seu pernambuco, aos 90 anos

O Velho e o Peixe: a história do Bar de Pernambuco, o mais antigo de Natal

Sérgio Vilar17 de fevereiro de 2019Gastronomia, Image

A mescla entre romance e realismo vivida pelo pescador Santiago consagrou O Velho e o Mar, de Hernest Hemingway. E se a arte imita a vida, aqueles mesmos mares literários do velho Santiago, que também já viram o capitão Ahab contra a grande baleia branca de Melville, deságuam em cada beirada de praia, onde pescadores da vida real lutam contra os dissabores do cotidiano. No caso de Edson Ferreira Machado, o mar sempre foi berço, herança e sustento. O apelido Pernambuco chegou depois, quando se acomodou ao Canto do Mangue. E nisso se vai mais de meio século de um velho e seu mar.

Pernambuco – o Estado – ficou na lembrança e no nome, incorporado ao dia-a-dia na Praça do Sol. Também ficou para trás a infância, no município de Goiana; o tresmalho usado na pesca desde os sete anos; o sol a pino como teto da jangada do pai; a família de oito irmãos mais novos e a vida dura de menino-homem, de filho e neto de pescador. “Naquela época, em Goiana, a gente trocava peixe por café, farinha e açúcar porque não tinha a quem vender. Era uma ou duas casas de taipa e outras poucas mais adiante”, lembra. Hoje, Pernambuco passa o dia de costas para o mar. É assim há 63 anos, desde quando chegou a Natal.

Se todos esses fatos permanecem na lembrança de 92 anos de vida, um elemento esteve sempre presente: o peixe. Pernambuco cresceu comendo e pescando peixe. Era elemento de troca, sustento da família e foco final da atividade diária. Pescava, tratava, vendia, salgava, estocava, comia. “Desde aquela época eu sonho com peixe; desde menino-moleque nunca tive o lazer de comer em uma mesa, sossegado. Era sempre comendo peixe em pé por conta do trabalho”, acrescenta. Mas o tresmalho, a vida no mar ou mesmo a família ficaram para trás. Também os três anos no exército, até a pesca lhe recrutar de volta à jangada do pai, que morreu aos 50 anos.

ROTINA DE DOMINGO A DOMINGO

“Há uns 60 e poucos anos vim de ônibus a Natal visitar um amigo. Nos três dias que passei aqui construí uma barraquinha com tábua de madeira na beira da praia, fiz peixe frito e tapioca pra vender e não parei mais”. À época era ele e mais uns três, apenas. A areia era alva e contrastava com as águas escuras do Rio Potengi. Nas Rocas da década de 60, extensos manguezais dominavam a área. Iam até as imediações de onde hoje está fincada a Feira das Rocas. Tinham poucas casas e famílias residentes. Pernambuco alugou morada na Avenida 10, no Alecrim, aproximou-se mais do trabalho quando veio à Cidade Alta, até adquirir residência na Rua Santo Amaro, nas Rocas.

Seu Pernambuco, aos 90 anos

Daquela época todos morreram, diz Pernambuco: os amigos das barracas vizinhas, os patriarcas daquelas poucas famílias das Rocas ou os pescadores mais antigos. Mas Pernambuco se mantém firme aos 92 anos e mantém a rotina de mais de seis décadas: acorda às quatro horas da madrugada, toma café e espera o sol raiar perto das 6h para caminhar dois quarteirões até seu box, no Canto do Mangue. É quando olha o rio e renasce para o dia. Das 6h às 20h, de domingo a domingo, atende clientes com peixe fresco, lagosta e ginga com tapioca – os pratos mais pedidos. “Isso é minha vida. Já durmo pensando em voltar pra cá”, diz o velho pescador, nos poucos momentos de relaxamento.

Pernambuco almoça por ali mesmo. Ele é quem prepara o arroz, o feijão e o peixe para ele e o único funcionário. Quem faz quase tudo aqui sou eu. Pago a esse menino, mas ele vem quando quer; tem os dias de preguiça. Pernambuco estima uma média de 30 peixes fritos ao dia, com picos em fins de semana e baixa entre segunda e quarta-feira. A rotina é pesada mesmo para um jovem. “Volto pra casa cansado. Tem vez de eu parar no hospital com pressão alta. Mas chego lá sou logo atendido porque todos me conhecem”, se orgulha. A boa forma, ele acredita, se deve ao peixe. Há mais de 60 anos Pernambuco só come peixe.

