Louvor de Nelson Patriota

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Escrevemos porque não queremos morrer. Esta é a razão profunda do ato de escrever.

José Saramago

No último dia 28 de março comemorou-se o Dia do Revisor de Textos, e uma das primeiras pessoas que me veio à mente foi Nelson Patriota, revisor, editor e tradutor, que nos deixou no início do ano, no Dia de Reis. Talvez um sinal de que sua partida não deve ser lembrada com tristeza, mas com gratidão por tudo que ele foi, produziu e viveu em seus 71 anos de existência e também pelo privilégio de tê-lo como amigo e parceiro de trabalho.

Isso me fez lembrar uma declaração de Jorge Luis Borges: “[…] Bergson já dizia que a memória é seletiva, que a memória escolhe. Em meu caso, prefere escolher as felicidades”. Afinal, ele soube aproveitar o melhor da vida e desfrutou de viagens, eventos culturais, momentos partilhados com os amigos e familiares, sempre regados a um bom vinho e um prato saboroso. Não dispensava uma boa carne: costelinha suína e carneiro estavam na sua lista de preferência. Também apreciava um bacalhau à portuguesa e uma galinha guisada. Sempre equilibrado, não dispensava os legumes cozidos/assados e uma boa salada, regada a azeite e limão.

Nelson era um apreciador da boa mesa. Conhecia os melhores queijos e vinhos e sabia combiná-los perfeitamente. Sempre lembrava com carinho e saudade os jantares preparados pelo amigo Pedro Vicente Costa Sobrinho, que nos deixou há alguns anos, e os encontros na casa dele, na companhia da esposa e de outros amigos.

Viajar era outra de suas paixões. Todas as vezes que voltava de São Paulo, me contava as novidades da pauliceia e tudo que estava rolando por lá em termos de concertos, filmes, peças de teatro. Era tão bom escutar seus relatos de viagem! Eu ficava imaginando cada passeio dele e morrendo de vontade de conhecer aqueles lugares.

Um deles é a Sala São Paulo, localizada no histórico prédio da Estrada de Ferro Sorocabana, sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), uma das mais importantes casas de concertos e eventos do Brasil. Amante da música clássica, sempre assistia a algum concerto quando estava na terra da garoa.

Outros dois lugares que ele amava: a Livraria Cultura do Conjunto Nacional e o Cine Belas Artes. Lembro, também, do seu encantamento com o Museu da Língua Portuguesa, onde esteve dois dias antes de o local ser atingido por um incêndio, em 2015. Eu já havia comprado minha passagem para visitar a exposição “Câmara Cascudo – O Tempo e eu (e vc)”, que estava abrigada no local e foi totalmente destruída pelo fogo. Aquele seria também o momento de visitar meus primos que vivem na cidade e minha irmã caçula, Cristina, que à época morava lá. Acabei desistindo da viagem. Em 2017, finalmente, consegui visitá-los e conhecer Sampa. Foram tantas alegrias, descobertas, partilhas, reencontros… Na companhia do meu sobrinho Lucas Cavalcanti, fui ao Cine Belas Artes, à Livraria Cultura, conheci a Vila Madalena, o Parque Ibirapuera…

Retornemos às viagens de Nelson. De volta à província, imediatamente me convocava para nosso almoço semanal. A convocação irrecusável chegava por e-mail ou WhatsApp, sempre no mesmo horário, às 10:30. Com uma pontualidade britânica, às 12h me aguardava para o almoço, seguido de um café com os amigos da confraria. Nessas ocasiões eu sempre ganhava um livro de presente. O último que ele me trouxe foi Veneno antimonotonia: os melhores poemas e canções contra o tédio (Objetiva, 2005), organizado por Eucanaã Ferraz. Leitura necessária para esse momento incerto que vivemos, uma boa dose de poesia e delicadeza. Poemas escolhidos, de Emily Dicknson, e um volume de crônicas de Martha Medeiros, Quem diria que viver ia dar nisso, também compõem esse acervo lítero-sentimental.

No meu aniversário do ano passado, ele me presenteou com três obras que havia lido recentemente: Ascensão, de Stephen King, A paciente silenciosa, de Alex Michaelides, e Só garotos, de Pathy Smith. Lembro exatamente da frase que ele disse ao me entregar os exemplares: “Acho que você vai gostar muito desses livros, Andreia”. A rotina extenuante de trabalho e outras obrigações cotidianas não me permitiram ler tais obras a tempo de conversar com ele. Aliás, acho que essa é uma angústia de todo leitor, os livros ainda não lidos. Tantos assuntos/vivências ficaram pendentes… Que saudade das nossas conversas sobre literatura, meu amigo!

