#CaminhosdeNatal: Rua Frei Miguelinho homenageia um mártir de Natal

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A Rua Frei Miguelinho, está localizada no bairro da Ribeira, paralela à rua Chile, no trecho compreendido entre a avenida Tavares de Lira e a Esplanada Silva Jardim.

Trata-se de uma das mais antigas ruas da Ribeira, na realidade o prolongamento da rua Dr. Barata, outrora conhecida como o “Caminho da Fortaleza”.

Em 3 de março de 1744, já era citada no registro de uma concessão de terra, doada pelo Senado da Câmara de Natal ao capitão Manuel Raposo da Câmara: “na paragem das testadas da casa que serve de armazém ao tenente-coronel Manuel de Souza Vieira, correndo para o norte ou nordeste até entestar com o caminho que vai para a fortaleza”.

Como se pode observar, o referido caminho já era habitado antes daquela data.

Em 1764, o português Manuel Pinto de Castro e sua esposa, Francisca Antônia Teixeira, pais de Frei Miguelinho, fixaram residência “em um sítio localizado além da Ribeira”. Tal sítio estava situado no caminho para a fortaleza. Naquela época o bairro da Ribeira se estendia até o atual Beco da Quarentena.

O último registro documental de concessão de terras naquele logradouro público, data de 27 de agosto de 1791, sendo beneficiária Luciana Bezerra.

O mais conhecido hotel da cidade, no último quartel do século XIX, era o Hotel da Bimoa, de propriedade de Francisca Generosa Gosset de Bimont. Ficava o mesmo localizado na esquina da Esplanada Silva Jardim com a rua Frei Miguelinho, no lado do nascente. Por tal razão, o trecho que hoje compreende a rua Frei Miguelinho, era assim denominado: “do Hotel até a casa do Padre Constâncio”. Este morava em um casarão colonial, na esquina das atuais ruas Tavares de Lira e Frei Miguelinho, local onde funcionou a oficina do jornal “A República”.

O decreto municipal, de 13 de fevereiro de 1888, denominou aquele logradouro público de Rua 13 de Maio.

O primeiro fonógrafo de Natal foi instalado naquela rua, em 2 de julho de 1895, dando até nome a um jornalzinho cuja circulação ocorreu em Natal, no ano seguinte.

Em 1897, a Intendência Municipal realizou um recenseamento em Natal. O trecho da então rua 13 de Maio, entre a praça 28 de Novembro (desaparecida com a abertura da avenida Tavares de Lira) e o Beco da Quarentena, foi recenseado pelos estudantes
Sérgio Barreto e José Gomes de Maia Monteiro. Ali foram cadastrados 85 casas e 252 habitantes.

Em 29 de junho de 1905, a luz de acetileno começava a iluminar as noites natalenses. O trecho escolhido para primeiramente receber o benefício, estendia-se da praça Augusto Severo até o Quartel de Batalhão de Segurança, que ficava na esquina da Silva Jardim com a 13 de Maio. O farmacêutico Francisco Gomes Vale Miranda, gerente da Empresa de Iluminação a Gás Acetileno, trouxe o benefício à Cidade.

A resolução nº 104, de 11 de junho de 1906, da Intendência Municipal de Natal, batizou a antiga rua 13 de Maio de rua Frei Miguelinho, em virtude de ter sido a mesma, “a rua em que nasceu esse inolvidável patriota”. Uma grande festa, animada por músicas, desfiles e cantos, comemorou aquela mudança toponímica.

No dia seguinte à assinatura da resolução municipal nº 104, foi colocada uma placa comemorativa do evento, no prédio do Quartel do Batalhão de Segurança, construído em 1894, na esquina da rua Frei Miguelinho e Esplanada Silva Jardim. A legenda da
placa informa ter nascido ali Frei Miguelinho.

