Eu já fui Dilma Rousseff

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Por Susana Barros

Eu já fui Dilma Rousseff.

Há quem seja Napoleão, ou mesmo o Harry Potter, eu, no entanto, transformei o país numa chacota. E o que eu falava era motivo de zombo.

Mas o depakote, o carbolitium e o rivotril fizeram efeito; e, por isso, não somente torci, até o último “pela pátria e pela família”, por uma reviravolta, mas também findei percebendo que uma mulher digna havia sido injustiçada.

Antes dos antipsicóticos, todavia, se eu apenas cogitasse virar um jacaré, talvez nisso eu me transformasse. E se eu somente pensasse, o pensamento, como que por milagre, viraria caracteres nas redes sociais. Na época, havia também uma conspiração mundial ceifadora, e cada piscadela, placa de trânsito e outdoor, avisavam que o meu fim estava próximo.

Vivenciava, pois, um momento de desorganização psíquica caracterizada pela perda de noção da realidade, e apresentava comportamento descompensado e psicótico. No meu surto, constavam delírios, alucinações, confusão mental, um discurso desorganizado e incoerente, além de uma alteração de humor e perda da noção de tempo.

Minha experiência foi singular, entretanto, dia desses, me dei conta de que esse fenômeno também pode atingir, simultaneamente, dezenas ou centenas indivíduos que integram o mesmo grupo social. E isso me preocupou. E me partiu o coração. Porque, quando assim é, bananas são maçãs e, em algumas situações, bananas vão continuar sendo maçãs.

No meu caso, felizmente, gradualmente me atentei que bananas são bananas. E ao me tocar que estava negando o óbvio, outro mal me acometeu: uma tristeza profunda e um forte sentimento de desesperança.

E de vergonha. Poucas vezes senti tanta vergonha. Como sentia uma alemã que conheci, tempos atrás, que se recusava a falar sobre o holocausto. Pois reconhecia ter sido um ato vexatório, humilhante, que lhe causava desonra.

Eu, entretanto, não me recuso a falar. Pois resolvi deduzir que isso pode ajudar outras pessoas que sofrem da mesma patologia. Como quando me vi trancafiada num hospício ao lado de pessoas tão ou mais malucas quanto eu. E isso me curou.

A cura também veio por meio do acolhimento daqueles que compreenderam o momento de desespero, medo e completa perda de noção da realidade no qual eu estava vivenciando. Essas pessoas resolveram não me culpar, mas sim me responsabilizar pela sintonia numa frequência não muito amigável.

Por isso, sinto certa necessidade de compreender as centenas, ou talvez milhares de pessoas, que hoje estão dissociadas da realidade. Porque elas ainda ignoram, ou porque tenho lugar de fala e já não posso ridicularizar. Ou porque, noutra ocasião, fui Maria, a mãe de Jesus, e, desta experiência, saí inclinada à piedade.

Redação

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