A pátria de François Silvestre devia ser a de todos nós

Uma nuvem cinzenta ainda encobre os quase 25 anos do regime ditatorial brasileiro. Corrupção nos quartéis. Corpos desaparecidos. Wladimir Herzog… O livro A Pátria Não é Ninguém, do escritor François Silvestre joga luzes nos escuros bastidores desses tempos nefastos a partir de uma visão apartidária, anarquista e deliciosamente real. Um livro para os dias de hoje.

A obra teve a segunda edição lançada pela editora mossoroense Sarau das Letras. São 358 páginas conduzidas pelo narrador personagem Paulo Inácio.

Paulo é um interiorano que, já na capital Recife para cursar o científico, se envolve no movimento estudantil de resistência à ditadura. Daí para um assalto a banco em São Paulo e um mergulho na clandestinidade e em toda a atmosfera cultural e ditatorial que cercou os anos 60 e 70 no Brasil.

Quem conhece a história e, principalmente, o pensamento e a intelectualidade de François Silvestre enxerga em Paulo Inácio uma espécie de alter ego do autor.

François vivenciou muitos dos lugares e situações tratadas no livro, considerado por críticos um dos melhores romances já publicados no Rio Grande do Norte.

A Pátria Não é Ninguém é romance?

Bom, não serei eu a contradizer o próprio autor. Em diversas passagens do livro, François questiona essa categorização. Na página 126, por exemplo, ele (Paulo Inácio), diz: “Nem que eu quisesse, os críticos iriam permitir que esse relato fosse chamado de romance”.

E, claro, também está longe de uma autobiografia. (spoiler a seguir) O autor, por exemplo, nunca foi torturado, por mais minuciosamente descrita a tortura no livro.

françois silvestreTambém fica evidente que Paulo Inácio funciona mais como um Forrest Gump dos quadrantes da ditadura e também do pensamento anárquico-ideológico de François.

O título da obra escancara isso. François nega a pátria ao movimento estudantil, à clandestinidade, à esquerda trotskista, marxista, stalinista… E muito menos à polícia política.

A Pátria de todos

A Pátria, não sendo ninguém, é de todos. É anárquica. Do homem sem partido. Da mulher trabalhadora. Do brasileiro que um dia Cascudo disse ser a melhor coisa deste país corrupto (o “país corrupto” ponha na minha conta).

E François impõe uma narrativa anarquista em toda a trama. Seja estereotipando a esquerda. Seja condenando a direita. Ou tirando um sarro elegante a todo tipo de organização, seja partidária, militar ou religiosa.

Para traçar todo o panorama da época e das ideias do autor, o forrest Paulo Inácio assalta o Banco Nacional, conversa com Jango, assiste o nascer das igrejas evangélicas e do Comando Vermelho, é torturado, se encontra com Lamarca…

Todos os personagens reais cabíveis em um livro ambientado nos anos de chumbo estão lá: Dom Helder Câmara, Geraldo Vandré, os presidentes da época, Marighella…

Tudo com mesclas de história, tensão e até humor, com ótimas tiradas do personagem Valdomiro, um funcionário aposentado, religioso, meio conservadorzão. Os papos no Bar do Ramón, um boteco que reunia jornalistas, artistas… as madrugadas no Redondo…

E também muita teoria filosófica típica de François. E aí vem uma das duas únicas críticas que faço ao livro. E são críticas que não diminuem um centavo do valor da obra.

Pensem comigo: Paulo Inácio é um interiorano que vai estudar o científico no Recife e logo cai no movimento estudantil e na clandestinidade. Em São Paulo, trabalha em subempregos.

No entanto ele possui um conhecimento histórico e filosófico muito acima da média para um personagem com essa trajetória, esse currículo. Nada impossível, também. O próprio François é natural de Martins, interior potiguar. Salvo engano estudou em Recife, também participou do movimento estudantil…

Mas é formado em Direito e Jornalismo. É um leitor voraz de filósofos, como Ortega Y Gasset, para citar um. Tem um conhecimento que a própria idade lapidou e um jovem como Paulo Inácio dificilmente o teria. Será que o próprio Fraçois, na idade de Paulo Inácio, seria capaz de escrever um livro como esse?

Minha segunda observação são algumas passagens que nada contribuem para o caminhar da trama. Por outro lado, são histórias tão deliciosas, que em vez de crítica são bônus ao livro.

As páginas que trazem Nhô Quinquin, um exímio contador de estórias de trancoso, como se diz no interior, são deleites. E tudo bem, esses quase contos à parte, são inseridos em capítulos intitulados “interseções”, como se estivessem mesmo fora do contexto, mas há interseções inseridas na trama e outras, maravilhosamente fora.

O anarquismo necessário

A Pátria Não é Ninguém é François Silvestre, o jornalista, o boêmio, o pensador, o anarquista. É também um livro obrigatório aos tempos de hoje, de um Brasil bestamente antagônico, maniqueísta. A Pátria não é Ninguém é um livro direcionado ao povo. Aliás, povo? Bom, termino com um trecho do livro, que resume a filosofia da obra, de sua necessidade e de sua ideologia:

“Diferentemente de povo, multidão existe. Povo, não. Povo não existe, é uma abstração. Povo não é formado por pessoas, mas pelo discurso e retórica do poder. Povo é uma artimanha da demagogia. Até nos textos filosóficos a palavra povo agasalha-se em manta esfarrapada, lençol roto.

O mesmo não acontece com a multidão. Ela empolga quem a mobiliza e assusta a quem se opõe. A multidão é real, mas não é abstração. E também é diferente de massa. A massa se junta pela curiosidade, é passiva. A multidão se forma pela opinião, é opinativa. Mas é, por isso mesmo, soma de deficiências. Por ser real, sensível e humana, a multidão oscila entre a beleza e a fragilidade. Ela tem o caráter dos seus componentes, numa mistura heterogênea e desmontável. Mas é real e assusta. Mas é bela e empolga. Mas é viva e morre.”

(Paulo Inácio, alter ego de François Silvestre)

Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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