Pelé é gravado em chapa-branca e afunda em si mesmo

Pelé tem participação em mais de 10 produções, seja para cinema ou televisão, além de dezenas de comerciais. Há, até mesmo, um filme com Sylvester Stallone, Michael Caine e Max von Sydow, dirigido pelo lendário John Huston e lançado em 1981: Fuga para a Vitória. Ele — o rei — era uma marca, como bem ressalta o documentário da Netflix, que carregou o nome do Brasil para fora e, ainda hoje, muitos associam o país à sua figura.

É uma pena, portanto, que Pelé seja dirigido com uma aparente intenção de relativizar problemas e humanizar um personagem. Porque, na realidade, Edson Arantes do Nascimento, o homem, não é Pelé. Os diretores Ben Nicholas e David Tryhorn parecem querer aproximar ambos quando, no final das contas, eles são, na prática, opostos.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

Pelé e Edson

O sentido de oposição, inclusive, até tenta dar as caras. Com a inserção de trechos da ditadura e a associação de Pelé ao ex-presidente Emílio Garrastazu Médici — o terceiro do regime ditatorial (e o mais sanguinário) —, o protagonista recebe alguma complexidade.

Acontece que toda força mais complexa do doc nunca é aprofundada. Aliás, qualquer passo para o obscuro é barrado por comentários que diminuem o fato a favor da existência da lenda.

 

Abraço apertado e sorridente de Pelé em Médici. (Imagem: Reprodução/Netflix)

E aí está o problema maior nas questões narrativas de Nicholas e Tryhorn: não adianta inserir trechos do protagonista confessando que traía (muito) a primeira esposa, Rosemeri, em tom de arrependimento e com lágrimas na sequência; não funciona associar a imagem de alguém que tinha tanto poder de entretenimento e paixão sobre um povo com depoimentos sobre as maldades de Médici e, em seguida, comparar sua postura com a de Muhammad Ali.

Rosemeri e Pelé sendo entrevistados. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Seria, sobretudo, muito mais honesto assumir que o Rei era majestade somente dentro do campo e que, fora dele, para além de ser uma marca, ele era (e é) o Edson.

Este, portanto, nunca foi, ao menos pelo que se sabe publicamente, um dos melhores exemplos de homem.

Afirmar que Ali (negro, islamita e com posicionamento político) atuava fora dos ringues da forma que o fazia porque não corria risco de morte talvez seja de uma desonestidade intelectual grosseira — e que pode assustar por vir de um jornalista respeitado como Juca Kfouri.

Juca Kfouri em depoimento. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Tudo em Pelé, dessa maneira, vem seguido de justificativas sobre as más atitudes tomadas pelo Edson — ou sobre as atitudes não tomadas por completa indiferença.

Nesse sentido, o filme parece um pedido de desculpas de quase duas horas amarrado por imagens restauradas e palavras saudosistas e que, infelizmente, não consegue nem mesmo engrandecer os feitos de Pelé (o jogador no caso) mais do que já se sabe serem gigantes.

Nostalgia que afunda…

Nicholas e Tryhorn, em meio a frouxidão do conteúdo, seguem quase que uma cartilha e, por isso, nem mesmo na forma tornam o filme relevante.

Além disso, os saltos temporais ora desvalorizam momentos que poderiam ser valorosos para o enriquecimento do protagonista — como quando ao pular da infância direto para a copa de 1958, aos 17 anos de Pelé —, ora desvalorizam o protagonismo de colegas, como quando, ao passar pela copa de 1962, não dão uma linha sobre a importância de Garrincha naquele evento.

Pelé, finalmente, termina como se tudo o que foi visto pudesse ter sido encontrado no YouTube, na Wikipedia e por outros meios fáceis. Quase sem novidades, é possível que a chapa-branca na qual é gravada o filme sirva como um meio nostálgico.

Assim, quem viveu aquela época pode assistir e sentir saudade de um futebol que era bem diferente — mesmo que já se falasse bastante da evolução do esporte em termos defensivos e físicos na Copa de 1970.

Pelé era, enfim, um jogador extraordinário. Não deve existir quem duvide disso. Mas o melhor da história para a maioria não era (e nem é) um anjo. Era gênio e ordinário; gênio e covarde; ou, para ser brando, gênio e ingênuo — sabendo que ingenuidade aos 30 anos de idade não é tão crível. Assim, ao tentar justificar erros e, de repente, aproximar o Rei a Edson, Pelé acaba não explorando a riqueza dos opostos e, com isso, afunda em si mesmo.

Pelé está disponível na Netflix.


Este texto foi originalmente publicado no Canaltech

 

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