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De sebo, livros e reminiscências do poeta Bosco Lopes

Luciano Capistrano10 de abril de 2019Opinião, Artigos e Crônicas Image

No início da década de 1980, na rua da Conceição, 617, Cidade Alta, papai, Benjamin Capistrano Filho, inaugurou o sebo Cata Livros. Papai, grande leitor, se fazia – por forças das circunstâncias, pois lhe faltava aptidão – comerciante de livros usados.

Naquele período de Cata Livros, minhas tardes passaram a ser na rua da Conceição e na Praça Padre João Maria. Na Praça, ficava com alguns livros expostos à venda, em uma estante e um muro de um canteiro que existia e servia como uma espécie de balcão.

Eu, meu cunhado Ronaldo, hoje sebista em Campina Grande, ao lado de tia Rosa, ficávamos a vender livros, revistas, vinis, e, claro, aprender com os “clientes”. O sebo, amigo velho, é uma verdadeira escola literária e da vida.

Sebo

Empoeirados livros na estante
Gritam saberes
Numa enxurrada de letras
Vivas
Escritas
Solitários sopros de vidas.
Ecos propagando ondas ao longe
Lugares distantes
Desconhecidos
Perdidos no tempo
Olhares de poetas, cronistas, romancistas
Dizem de humanidade
Pulsar de vidas
Cai a sombra das inquietações
Mundos de tempos presentes
Passados sem fim
Em um entrelace
De ciências caóticas
Exóticas, enfim
Deliciosos encontros
Desencontros
De saberes
Organizados
Desorganizados
Em pleno universo
De empoeirados e
Saborosos saberes:
Sebo.

(Luciano Capistrano)

A literatura me foi apresentada por papai, sempre, desde a época da Vila Mauricio, na avenida 12, onde vivi minha infância e início da adolescência. Nossa casa tinha um lugar para os livros.

Quando me vi no sebo, mesmo que do outro lado do balcão, menino bobo, ouvidos abertos a ouvir diálogos impertinentes/pertinentes, sobre o mundo das letras, bons tempos, apesar de ver fluir entre as mãos, tudo em nome da sobrevivência familiar, dos grandes nomes da literatura brasileira e universal.

Claro, antes das vendas, folheava, lia, me deliciava com Machado de Assis, Carlos Drummond, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Fernandes, Zila Mamede, Fiódor Dostoiévski, Marguerite Yourcenar, enfim, a casa conjugada da Vila Mauricio e o antigo casarão da rua da Conceição, testemunharam minhas aventuras entre linhas e paragrafo.

Um dos frequentadores do sebo era Bosco Lopes, figura magrinha, jeito de eterno boêmio. Faço uma referencia a Bosco, porque recentemente a remexer entre meus livros, encontrei uma coletânea de poetas potiguares e lá estava entre eles o poeta do ‘Corpo de Pedra’. Um Dia, A Poesia. Este é o título da coletânea organizada por Ayres Marques, para celebrar o dia 14 de março de 1996.

Abro, aqui, um parêntese, o 14 de março, trata-se de uma celebração à poesia, é o Dia Nacional da Poesia, criado por poetas em Recife no ano de 1977, para além das polêmicas com relação ao qual é o dia oficial da poesia nacional – a presidente Dilma Rousseff, instituiu a Lei 13.131/2015 que determina o dia do nascimento de Carlos Drummond de Andrade (31 de outubro) como o Dia Nacional da Poesia no Brasil -, o fato é que temos duas datas a celebrar.

Bem, volto ao poeta Bosco Lopes, para lembrar a importância de dizermos às novas gerações dos nossos poetas, poetisas, escritores, enfim, que fizeram das letras suas trincheiras de observação da vida.

Bosco Lopes, nascido no dia 22 de novembro de 1949 – foi funcionário da Fundação José Augusto -, participou de diversos movimentos literários da provinciana Natal. Em 1973 lançou o “Projeto Zero” e em 1978 publicou “Corpo de Pedra”. Viveu a poesia. Frequentador dos becos e bares da cidade, faleceu em 30 de junho de 1998.

O poeta do RIOGRANDE precisa sair das bibliotecas empoeiras e cair nas mãos dos natalenses/potiguares, do centro à periferia.

Finalizo, amigo velho, com um dos meus pecados poéticos em homenagem ao poeta Bosco Lopes:

Poesia

(Poesia, para Bosco Lopes, que conheci quando papai fundou o sebo Cata-livros e me deliciei no seu Corpo de Pedra)

Ando entre os livros
Folheio
Me encanto
Encontro
Bosco Lopes
E sua poesia
Encantos
Cortantes
Distante
A gritar no tempo
Corpo de Pedra
Como a dizer:
“Não me esqueças
na praia
no bar
no mar…”
Não esqueças
A poesia guardada
Nas esquinas
Dos becos e travessas
Da vida…
Ou… no sabor da meladinha do velho Nazi!

(Luciano Capistrano)

Sobre o autor

Luciano Capistrano

Amante da história urbana de Natal. Uma das alegrias é as caminhadas “dialogadas” entre ruas e becos da cidade de Câmara Cascudo. Atualmente, além da História vivo entre meus pecados poéticos e a fotografia.

COMMENTS

Flávio Jr.

Sempre afetivo, belo, efetivo e eficaz é o escrever do mestre Luciano Capistrano. Um grande poeta com o qual tive a honra de trabalhar e tenho a ousada honra de chamar de amigo.

Jania Souza

Parabéns! Gostei imensamente das memórias, da homenagem a Bosco Lopes e da sua poética.

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