Vai uma dose de branquinha? O uso do barril de cachaça nas cervejas

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Saudações, nobres etílicos!

Quem nunca degustou uma “lapada de cana” que atire a primeira pedra!

Aliás, a cachaça (ainda que elitizada por alguns) é uma bebida popular, contudo, a junção entre os dois mundos das bebidas populares (cerveja e cachaça) é algo inusitado, ou quase inexistente, por assim dizer.

O texto de hoje é justamente para tentar aproximar os dois mundos, e mostrar como eles podem coexistir (ao menos na transferência sensorial do barril) entre um e outro.

Vamos falar de cervejas envelhecidas em barris, que anteriormente continham cachaça. Por mais que existam outros tipos de envelhecimentos muito mais comuns (e até mais chamativos), como em barris que continham Bourbon ou Whisky, não se pode deixar de lado o destilado nacional.

Por causa desse motivo, vamos adentrar um pouco mais nessa questão do uso do “barril de cachaça” nas cervejas, e poder apreciar um pouco dessa “brasilidade”.

Aliás, para começar bem o texto, vai uma dose da branquinha, aí?

 A aguardente, a cachaça e o barril

A princípio, podemos dizer que toda cachaça é uma aguardente, mas que nem toda aguardente é cachaça. Aguardente seria o gênero comum a vários destilados de origem vegetal, e portanto, engloba a cachaça, que é feita de cana-de-açúcar. Exemplificativamente, Tequila, Rum, Cauim são todos aguardentes…

Contudo, não basta ser feita de cana-de-açúcar para ser cachaça, ela precisa ser feita em território brasileiro e ter entre 38 e 48% de teor alcoólico. Isso porque existem outros destilados feitos do mesmo vegetal (cana) feitos fora do Brasil, como, por exemplo, o Rum.

Outro nome comumente atrelado ao destilado de cana é a “pinga”. Contudo, ele é um nome coloquial, geralmente dado a aguardentes de baixa qualidade ou industriais de larga escala.

O importante a ser ressaltado é que a cachaça costuma ser um destilado de maior qualidade, e, por vezes, é envelhecida em barris para adquirir complexidade. Quando isso acontece, os barris que a contiveram podem ser um ótimo insumo na produção de cervejas.

Aumentando a complexidade: O uso de madeiras de origem nacional em barris

Um dos fatores que contribuem para o aumento da complexidade de cervejas envelhecidas em barris que anteriormente continham cachaça é um fato bastante singular, próprio da produção das cachaças.

É comum que se utilize, no envelhecimento do destilado, algumas madeiras nativas brasileiras (ou de grande prevalência no território nacional, como a jaqueira, que apesar de não ser originária do Brasil, aqui se desenvolveu plenamente), o que confere uma singularidade ainda maior ao destilado. E, consequentemente, de modo posterior, também a cerveja envelhecida nos mesmos barris.

Madeiras como amburana (ou umburana), putumuju (também conhecida como ariribá), jaqueira, jequitibá-branco, bálsamo são corriqueiramente utilizadas no envelhecimento de cachaças da mais alta estirpe. Decerto, quando utilizadas também no envelhecimento de cervejas são capazes de conferir notas sensoriais únicas, conferindo ainda mais complexidade ao conjunto.

Notas empireumáticas advindas do envelhecimento em barris que continham cachaça

Por mais que as cervejas que são envelhecidas em barris que já contiveram cachaça sejam bastante reconhecidas por sua alta complexidade e por seu perfil sensorial distinto, nem sempre elas agradam todos os paladares.

Existem uma razão bastante peculiar para tanto, e ela reside no fato de o destilado (cachaça) conferir um perfil sensorial bem distinto, com notas empireumáticas bem ressaltadas.

Um dos perfis sensoriais mais difíceis de serem definidos talvez seja o empireumático. Isso porque é um perfil sensorial que advém da destruição de matéria orgânica no processo de destilação de bebidas. Ele é comumente relacionado a odores e sabores atrelados ao fogo e ao calor. Assim, remete a alcatrão, piche, notas defumadas e ranço vegetal. Também é comum associar o perfil empireumático à adstringência e à untuosidade.

O perfil descrito como empireumático também é presente em outros destilados, inclusive em outras aguardentes, contudo, parece que ele acaba sendo mais transferido da cachaça para a cerveja quando há o envelhecimento em barris dessa natureza.

Assim, não é raro observar que alguns degustadores no mundo da cerveja artesanal não são tão entusiastas assim de cervejas que foram envelhecidas em barris que já contiveram cachaça justamente por causa do alto teor de notas empireumáticas que o conjunto cervejeiro costuma assumir após a produção final.

Saideira

Inobstante ao que se fale da cultura nacional, é certo que a cachaça é um patrimônio imaterial que remete à brasilidade!

Desde a época colonial, o caráter e a cultura nacional foram forjados com o destilado de cana símbolo do Brasil. A dose da branquinha que conquistava a todos que a provavam.

Claro que a cachaça que foi envelhecida em barris que posteriormente são utilizados na produção de cervejas não tem a cor branquinha como dito no título do texto. O envelhecimento confere uma cor amarronzada (ou acobreada) ao destilado após o envelhecimento. Todavia, a simples evocação mental que o termo provoca já é o suficiente para que seja empregado!

E você, vai uma branquinha? Ou quem sabe uma cerveja envelhecida num barril que já conteve cachaça, que tal?

Recomendação Musical

No clima de brasilidade etílica, a recomendação musical de hoje não poderia passar ao largo do contexto evocado!

Então, vamos de Sérgio Mendes (em parceria com o Black Eyed Peas) cantando uma música que mostrou todo o suingue e a malemolência dos ritmos brasileiros no exterior, na canção: Mas que Nada!

Saúde!

 

 

 

Lauro Ericksen

Lauro Ericksen

Um cervejeiro fiel, opositor ferrenho de Mammon (מָמוֹן) - o "deus mercado" -, e que só gosta de beber cerveja boa, a preços justos, sempre fazendo análise sensorial do que degusta.
Ministro honorário do STC: Supremo Tribunal da Cerveja.
Doutor (com doutorado) pela UFRN, mas, que, para pagar as contas das cervejas, a divisão social do trabalho obriga a ser: Oficial de Justiça Avaliador Federal e Professor Universitário. Flamenguista por opção do coração (ou seja, campeão sempre!).

Sigam-me no Untappd (https://untappd.com/user/Ericksen) para mais avaliações cervejeiras sinceras, sem jabá (todavia, se for dado, eu só não bebo veneno).

A verdade doa a quem doer... E aí, doeu?

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