A música nordestina é MPB

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Em 1972 eu apresentava o programa Nordeste, das Cinco a Melhor, na Rádio Nordeste de Natal. Um dia recebi a visita de João Costa Neto, do Trio Irakitan (de quem eu me tornaria amigo três anos depois), que na época era diretor Artístico da RCA Victor, da qual Luiz Gonzaga era contratado. Na ocasião entrevistei João, que estava visitando as principais emissoras do Nordeste, cumprindo pessoalmente uma missão que normalmente era executada pelos divulgadores. A RCA estava lançando um LP do Rei do Baião que, segundo Costa Neto, seria um diferencial na trajetória de Luiz Gonzaga; por isso, ele próprio estava visitando as emissoras sempre acompanhado de um divulgador.  Conversei com Joãozinho no ar por cerca de meia hora e toquei algumas faixas do LP. O disco, totalmente diferente de tudo o que Luiz Gonzaga havia gravado até então, não tinha o objetivo de promover a música nordestina: era uma forma de Gonzagão homenagear compositores que na época faziam sucesso na MPB.

Fragmentos de lembranças daquela tarde ficaram até hoje na minha memória e eu sempre tive vontade de contar essa história; entretanto, depois de tantos anos eu tinha receio de contá-la incorretamente. Este ano, aproveitando o período junino, decidi pedir ajuda a alguém que pudesse me dar informações mais detalhadas sobre o conteúdo daquele disco; tudo o que eu conseguia me lembrar é que aquele era um disco dirigido à juventude.  Foi aí que me lembrei de Marcus Lucenna.

Foto rara do LP “O Canto Jovem de Luiz Gonzaga”

Lucenna é poeta, cantador, compositor e forrozeiro. Nasceu em Mossoró, mas mora há mais de quarenta anos no Rio de Janeiro. É defensor intransigente da cultura popular do Nordeste e além de ser profundo conhecedor da obra e da história de Luiz Gonzaga foi seu amigo e conhecia seus familiares. Escreveu um livro e um cordel sobre “seu Lua” e o homenageou através de algumas canções de sua autoria. Conheci Marcus Lucenna no Rio de Janeiro em meados dos anos oitenta e me tornei seu amigo. Decidi então entrar em contato com ele e lhe disse que estava à cata de alguém que pudesse me dar alguma informação sobre aquele disco raro. Ele me passou o contato de Wilson Seraine, que apresenta o programa A Hora do Rei do Baião na FM Cultura de Teresina e – Marcus me falou – tem tudo sobre o Rei do Baião. Liguei para Wilson e ele me enviou pelo Whats App a capa do LP onde Luiz Gonzaga aparece em frente a um prédio da Avenida Paulista, sorridente, sem o gibão e sem o chapéu de couro, vestindo uma calça marrom e uma camisa preta com uma espécie de manta vermelha sobre o ombro, rindo descontraído como um jovem adolescente. Título do LP: O Canto Jovem de Luiz Gonzaga.

Graças a Wilson, descobri que o LP só tem uma música de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga: Asa Branca. Todas as outras canções são de autoria de grandes compositores da MPB: Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes, Capinam e Edu Lobo, Antônio Carlos e Jocafi, Geraldo Vandré, Catulo de Paula, Nonato Buzar, Nelson Mota e Dori Caymmi, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gonzaguinha. Aquele LP era uma homenagem que o Rei do Baião prestava a grandes compositores brasileiros.

Um grande “salto” na carreira de Luiz Gonzaga ocorreria na década de oitenta com o lançamento do LP Danado de Bom, produzido pelo mossoroense Oséas Lopes e que contou com a participação de Gonzaguinha, Fagner e Elba Ramalho; o disco vendeu mais de um milhão de cópias e deu a Luiz Gonzaga seu primeiro Disco de Ouro.

Em 1974, o Governador do Rio Grande do Norte, Cortez Pereira realizou, no final do seu mandato, uma série de inaugurações, durante as quais havia shows com Trio Irakitan, Paulo Tito, Ademilde Fonseca, Luiz Gonzaga e… Fernando Luiz. Embora eu estivesse longe de ser um nome de projeção nacional, no ano anterior eu havia ganho o concurso Calouro Exportação na Buzina do Chacrinha, na extinta TV Tupi, na época dona da maior audiência televisiva do Brasil. Era o tempo em que muitas pessoas assistiam TV nas praças das cidades pequenas e aqui a população torcia por mim, inclusive o Governador, como ele próprio me contaria. Depois da conquista no programa do Velho Guerreiro, fui contratado pelos radialistas Carlos Alberto e Jota Belmont para fazer uma série de shows no estado e ao saber que eu estava em Natal o governador quis me conhecer. No encontro com Cortez Pereira no Palácio Potengi ele me disse que a conquista do prêmio no Rio de Janeiro era “também uma conquista do Rio Grande do Norte” e me convidou para participar dos shows que seriam realizados no final do seu governo. No início das viagens dos artistas para a série de shows pelo interior, ocorreu um fato que me marcou muito: Luiz Gonzaga me convidou para viajar na sua Caravan. Foi uma experiência inesquecível: passei vários dias viajando no carro da Majestade do Forró com ele, o tocador de triângulo e o zabumbeiro, que dirigia o carro.

A música do Nordeste sempre teve destaque no cenário musical brasileiro. Além de denunciar injustiças sociais, também faz a alegria do povo nas festas tradicionais. Com o passar dos anos, artistas como Fagner, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Alceu Valença e inúmeros outros elevaram o status do cancioneiro da nossa região através dos seus discos, gravando músicas com temas nordestinos. Alguns exemplos disso são canções como Cajuína de Caetano Veloso, Coração Bobo de Alceu Valença, Bate Coração (gravada por Elba Ramalho), Esperando na Janela, de Gilberto Gil, Isso Aqui Tá Bom Demais, de Dominguinhos, Você Endoideceu Meu Coração, de Nando Cordel e, de quebra, regravações de forrós antigos com nova roupagem como Pra Não Morrer de Tristeza (sucesso de Abdias nos anos 60) e Homem Com H, de Cecéu e Antônio Barros, e É Por Debaixo Dos Panos, de Antônio Barros, todas elas regravadas por Ney Matogrosso.

Por tudo o que foi dito aqui, não resta nenhuma dúvida: a música nordestina é Música Popular Brasileira, sim!

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OBS: No artigo anterior, afirmei que a música Asa Branca tinha sido gravada em 1937. Foi um erro de digitação; na verdade, a gravação foi em 1947. Peço desculpas pelo erro.

Fernando Luiz

Fernando Luiz

Cantor, compositor, produtor cultural e apresentador do programa Talento Potiguar, que é exibido aos sábados, às 8 horas pela TV Ponta Negra, afiliada do SBT no RN.

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