pousada Coice da Burra.

Eu era um jovem repórter do caderno de Cultura do jornal Diário de Natal quando fui convidado pela assessoria de imprensa do Museu do Vaqueiro para cobrir esse show de Dominguinhos. Eu, o também jornalista Jackson Damasceno e Dominguinhos ficamos hospedados na mesma pousada Coice da Burra.

O compositor, instrumentista, já vencedor de um Grammy Latino em 2002, concorrente ao prêmio em 2007 e que venceria novamente em 2012, autor de 45 discos, chegou pela manhã após longa viagem de carro, já que temia viagens de avião. Contava quase 70 anos naquele ano de 2010.

A InterTV, ali de passagem, logo se posicionou para entrevista, uma longa entrevista para o quadro da então apresentadora Margot Ferreira. Esperei. Esperei um bocado. Dominguinhos parecia desconhecer o tempo, a pressa. Na verdade parecia renegar qualquer advérbio de tempo.

Viagem longa, idade avançada e entrevista demorada. Ao fim do papo com a InterTV me senti inibido em tomar mais o tempo do cara. Aliás, abusar de sua paciência sem fim, de sua simplicidade. Ele parecia realmente cansado, debilitado. Nem eu e talvez nenhum jornalista do país desconfiava que ele já lutava contra o câncer de pulmão que o mataria três anos depois. Merecia o descanso para o showzaço de logo mais à noite.

Me apresentei rapidamente. Mal pronunciei meu nome, me identifiquei como repórter do jornal e já lancei a primeira das três ou quatro perguntas. Dominguinhos respondia tudo com uma paz rara de espírito. Demoraria mais uma hora se fosse preciso.

Quando terminou ainda brinquei. Sabendo do medo dele de avião, perguntei se voltaria dali com o amigo sanfoneiro Waldonys – notório piloto de avião cangueiro. Por duas vezes fui cobrir uma queda de um monomotor no interior do Estado, e chegando lá, adivinha quem era? Dominguinhos respondeu: “Hooome, deuzulivre”, e riu, já entrando ao quarto.

Surpresa minha foi na manhã seguinte. Quando cheguei para tomar café, Dominguinhos vinha saindo. Baixei a cabeça e continuei. Não queria perturbar o artista ou parecer inoportuno. E ouvi logo em seguida: “Bom dia, Sérgio!”. Deu dois tapinhas nas minhas costas e desejou bom café. Eu nem lembrava de ter dito meu nome a ele.

Esse foi o Dominguinhos que conheci.


Dominguinhos nasceu em 12 de fevereiro de 1941, em Garanhuns, agreste pernambucano. No próximo 23 de julho completará 5 anos de sua morte, em 2013. Ele já lutava contra um câncer de pulmão por seis anos.

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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