Houve um tempo – faz tempo! – que “evangélico” significava “que traz a boa nova”. O tempo passou, surgiu uma tal “teologia da prosperidade”, e a “boa nova” rendeu-se (ou vendeu-se) ao “Mercado”, o grande deus que contraria o mandamento “Não terás [outro] deus diante de mim” (Êxodo 20:3). Recorde-se que a única ocasião bíblica na qual Jesus perdeu a paciência foi quando confrontou em Jerusalém os mercadores no Templo [Mateus 21:12-17, Marcos 11:15-19 e Lucas 19:45-48 situam esse evento na semana que antecede a crucificação; em João 2:13-17, a expulsão dos mercadores ocorre no início do ministério de Jesus, logo após o milagre no casório em Caná]. João descreve Jesus fazendo um chicote de cordas, expulsando os mercadores e seus animais, virando as mesas dos cambistas e derramando o dinheiro. Nos Evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos, Lucas), Marcos e Lucas, para indicar uma ação reiterada ou vigorosa, empregam o tempo verbal imperfeito contínuo – Jesus entra em Jerusalém, vai ao Templo e “começa a expulsar” dali aqueles que ali negociavam; ele derruba as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas sacrificiais. Nos Sinópticos, Jesus evoca os profetas Isaías (56:7, “Minha casa será chamada casa de oração para todas as nações”) e Jeremias (7:11, “Mas vocês a transformaram num ‘covil de ladrões’”), enfatizando seu ataque à corrupção e à deturpação do propósito do Templo (Jeremias 7:11 diz: “É pois esta casa, que se chama pelo meu nome, um covil de ladrões aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isto, diz o Senhor”).
Séculos se passaram. Ensinamentos de Jesus foram (e seguem sendo) deturpados e mercantilizados, e em Belo Horizonte (o nome parece bíblico), em 2004, Henrique Vorcaro, filho-herdeiro do pastor Serafim Vorcaro, acolhe o filho-herdeiro Daniel Vorcaro na incorporadora Mercatto (em italiano, “Mercado”) e noutros negócios da família. Jesus serenou procelas e andou sobre as águas no Mar da Galiléia; os Vorcaro criaram um maremoto a partir da congregação batista Lagoinha (“megaigreja evangélica neocarismática”, conforme a Wikipedia), para a qual Daniel Vorcaro já chegou a apresentar um programa na Rede Super (canal de TV ligado à igreja). O pastor-empresário Fabiano Zettel, casado com Natália Vorcaro, irmã do mafioso ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e líder religioso da Igreja Batista da Lagoinha no bairro Belvedere, BH, entregou-se às autoridades policiais em São Paulo em 04/03/26, após ter a prisão preventiva decretada pelo Supremo Tribunal Federal.
Tudo isso me faz lembrar de alguém “terrivelmente [no mau sentido] evangélico”, Eduardo Cunha, ex-deputado federal corrupto e atual candidato a deputado federal por Minas Gerais, que possui uma rede de pelo menos 35 rádios evangélicas (conforme a Wikipedia, “Cunha é detentor de centenas de domínios de cunho religioso na internet, dos quais 154 com a palavra ‘Jesus'”) e que, expelido da política eleitoral, vêm se dedicando a uma atuação pública centrada em conteúdos religiosos e na comunicação evangélica. Essa lembrança leva a outra – recordo Anthony Garotinho, ex-governador corrupto do RJ, “evangélico” (assim como sua esposa Rosinha, ex-governadora corrupta) que tem trompeteado sua opção religiosa para atrair mais apoio entre os evangélicos. Conforme noticiado na web, Garotinho empreende campanha para montar 5 milhões (!) de comitês familiares evangélicos e distribuir folhetos e vídeos com pregações para aumentar sua visibilidade enquanto candidato à recondução ao “Palácio Guanabara” pelo partido “Republicanos”. A propósito, a palavra “república” vem do latim “res publica”, “coisa pública”, e na época do Império Romano “publicano” significava “cobrador de impostos”.
No Brasil, as igrejas e templos de qualquer culto possuem imunidade tributária garantida pelo artigo 150 da Constituição Federal. Isso significa que elas não pagam impostos sobre patrimônio, renda e serviços ligados às suas atividades essenciais. Em 28/05/26 a Câmara dos Deputados – que em muitos aspectos faz lembrar um covil de ladrões (vide https://polvolivros.com/livro/o-nobre-deputado-48ae51df ou https://www.academia.edu/316…/O_NOBRE_DEPUTADO_MARLON_REIS) – aprovou uma proposta de emenda à Constituição (PEC), de autoria do deputado sub-júdice Marcelo Crivella (Republicanos-RJ; ex-prefeito da cidade do RJ, condenado pela prática de abuso de poder político e econômico e conduta vedada nas eleições de 2020. Por ora inelegível até 2028), “bispo” da Igreja Universal, que amplia a imunidade tributária de igrejas e permite que elas paguem ainda menos impostos – a PEC inclui um dispositivo na Constituição para estabelecer que a imunidade tributária se estenda à aquisição de “itens de consumo necessários à implantação, manutenção e funcionamento dessas entidades” – inclusive carros, helicópteros…
Termino citando meu saudoso tio Millôr que, além da máxima “Proudhon dizia que toda propriedade é um roubo. A elite brasileira acha que todo roubo é sua propriedade”, produziu a seguinte pérola literária:
POEMINHA INZONEIRO [i.e., enganador; sonso]
Por brasileiro eu me viro
Tomando o algum da gentalha
E dos que não dão, eu tiro,
Pisando em quem me atrapalha.
Sabujo os que estão por cima
Exploro quem me acredita
Corrompo quem não me estima
E enrolo até jesuíta.
Tungando seja quem seja
Mas mais os que nada têm
Depois confesso na Igreja:
“Pô, sou um homem de bem!”
