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Da injustiça com Antônio Francisco e outras notas literárias

Manoel Onofre Jr.6 de março de 2020Opinião, Artigos e Crônicas Image

A Academia Mossoroense de Letras deixou de eleger o poeta Antônio Francisco para uma das suas cadeiras vagas. Quem perdeu não foi Antônio Francisco, foi a Academia.

Homem simples, avesso a formalidades, ele se inscreveu já no final do prazo regimental e absteve-se de comunicar a sua candidatura aos acadêmicos. Esta a razão porque contou apenas com seis votos – alega-se. Mas, na verdade, procedeu certo.

Todos o conhecem em Mossoró, sabem do seu valor; não era preciso que fizesse comunicações, muito menos pedisse votos. Deveria ter sido eleito por aclamação, sob uma salva de palmas.

Antônio Francisco vale por uma academia.

Niemeyer em Natal

Darcy Ribeiro já disse que Oscar Niemeyer é o único brasileiro a ser lembrado, no mundo todo, daqui a mil anos. Desnecessário ressaltar a autoridade, e o peso das palavras do mestre Darcy, especialista em brasilidade. Acho que toda pessoa medianamente informada concordará com o famoso escritor e antropólogo. Pode ser que alguém junte ao nome do arquiteto o do compositor e maestro Villa-Lobos. Seria razoável.

Mas, o que é fato é que ninguém contesta sua enorme importância. Niemeyer distingue-se, sobretudo pelos edifícios públicos, que projetou para Brasília, mas numerosas outras obras de sua autoria espalham-se por diversos países. Quase todas estas edificações, por serem verdadeiras joias arquitetônicas, são muito bem cuidadas, e não poucas tornaram-se atrações turísticas.

Há, no entanto, uma exceção. É triste dizer, caro leitor, mas esta se situa em nossa capital. Refiro-me ao monumento ao presépio, situado no bairro de Lagoa Nova. Desprezado pelos órgãos públicos ditos competentes, acha-se em lamentável estado de conservação. Dá pena vê-lo.

Qualquer outra cidade se orgulharia de contar com uma obra de arte admirável, como essa. Mas, Natal…

Destruiu-se quase tudo do monumento, inclusive o belíssimo mural de autoria de Dorian Gray Caldas. Urgem providências por quem de direito. É preciso dar um basta à desídia e à incultura.

Recuperado, o espaço poderá sediar os festejos natalinos e uma mostra permanente de presépios.

Anatole France

Leio pela primeira vez Anatole France – “As Sete Esposas do Barba Azul”, coletânea de contos muito interessantes, glosando histórias tradicionais, como a “Bela Adormecida”. Pena que o tradutor não seja bom, a julgar pelas cacofonias e frases desordenadas que comete, e pelo grande número de palavras estranhas. Anotei: gebo, enojosa, onusta, cinca, anosos, contemptor e outras preciosidades.

Para quem não sabe: Anatole France esteve na crista da onda lá pelas primeiras décadas do século XX, quando a literatura francesa ainda imperava, absoluta. O romancista de “Thaís” era reverenciado, em todo o mundo, como um semi-deus. Quando veio ao Brasil, em 1909, foi saudado por Rui Barbosa, na Academia Brasileira em meio a grandes festas. Marcel Proust, que muito o admirava, tornou-o personagem do seu famoso roman a clef, “Em Busca do Tempo Perdido”.

Hoje, a obra literária de Anatole France acha-se de tal modo esquecida, que, como todo enjeitado, deve ter sofrido alguma injustiça, por parte das novas gerações.

Patronímicos

Encontrei nos meus “alfarrábios” um papel velho com anotações sobre patronímicos. Sou curioso do assunto.

Que vem a ser patronímico? Segundo o Dicionário Aurélio, é “o sobrenome derivado do nome do pai”. Assim: Fernandes de Fernando; Bernardes de Bernardo. Curiosamente, vários patronímicos encontráveis atualmente em Portugal e no Brasil (e nos demais países lusófonos, presumo) derivam de nomes arcaicos, há muito em desuso. Por exemplo: Lopes de Lopo; Gonçalves de Gonçalo; Mendes de Mendo; Martins de Martim; Fagundes de Fagundo; Paes de Paio; Soares de Suário; Teles de Telo; Dias de Dídico (!).

Ao contrário, há nomes comuns & patronímicos obsoletos: João (Joanes), Pedro (Peres), Bento (Bentes), Estevam (Esteves), Ramiro (Ramires).

É interessante observar que, em Portugal, proliferam Nunos, mas, ao que me consta, há poucos Nunes lá, enquanto que, no Brasil, sucede o inverso: muitos Nunes e quase nenhum Nuno. Isto se explica: Nuno é o nome de um herói nacional português, D. Nuno Álvares Pereira, guerreiro e santo, canonizado pelo Papa João Paulo II.

A título de curiosidade relaciono a seguir outros patronímicos: Álvares de Álvaro; Rodrigues de Rodrigo: Henriques de Henrique; Lins de Lino; Marques de Marcos; Simões de Simão, Vasques de Vasco.

Comunismo? Capitalismo?

Em seu livro “As Amargas, não…” – deliciosa mistura de memórias, diário íntimo, aforismos, notas de leitura e de viagens –, Álvaro Moreyra refere-se a um caricaturista mexicano de renome nas primeiras décadas do século XX, Figueiroa.

“Sempre que um pobre lhe estendia a mão, gritava – Não peças esmola. Proteste – Sentia, como o escritor Marteau, que a caridade é injuriosa e contrária à fraternidade humana. Não se trata de dar. Trata-se de restituir. Nada de enternecimentos por conta. O que é preciso é a justiça completa, a quitação. Não se cogita de melhorar a condição dos pobres, sim de suprimir a condição dos pobres”.

Eu também penso assim. Mas, reflito, como “suprimir a condição dos pobres”? Parece-me que isto só será possível num sistema econômico justo, equitativo. Não no capitalismo, não no comunismo. Qual, então? A História dirá.


FOTO: Julia Dolce

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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