Entre o blues e a rebeldia: racismo e antirracismo no rock

racismo e antirracismo no rock

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O rock nasceu da fusão entre ritmos afro-americanos — blues e rhythm & blues— e da apropriação comercial por jovens brancos na década de 1950. Essa origem mestiça carrega uma contradição essencial: enquanto celebrava a cultura negra, o rock frequentemente marginalizou seus criadores originais. Ao longo de mais de seis décadas, artistas do gênero oscilaram entre posições racistas, neutras ou antirracistas, refletindo as tensões sociais e políticas de cada época.

O início do rock está profundamente ligado a artistas negros pioneiros como Chuck Berry, Little Richard, Robert Johnson, Leadbelly e Sister Rosetta Tharpe, cujas inovações rítmicas e performáticas foram amplamente apropriadas por músicos brancos.

Elvis Presley, ícone do rock comercial, popularizou um som inspirado na música negra, mas seu sucesso se deu dentro de uma estrutura que continuava a excluir os artistas afro-americanos do mesmo reconhecimento e lucro.

Bandas britânicas como The Beatles e The Rolling Stones representaram caminhos distintos nessa relação. Os Beatles, que cresceram ouvindo R&B americano, chegaram a recusar-se a tocar em locais segregados durante suas turnês nos EUA. Já os Stones prestaram tributo direto aos músicos negros do blues, como Muddy Waters e Howlin’ Wolf, ajudando a projetá-los internacionalmente.

A banda The Who, também reconheceu a importância da música negra no desenvolvimento do rock, incorporando influências do blues e do R&B em suas composições.

Ativismo e Contradições

Nos anos 1970, o rock se tornou um espaço de maior consciência política, mas também revelou suas contradições raciais. Artistas como Mick Jagger, John Lennon e David Bowie manifestaram apoio a causas antirracistas e movimentos por igualdade, enquanto outros expuseram o lado conservador da cena.

Em 1976, Eric Clapton provocou indignação ao fazer declarações racistas públicas, que serviram de estopim para o surgimento do movimento Rock Against Racism, um marco no ativismo musical britânico.

O caso do Southern Rock, representado por bandas como Lynyrd Skynyrd, é mais ambíguo: embora não haja registros de discursos abertamente racistas, o uso de símbolos confederados e referências à “cultura do Sul” mantiveram o gênero associado a um imaginário branco e conservador.

Ted Nugent, por sua vez, tornou-se um símbolo do conservadorismo radical no rock, com declarações abertamente racistas e alinhamento político à extrema direita, mostrando como discursos de intolerância podem coexistir com carreiras de sucesso no gênero.

Apesar das tensões, o rock também foi palco de integração e colaboração interracial. A banda Traffic, liderada por Steve Winwood, misturou rock, jazz e soul, colaborando com músicos negros e promovendo a diversidade em suas gravações.

Nos Estados Unidos, os Doobie Brothers exploraram sonoridades que uniam o rock ao funk e ao soul, atraindo públicos diversos e valorizando as raízes afro-americanas do gênero.

Afastamento das Raízes Negras 

O surgimento do heavy metal, no fim dos anos 1960, com bandas como Black Sabbath, Judas Priest e Iron Maiden, marcou uma ruptura estética com as origens negras do rock. O blues foi substituído por riffs pesados, estruturas rítmicas complexas e uma estética visual baseada em mitologias europeias e temas sombrios. O metal consolidou uma imagem predominantemente branca e ocidental, raramente reconhecendo as influências afro-americanas que moldaram o gênero. Em geral, o movimento manteve-se neutro em relação às questões raciais, reforçando uma segregação cultural implícita. 

Uma exceção é o AC/DC, que, embora associado ao rock pesado, manteve uma ligação com o blues afro-americano. A estrutura de suas músicas, centrada em progressões de três acordes e riffs inspirados em Chuck Berry, revela uma fidelidade às raízes negras do rock. Angus Young incorporou a linguagem e o gesto do bluesman em sua guitarra e performance, enquanto a banda preservou o groove e o swing herdados do rhythm & blues, resistindo à estetização fria e técnica do metal. A banda é uma ponte entre o peso do hard rock e a pulsação negra que deu origem ao rock’n’roll, reafirmando a vitalidade e a sensualidade do blues dentro de um contexto dominado pela estética branca e industrial do heavy metal.

O caso do Led Zeppelin é complexo. A banda partiu de releituras diretas de standards do blues — de Willie Dixon, Muddy Waters e Robert Johnson —, muitas vezes sem o devido crédito, o que lhe rendeu acusações de apropriação cultural. No entanto, sua sonoridade e estrutura musical permaneceram ancoradas nas formas e emoções do blues afro-americano, especialmente nos primeiros álbuns.

Antirracismo e Diversidade 

Com o surgimento do rock alternativo e da fusão entre rap e rock nos anos 1990, novas vozes trouxeram uma postura explicitamente antirracista. A banda Living Colour, formada por músicos negros, denunciou a desigualdade racial e social com letras contundentes. Já o Rage Against the Machine uniu o peso do rock à crítica política radical, transformando a música em instrumento de protesto.

Ícones clássicos como U2, Bruce Springsteen e Peter Gabriel também mantiveram o engajamento em causas humanitárias e raciais. Ainda assim, subgêneros do metal e do punk seguiram abrigando grupos extremistas brancos, lembrando que o racismo nunca desapareceu completamente da cena roqueira.

O rock é um espelho das contradições raciais da sociedade ocidental. Entre a apropriação cultural, o ativismo político e o entretenimento comercial, o gênero abrigou artistas que perpetuaram estereótipos, outros que os combateram, e muitos que permaneceram indiferentes.

Enquanto o heavy metal representou um afastamento das raízes afro-americanas, bandas de fusão racial e movimentos antirracistas mostraram que o rock também pode ser espaço de integração e consciência social.

Reconhecer essas histórias — de exclusão, resistência e colaboração — é fundamental para compreender o legado cultural do rock e seu papel na luta contra o racismo.

Moisés de Lima

Moisés de Lima

Músico e jornalista. Praticante das coisas búdicas. Amante do blues e da democracia, mas atualmente confinado em nome da vida.

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