Eu amava escutá-lo falar sobre suas paixões literárias, sempre nos convencendo a querer devorar aqueles livros todos que ele lia. Foi assim com Elena Ferrante, Murakami e tantos outros autores que ele me apresentou, inclusive autores potiguares como Américo de Oliveira Costa, Renard Perez, Otacílio Alecrim. Sua paixão pelos livros era algo contagiante. Aliás, ele sempre reforçava a importância da leitura tanto para o ofício da revisão como para a escrita. Afinal, “sem ler ninguém escreve”, como diz Saramago. Mas Nelson também lembrava algo fundamental sobre o fazer literário: “a matéria da literatura é a vida”. Eu achava a coisa mais linda quando ele dizia isso.

Quando falou do romance holandês Tirza, de Arnon Grunberg, alguns amigos da confraria não resistiram e compraram o livro. Eu tomei emprestado o dele. Lembro das nossas conversas empolgantes sobre a narrativa e a ansiedade para saber o que aconteceria a cada novo capítulo. Eleito pela revista De Groene Amsterdammer como o romance mais importante do século XXI, “Tirza é, ao mesmo tempo, um romance assustador e fascinante, divertido e sinistro, a história de um homem em desesperada, embora inútil, busca por salvação”, diz a resenha da obra disponível no site da Amazon.

Embora não seja fácil aceitar a partida dos que amamos, com o passar do tempo, a saudade vai ocupando o lugar da tristeza e as boas lembranças vão preenchendo nosso coração. Nada substitui a presença de um amigo, sabemos, mas as recordações do que vivemos servem para aplacar a dor lancinante da partida. Vez por outra, me pego escutando Chico e lembrando de você, aí a gente se encontra “num tempo da delicadeza” e você me diz “que a vida ainda vale / O sorriso que eu tenho / Pra lhe dar…”. Agora estou lendo algumas declarações de José Saramago sobre o ofício do escritor e imagino o quanto você iria gostar desse livro, adquirido naquelas feiras a que costumávamos ir juntos no shopping. Uma relíquia. Organizada por Fernando Gómez Aguilera, As palavras de Saramago: catálogo de reflexões pessoais, literárias e políticas, é uma publicação da Companhia das Letras.

Assim, evocar a presença de Nelson Patriota é também uma forma de agradecer por ter desfrutado do seu afeto e de sua amizade. Nelson foi um amigo no sentido mais profundo desse termo. Conhecia meu âmago e, sendo ele tão introspectivo, gostava do meu jeito espontâneo e sempre dizia que admirava meu entusiasmo perante a vida, minha alegria… E quantas vezes gargalhamos juntos com histórias divertidas e situações inusitadas! Talvez isso defina a amizade, essa sensação de completude/aceitação em meio a tantas lacunas e tantas imperfeições. “E como sempre singular comigo. / Um bicho igual a mim, simples e humano”, no dizer do mestre Vinicius, em seu “Soneto do Amigo”.

O Dia do Revisor de Textos será sempre um dia para lembrar de Nelson Patriota, do profissional ético, responsável e erudito que me ensinou muito e me fez sentir mais segura e autônoma no início de minha jornada como revisora, quando cheguei na Editora da UFRN, em 2009, ainda como estagiária, onde também recebi preciosas orientações de Wildson Confessor e Risoleide Rosa. Um mestre sempre disposto a ensinar e aprender e uma pupila atenta às suas lições, assim poderia resumir nossa parceria que resultou na revisão de quase duas dezenas de livros, revistas etc.

Não conheci ninguém mais apaixonado e comprometido com as questões da linguagem do que ele. Um profissional que tinha um constante zelo com a língua portuguesa. Era comovente sua relação de amor com as palavras. Nelson era muito apaixonado pelo que fazia e isso me inspirava tanto! Seu rigor metodológico e seu compromisso com o texto me mostravam o quanto eu precisava estudar para ser uma profissional competente. Ele sempre será minha maior referência quando o assunto for revisão de textos. Poliglota, além da revisão, traduzia textos para o inglês, espanhol, francês e alemão. Múltiplo, era também sociólogo, jornalista, escritor e crítico literário.

Outra lição importante que ele me ensinou: além da técnica e dos conhecimentos imprescindíveis de gramática, o revisor tem de ser um leitor e, principalmente, ter sensibilidade para considerar as peculiaridades de cada texto, sempre respeitando o gênero textual, o estilo do autor e os limites da intervenção. É claro que às vezes eu “desobedecia” um pouco suas orientações e de certo modo ia criando meu próprio estilo de revisar. Acho que, em certa medida, essa teimosia/transgressão é algo positivo.

