movimento modernista

Do movimento modernista e um decálogo obrigatório para escritores

Gustavo Barroso

O movimento modernista, em sua primeira fase, iconoclasta por excelência, no afã de derrubar dos pedestais os medalhões, expoentes da tradição literária, cometeu excessos ainda hoje não reparados. Escritores de inegáveis méritos, apesar de epígonos, como Coelho Neto, Afrânio Peixoto, etc., caíram no ostracismo sob o tacão modernista.

Só agora, depois de quase um século, alguns deles estão sendo pouco a pouco reabilitados. Por exemplo, Gustavo Barroso, de quem acabo de ler o livro “Heróis e Bandidos”, estudo do cangaço pré-Lampião. Dividido em duas partes, na primeira procura explicitar as causas do fenômeno, na segunda enfoca a trajetória de cangaceiros famosos, destacando dois, verdadeiras legendas: Jesuino Brilhante e Antônio Silvino.

Até um leigo, um simples curioso da sociologia do banditismo rural, como eu, percebe que essa obra, do ponto de vista cientifico, acha-se ultrapassada sob muitos aspectos. Para embasá-la, o autor valeu-se de teorias tidas e havidas, hoje em dia, como obsoletas. Resta-lhe valor literário, embora na contramão do Modernismo.

Referindo-os ao fuzilamento de cangaceiros e jagunços, prática comum na sua época, Gustavo Barroso afirma:

“Embora sejam execuções contra as leis que nos regem e contra as leis da humanidade na frase piegas dos homens sem inclinações práticas e que se deixam levar mais pelos dogmas das filosofias do que pelos ensinamentos verdadeiros dos acontecimentos, não trepidamos em afirmar que são atos necessários e justos, únicos aplicáveis contra o bandoleiro aprisionado que o meio e suas próprias taras não permitem regenerar nem manter fora do convívio social”

É de pasmar que um intelectual, com presumível formação humanística, defenda tais barbaridades. Gustavo Barroso participou, ativamente, do movimento integralista; ao que tudo indica era um simpatizante do facismo. Suas palavras acima transcritas poderiam ser definidas com uma locução latina, muito do agrado do meu avõ João Vicente: Horribile dictu!

Humberto de Campos

As novas gerações desconhecem Humberto de Campos; no entanto, ele era considerado, em meados do século passado, um dos maiores escritores brasileiros. Seus livros estavam sempre nas listas dos mais vendidos, embora não fossem, propriamente, best sellers.

Escritor múltiplo – contista, cronista, ensaísta, poeta, memorialista – o seu legado literário não resistiu ao desgaste do tempo, mas, alguns dos seus livros – as “Memórias”, por exemplo, – ainda despertam interesse.

Autodidata, de origem humilde, era uma figura fora de série.

Josué Montello, seu confrade na Academia Brasileira de Letras, conta várias histórias a seu respeito, no livro “Na Casa dos Quarenta”, espécie de anedotário em que revela muito do lado humano de alguns imortais. Montello não se limita a narrar causos engraçados; também transcreve documentos de valor para a biografia e a micro História, dentre estes, o decálogo que Humberto de Campos escreveu e publicou, depois de malograda experiência na política, já no final da vida. Documento, na verdade muitíssimo interessante. Vale a pena transcrevê-lo, pelas sábias lições que encerra. Aí vai:

“I- Não voltarás à politica militante nem amarrado pelo pé. No caso de violência entrega o pé, mas conserva em liberdade a tua mão, que é o intérprete do teu pensamento.

II- Não receberás mais para ler qualquer obra manuscrita ou datilografada, sobre a qual peçam a tua opinião. É desumanidade exigir de um homem quase sem vista como tu o sacrifício dos seus olhos em beneficio de terceiros. Farás desaparecer da tua mesa todos os originais que te forem levados para esse fim.

III- Não escreverás sobre o livro cujo autor te peça que o faças. O juiz do teu gosto e da tua conduta como crítico, és tu.

IV- Votarás na Academia contra todo o candidato que exija a manifestação antecipada do teu voto. Farás o mesmo com o candidato que vá à tua casa mais de duas vezes nos quatro meses que precederem a eleição.

V- Não aceitarás mais livro para escrever prefácio. Autor que pede prefácio aos outros não tem confiança na própria obra. Obra em que o autor não confia não deve ser publicada.

VI- Não aceitarás banquete, nem irás a banquete alheio. Quem tem fome come em casa.

VII- Não te interessarás, por meio de carta, ou pessoalmente, perante ministros, interventores, magistrados ou amigos influentes no governo, no comércio ou na imprensa, para que alguém obtenha deles favor ou emprego. Lembra-te que nenhum daqueles a quem serviste voltou à tua casa. Quando deres, em circunstâncias especiais, carta pedindo alguma coisa para alguém, manda outra, expressa, ao destinatário, desfazendo o pedido,

VIII- Não farás contrato de edição de teus livros sem que os exemplares sejam enumerados. Todos os editores são honradíssimos. Mas eles estão ricos e os escritores pobres.

IX- Não emprestarás livros das tuas estantes. Livro emprestado é como corvo que Noé soltou na Arca. Vai e não volta mais.

X- Sorrirás diante de todas as coisas graves da vida. O sorriso transforma a ignorância em sabedoria.”

Esse decálogo deveria ser leitura obrigatória para todo escritor. Alguns dos seus “mandamentos” podem até parecer antipáticos, mas, no fundo, revelam alto senso moral e ético, além de uma boa dose de crítica social.

Monteiro Lobato

Tal como Humberto de Campos, outro grande escritor, Monteiro Lobato, está injustamente esquecido. Quando se fala no nome dele, louva-se o extraordinário cultor da literatura infanto-juvenil e o homem de ação, empreendedor – fazendeiro, editor, pioneiro da luta pela nacionalização do petróleo, no Brasil – , mas subestima-se o contista, autor de obras admiráveis, como “Urupês”, “Negrinha” e “Cidades Mortas”.

Embora inovador pelo seu estilo e pela temática abordada em seus contos, Lobato preferiu manter-se fiel aos dogmas do Realismo, já ultrapassado, em seu tempo; não aderiu ao Modernismo, movimento que ele, por vezes, chegou a hostilizar. Daí a razão do menosprezo que a sua obra de ficção para adultos sofreu durante longos anos. Felizmente, ressurge.

Com grande capacidade de fabulação, muito senso de humor e buscando sempre, em tudo, o sentido mais humano, ele soube, como poucos, criar histórias à maneira tradicional, com começo, meio e fim, que nos encantam. É o Maupassant brasileiro.

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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