No novo tempo, apesar dos perigos

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Minha mãe adorava Ivan Lins. Uma das coisas que mais nos unia era nosso gosto musical. Claro que cabia nela de herança uns 80% do mesmo amor que vovó cultivava por Roberto Carlos. E quem não amou o Roberto Carlos a partir dos anos 1960? Até ele descer ladeira abaixo na banguela, eu super entendo esse amor. Pois bem, lá pelos idos dos anos 1990, ela vibrou quando eu levei um CD de uma coletânea do Ivan Lins, que eu comprei nas Americanas (bem antes da febre de se comprar DVD de filmes), para ouvirmos no nosso primeiro toca-CD da vida. A primeira canção do álbum é aquela que foi massacradamente utilizada pela Rede Globo de Televisão, nas campanhas publicitárias de fim de ano: No novo tempo/ Apesar dos castigos/ Estamos crescidos/ Estamos atentos/ Estamos mais vivos/ Pra nos socorrer. Fato é que, apesar da Globo, essa música é muito massa e precisamos lembrar dela.

Dona Dulce também gostava de Cazuza, Cássia Eller e Chico Science (que ela confundia com o Supla). E, nessas últimas semanas que passamos — e acho que ninguém passou incólume, a não ser os adoradores do Trump —, lembrei muito dela e desses artistas, porque eles faziam a nossa liga musical. Lembrei com admiração de como ela não se incomodava com beijo entre homens. Envergonhava-se quando lembrava das falas racistas de nossos antepassados (jamais violaria a saudosa memória de minha avó, nomeando-a). Saltou-me à memória como ela gostava de ser gentil com todas as pessoas. Lembrei que minha geração foi politizada em parte pela música dos artistas que atravessaram os anos de chumbo. E que eu às vezes tentava explicar para ela algumas letras e tal. Lembrei do povo de novo na rua recentemente; das 100 mil pessoas nas principais avenidas do Alecrim no dia 10 de outubro. E, enfim, lembrei de como ela também fazia uns sucos de frutas misturadas, cujos sabores eu jamais consegui identificar

É bom salientar que eu estou escrevendo para a coluna antes do domingo, 25 de outubro. Portanto, escrevo antes de pisar no chão concreto desse “novo tempo” que se anuncia. Após as eleições mais desastrosas e corrompidas em termos de representação política no Legislativo que já vivemos neste país.

Desse novo e velho tempo que não dá a mínima para nossas rugas, nossas dores no joelho e inflamações no nervo ciático, para quem já passou das cinco décadas. Também não dá a mínima para quem não sabe o que é um CD, porque só conhece o finado MP3 ou, pior, só ouve música por streaming, no silêncio estrondoso do c*r*lh* do seu fone de ouvido.

Tempo que não dá a mínima para nossos medos, nossos sonhos, nossas conquistas e nossas lutas, porque, na real, não é o tempo que passa. Desde que o tempo é tempo aqui na Terra, ele continua o mesminho da silva. No espaço é outra história. Lá, o tempo é outra metafísica quântica transcendental, que nosso cerebrozinho de 1,4 quilogramas não consegue sequer sonhar em desvendar os véus. Mas, em se tratando dos “terranos”, como nos nomeou Bruno Latour, quem passa somos nós por ele. O tempo está intacto. Dito isso, vamos a mais um versinho do Ivan Lins, como quem toma um gole: No novo tempo/ Apesar dos perigos/ Da força mais bruta/ Da noite que assusta/ Estamos na luta/ Pra sobreviver.

E, nesse quesito, eu acho que o tempo tem uma inveja danada da gente, que sente atravessar-se nele pelos poros da carne, pela pele da alma; como se cada um de nós, enquanto temos tempo, passamos por uma ventania, por um redemoinho, uma brisa, uma revoada de pássaros, uma epifania, uma assombração, uma poesia, uma chuva de pétalas, enfim, por inúmeros inícios antes do fim. Individual e coletivo. Porque do jeito que a coisa anda, a humanidade vai acabar com o mundo.

Mas tem muita coisa bacana em meio à nossa travessia. Uma das coisas guardadas da minha mãe — que se foi há pouco mais de dez meses — era de ter muito bom gosto para música. Era ouvir um poema do Antônio Cícero e comentar: “porra”! E de ter sensibilidade para respeitar aquilo que ela não compreendia totalmente e que estava fora das crenças dela. E isso é algo que eu vou levar comigo. Porque a vida é o único caminho que temos a percorrer enquanto estivermos orbitando por aqui. Portanto, eu queria compartilhar com vocês a crença de que, apesar de tudo, estamos vivos! E vivendo, por nós, pelos que já se foram e por tudo que ainda virá.

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Sheyla de Azevedo

Jornalista, psicanalista e socióloga. Doutoranda no PPGCS-UFRN e pós-graduanda em Psicanálise: Teoria e Clínica (FAAP). É paraibana e vive em Natal desde o fim dos anos 1980. Atuou como repórter, cronista e editora em veículos como Diário de Natal, Tribuna do Norte e Novo Jornal, além de trabalhar em assessorias de comunicação nas áreas de Cultura e Política, inclusive no Senado Federal. Desde 2018, atende como psicanalista, orientada pelo Método Psicanalítico de Sigmund Freud. Como escritora, coordenou e editou diversos livros e publicou três obras: "Navarro, um anjo feito sereno" (Caravela Cultural e EDUFRN, 2013), "Religare - Os Caminhos da Fé" (Caravela Selo Cultural, 2022) e o ebook “A década que não acabou: retrato da cena audiovisual nos anos 1990 no RN” (Caravela Selo Cultural – Lei Paulo Gustavo, 2025). Com o cineasta Augusto Lula e o jornalista Alexis Peixoto, escreveu o roteiro do documentário "Augusto Severo - Céu da Imortalidade" (Lei Paulo Gustavo, 2025). Desde então, tem na escrita, seja como leitora ou escritora, um escafandro de sobrevivência e de respiro, nesse mundo cada vez mais barulhento.

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