Sendo assim, não posso dizer que aquela lembrança, que me assaltou numa manhã de domingo, enquanto eu me preparava para começar a trabalhar, foi uma lembrança de todo triste. Foi melancólico saber que não poderia lhe escrever um e-mail parabenizando-o pelo seu dia ou que não poderia partilhar com ele as alegrias e os desafios dos novos trabalhos que estou revisando, mas ao mesmo tempo me senti feliz ao lembrar de tudo de que vivenciamos e do muito que ele me ensinou, principalmente. É estranho não lhe escrever para tirar dúvidas e/ou discutir certas questões de trabalho. Ainda é difícil acreditar que ele partiu. No entanto, apesar daquela estranheza, logo fui tomada por uma sensação de paz. Nelson está comigo todos os dias e sempre estará. Afinal, “o que a memória ama fica eterno”, como nos ensina Rubem Alves.

E quantas vezes não conversamos sobre os percalços dessa profissão apaixonante, mas também desafiadora sob muitos aspectos. Quando nos queixávamos dos trabalhos complexos que chegam em cima da hora, ele sempre dizia: “as pessoas passam anos escrevendo um livro e querem que a gente o revise em poucos dias”. E quantos livros não revisamos juntos! Foi assim com o romance de Fátima Medeiros, Sertão de bem-querer e desamor, cujo prefácio foi assinado por ele. Eu o convidei para dividir comigo esse trabalho por saber que sua análise do ponto de vista literário seria de grande valor para o livro de estreia da professora aposentada que agora escreve suas memórias. Lembro que ele deu três opções de título para a obra, que foi chancelada pela Offset, sob a batuta do experiente e sensível editor Ivan Júnior. Aliás, Nelson era ótimo em fazer isso. O mesmo aconteceu com o livro de Dorinha Costa, Viajando com o inesperado, em que a autora brinda o leitor com suas experiências inusitadas de viagens pelo mundo. Nesse caso, o convite para dividirmos a revisão foi dele. Também editado pela Offset, o livro foi lançado no Solar Bela Vista, em comemoração aos 80 anos da autora. Uma noite memorável com direito a esquetes de algumas histórias narradas no livro. Uma noite regada a vinho e saborosos quitutes. Também o convidei para revisar a segunda edição de Francisca, o romance histórico de Ana Cláudia Trigueiro inspirado em sua avó paterna e chancelado pela CJA. Ele também assina o prefácio. A narrativa entremeia fatos históricos à vida da protagonista. Um livro arrebatador. Que saudade das nossas parcerias revisórias, meu amigo!

Nunca é demais ressaltar sua atuação como revisor e editor, sua importância para a literatura do RN e sua preocupação em reeditar certos autores, como o fez com Luís Patriota, seu amado pai, músico e poeta que exaltou as belezas da Praia de Touros, seu lugar de origem, e deixou duas obras fundamentais: Livro d’alma (1922) e Poema das Jangadas: versos (1936); Bôsco Lopes; Edgar Barbosa; Américo de Oliveira Costa; Luís Carlos Guimarães; livros em que atuou como editor, organizador e/ou revisor, sempre contribuindo com a fortuna crítica dessas publicações. Tive a honra de trabalhar com ele na revisão de alguns desses livros, o melhor laboratório que poderia ter.

Seu amigo e confrade da Academia Norte-rio-grandense de Letras, Manoel Onofre Jr., assim o definiu: “Como humanista e artista da palavra, mostrava-se avesso ao que o grande Mário de Andrade denominou ‘limitação causada pelo conhecimento técnico’”. A declaração consta do texto intitulado “Nelson Patriota: um amigo dos livros”, adaptado do Discurso de saudação a Nelson Patriota quando de sua posse na cadeira nº 8 da ANRL e publicado no blog Papo Cultura. O autor de Chão dos Simples e de Ficcionistas Potiguares assim conclui o texto: “Considero-o, dentre os escritores potiguares, a mais perfeita encarnação do intelectual, do scholar, do bibliófilo, tomada esta palavra não no sentido de colecionador, mas, sim, de amigo dos livros”.

Afinal, sua atividade de crítico literário não pode ser esquecida. Seu livro Uns Potiguares (Sarau das Letras, 2012), é uma pequena mostra de sua intensa e constante produção e reúne nada menos que 80 artigos publicados entre 2008 e 2011 na Tribuna do Norte e no Substantivo Plural. “Eu procuro os livros, vou ao encontro deles. Nesse ponto, a crítica é um trabalho de liberdade, onde busco aqueles que me interessam por alguma razão, seja pelo estilo, pela relação com o autor, ou pelo simples fato de folhear”, disse em entrevista à Tribuna do Norte, por ocasião do lançamento da obra. “A crítica exige uma leitura mais focada para extrair o que dizem as entrelinhas”, arremata.

Para finalizar meu preito de saudade, dedico-lhe este poema de Zila Mamede, escrito em homenagem a Manuel Bandeira:

Penso-te

como quem sonha uma estrela

que inventou na madrugada

e no desejo de guardá-la

viva.

Penso-te

como o claro silêncio permanente

da neve,

como a branca surpresa

de uma flor nascente.

Meu pensamento ama-te.

Andreia Braz

Andreia Braz

Escritora e revisora de textos.

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