academia norte-riograndense de letras

Algumas considerações a respeito da Academia de Letras

Há muito tempo, num artigo de jornal, reportando-me à academia de letras – e não, especificamente, à ANRL – afirmava eu, de modo enfático: “A Academia é o panteão dos vivos”. Ironizava, com a irreverência própria dos jovens o que então me parecia ser academia.

No mencionado artigo eu citava o escritor e acadêmico R. Magalhães Júnior, que, numa entrevista deu este conselho aos jovens: “Atacar a Academia, já que a juventude deve ser rebelde contra o medalhão e a glorificação fácil”. Mas, concluindo, disse o mestre: “Depois de gritar bastante, entra para a Academia e tenta melhorá-la.”

Meu conceito de academia, hoje, é outro, inteiramente diverso daquele da minha mocidade. Eu mudei. Mudou a Academia. Não mais a vejo como um misto de Olimpo e Feira de Vaidades. Considero-a, tão-somente, na sua condição de alta agremiação literária, capaz de dinamizar a vida cultural, sob o signo da renovação, todavia sem perder de vista as melhores tradições.

Aceitar somente os canônicos

É ponto pacifico que a Academia deve acolher em seu quadro de sócios efetivos, somente, escritores canônicos.

Que se deve entender por “escritores canônicos”? Numa definição simplista, canônicos são aqueles autores consagrados que entraram para a História da literatura. Exemplos a nível nacional: Machado de Assis, Castro Alves, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade…

O termo cânone difundiu-se bastante depois que o famoso crítico literário Harold Bloom utilizou-o num dos seus livros mais conhecidos, “O Cânone Ocidental”, em que estuda 26 escritores fundamentais para a nossa cultura.

Sendo extremamente seletivas, pelo menos em tese, as academias de letras – cada uma composta por reduzido número de sócios (no máximo 40) – não poderiam deixar de atrair a cobiça de literatos principiantes e até mesmo de subliteratos, altamente vaidosos, que se julgam merecedores do título de acadêmico, (E, não raro, o conseguem, valendo-se quase sempre de suas relações de amizade).

Até mesmo na Academia Brasileira de Letras encontram-se tais penetras, o que, aliás, pode-se constatar desde a fundação da entidade em 1896. Com efeito, já entre os acadêmicos fundadores constam os nomes de ilustres desconhecidos: Urbano Duarte, Pereira da Silva, Garcia Redondo e o Barão de Loreto. Escritores de segunda classe, eles não deixaram rastros na Literatura Brasileira, apenas satisfizeram seus anseios de glória, “imortais” enquanto viveram.

Ataulfo de Paiva, o típico sociável

Figura típica dessa qualidade de gente foi Ataulfo de Paiva (1867-1955). Sociável, maneiroso, mantinha largo círculo de amizades, especialmente entre figurões do Rio de Janeiro, então capital federal.

Ataulfo de Paiva tinha veleidades literárias, mas nunca conseguiu produzir algo significativo no campo das letras. Bacharel em Direito, realizou-se profissionalmente. Mas, não satisfeito, aspirou à imortalidade acadêmica, e tanto fez, no afã de alcançá-la, que foi eleito para uma das cadeiras do Petit Trianon.

Sobre a sua obra, a Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (2001) registra apenas dois discursos na ABL: “Elogio de Artur Orlando” e “Discurso de Recepção a D. Aquino Correia”. José Lins do Rego, que o sucedeu, na referida cadeira, ao invés de fazer-lhe o elogio de praxe, desancou-o.

Ataulfo de Paiva era um sujeito de sorte. Conseguiu galgar todos os postos que ambicionava, e ainda deixou o seu nome para uma artéria de Ipanema, no Rio, a qual, com o correr do tempo, tornou-se uma das mais movimentadas daquele bairro.
Mas, voltemos às academias.

Abertura além das letras

Em seu livro “Academia Brasileira de Letras – Histórias e Revelações”, (2003), Daniel Piza, após citar Machado de Assis e dizer da sua importância, refere-se a outro dos fundadores da entidade – Joaquim Nabuco – considerando-o não menos influente que o “Bruxo de Cosme Velho”. E acrescenta:

“…foi o maior defensor da ideia de que a Academia, tal qual na França, não se limitasse a escritores e abrisse vagas para homens públicos, como o Barão do Rio Branco (embora, no caso, ele fosse um prosador de talento), mesmo quando não tivessem obra literária digna do nome…”

A presença de “expoentes”, segundo Joaquim Nabuco, serviria para dar relevo público à ABL. “Nós precisamos de um certo número de grandes seigneurs de todos os partidos”, escreveu a Machado de Assis, em 6/12/1901. “Não devem ser muitos, mas alguns devemos ter mesmo porque isso populariza as letras.”

