Joedson silva

Joedson Silva: um sopro aos corações confinados

Moisés de Lima19 de maio de 2020Música, Opinião, Artigos e Crônicas, Image

“Foi nos bailes da vida ou num bar
Em troca de pão
que muita gente boa pôs o pé na profissão
De tocar um instrumento e de cantar
Não importando se quem pagou quis ouvir!
Foi assim!”

(“Bailes da Vida” – Fernando Brant/Milton Nascimento)

Um saxofone ecoa ante aos condomínios e casas natalenses em ruas que neste momento deveriam estar desertas, mas que ainda assistem automóveis e pessoas circulando, apesar do grave perigo da Covid 19.

Os tempos se tornaram nebulosos para aquele que sobrevive da arte. Mas um jovem músico decidiu trabalhar pelas vias da capital, atirando melodias às janelas e sacadas onde vivem pessoas em quarentena. Soprando das calçadas emoção aos corações confinados.

Joedson Regis da Silva, 29 anos, foi ao mundo para ganhar o sustento da família diante da interrupção das apresentações que realizava em hotéis, casamentos, recepções e festas particulares a partir dos contratos da sua empresa musical.

Natural do município de Cruzeta, Seridó, região berço de grandes instrumentistas, desde cedo aprendeu os caminhos da música a partir da formação nas bandas filarmônicas, percorrido no curso técnico, na graduação em bacharelado em saxofone e na licenciatura em Música pela UFRN.

Vieram posteriormente os grupos musicais que integrou como profissional e a ideia de montar um negócio artístico que manteve ativo até o início deste ano.

Tempo difícil

A partir de março os compromissos estagnaram, incluindo as aulas que o instrumentista dava a seus alunos.

“Tive que ficar em casa sobrevivendo apenas das economias tiradas de cachês anteriores”, conta. Situação agravada pelo trabalho da esposa Alana, fisioterapeuta que viu diminuir o atendimento aos seus pacientes.

No início do período de isolamento social surgiu um solitário convite para que o músico tocasse no aniversário de filho de uma cliente diante do prédio em que a família mora. “Fiz uns vídeos para o meu instagram e as pessoas começaram a me elogiar”, relembra.

O saxofonista decidiu homenagear amigos e clientes que reconheciam seu talento e que sempre o contratavam. “Escolhi pessoas próximas e levei meu sax sem nenhum compromisso para a frente dos apartamentos, tocando canções que eles gostam como “Como é Grande o Meu Amor por Você”, “Eu sei que vou te amar”, “Ave Maria”, “Yesterday”, entre outras.

Convite às ruas

Para a surpresa do músico, o que se iniciou como uma simples lembrança aos amigos logo se transformou em sucessivos convites para que ele tocasse em vários locais. Só que agora seria distante do público, em frente a apartamentos e casas, devido as recomendações de isolamento social.

“As pessoas em quarentena adoraram e começaram a me chamar e a me indicar para amigos e familiares desde então”, explica.

Durante a pandemia, Joedson e seu sax já realizaram perto de cem apresentações por quase todos os bairros de Natal, incluindo municípios próximos como Macaíba e Parnamirim, por cachês em média de R$ 100 para tocar em torno de dez canções.

“Mas muitas pessoas se sensibilizam e colocam algum valor no meu ‘chapéu’, fazem transferência bancária e até dão cestas básicas. Já recebi ajuda até de mercadinhos que trazem alimentos quando estou tocando perto deles.”

Apesar do caráter profissional, o saxofonista relata que nesse período já fez algumas apresentações gratuitas. “Muitas vezes há pessoas que não têm condições de pagar o cachê, mas mesmo assim eu vou lá para levar a minha música, sabendo que serão portas abertas ao meu trabalho”.

O repertório, vasto e eclético, inclui clássicos do cancioneiro brasileiro de autores como Luiz Gonzaga, Pixinguinha, Waldir Azevedo,Tom Jobim,além de peças de compositores estrangeiros como Maurice Ravel, Louis Armstrong e Lennon & McCartney.

Emoções

Joedson se emociona quando percebe o efeito que sua música causa nas pessoas neste momento de pandemia. Foi o caso de um aniversário em que foi contratado para tocar:

“Pedi a todas as pessoas que estavam nas janelas dos apartamentos que cantassem parabéns para aquela senhora e ela, bastante emocionada, me disse que foi a melhor homenagem da sua vida. Em um momento como este que estamos vivendo me tocou muito uma pessoa declarar que a minha música lhe causou um grande momento da sua existência”, reflete.

Seu saxofone toca sem poder adentrar os lares, mantendo sempre a distância necessária, mas o suficiente para que as melodias cheguem às plateias agora confinadas. O músico é consciente dos perigos do contagio e se preserva para não entrar nas estatísticas da infecção.

“Eu tomo todos os cuidados necessários: tenho álcool gel e três máscaras feitas pelas minha mãe e uma outra que eu desenvolvi para poder tocar”, descreveu.

Nestes duríssimos tempos em que são vitais os atos pela sobrevivência humana, Joedson Silva manda uma força acalentadora e poderosa a uma gente que agora vive reclusa a esperar dias melhores: a arte.

E renova os versos de Milton Nascimento e Fernando Brant de que “todo artista deve ir aonde o povo está. Se for assim, assim será!”

Joedson Silva

Contato: (84) 99116 8603
Instagram:joedsonsilvasax

Sobre o autor

Moisés de Lima

Músico e jornalista. Praticante das coisas búdicas. Amante do blues e da democracia, mas atualmente confinado em nome da vida.

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