A ENERGIA QUE VEM DO PEIXE

De peixe em peixe Pernambuco enche o papo e vê o tempo passar no ritmo lânguido do Canto do Mangue. Parece preso à rotina – um cárcere no qual encontra a liberdade desejada, sem sobressaltos. O estresse diário vinha no trato com os peixes. Pernambuco possuía oito dos cerca de 100 barcos ancorados no Canto do Mangue. Um afundou, outro pegou fogo e ele vendeu cinco. O único barco restante traz os peixes servidos no Bar de Pernambuco. “É tudo peixe fresco. O barco sai sexta e volta segunda com o peixe, que dura até quarta ou quinta. Aí sexta eu compro aqui pertinho, também fresquinho”.

Pernambuco paga as despesas de óleo e manutenção do barco e divide ao meio, entre ele e os pescadores, o resultado da pesca em alto mar. “Eles entram só com a coragem”. A outra despesa é com o box e as taxas de luz e de água. O resto é com a mulher e a filha de apenas 15 anos. “A energia do corpo vem do peixe”, brinca. E haja energia. Pernambuco tem 22 filhos e 70 netos “espalhados em tudo que é Estado: ‘Sunpaulo, Pernambuco, Campina Grande, pras bandas do Amazonas…”. Nenhum seguiu a lida do pai junto ao mar. “Nunca quis isso pra eles. Nunca vi pescador morrer no mar, mas já vi muito vindo morto no barco. Essa semana mesmo morreu um por aqui”.

PESCADOR DE COSTA PARA O MAR

A Prefeitura do Natal construiu o Bar de Pernambuco de costas para o Rio Potengi, na urbanização do local, em 2008. O pescador acredita ter encontrado a tranquilidade, mas esperou quase um ano para a reforma, sobrevivendo de uma aposentadoria da qual prefere não comentar. E mesmo um dos pores do sol mais bonitos do país, reconhecido por turistas estupefatos com a beleza, Pernambuco sente falta mesmo é de um banheiro. Tinha só no antigo ponto, construído por ele mesmo décadas atrás. Hoje precisa deslocar seus 92 anos ao banheiro do Mercado do Peixe, cerca de 200 metros do seu ponto. E fora do horário entre 8h e 18h, só no leito do rio. E é pra lá onde Pernambuco encaminha clientes. “Vou fazer o quê?”.

O SEGREDO NA SIMPLICIDADE

De seu recanto, Pernambuco nunca viu sequer discussão. Se deixa perder em olhares ausentes quando descansa na cadeira ao lado do box, por alguns instantes, até o próximo pedido do cliente. É o seu trono momentâneo. Depois é o preparo de um peixe saborosíssimo e sem segredo guardado. Diz que nunca compra peixe congelado porque fica sem gosto, aguado. O peixe fresco ele deixa mergulhado em molho feito com um quilo de tomate, um quilo de cebola, vinagre e coentro triturado no liquidificador. A posta inteira pode ser cioba, arabaiana, cavala, serra e outros da região. Sob o pedido da clientela, o peixe, já apurado no molho é fritado no óleo. O toque final é o dendê e uma salada de tomate e cebola frescos, seguido da recomendação de acompanhamento com a tapioca feita no côco.

peixe frito no bar de pernambucoEssa fórmula de preparo atravessou um tempo que parece estancado no cotidiano arrastado do Canto do Mangue. Mas já foi mais parado, tal qual os idos da Belle Epoque natalense. Tempos líricos, desapressados, de uma boemia ritmada à boemia da intelectualidade local. Época também da Peixada da Comadre. Em ambos os recintos o peixe carregava o sabor da simplicidade e atraía os intelectuais da província. Pernambuco não lembra ou sabe citar os nomes. Na recordação descompromissada de quem se importa com o cliente independentemente de quem seja. Mas Cascudo, Newton Navarro e Celso da Silveira eram clientes assíduos do velho bar, ainda na beirada do rio. Perguntado a respeito, Pernambuco desconversa, meio envergonhado pelo desconhecimento dos nomes.

Na mente descansada de Pernambuco moram os peixes do dia, a rotina consolidada de horários fixos e a lida pesada. Para ele pouco importa o que Cascudo discutiu, Navarro pintou ou Celso da Silveira bebeu e poetizou. Pernambuco valoriza o acordar e o encontro com o peixe, com seu bar/doce lar. O trajeto percorrido é quase uma liberdade condicional que o velho pescador cumpre como pena de um dia ter matado seus sonhos de criança para viver a mesma vida demasiado realista de Santiago, o herói de Hemingway, sem aquele espaço para a arte que ainda ameniza a dureza dos dias.


* Matéria originalmente publicada na Revista Palumbo e atualizada neste blog
FOTOS: Sergio Vilar

Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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