Explica-se a posição de Nabuco. Ele próprio, que era um grande escritor, era também um “expoente”: diplomata (foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na Inglaterra), deputado geral, célebre pela sua participação na Campanha Abolicionista.

A ABL, seguindo-lhe o entendimento, tem acolhido, “ad immortalitatem”, vez ou outra, elementos alheios ao mundo literário, como, por exemplo, Santos Dumont, Osvaldo Cruz e Ivo Pitanguy. Nessa onda pegaram carona, em ocasiões diversas, alguns políticos – Getúlio Vargas, Dantas Barreto, Marco Maciel, etc. –, que pouco ou nada escreveram a não ser discursos.

E la nave va…

NOSSA ACADEMIA

No dia 14 de novembro de 1936, um grupo de intelectuais, tendo à frente Luís da Câmara Cascudo, fundou a Academia Norte-rio-grandense de Letras, instituição voltada para “a cultura da língua, da literatura, ciências e artes”.

Seu primeiro presidente foi o poeta Henrique Castriciano, um dos nossos mais ilustres homens de letras, e, que, instado pelos seus pares, aceitou o encargo. A secretaria geral ficou com Cascudo; as 1ª e 2ª Secretarias, respectivamente, com Edgar Barbosa e Adherbal França, e a tesouraria com Clementino Câmara.

Sobre as providências iniciais com vistas à fundação da entidade, há depoimento do próprio Adhebal, nestes termos: “A Academia nasceu das reuniões em casa do Dr. Câmara Cascudo (…) Ele é para nós o que foi Conrart para o imortais da França (…) A Presidência ficou com Henrique Castriciano, que é, assim, o nosso Machado de Assis”.

Compunha-se a Academia inicialmente, de 25 sócios, mas por força de reforma estatutária, de 1948, esse número aumentou para 30, e mais tarde, em 1957, para 40. Formou-se desta maneira o quadro definitivo, nos moldes da Academia Francesa.

Cada uma das cadeiras tem o seu patrono, escolhido pelo respectivo fundador. Da leva inicial sobressaem-se escritores e poetas, como Ferreira ltajubá, Auta de Souza e Segundo Wanderley; juristas como Amaro Cavalcanti e Luiz Gonzaga de Brito Guerra; polígrafos do porte de Luiz Carlos Wanderley, Nísla Floresta e Luís Fernandes.

Na segunda leva de patronos vieram, entre outros, Manoel Dantas, Aurélio Pinheiro e Armando Seabra. Por último surgiram vultos da estatura de Jorge Fernandes e Afonso Bezerra.

Lamentavelmente ficaram fora Tobias Monteiro, Polycarpo Feitosa, Rodolfo Garcia, entre outros escritores. Também foram escolhidos, como patronos, nomes não propriamente de escritores, mas de eminentes potiguares, com lugar garantido na História da Inteligência, por exemplo: Padre Miguelinho, Almino Afonso, Padre João Maria e Augusto Severo.

A Academia funcionou, inicialmente, no Instituto de Música, depois no Instituto Histórico e Geográfico até transferir-se para o atual endereço à Rua Mipibu, 443. A construção da sede própria resultou de uma longa e obstinada luta do presidente Manoel Rodrigues de Melo em busca de colaboradores junto aos órgãos públicos e à iniciativa privada. No terreno doado pelo Governo do Estado começaram os trabalhos em 1958, concluindo-se doze anos depois. Mas, a inauguração da sede, devidamente mobiliada, ocorreu a 23 de janeiro de 1976.

Duas árvores monumentais embelezam o jardim, tornando-o extremamente acolhedor: um pau-brasil, talvez o maior de Natal – plantado pelo então presidente Onofre Lopes – e um jambeiro (Deus os conserve a salvo do machado arboricida).

A Academia conta com uma biblioteca e uma revista que vem circulando a partir de 1951, lançados desde então 60 números.

Da programação cultural constam palestras, mesas-redondas, sessões de saudade e “A Academia nas Escolas”. Anualmente, são concedidas honrarias a norte-rio-grandenses com destaque em vários segmentos da sociedade – Palmas Acadêmicas “Câmara Cascudo”, Mérito Acadêmico “Agnelo Alves” e troféu “Mecenas Potiguar”. Por último, instituiu-se, em parceria com o Grupo Vila, um prêmio literário, cujo regimento está sendo elaborado.

Vários melhoramentos têm sido feitos pela atual administração, à frente o poeta e escritor Diógenes da Cunha Lima.

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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