O pesquisador Olavo de Medeiros Filho apurou, que a casa dos pais de Frei Miguelinho foi demolida para dar lugar à Esplanada Silva Jardim, em ano posterior a 1862, quando ocorreu a expansão da Ribeira. A informação que norteou a pesquisa de Olavo, foi obtida no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, através de um relato deixado por Antiocho Aprígio de Miranda, então Tesoureiro do Correio Geral de Natal. Segundo o referido relato “…adiante para o lado nascente do quartel de segurança hoje, ficava a antiga casa de construção forte, altura regular, bom tamanho que havia pertencido a Manuel Pinto de Castro”, pai de Frei Miguelinho.

Apesar do local, onde foi colocada a placa comemorativa, não se tratar do exato ponto onde existira a residência dos pais de Frei Miguelinho, isto não invalida a homenagem prestada àquele que foi um dos heróis da Revolução de 1817. A solenidade realizou-se no dia em que ocorreu o 89º aniversário do falecimento do homenageado.

Frei Miguelinho

Miguel Joaquim de Almeida Castro, o Frei Miguelinho, nasceu em 17 de novembro de 1768, em um sítio de coqueiros localizado em um terreno atualmente ocupado pelo leito da Esplanada Silva Jardim, esquina com a atual rua Frei Miguelinho, na Ribeira. Batizou-se na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, aos 13 de dezembro daquele mesmo ano.

Tinha ele 16 anos de idade, quando ingressou na Ordem dos Carmelitas, no Recife, recebendo o nome de Frei Miguelinho de São Bonifácio, simplificado para Frei Miguelinho.

Posteriormente ele viajou à Europa, tendo estudado em Portugal, onde conheceu dom José da Cunha Azeredo Coutinho, Bispo de Olinda, que o nomeou professor de Retórica no Seminário de Olinda, em 1800, após o seu retorno a Pernambuco.

Ainda em Portugal, Frei Miguelinho obteve da Santa Sé o breve de sua secularização, passando então a ser conhecido como Padre Miguelinho.

Durante a Revolução Republicana em 1817, foi ele eleito Secretário do novo Governo. Residia em Olinda, em um sobrado nas proximidades da Igreja da Misericórdia.

Miguelinho recusou-se a fugir por ocasião da contrarrevolução, sendo preso e conduzido a Salvador, na Bahia, onde foi julgado em 10 de junho de 1817, por um tribunal presidido por dom Marcos de Noronha, o Conde dos Arcos. Foi condenado e fuzilado na manhã de 12 de junho do mesmo ano, no Campo da Pólvora. Morreu descalço, vestido com uma roupa branca, algemado, a cabeça descoberta e o pescoço amarrado por uma corda.

Tempo de saudade

A escritora Lair Tinoco, em seu livro “Tempo de Saudade”, relembra a rua Frei Miguelinho, como um velho logradouro de casas residenciais e de comércio, onde em meados do século XX ainda existiam alguns sítios e o bonde passava em toda a sua extensão.

No final da rua havia uma feirinha, conhecida como a Feira da Tatajubeira, cuja denominação era justificada pela existência de uma frondosa tatajubeira, em cuja sombra eram instalados vendedores, que ali comercializavam produtos alimentícios, como
grudes, tapiocas, peixes fritos, camarões torrados, frutas, legumes, verduras e temperos. Constituía, assim, “uma feira de emergência bem concorrida”.

Vários foram os estabelecimentos comerciais, de todos os ramos, que se instalaram naquele logradouro, no decorrer do século XX.

Apesar do grande movimento e relevante importância que aquela rua representou para Natal, encontra-se ela esquecida e semiabandonada, aguardando a sua revitalização, o despertar de sua vocação, destino que compartilha com todo o bairro da Ribeira. Desponta como um futuro polo turístico de Natal, de grande importância.


ILUSTRAÇÃO: José Clewton do Nascimento

Jeanne Nesi

Jeanne Nesi

Superintendente do IPHAN-RN, Sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do RN, e Sócia correspondente do Instituto Histórico Geográfico e Arqueológico de PE. Fundou a Folha da Memória, com periodicidade mensal. Publicou cinco livros, sendo dois como co-autora. Publicou folhetos, folders e cordéis e mais de 300 artigos sobre o assunto em uma coluna semanal no jornal Poti, na Folha da Memória e em revistas do IHGRN.
Atualmente aposentada, mas sempre em defesa do patrimônio histórico.

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