O voto e o gol

Escrevi este texto em 2006 e, de alguma forma, achei propício reproduzi-lo com alguns ajustes, considerando o momento atual.

A afirmação de que votar significa abrir mão do próprio poder e que é idiotice, apregoada numa campanha de voto nuto que assola o país, implica dizer que não votar também não vai muito além de um ato idiota. Convém observar o que é que se entende por voto e por idiota. Obviamente, não pretendo explorar esse conceito aplicado por Fiodor Mikhaïlovitch Dostoïevski em seu riquíssimo romance “O Idiota”, cujo personagem principal, o Príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin (ou apenas Príncipe Míchkin), utiliza esse tipo fazendo uma ilustração moderna do ideal ético cristão.

Essa campanha em defesa do voto nulo soa como debilidade mental, face a superficialidade dos argumentos alegados pelos seus defensores, em sua maioria, acreditando no voto como cheque em branco assinado para governantes. Parece absurdo que alguém se julgue tão superior ao ponto de acreditar que não tem nada a ver com um processo histórico que necessita de participação e elaboração de modelos e projetos para a sobrevivência da humanidade. O voto não é um fim em si mesmo.

Na época que escrevi o texto, em 2006, tomei emprestado o clima de Copa do Mundo, ousando comparar o voto com o gol. Muitos dos narradores de futebol, tanto na televisão quanto no rádio, costumam comemorar o gol afirmando o mesmo como o ato mais importante ou a essência do futebol. Na verdade, o gol é a morte do futebol, considerando que depois dele tudo começa outra vez. Aliás, podemos pensar o gol como uma espécie de orgasmo (La petite mort, em francês), também conhecida como “A pequena morte”, referindo-se ao período refratário que ocorre depois do orgasmo. Para chutar a bola ao gol faz-se necessário uma série de movimentos que o antecedem. Desde o momento em que a bola é colocada em jogo, até a oportunidade mesmo de se chutar para o gol, com a compreensão das posições dos companheiros de equipe, as do time adversário, passando pelos dribles, manuseio e domínio da bola. Antes, ainda existe algo primordial até mesmo para garantir lugar numa partida ou campeonato: treinos, decisão sobre jogadores que serão escalados, organização administrativa da agremiação, relação dos dirigentes para com os jogadores e destes com os torcedores, dos filiados aos não filiados.

No caso do voto, há muitas coisas em comum. Votar, assim como fazer um gol, não se trata de um ato isolado sem uma série de ações que o antecedem e muitas outras que se darão como consequência desse exercício. Votar também não pode ser considerado como a essência da política. Assim como no futebol, conforme já esboçado, inúmeros outros gestos deverão ser executados antes desse ato. Antes do pleito, do gol na urna, quais foram as ações desse sujeito? Onde esteve organizado? De que movimento participou elaborando propostas em prol de sua existência que se dá na coletividade? Movimento estudantil? Morador no sentido da urbanidade ou mera endogenia do condomínio pequeno-burguês do burguês pequeno?

Por outro, parece bastante prepotente a postura desse ausente dos processos de tentativa de pensar e elaborar projetos para a construção da sociedade que necessitamos e queremos ou a reconstrução daquela que supomos ter se extraviado de seu rumo. Não passa de exacerbado egocentrismo de determinado cidadão alienado e omisso se colocar como modelo do mundo e abrir mão de sua capacidade e liberdade de decidir. Aqui, o voto nulo e o cidadão nulo se confundem.

O pior mesmo é ouvir a defesa do voto nulo como liberdade. Ser livre é não ter compromisso com a vida, a não ser a própria? Se é que se pode considerar uma vida própria do humano, considerando que esse se humaniza na relação com a coletividade. Essa idéia de liberdade da indiferença é a do escravo que não tem consciência de classe, aquele que necessita que o obriguem a exercer seus direitos e deveres, como se não ocupasse um espaço no mundo, como se não tivesse pertencimento. A liberdade pode ser compreendida como a capacidade de decidir sem ser obrigado a tal. Mas estamos sempre decidindo. E quando acreditamos que não estamos decidindo já decidimos que alguém o faça por nós. E isso é uma decisão, uma opção, mesmo que, conforme Sartre, seja uma atitude de má fé.

Uma horda de sociólogos, historiadores e outros combustíveis da estatística, justificam a apatia dos eleitores resultado da decepção com os políticos, mas cada político eleito é representante legítimo da parcela que o elegeu. Por isso, os políticos corruptos, omissos, etc. É dizer que votar nulo é estar mais dentro do que se imagina, com a diferença: fazer de conta que não se tem nada a ver com isso.

A sociedade já esgotou o atual modelo de representação? Podemos até concordar com isso, mas para superá-lo, faz-se necessário um movimento que apresente propostas em prol de uma representatividade participativa. Votar nulo sem colocar nenhuma possibilidade parece a estratégia do cachorro que late alto para esconder que tem medo e não sabe morder.

E olha que não entendo nada de futebol!

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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